14 fevereiro 2007

Parece Mas Não É !

Parece Mas Não É!

José do Vale Pinheiro Feitosa*

O que parece ser e o é, diz do preciso que se espera. Não tem surpresa. Como o famoso ditado do Barão de Itararé: de onde menos se espera daí é que nada vem mesmo. Mas nesses tempos de sinais trocados, o que parece pode ser exatamente o seu contrário. Aliás, os religiosos, os medievos cristãos achavam que em sinais aparentes de Deus poderia se esconder o demônio. Como categoria enganadora. Era um dos mitos bíblicos: a serpente que enganou Adão e Eva. Quem já leu, acompanhou ou ouviu sobre o poeta Vinícius de Moraes, sabe quantos casamentos teve. É no verso, "e que seja eterno enquanto dure", que se demonstra o contrário do que se pensa. O poeta amava profundamente a mulher amada. Como nem toda a vida dele era eterna, a paixão o era, mesmo que durasse pouco. Quem já soube detalhes, entende como ficava enlouquecido com um amor à primeira vista. Revirava o mundo de cabeça para baixo até conquistar aquela fração inteira de eternidade. Foi um fidelíssimo amante, até que a traição o lançasse em outro amor. Parecia que era, mas não era. Pelo menos para este mundinho pequeno burguês de traições envergonhadas, de amores de cristaleira, de mofados sentimentos nas gavetas de chaveados amores. O poetinha amava de fato. Como foi um caso da avó de um colega de trabalho do meu amor (quase dizia mulher, mas usando o tema....). Então como dizia da avó desse homem. Era uma grande senhora. Criou família temente a Deus. Na religião Católica Apostólica Romana. Religiosa e apostólica. Tinha uma Nossa Senhora sobre a cômoda do seu quarto. Melhor dizendo: tinha uma imagem colorida, da grande mãe do Senhor. Quando o dia despertava para as obrigações da mulher brasileira, sempre defronte de sua imagem amada, rezava a oração do mito feminino. Entrava profundamente na alma daquela mãe do mártir para sentir a dor e a piedade que é educar as crias telecinéticas dos tempos modernos. Muito cedo, antes do cheiro do café coado espalhar-se pela casa, estava ela em diálogo silabado com mãe de todas as mães. Quando balançava os pés dos filhos até que trouxessem a remela ao jato da pia e bochechassem o fel das papilas ressecadas pelo ressonar, a presença daquela, que acompanhara o filho até ao calvário, estava com ela. No trovão azedo do marido queixoso, o salário que não sobe, as contas que aumentam, o chefe que não promove. Nossa senhora era sua confidente, seu lenitivo da árdua forma é ser mãe e esposa. Na noite, a mulher, antes de deitar-se ao lado do marido roncador, mais uma vez tinha o seu diálogo com a santa de todas as santas. Aquela imagem ariana, a pele branca de neve, os cabelos cacheados encobertos por longo manto, roupas azuis, rosto de anjo, olhos de compreensão, palmas das mãos postas. Era ao adormecer que a mãe terrena encontrava a mãe dos céus. Cinco parágrafos sobre a verdadeira relação entre aquela senhora do dia-a-dia e senhora da eternidade. Aí, os tempos mudam. Dizem que o corpo envelhece. As articulações tendem a congelar, os cabelos rareiam e embranquecem, os contemporâneos saem do tempo, ela foi ficando só. Até que um dia... - O que é que esta filha da puta estar olhando para mim?
Os netos se entreolharam. As filhas choraram. Os filhos saíram do quarto.
- Tirem esta filha da puta daí!
Foi a velha empregada doméstica que a atendeu. Pegou a estátua de sua ultrapassada adoração e escondeu num armário qualquer. A vovó em sua evolução do Mal de Alzheimer parecia o que não fora. Ou fora o que não era?
* O autor é cratense, médico e escritor. Reside no Rio de Janeiro. Autor do Romance: "Paracuru"

POTOCAS. COM


CORRIGINDO VELHOS DITADOS

"É dando... que se engravida".

"Quem ri por último... é retardado".

"Alegria de pobre... é impossível".

"Quem com ferro fere... não sabe como dói".

"Em casa de ferreiro... só tem ferro".

"Quem tem boca... Fala. Quem tem grana é que vai a Roma!"

"Gato escaldado... morre, porra!"

"Quem espera... fica de saco cheio."

"Quando um não quer... o outro insiste."

"Os últimos... serão desclassificados."

