24 fevereiro 2021

Tempos de agruras e as razões da fraternidade - Por: Emerson Monteiro


São fases assim que reclamam atitudes políticas exemplares, quando a sociedade atravessa épocas de vacas magras, fruto dos movimentos monopolistas das classes e da ausência de providências necessárias ainda sem o devido reconhecimento. As civilizações geraram o que ora passamos, vindo isto de bem longe na História. Há uma funcionalidade natural de tudo quanto existe em qualquer tempo ou lugar, porém a complexidade das sociedades humanas reclamam ações válidas, justiça, honestidade, dos cidadãos. Ninguém erra que não responda diante das tais leis universais da Natureza. 

Isso de exclusividade só de alguns é ilusão de não ter tamanho. Se imaginar herdeiros prometidos da Criação, que sejam famílias, grupos, corporações, reflete pouca ou nenhuma consciência da realidade verdadeira, neste carrossel das circunstâncias em que vivemos. Por isto, diz o povo, que quem tem olho fundo chora cedo. Conquanto em aparente naturalidade, no entanto a resposta virá do próprio agir e seus resultados no tempo.

Dizemos isso, nestas primeiras palavras, no sentido de interpretar que somos todo único na Humanidade, irmãos entre irmãos, independentes de países, continentes, raças e clãs. Durante milênios, porém, o que vemos nos tantos lugares são meras contradições a este princípio da fraternidade. Quem engana se engana. Amealhar em detrimento dos demais fere valores essenciais da existência, produzindo mais e mais dores no transcorrer das gerações. Pura falta de conhecimento imaginar que a Justiça maior dormirá sobre os louros de alguns e poucos privilegiados. 

Diante, pois, desta fase cheia de dramas graves e consequências dolorosas, persiste um clamor de coerência em tudo por tudo, perante a indiferença dos poderosos às vistas da fome das coletividades, das dores do desemprego, da insegurança, das drogas, o que vem desmascarando o progresso aparente das experiências humanas. Precisamos, pois, evoluir em maturidade e somar esforços a favor, sobretudo, dos que menos possuem e padecem atrocidades. Trabalhar o senso de justiça, nas instituições nacionais e mundiais, requer disposição inarredável dos ofícios de conquista da paz coletiva. Tenhamos sempre conosco os valores justos e posicionamentos sensatos, quando, afinal, construiremos a sociedade perfeita que tanto sonhamos vidas e vidas. 


Duas frases emblemáticas

“O problema é que existe neste País uma força que esconde a nossa História Ninguém fala em Monarquia ou na época do Império. Escondem a História. É como se a escondessem porque, se falar das coisas boas (que marcaram a nossa Pátria), ela poderá voltar.”

Príncipe Dom Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança (irmão do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil) em entrevista concedida ao jornal “Tribuna do Norte”, de Nata (RN).

Frase do Cardeal Pie
 

 

23 fevereiro 2021

Mistérios do Inconsciente - Por: Emerson Monteiro


Algo semelhante ao que, no conto de Aladim e a lâmpada maravilhosa, das 1.001 noites, significa descer às entranhas da Terra e conhecer a si mesmo vez sermos parte das existências daqui. A Arte vem disso, desse eu secreto das criaturas humanas, manifestação de um outro eu que flutua no interior da gente. Área reservada ao que nos cabe evoluir, se revela pouco a pouco, na medida em que aceitamos a intuição, a inspiração, sonhos, imaginação, sentimentos. Vem à tona universo inesperado que tende a preencher de novas oportunidades o instinto de conhecer o desconhecido e preencher o vazio ao dispor, e aceitar, pois, novos planos de fortalecimento de viver longe da rotina desses dias de angústia e tentativas que experimentamos no correr das horas. 

