27 dezembro 2007

DRAMA DOS EXCLUÍDOS


Leopoldo Martins me passou por email, uma crônica de sua autoria, que mostra não só o Drama dos excluídos, mas a sensibilidade, o humanismo presente na pessoa do escritor, que bem sucedido em vida, demonstra sua vocação altruísta e preocupação com os menos favorecidos. O altruísmo implícito no texto, chega oportuno por ocasiões de datas festivas e reflexivas.

DRAMA DOS EXCLUÍDOS


Recentemente debrucei-me com uma leitura de um discurso proferido pelo senador Pedro Simon, que me fez refletir sobre a situação da região do cariri e mais particularmente do País dos nossos dias e que me proporcionou, também, uma profunda elucubração sobre o papel dos parlamentares e gestores, eleitos pelo povo para representá-los num projeto coletivo de construção da democracia, da cidadania e da soberania.

Exteriorizava aquele senador que um amigo seu se encontrava no interior de uma loja especializada na venda de instrumentos musicais. Havia, ali, possibilidades de sons e acordes para todos os gostos e todos os bolsos. Das flautas e das marimbas mais singelas, aos mais sofisticados violinos, oboés, contrabaixos, harpas, pianos e vibrafones.

Ficou ele imaginando todos aqueles instrumentos tocados em conjunto, numa praça ao ar livre ou no palco mais requintado de uma sala de espetáculos. Sentia-se transportar para outras dimensões da vida, ao som de uma orquestra, com suas partituras criadas sob a inspiração divina. Mas, ali, só havia a imaginação fértil de um amante da música, da música e de seu poder de elevar os homens a patamares quase transcendentais, de levá-los às proximidades de Deus. Aqueles instrumentos, entretanto, estavam, ali, mudos, sem as mãos e o dom dos homens criados á sua semelhança.

De repente, surge à porta da loja um menino maltrapilho: um pé descalço, outro arrastando uma sandália arrebentada, olhos fixos nos instrumentos de corda: violas, violões e bandolins.

Logo, os vendedores da loja transmutaram-se em verdadeiros seguranças, com os olhos fitos naquele menino que se vestia pobremente. O garoto permanecia quase que hipnotizado, diante de um cavaquinho. Olhando-o, parecia transportar-se para outro mundo. Imaginava-se, talvez, num recital no mesmo ar livre que lhe servia de abrigo nestas noites frias de um final de outono. Imaginava-se dedilhando aquele instrumento no meio de uma orquestra, uma orquestra que, certamente, incluiria seus amigos de relento. Talvez ele estivesse imaginando um solo, ou um duo, ele e Deus, para demonstrar o quanto um é semelhante ao outro. Um, criatura; outro, criador.
De repente, o menino maltrapilho reuniu toda sua coragem e apanhou, com suas mãos sujas do asfalto, aquele pequeno instrumento, reluzente e afinado. Agora, não só todos os olhos, mas todos os passos dos vendedores-seguranças se dirigiram para aquele fiapo de gente. Sairia ele correndo pela porta? Não, certamente, tropeçaria numa rasteira que o jogaria de volta à calçada, já em posição de mãos à cabeça. Perguntaria ele pelo preço do seu sonho e o devolveria à prateleira fria, até que outras mãos “mais limpas” dedilhassem as cordas de aço?

Não mais que de repente, aquele menino maltrapilho deslizou os dedos sujos pelas cordas esticadas do cavaquinho e, olhos fechados como que em transe, encheu o ambiente com os acordes de “Brasileirinho”.

As pernas apressadas dos vendedores travestidos de seguranças quedaram trôpegas. Os olhos de lince ficaram marejados. Aquele menino maltrapilho, quem diria?, Era um verdadeiro brasileirinho. E “um brasileiro quando é do choro é entusiasmado, quando cai no samba não fica abafado, e é um desacato quando chega no salão”.

Fico eu, agora, imaginando, o som daquele verdadeiro “hino nacional”, dedilhado por um destes meninos para os quais fechamos, no nosso dia-a-dia excludente, os vidros dos nossos carros e as portas de nossas bem vigiadas casas. Quantos serão os brasileirinhos, maltrapilhos, dedos sujos de terra, que saberiam – como diz o poeta – fazer “todo mundo dançar a noite inteira no terreiro até o sol raiar"?

São milhões os brasileirinhos excluídos do nosso carro, da nossa casa, do nosso coração, da nossa vida, do nosso País! E, quem, são os maestros dessa orquestra excludente, cuja batuta teima em não aceitar artistas de dedos sujos? Somos nós, que teimamos em tocar, apenas, para um público refinado, nas mais requintadas salas de espetáculo. Esquecemos o ar livre, democrático e cidadão.

O povo pode até servi como inspiração para as nossas partituras, as nossas orações e os discursos na maioria das vezes demagogos, mas ele está longe da nossa prática. Ele é chamado, apenas, para montar os nossos palcos, mas não participa, nem de longe da nossa orquestra, nem do nosso público!
É essa cruel realidade que mostra o trabalho realizado recentemente pelo IPEA, são quase 54 milhões de brasileiros em situação de pobreza, sobrevivendo com uma renda per capita que não passa de meio salário mínimo mensal. São quase 22 milhões de indigentes, sobrevivendo com menos de um quarto de um salário mínimo mensal. Quatro, em cada dez brasileiros, já podem ser considerados numa situação de miséria absoluta! O Brasil tem algo como 15 milhões de analfabetos acima de 15 anos! São cegos do saber. São milhões que sobrevivem num país anexo.

Essa loja de instrumentos de trabalho e de produção chamada Brasil é excludente. Como o menino maltrapilho dos pés descalços, a população pobre do País não consegue ter acesso à terra, ao trabalho, à habitação, à saúde, à educação, à renda, à vida.

Francisco Leopoldo Martins Filho
Pós Graduado em Direito Penal

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