"Há males... que vêm para fuder com tudo mesmo!"

"Se Maomé não vai à montanha... é porque ele se mandou pra praia."

"A esperança... E a sogra são as últimas que morrem."

"Quem dá aos pobres... cria o filho sozinha."

"Depois da tempestade... vem a gripe."

"Devagar.... nunca se chega."

"Antes tarde... do que mais tarde."

"Em terra de cego... quem tem um olho é caolho."

"Quem cedo madruga... fica com sono o dia inteiro."

"Pau que nasce torto... urina no chão."

A Chama dos Velhos Carnavais - JFlávio

A CHAMA DOS VELHOS CARNAVAIS

Há alguns anos, no assassino desmoronamento do edifício Palace II , no Rio, entre os oito mortos, havia uma mocinha que foi surpreendida, no interior do seu apartamento, quando tentava salvar a fantasia de carnaval que usaria no desfile do outro dia. Quão importante aquela festa para a menina que, ao invés de tentar salvar bens mais duráveis, buscou desesperadamente salvar a sua fantasia! O Carnaval, que nos chegou com os portugueses ,aportou no Brasil como expressão máxima do anarquismo: festa onde cada um se fantasiava do que bem lhe aprouvesse, onde os escravos encharcavam os senhores e os súditos ridicularizavam os reis. Tudo era permitido naqueles quatro dias de trégua dos homens com o seu poder, seu status quo e suas regras sociais. Certo que, com o tempo, o capital começou a pôr leis e fronteiras na essência anárquica do Carnaval, vieram as arquibancadas, os cordões de isolamento, os trios elétricos, os abadás e a grande expressão da cultura brasileira foi se tornando burocrática, com uma alegria medida, uma transgressão controlada, uma anarquia regulada. Os reis já não se misturam com os súditos, os senhores já não se mesclam com seus escravos... o aparthaid brasileiro já não tem sequer um dia de trégua!
Soube de um tempo em que o Carnaval cratense tinha o doce sabor original dos velhos reinados mominos. Um tempo em que o Corso percorria toda a Rua do Commercio, em meio à guerra de serpentinas e confetes, entre pierrôs e colombinas que se espalhavam por toda avenida ou se encastelavam nas janelas dos velhos casarões e que , à noite, terminavam no baile carnavalesco no Clube Cariri, ali pertinho na Rua Formosa . O Lança-Perfume , na época, era um mero aromatizador e fazia as moiçolas lacrimejarem quando respingava nos olhos escondidos por trás das máscaras e corpos contidos pelos espartilhos. Vivi, depois, um tempo em que blocos organizados e Escolas de Samba desfilavam por toda a cidade e onde o Carnaval tinha seu apogeu nos Assaltos do Crato Tênis Clube, bailes comandados por figuras emblemáticas e inesquecíveis como Valdir Silva e Zé Maia e que terminavam, na madrugada da ingrata quarta-feira, em plena praça Siqueira Campos. Tempo que tão genialmente foi depois eternizado em dois frevos do nosso Abidoral Jamacaru. Época em que boêmios da nossa mais alta society roubaram, no romper do dia, um pato da Fonte Luminosa da Praça da Sé e foram saborear o petisco, após ser apetitosamente preparado pelas sábias mãos de Canena . O furto terminou em tanto alvoroço que rendeu uma Marcha:

“Levantaram um “falso”chato
Ao novo Clube das Rosas,
Só porque sumiu-se um Pato,
Lá da fonte luminosa”...
Quem paga o Pato?”

Depois o Carnaval cratense foi pouco a pouco esmaecendo, um pouco a cada ano, um tanto a cada gestão municipal. As poucas pessoas mais aquinhoadas arrefecem sua chama foliã nas praias do litoral e os foliões incorregíveis buscam Recife-Olinda que ainda conservam, como em um Museu, a chama inquebrantável dos velhos Carnavais. Ao povão resta seguir com seu eterno destino de escravo, sem poder sequer um dia mimetizar-se de marajá, de príncipe, de Rei. Resta-lhe tão-somente a velha e surrada fantasia de palhaço. Quem quiser um dia trazer de volta a nossa essência como cidade, terá que , necessariamente, resgatar nossos antigos e inesquecíveis carnavais. Precisamos trazer à tona a mesma chama que fez aquela mocinha , com todo perigo desse mundo, entrar no edifício que desmoronava, na vã tentativa de salvar sua fantasia para o Desfile do Carnaval...