Território de que ninguém jamais fugirá, há nisto uma brisa de outras histórias que nascem de nós mesmos, ainda que disso queiramos buscar alternativas que não representem tanta responsabilidade diante das vivências, onde ninguém passa impune aos equívocos praticados neste chão. Esse eu secreto insiste manter anonimato, daí os nomes que recebe no decorrer das civilizações, de comum mistificado em códigos de sacerdotes e magos. Corpo maior daquilo que aparece no horizonte das circunstâncias, em livros, tratados, religiões. Mudar por dentro será, por isso, a fórmula ideal das revelações. 

Alguns mais afoitos até propõem soluções de continuidade ao que aprendem nos estudos e pesquisas, ocasionando roteiros de soluções aos males da alma humana. – Desça esta escada, disse o estrangeiro, e quando você chegar embaixo achara um salão. Atravesse-o sem parar um instante. No meio desse salão há uma porta que dá para um jardim. No meio desse jardim, sobre um pedestal, esta uma lâmpada acesa. Pegue a lâmpada e traga-a para mim. Se os frutos do jardim lhe apetecerem, pode colhê-los à vontade.

Sem a mínima dúvida, do tanto que sabemos resta muito mais a saber face à profundidade dos abismos da Sombra, nesta natureza de que somos parte essencial. 


22 fevereiro 2021

Como eram os diplomatas nos Tempos Imperiais

     Fiscalizar a nomeação e a promoção de diplomatas era uma das maiores preocupações do Imperador Dom Pedro II, que conhecia, pode-se dizer, a vida de cada um. Daí, por exemplo, opor-se à nomeação do futuro Barão do Rio Branco para Cônsul do Brasil em Liverpool, no Reino Unido, por se ter este amasiado no Rio de Janeiro com uma atriz belga do Teatro Alcazar, e já ter dela um filho. 

   É também conhecido o fato de um diplomata nosso que, após uma carreira sem manchas, foi nomeado Embaixador em São Petersburgo, então capital da Rússia. Naquele momento, o homem estava na Itália, quando veio a público haver ele cometido irregularidades no jogo, em um clube fechado, frequentado pela aristocracia romana. Sabedor do fato, o Imperador foi inexorável; mandou demiti-lo imediatamente, cassando-lhe ao mesmo tempo o título de Conselheiro.

   O resultado desse policiamento do Soberano era um corpo diplomático ao mesmo tempo brilhante e capaz, moldado na melhor escola, onde cada qual se impunha pelo seu valor próprio e suas altas qualidades morais. Não se viam diplomatas sem um mínimo de moralidade, ostentando publicamente as suas amantes; embriagados, praticando toda sorte de desatinos; ou fazendo falcatruas, emitindo cheques sem fundos, fazendo dívidas de jogo, tudo à sombra das imunidades diplomáticas e amparados pelos governos com o silêncio.

FONTE: Leopoldo Bibiano Xavier, no livro "Revivendo o Brasil-Império". 1º ed. São Paulo: Artpress, 1991. P. 35.

Todas as promessas - Por: Emerson Monteiro


No exercício da fé, há que aceitar todas as promessas. Andar todos os passos e resolver o enigma de pisar este chão tais andarilhos tontos. Depois de chafurdar os cinco sentidos, decidir qual direção. Bem isto de revirar as peças desse jogo enquanto estamos a caminho, porquanto há dias contados. Externar o destino em forma de transformar o momento de viver num relativo absoluto, abrir e fechar de olhos às portas dos objetos que fogem aflitos de nossas mãos angustiadas e viver realmente o objetivo de tudo. Pássaros assustados com a natureza em volta, mergulham na luz e trinam sem cessar face ao furor da liberdade.

Quiséssemos apurar o senso dessa transformação, disso tudo restaria solucionado o mistério de andar nessas paragens do Infinito, e buscaríamos viver para sempre nos braços do que nos une às marcas que aqui deixamos. Colheríamos todas as flores do Universo em nós e acalmaríamos de uma vez por todas o desejo da felicidade maior. Gestos simples, largas plantações de alegria e paz invadiriam os corações, em festas inigualáveis de carinho e fraternidade.

