30 dezembro 2007

FELIZ ANO NOVO! - Por: Jorge Emicles



FELIZ ANO NOVO!

A idéia de que a história se constitui de uma seqüência linear de fatos é uma noção relativamente recente para a humanidade. Os antigos preferiam acreditar no universo e na vida como uma sucessão de ciclos, com começo, fim e recomeço. Na filosofia alemã do século passado, por exemplo, Nietzche afirmava a lógica do eterno retorno, segundo a qual os acontecimentos se sucederiam em ciclos, os quais periodicamente se renovavam. A própria idéia da passagem dos anos, estações, meses e semanas é clara reminiscência dessa visão de mundo ainda não totalmente esquecida.

Assim, falar de um novo ano é antes de tudo fruto da necessidade humana de explicar o universo enquanto uma seqüência de ciclos, os quais em seu conjunto formam o todo da experiência humana. E cada ciclo precisa ser apresentado como um recomeço, uma nova oportunidade concedida aos homens de corrigir-se e enveredar no caminho do que seja certo e leve à prosperidade. Ano novo, vida nova... Ano novo, nova oportunidade de endireitar aquilo que não foi tão bom, mas também de sedimentar as coisas positivas no antigo ciclo. É essa a grande esperança de todos... é esse o verdadeiro significado das comemorações pelo novo ciclo.

Tal compreensão do mundo, absolutamente se encontra avessa aos dogmas científicos da modernidade. A vida possui um ciclo, que se inicia com o nascimento, se finda pela morte e é alimentado pelo crescimento e reprodução de todas as espécies. O nosso corpo também é alimentado pelos ciclos, como a renovação periódica de todas as células; a natureza tem seus infindáveis ciclos, e mesmo à noção de ano acaba confinada ao ciclo do planeta em redor do astro solar. E desta maneira, compreender os ciclos que envolvem cotidianamente nosso existir, talvez permita compreender mesmo a sua própria essência.

Se o grande ciclo da vida tem por marcos o nascimento e a morte, decerto ele é preenchido por uma sucessão de outros, que merecem ser assinalados e compreendidos. O amor talvez seja o mais marcante de todos, porque de longe é o que permeia marcas mais profundas no existir. E, sob o signo do amor, vivemos seus diversos ciclos sob diferentes aspectos. Primeiro amamos incondicionalmente nossos pais, depois as diversas pessoas com as quais nos relacionamos, que vão dos familiares aos companheiros que se nos deparam durante a vida, passando por uma gama, enorme ou limitada, de amizades. Todas estas são diferentes formas de uma mesma energia. Mas, sobretudo, encontramos o amor incondicional na figura dos filhos que nos acercam durante a vida. É na verdade, os sucessivos ciclos do amor, por suas inumeráveis facetas, o que nos alimenta a resistir existindo, mesmo diante de todas as vicissitudes da vida.

O ciclo remonta à idéia de círculo, enquanto a forma geométrica mais perfeita de todas, porque não possui começo nem fim. Na simbologia, significa Deus, o Incriado e Perfeito. A vida dos homens, sendo cíclica, naturalmente o atrai aos valores sublimes da própria Divindade, lembrando a todos nossa proximidade com o Criador. Antes de uma simples confluência astrológica, o renovar do ano se nos apresenta primeiro, enquanto um chamamento ao recomeço na eterna busca da perfeição e em segundo lugar à intuição de nossas origens mitológicas, a um tempo, já esquecido, em que haveria uma comunhão absoluta não somente aos valores do Criador, mas sobretudo à perfeição da sabedoria. E se é cíclico o existir, então, da forma como partimos daquela condição primitiva, a ela retornaremos no fechamento do ciclo de expiações e aprendizados da espécie humana.

E assim deveria ser o espírito de todos os povos na cíclica passagem de um ano para outro. Não se trata simplesmente de mais uma comemoração. Também não é um ponto a mais em uma história aparentemente linear, mas na verdade um importante marco na busca de valores superiores, todos tendentes à elevação da condição superior do homem. O novo ano deve então significar uma renovada oportunidade de crescimento interior, individual e coletivo. Deve ser a lembrança de que por detrás do aparente caos que nos cerca, há uma ordem superior, e que a compreensão plena da ordem no meio deste caos é a meta de toda a espécie. É um momento, portanto, de profunda reflexão e especificação de propósitos no intuito do amadurecimento de todos e de cada um.

E com esse espírito desejamos: Feliz ano novo!

Jorge Emicles Pinheiro Paes Barreto Radialista. Advogado. Professor Universitário (URCA)
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