09 dezembro 2007

Movimentos culturais cratenses

Show Água de Fonte, que marcou a volta de Abdoral Jamacaru ao Crato, depois de quase dez anos de "exílio" na Cidade Maravilhosa. Este show foi produzido pelo jornal-movimento Folha de Piqui, no Palácio do Comércio, em 1984. Aparecem na foto Abdoral, em pé, violão; Nivaldo Oliveira, violino; Pachelly Jamacaru, sentado, violão e Dedê, bateria; Tony, contrabaixo e Jayro Starkey, percussão. O sonoplasta, de costa, é Franciné "Borís" Ulisses

No Crato existe um movimento cíclico em torno da produção artística e do engajamento sócio-político-cultural. Nos anos 50 brilhava uma geração de escritores e pesquisadores dos costumes locais, folcloristas, como se dizia na época. Fundaram o Instituto Cultural do Cariri e editaram jornais, revistas e livros. Era a rapaziada guerreira, como se diz hoje. Irineu Pinheiro, J. de Figueiredo Filho, Antonio Gomes de Araújo, Raimundo de Oliveira Borges, Duarte Júnior, Otacílio Anselmo, F. S. Nascimento, Jefferson de Albuquerque, Florival Matos, Lindemberg de Aquino e Francisco Ferreira de Assis, foram alguns nomes desta geração idealista e realizadora.

Nos anos 60, no bojo da revolução de costumes e idéias, despontou uma geração jovem, envolvida com jornalismo, política estudantil, teatro, poesia e música. Editou o jornal A Vanguarda e publicou antologias de poesia e conto. Seus representantes hoje mais conhecidos são os irmãos Tiago e Flamínio Araripe, Bebeto Brito, José Flávio Veira, Assis de Souza Lima, Ronaldo Brito e Nezim Patrício.

Na década de 70, emergiu a rapaziada que despontou nos festivais da canção do Cariri e que depois formou o Grupo de Artes Por Exemplo. Pessoal ligado a música, poesia, teatro, artes plásticas, cinema, fotografia e artesanato. Este movimento teve uma abrangência regional, atingindo Juazeiro do Norte, Barbalha, Assaré, Nova Olinda, Jardim, Brejo Santo e outras cidades da região, inclusive capitais (Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília, Natal). Teve como característica central buscar unir a tradição e a modernidade, aproximando-se de artistas populares, a exemplo de Patativa do Assaré, Cego Oliveira, Ciça do Barro-Cru e outros mestres do saber popular (emboladores, poetas de cordel, violeiros, brincantes de banda cabaçal, reisado e maneiro-pau). Grande parte da geração continua ativa, produzindo excelentes e reconhecidos trabalhos. Rosemberg Cariry, Luiz Carlos Salatiel, os irmãos Abdoral e Pachelly Jamacaru, Emerson Monteiro, Jackson Bantim, Luiz Karimai, Stênio Diniz, Geraldo Urano, Cleivan Paiva e Jefferson Júnior estão todos aí, produzindo a mil. Na época, o Grupo de Artes Por Exemplo editou o jornal Nação Cariri e realizou o Salão de Outubro.

No início dos anos 80, a geração da década anterior andava meio dispersa. Muitos tinham migrado para outros cantos do país. Os que aqui ficaram, estavam isolados. Havia um vácuo que foi preenchido por uma nova geração. Por volta de 1982, foi formado o Grupo Mutart (Mutação na Arte) que depois virou o GIA (Grupo Independente de Arte), da qual eu fazia parte, ao lado de Rogério Proença, Wilson Bernardo, Amadeu de Freitas, Edelson Diniz, Paulo Fuiska, Orleina Moura e João Neto (hoje bastante conhecido como humorista, mas que na época era mímico). Fizemos mostras de poesia, teatro e editamos boletins. Éramos fortemente influenciados pela poesia marginal que fez parte do boom cultural dos anos 70, no sul do país, cujos ícones eram Chacal, Cacaso, Paulo Leminski e os grupos Navilouca e Asdrúbal Trouxe o Trombone.