Fosse isso, no entanto, que esperamos de nossos movimentos desencontrados, em verdade já vivemos a todo instante o pleno vigor de uma renovação mais pura. Filhotes do tempo, saberíamos resistir ao inevitável, no pretexto de conhecer o que ainda ignoramos. Vêm os sonhos e revelam segredos inesperados, mesmo que insuficientes a que aceitemos o mistério e deixemos de andar às tontas nas estações do caminho. Criamos algemas nos próprios punhos, frutos dos equívocos por demais. Agarramos às culpas feitos vítimas da conformação do sem jeito. Devemos disso nos livrar o quanto antes e reviver.

Daí o sentido único de sair da caverna do passado e fixar propósitos no presente, viventes da imortalidade que o somos. Querer praticar o que esperamos, na forma de criaturas refeitas no primor do Paraíso perdido, agora reencontrado. Isto depende exclusivamente de nossa decisão espiritual.


20 fevereiro 2021

Um oceano de memórias - Por: Emerson Monteiro


Nele, pois, navegamos dias e dias. Surpresas dos tempos que já se foram, carregando de nós os momentos, frágeis criaturas do Infinito que somos hoje. Tangemos as velas do próprio barco rumo ao depois das horas que somem no abismo do intransponível, quais tripulantes do tempo que esvaem no horizonte. Sacudimos os instrumentos de viver, equilibramos sonhos e dosamos o destino. Aprendizes da condição atual, submissos ao desconhecido, erguemos olhos às águas e esperamos existir para sempre nesse movimento das ondas impacientes.

Reunimos, assim, pedaços do passado e formamos ilhas de solidão, dividindo com pessoas e objetos as emoções sucessivas diluídas no abstrato. Sem quaisquer intervalos, remamos no mar das saudades e lembranças, rescaldos de tantas vivências que formam o que nos imaginamos ser, a gente na gente mesma. Peças que vêm à praia nos sargaços do que fomos, e gritam aquilo que ora vivemos, brados intensos das relíquias abandonadas de náufragos trazidos aos rochedos da vista interior. Quantas e tantas recordações que nessa ocasião ferem a alma de arrependimento do nunca mais poder reviver o que antes foi.

Bem isto, fragmentos de histórias, experiências, contradições, amores, que tudo somado dá nisso que transportamos vidas e vidas, arquivos esquisitos de tempos antigos, comandantes de universo à parte que aqui carregamos conosco em forma de imagens, músicas, festas, viagens, ausências, livros, filmes, amigos, farnéis de lutas, esperanças e anseios entranhados em nós feitos feras indomáveis.

Isto do ser das águas deste mar imenso e ao mesmo tempo sustentáculo de resistir a qualquer custo aos fatores do desaparecimento. Máquinas de contar as aventuras do passado ao presente, deslizamos a vontade livre pelas ondas de certezas impossíveis, fieis buscadores de conchas entre os farrapos da ilusão. Conquanto súditos desse reino invisível, alimentamos de perguntas o vento que, morno, sopra segredos em nossos ouvidos. Quando, afinal, tocaremos o reino definitivo dessas existências só de longe iremos saber, vez que haveremos de esgotar, de tudo, o instinto de sobreviver, enfim, às nuvens transitórias da mais fria realidade.


19 fevereiro 2021

O mundo em nós - Por: Emerson Monteiro


Desde mínimos detalhes, somos o espelho que reflete a realidade presente. Vivemos na medida com que nos apercebemos disto. Crescemos conosco próprios. Artífices da nossa consciência, elaboramos o caminho dos nossos passos e tocamos adiante esse mundo que nos é dado face a uma nova percepção. Daí vêm todas as escolas que transitam pelas nossas atitudes. Assim, tais maestros que se aperfeiçoam, vivemos mundo à parte do das outras criaturas individuais. Em segredo, construímos visão nova do universo e sustentamos histórias de que somos diretor e ator principal. 

