21 agosto 2007

Folclore, por Dênisson Padilha Filho


Falar de Folclore é sempre uma missão difícil.Por alguns instantes hesitei em não lavrar estas linhas, confesso, por achar que é um assunto que se adequa muito mais a ser tratado em texto corpulentos, resenhas, ensaios do que em simples matérias breves.

Ora, porque tanto mistério acerca de tão óbvio assunto? Folclore, diriam, nada mais é do que Saci, Mula-sem-cabeça, Caipora; não é isso? NÃO!! Não é isso. Aliás, que bom seria se só fosse isso.

Hoje, na verdade, enquanto todos os setores supostamente ligados a Cultura se ocupam tão somente de relembrar e legar às suas crianças e adolescentes as versões adulteradas ou capengas, repetindo lendas de forma superficial e, diga-se de passagem, em tom jocoso, esses nossos jovens seguem claudicando e com os olhos enevoados ante uma estrada que para eles é desconhecida e que para nossa maior aflição, nada mais é do que a nossa desconhecida identidade cultural nacional.

Costumo sempre falar, atentando, é claro, em fazê-lo, em foro apropriado, que o Dia do Folclore é um mal necessário. Sim, porque viver nossa identidade, nossa memória, nossa ancestralidade jamais pode ser um fato específico de um dia perdido no calendário. É de causar consternação, só pensar que os nossos saberes, falares e fazeres estão agrilhoados em apenas um dia do ano. Nossa identidade virou peça de museu em favor de uma cultura e um modus vivendi americanizado. Hiberna em berço esplêndido o orgulho nacional. Para o meu maior penar.

O que se propõe, entretanto, não é que se cultue a três por quatro os traços identitários nacionais através de se vivenciar nosso fabulário, nosso rosário de entes mitológicos;não, absolutamente não é isso. Até porque este que vos lavra é suficientemente iconoclasta para não pautar-se em discursos de adoração;mesmo porque não creio que seja esta uma condição sine qua non para a salvação.

O que talvez seja mais fácil dizer é que, se é risível se crer na existência desses entes de alma e cor nacional, não menos risível e ridículo é crer e considerar a importante coexistência conosco de fadas e duendes da Europa Nórdica, por exemplo.

A essência de toda essa prosa acerca de tão famigerada data - leia-se isso assim, como uma data/instituição criada há muito e engordada no seio dos Centros Cívicos; marca registrada dos anos cinzentos de ditadura militar - é que não aceitar tradições ou olhá-las de viés, em soslaio de menosprezo é típico de nações atrasadas. Nações de povos sem noção.

Darcy Ribeiro disse que o Brasil é uma pátria adolescente. E como todo adolescente, tem vergonha da avó que é índia e do pai que é preto. Nunca encontrei colocação boa à altura para definir esta primeira fase dessa pátria. Frouxidão moral, assistencialismo passivo e ativo, guerras fratricidas? Tanto quanto, típicos de nações atrasadas. E rir-se, gaitar feito Caipora, enxovalhar de sua ancestralidade? Típico de nações atrasadas. Nações que tem em sua memória mais recente tão somente rumores de uma sociedade pretérita que olhou pra essa terra somente como um lugar em que "em se plantando tudo dá". Não houve o exercício do amor pela terra naquelas quadras do tempo. Houve o exercício sim, da locupletação progressiva, acintosa e aviltante. Ficou nas plagas d'além mar a maior parte da honrosa Rude Cavalaria da D. Sebastião. Os poucos que aqui chegaram legaram aos seus herdeiros encourados uma condição mordaz, peculiar do heroísmo anônimo. E esses mais ainda se calaram, obstinados no seu exercício de furar caatingas.

Ainda espero, mesmo que seja na pele de minha vindoura descendência em 27º grau, ver brotar uma nação propriamente dita. E ali sim, naquele tempo, abstrair a desmemória na vida do brasileiro.

Tomaria fôlego pra mais 500 anos...

DÊNISSON PADILHA FILHO (1971) é escritor, poeta, contista e roteirista. Autor dos livros Gavihomem (Art Compet Editora, 1998), Aboios Celestes (Selo Bahia, Funceb, 1999) e Carmina e os Vaqueiros do Pequi (Santa Luzia Editora, 2002). Co-autor do roteiro do curta-metragem Na Terra do Sol (MINC, 2005), dirigido pelo cineasta Lula Oliveira. Também escreveu os ainda inéditos Epístolas ao Tempo (romance), Loquazes Gostamentos (poemas), Calumbi (curta-metragem/cinema) e O Jokerman sentado na pedra fria (curta-metragem/vídeo). Mais sobre o autor.

5 comentários:

  1. Gustavo, gostaria de lhe parabenizar por ter nos trazido tão belo texto sobre o folclore. Muitas vezes não se postam comentários, mas saiba que há muita gente mesmo lendo o que é postado aqui.Recebo e-mails e contatos de muita gente que mora em outros estados, e que se ligam em tudo que se passa. É o que estamos tentando fazer: O Blog do Crato como um ponto de encontro das pessoas que amam esta cidade, e o cariri, e se interessam pela arte e pela cultura de forma geral.

    Um grande abraço,

    www.blogdocrato.com

    Dihelson Mendonça

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  2. dihelson, valeu. mas neste caso o mérito é do Dênisson mesmo. pede pra moçada dar um saque no trabalho do cara. é bom. literatura pura. abçs

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  3. Ler Denisson é sempre muito bom. Mesmo o que ele considera como sendo tema difícil para poucas linhas se torna fácil para este grande “VAQUEIRO DO PEQUI E DAS LETRAS” Denisson, como se estivesse aboiando, palavras sabe levá-las para o lugar seguro da boa literatura. Fico feliz em saber que suas letras estão se espalhando por este imenso Brasil, levando o prazer da sua obra para “pessoas que moram no Crato, que moram longe do Crato, mas que amam a cidade”
    Parabéns ao Blog, abraços para o amigo Denisson.

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  4. Grande Dênisson! É isso aí, meu véio! E só pra pirraçar, o Dia das Bruxas (ou, pra pirraçar mais ainda, "Halloween") tá chegando, e as lojas dos shoppings vão fazer promoções de 30% off !!

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  5. meu caro Denisson Padilha

    O texto sobre o Folclore está muito bom, parabéns, um grande abraço do seu Estagiário de Turismo

    Paulo Roberto
    Rio De Contas-ba

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