Neste mesmo ano, conheci Leonel Araripe, irmão caçula de Tiago e Flamínio. Leonel escrevia longos e bem elaborados romances, além de criticar com veemência o Mutart, chamando-nos de saudosistas e provincianos. Acenava para algo diferente: fazer literatura regional a partir da estética da Poesia Pau-Brasil e do Manifesto Antropofágico, de Oswald e Mário de Andrade. A proposta caiu sobre mim como uma bomba e bandeei-me para o lado de Leonel, levando um amigo, também recém-conhecido, Wellington Marques, que assinava sua produção literária como Wellington Pasca.Nós três organizamos o manifesto da Poesia Piqui, que, em seguida virou um pretenso movimento. Aproximamo-nos do pessoal do extinto Grupo de Artes Por Exemplo, através de Jackson Bantim (Bola). Bola tinha uma lojinha próxima a Praça Siqueira Campos, no centro da cidade, chamada Bolart. Vendia livros de autores cearenses, jornais alternativos, discos independentes, pôsteres, camisetas, quadros, peixes ornamentais, plantas e derivados. Sabendo que Bola era fotógrafo e cinegrafista, o convidamos para a produção de um filme, a partir de um roteiro escrito por Leonel Araripe intitulado Um lance de dados. O filme nunca foi feito, mas conseguimos editar um jornal, o Folha de Piqui, quando os remanescentes do Por Exemplo deram as caras: Geraldo Urano, Decas, Dedê, Pachelly Jamacaru, Stênio Diniz. Incorporamos gente nova e gente que estava voltando: Salatiel, Marcos Leonel, Tiago Araripe, Normando Rodrigues, Dedê, Calazans Callou, Abdoral Jamacaru. Também reeditamos o Salão de Outubro e realizamos outros feitos, com destaque para a Confederação do Equador (Encontro dos Grupos Alternativos do Sul Cearense), realizado em Mauriti, em 1984; e a Oficina de Cultura e Arte & Produtos Derivados (OCA), que ficou sendo o carro-chefe de quase todas as atividades realizadas no Crato no campo das artes por toda a década de 80.

7 comentários:

  1. Rafa,
    que legal essa restrospectiva, transfigurada de uma homenagem a toda essa gente! Não preciso mais nem morrer, rs rs rs... saberei que de certa forma estou lembrado com tanta gente boa na história desta cidade maravilhosa! Isso sim, nos deixa feliz por saber que há alguém da nossa geração contando história com uma memória impecável!
    Legal hein, valeu mesmo!
    Abraço

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  2. Só que faltaram o baixista e o percussionista serem citados, seu Zé.

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  3. É isso, Pachelly, é importante que a história fique registrada, tanto para que seja resgatada como preservada. Ea história dos movimentos culturais que brotaram e e desenvolveram no Crato é uma trajetória rica, que envolveu várias gerações e que se renova cada vez mais forte e conseqüente.

    Opa, Jayro, desculpe o lapso, mas faço questão de corrigí-lo. O baixista do show Água de Fonte de Abdoral, que ilustra a matéria foi Tony, que aparece mesmo pela metade, no canto direito da foto, e o percussionista foi você, Jayro Starkey, grande figuraça. O técnico de som, que aparece de costa, foi Fraciné Ulisses (Borís).

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  4. Legal, Carlos. Sobre o Tony: hoje em dia ele reside em Manaus e continua como músico. Gostaria muito que, o pessoal que tivesse mais condição de escrever pudesse fazer um apanhado das histórias engraçadas das bandas da região, dos anos 60, 70. Existe muita coisa hilária a ser publicada do Ases do Ritmo, Hildemartins Som, Águias, etc., sem contar com as figuras folclóricas de alguns músicos que eram engraçados por natureza.
    Gostaria que o amigo sugerisse a mais alguém. Estou ao seu dispor para contar alguns "causos".
    Um abraço

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  5. Grande Rafael,

    Que bom lembrar uma época em que tinhamos tempo para criar. vou ver se mando umas coisas pra vc. Quanto a idéia de Jayro(contar causos), prepare espaço porque ele tem historias e estórias prá livros e livros.
    Dedê

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  6. Jayro,

    Acho que podemos fazer um significativo e valoroso resgate da história da música local, onde as bandas de baile (na época chamadas de conjuntos musicais) têm um um capítulo à parte. Lembro de outros "conjuntos", como Os Sesianos (com Batista, Tobinha, Luciano, Marcelo, Chico Curto, Heládio, Demontiê), Musisom (de Gracindo), Alpha & ômega, Trasarmonium, Banda Cariri, Martins Som etc.
    Estou à sua dipsosição para o registro do seu depoimento, Você é quem diz como deve ser...

    Com grande respeito,

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  7. Dedê,

    Fico aguardando o seu preciso material. Quando tiver pela terrinha, avise.

    Abração,

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