No entanto havia de existir também aquele com quem nos cabe contracenar a peça desta vida. Enquanto viajamos pelos dias, temos em nós esta companhia incessante. Havemos, lá um momento, de compreender que a solidão é mero instrumento de revelar essa presença constante, contraditória. 

Foram muitos séculos até avaliar a dimensão de transformar a realidade que refletimos em consistente compreensão deste mundo, aonde todos seguimos na busca de encontrar uma verdade definitiva. Agora existem muitos que se trabalham neste sentido, adotando providências que possam sustentar a salvação de si mesmo depois de tudo, no quanto de concreto já exista.

Nisto, seremos os professores que ensinam outra visão do que seja viver, modificando-a incessantemente qual norma de resistência diante da transitoriedade desse plano material. Prudentes na resposta que providenciam no transcorrer das existências, trabalhamos outra possibilidade além do simples percorrer das vidas e desaparecer no firmamento.

Porém essa providência inevitável requer iniciativa de valor inestimável. Exige esforço de renúncia, e reclama superação das costumeiras respostas negativas dos comportamentos ocasionais. Algo de sublime que aconteça, vindo de nosso coração, misto de religiosidade e esforço. Fé e trabalho, em favor dos valores místicos; transformação de nós em novos seres, que significam o itinerário de Si a uma nova revelação. De meras presas do destino, seremos a fonte da Perfeição de que ora somos a semente. 


Saudades de Antônio Olinto – José Luís Lira (*)


   Chega o dia de enviar a coluna para o jornal e o blog e as ideias não fluem. Este tempo que vivemos nos deixa assim. Antes alegávamos falta de tempo... Era (é?) uma correria. Hoje, muitos estamos com trabalho em casa  (prefiro o português ao inglês).  Os  dias  parecem  demorar,  mas,  têm  a  mesma velocidade. Nós é que não estamos na mesma intensidade. Faz quase um ano que assim estamos, mas, parece mais tempo. A parada foi necessária. Nunca critiquei, nem criticarei, nenhuma medida nesse sentido. Lembrando o poeta Gonzaguinha, “este tempo vai passar”.

   No quarto que improvisei como local de trabalho na casa dos meus pais, antes mesmo de ser o espaço destinado a isso, eu já colocava livros, revistas, enfim. E, hoje pela manhã, deparei-me com o livro “O Menino e o Trem”, de Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, diplomata, amigo querido. Esses dias ouvi uma entrevista dele para o também imortal Arnaldo Niskier. Aliás, guardo uma entrevista que ele concedeu ao irmão Ticar, Diassis Lira para o público em geral, quando Olinto esteve em Guaraciaba do Norte (2007). Entrevista concedida num quarto da casa do Monte Alegre. Vínhamos de Sobral onde o imortal foi na Universidade Estadual Vale do Acaraú, experimentou da carne de sol do Aragão e foi à Biblioteca Municipal Lustosa da Costa. Para acomodar dignamente a ele, sua assessora Beth Almeida, Bárbara e Henrique Ayres (filha e neto de Mello Mourão), os hospedamos no extinto Hotel Sol Nascente e o jantar foi no sítio Monte Alegre. Comida tradicional, forró pé-de-serra (Olinto até ensaiou uns passos) e café, com pó feito de grãos torrados em caco de barro. Foi um dia espetacular.

     Depois que conheci Antônio Olinto, registrado Olyntho, mas, que ele simplificou, o inverso do que normalmente ocorre hoje, ele fez três visitas ao Ceará. N’uma veio para a Bienal do Livro (2006) quando estava com a querida Nélida Piñon; n’outra para o lançamento de meu livro sobre Gerardo Mello Moura, “A Saga de Gerardo: um Mello Mourão”, ocorrido em 26 de abril de 2007 e, finalmente, em outubro de 2008, mais especificamente dos dias 26 a 29, para lançar sua biografia, escrita por mim: “Brasileiro com alma africana: Antônio Olinto”. Na última visita, Matusahila e eu o recebemos em nossa casa, em Fortaleza, juntamente com Beth Almeida, sua assessora e quase filha.

