09 dezembro 2007

LUIZ GONZAGA - Mais do que um músico: Um ícone do povo Nordestino !



LUIZ GONZAGA - Mais do que um músico: Um ícone do povo Nordestino !

Por Dihelson Mendonça


Cita-se nas enciclopédias musicais que Luiz Gonzaga está entre os ícones mais importantes da Música Popular Brasileira, ao lado de nomes como Noel Rosa e Tom Jobim. Só que diferentemente dos seus contemporâneos, Luiz Gonzaga foi muito além dessa simples alusão. Luiz Gonzaga foi uma espécie de unificador, se preferirem, um Moisés da música moderna, pois que reuniu em si toda a tradição da música nordestina que o antecedeu, e a influência da música moderna.

E
xu, 13 de Dezembro de 1912, fazenda caiçara. Ali nascia um menino destinado à genialidade daqueles que nascem para mudar o rumo da história. Luiz Gonzaga do Nascimento, vulgo Luiz Gonzaga, cresceu nos pés-de-serra, ouvindo a música da sua gente, do seu povo sofrido de tantas amarguras, de tanta sêca e de tanto subdesenvolvimento. Mas foi nesse clima aparentemente hostil que o menino Luiz Gonzaga conseguiu imprimir seu nome às gerações que o sucederam, e gravar seu nome, assim como a sua voz e o som da sua sanfona definitivamente na história da música.

Luiz Gonzaga não pode ser classificado apenas como um músico notável, a exemplo de muitos, o que já seria grande feito, mas ao absorver a música dos pés-de-serra de que tanto se alimentou através do seu pai Januário, assim como também absorveu as inúmeras influências da modernidade da música do seu tempo ( inclusive da música de tradição eminentemente européia ), se tornou numa especie de codificador das linguagens musicais do seu tempo.
Em Luiz Gonzaga, é possível ouvir-se características de inúmeros outros gêneros de música, tais como a música Clássica, o Jazz e o Blues.

Quando Luiz Gonzaga compõe seu hino maior, "Asa Branca", nota-se que esta música, na verdade, pode ser perfeitamente harmonizada como se
fôra um Blues autêntico, seguindo os acordes todos com sétima menor a exemplo do blues, e para coroar isso, Luiz Gonzaga ainda emprega uma cadência
puramente do blues ao final do tema, começando pela sétima menor. E isso se repete em inúmeras outras composições.
"Assum preto", por exemplo, bem que poderia ser um blues em tom menor.
Isso tudo na verdade, é o reflexo de todo um conjunto de acontecimentos paralelos do mundo em que viveu.
A exemplo desse fato, também nos Estados Unidos, em 1923, o músico maior daquele país, George Gershwin, entregava ao público a composição que é considerada a música-tema dos Estados Unidos: o clássico RHAPSODY IN BLUE. Por incrível que possa parecer, próximo do final dessa composição, há um trecho em que se escuta
perfeitamente o ritmo do baião, que aliados às construções da harmonia em acordes sétima menor, bem que poderia ter sido composta pelo nosso querido Luiz Gonzaga.

Então, o que se vê na realidade na música de Luiz Gonzaga, musicalmente falando, é uma confluência de estilos, de idéias musicais polimórficas.
Luiz Gonzaga está musicalmente mais para um Villa-Lobos, que absorveu a cultura européia e a despejou de volta ao mundo em torrentes de Brasilidade.
Em Luiz Gonzaga, assim como em Villa-Lobos, o ouvinte escuta todo o lamento de um povo; Todo o canto que exalta uma nação. Ele não fez como o binômio Tom Jobim/Vinícius de Moraes, que se limitou à temática da combinação da rima Dor/Amor , emoção/coração ou por um produto eminentemente carioca e circunscrito. Não! Luiz Gonzaga além da música que tanto propagou o sofrimento, as causas sociais, a escravidão de todo o povo nordestino, mas sem esquecer a ternura, foi com certeza, mais abrangente musical e sociologicamente falando. No momento em que ele compõe polkas, valsas e outros estilos característicos da cultura européia e lhe dá um toque de Brasilidade, ele consegue se projetar além da sua geração de compositores. É por isso que dessa forma, vê-se em Luiz Gonzaga um ícone não só do povo nordestino, mas do povo brasileiro! Luiz reuniu em um único homem, o presente, o passado e o futuro da música nordestina.

E é verdadeiramente uma grande pena, que as novas gerações não estão tendo acesso à música autêntica produzida pelo rei do baião, e tantos outros bons daquela geração, porque infelizmente, existe um verdadeiro Cartel formado pela mída radiofônica de um lado, os promotores de eventos de casas de shows de outro, e os proprietários das
terríveis bandas de forró, que a troco de lucros com um produto de fácil assimilação que renda lucros rápidos, estão a denegrir a verdadeira cultura do povo nordestino, embasbacando a população com uma música ao mesmo tempo nojenta, pornográfica, que incita o alcoolismo, vulgariza o papel da mulher na sociedade e exalta as piores qualidades humanas que tanto combatemos por milênios.