     Olinto era uma figura amável e amada pelos que o cercavam. Foi seminarista e herdou para toda a vida a religiosidade. Criança, nas Minas Gerais, teve contato com ex-escravos, agregados de família que tinham conhecimento da cultura afro. Ao chegar a Lagos, na Nigéria (Continente Africano), como adido cultural do Itamaraty, apaixonou-se pela alegria do africano, pelo profundo respeito por seus antepassados e divindades. Foi a inspiração para sua trilogia “Alma da África”. Na sua despedida, um representante tribal, ao homenageá-lo, disse que o diplomata tinha a alma negra – na tradição deles, maior elogio que se pode dar a um não-africano. Hoje me volto à enésima releitura de “O Menino e o Trem” e destaco o conto que intitula o livro e “A Palavra”, no qual ele dá vida à palavra que “tinha consciência de sua integridade verbal”. Lindo, simples, mas, sofisticado como era nosso imortal que nos acompanha da eternidade.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


18 fevereiro 2021

Pelas ruas da cidade - Por: Emerson Monteiro


Os tempos em movimento nas situações e lembranças vivas, tempero da sobrevivência dos nativos em horas vazias de tudo. Lugares, pessoas, vivências. Filmes projetados na consciência da gente. Superposição de imagens que insistem persistir aonde quiser, pois vêm de moto próprio e invadem as sombras da consciência. Mesmas cenas de antes que regressam e confundem o senso do agora. Ninguém dormiu no passado, e despertos seguem através das criaturas dolentes que ora somos. Impregnados pela arquitetura das cidades, sustentam a necessidade das existências inevitáveis. Quantos séculos andam assim soltos no ar do infinito?!

Dizem que, de vez em quando, eles regressam na forma de sentimentos, saudades atrozes dos momentos agradáveis que perdemos nas atitudes, luzes a piscar na escuridão dessas janelas apagadas. Imagens dos seres de antigamente que percorrem, de jeito fantasmagórico, por dento, a alma das criaturas humanas. Lado a lado com esses escombros de memórias, renascem das cinzas e crescem no horizonte os pensamentos, feitos visagens renegadas, impertinentes. Guardam relíquias que as esquecemos de largar, no descompromisso da sorte de hoje, parte integrante do que fomos. Alguém que jamais deixaremos de ser, porquanto tais registros fincaram garras ao teto das visões, tangidos na espiritualidade imortal. Veremos nas tantas ocasiões nossos pecados enterrados em nós, e de nós pediremos perdão pelos atos espúrios ali praticados. Temos implorado o favor do esquecimento, no entanto ser imaginário diz que pecamos e que, com isso, reconstruiremos os velhos barcos abandonados nas praias distantes da ingratidão. Pátria do impossível, seguiremos trilhas de ausências, espécies de criação de nossos desejos que nunca sumiram de todo. Que sejam tais duas realidades, a fruto da ambição e a verdadeira, que nos devemos a ela submeter e ganhar na luta contra o desespero e a saudade. 

São bem essas as ruas da cidade onde pisamos um dia e deixamos nelas pedaços de vidas agarrados às frestas das casas e do chão, a que voltaremos em cima do rastro sob o peso dos sentimentos ali presenciados. Nós, pedaços eternos de nós mesmos, marcas indeléveis da caminhada dos sonhos e que levamos conosco até depositá-los, um dia, lá nas florestas virgens da Eternidade.


17 fevereiro 2021

O crime do aborto - Por: Emerson Monteiro


O saber natural, em sua ação persistente, criou as condições de gerar filhos e os seres humanos em sua ignorância os expelem a sangue frio natimortos, quais eliminassem animais desnecessários, sendo seus próprios semelhantes.