É de se lamentar profundamente que da forma como o cartel vem conduzindo o monopólio das bandas de forró no rádio, em que em praticamente todas as estações, locutores levam a população ao consumo da vulgaridade, os grandes, aqueles que realmente construíram a cultura do povo nordestido estão sendo deixados para trás.
Podemos dizer até num contrasenso que é bem melhor que Luiz Gonzaga haja falecido antes de ver aquilo que se tem feito da música que lhe foi um dia imputada como autêntica manifestação cultural: O Forró. Luiz Gonzaga, com certeza, está a se revirar no túmulo, ante tanta ignorância instituída no seio da sociedade!

Não me admiraria se dentro de mais 10 anos, a incrível música do rei do baião só puder ser ouvida em pequenos nichos de entusiastas, de saudosistas, que
dentro dos seus limites, a exemplo do que se faz hoje com a música de um Noel Rosa e de um Tom Jobim, propagarão para meia dúzia de pessoas que ainda se lembrarão do velho LUA. A história tem demonstrado que grandes personagens como Luiz Gonzaga, que um dia foram representantes da cultura popular, acabam por ser artigo erudito.
Talvez ainda assistiremos a um Concerto com as obras de Luiz Gonzaga sendo executadas nos Teatros Municipais do mundo, como se fôra Música Erudita.
E uma arte que um dia foi eminentemente popular, que simbolizou o homem nordestino, se não tomadas as devidas providências agora por essa geração enquanto o admiramos e o conhecemos, poderá vir a se tornar artigo de elite, de eruditos e de museu.

Brindemos pois à música de Luiz Gonzaga. Mas brindemos sobretudo ao homem revolucionário que foi, ao nobre representante, e já fazendo um paralelo, assim como o Padre Cícero está para a fé do seu povo, Luiz gonzaga está para a música deste mesmo povo. Um homem talentoso e humilde, que sintetizou ao mesmo tempo em si, o caráter, a luta e a Alma do povo nordestino.


Por: Dihelson Mendonça
Pianista e Compositor

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6 comentários:

  1. dihelson,

    vc n teria em seus arquivos a musica de autoria de fagner e fausto nilo "dezembros" so q so instrumental ao som de violao ou gaita??

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  2. Infelizmente, Carlos Henrique, não a possuo.

    Bom dia, Bom Domingo,

    Dihelson Mendonça

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  3. Lembremos que em Recife e em outras cidades pernambucanas existe um movimento constante de defesa do forró de raiz. Esta semana acontecerá a semana de seu Luiz. Haverá muitas homenagens em Recife, não esquecendo dos dias 13, 14 e 15 em Exu. O Ceará, que lembrado em várias canções do Rei, é que não tem memória e nem consideração ao seu trabalho

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  4. Dihelson, Gostária que Você Convitase os Internaltas e SAFONEIROS do Cariri para uma Homenagem ao Rei do Baião LUIZ GONZAGA ,Nesta Terça feira dia 11 as 3,30 da Tarde no Parque de Exposição do Crato.Abraço.

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  5. Dihelson: no calor das tarefas diárias passei batido neste texto teu. Agora, com atraso, o li. Você abordou muito bem o que foi o século XX no mundo todo: o amálgama do rural em marcha batida para as urbe. E aí você lembra uma coisa que é muito importante: a raiza que tem nas Américas toda a tradição da música moderna Européia no surgimento da expressão da música urbana nacional. Já vi análise sobre o Jazz como o encontro com Debussy e Ravel, entre outros compositores modernos de natureza erudita. De qualquer modo a melodia rápida européia esteve na origem do nosso estilo que nasceu com a indústria fonográfica: mazurca, valsas, xote, etc.

    Finalmente eu queria levar um tema para você sem querer provocar algum viés conservador entre nós. Mas quando levantas o problema deste forró cínico, com a mesma melodia, arranjo igual e letras mortas, acho, que na realidade, tomas fôlego no que acontece na música universal. Parece-me que há uma queda geral, embora jóias sempre surjam, pois tem épocas em que a cultura fica menos criativa e mais imitativa. Poderias abrir este debate?

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  6. Olá, Zé do Vale,

    Poderia sim abrir o debate.
    E com o jayro Starkey para explicar o que eu já escrevi trocentas vezes a fim de me ajudar sobre como funciona a indústria da Mídia.

    "A programação do rádio é um ciclo vicioso maldito de canalhas!"

    pão e circo, fábrica de imbecis...

    Abraços

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