Houvesse leis pela preservação da vida em soberbas características de contenção dos desmandos praticados em redor do mundo e, decerto, a história mostraria inegáveis oportunidades de felicidade a esses tontos mortais esfomeados de prazer imediato. Beethoven foi o quinto filho de uma prole de deficientes, ao que aconselhariam sua família a se livrar dele antes de nascer.

Jamais, senão agora, demonstrações de ausência de lucidez parecem crescer no horizonte esfumaçado da destruição na flor da idade, no meio dos escombros da barbárie que toma conta dos séculos. Símbolos de paz viraram motivos de ausência de critério, nas promoções desencontradas de minorias vencidas.

Mas falávamos da covardia do aborto... Que pouca honestidade para com os semelhantes a nascer essa atitude... Nem de longe se deve imaginar uma coisa dessas para o Brasil, povo ordeiro e lutador Tirar a vida, como querer? Não sabemos repor o viver de quem morre, por isso não se devem eliminar os seres humanos que aguardam as mesmas chances de brotar, crescer e conhecer.

A morte dos inocentes em gestação clama consciência, portanto. Falar na esperança dessas vidinhas em sumidouro, desejos de viver na lama dos ausentes, dói e requer disposição de ânimo dos que lutam pela paz. Aquilo que seria a festa das famílias chegarem novos filhos torna-se, por isso, chama apagada no vento abusivo das palavras vazias, derramadas no lixo.

E falar em amor exige coerência a uma civilização bandida, revirada nos laços das armadilhas, caminhos tortuosos, vilã matreira de poucas luzes. Gritos de promessas, entretanto, rasgam o espaço das sombras. A força de sobreviver, falando alto nas entranhas das gentes, indica o valor carinhoso de novos sonhos.

Quisessem reverter os quadros fantasmagóricos daquela indigência e praticassem hábitos justos e alegres de salvar os que, mais que antes, precisam viver...


16 fevereiro 2021

O balbuciar das canções - Por: Emerson Monteiro


Houvesse o Sol ter que nascer sem o cantar dos passarinhos, sustento minhas dúvidas se com isso Deus concordaria. Nalgumas frases apenas as canções tocam forte nas fibras da alma da gente. Querer justificar o que cativam as melodias, nas letras, nos fás sustenidos, nas longas e breves, ninguém explica. E de onde elas vêm, quem sabe?! Doutros astrais, de longe das vistas, de longe, bem de longe decerto. Do campo das musas de profundas inspirações. Chegam aos abismos de dentro e ali permanecem plantadas para sempre na consciência distante. A beleza da poesia, da arte, da essência, que alimenta o desejo de felicidade traz consigo as pautas, os ritmos, o andamento...

Nunca esqueço o clima das canções que me fizeram a cabeça. Dos dias, daquelas horas santas de quando as ouvi. Bem claros os momentos, o estado de espírito, os sonhos incendiários. Lembro até das pessoas com quem, à época, mantinha aproximação e dividia as apreensões. Juntos tais pedaços de existências, posso, inclusive, formar, de novo, aquele eu que pensava ser e vagava nas calçadas do passado, e sofria, e angustiava, e ansiava. Espécie de romantismo crônico invadia os estágios entre as duas realidades e as canções trazidas à trilha sonora dessa perpetuação que hoje observo reviver nas audições daqueles turnos e de agora, únicas e iguais nos labirintos dos ouvidos. 

É quando escutamos a melodia, as letras, os tons, que daí advém quadros que apresentam primeiro os sentimentos, e só depois os pensamentos que dali nasceriam e salvos continuam. Tantas épocas de milhões de rostos anônimos que desfilavam à frente dos olhos, enquanto aos ouvidos vem esse comando insistente, definitivo, da música imaginária.

De comum, resumem ser saudade isso que se sente diante do que foi sem chances de regressar, a não ser que a música não houvesse, pois, de voltar. Saudade, que disseram tratar de palavra do Português no Brasil, com exclusividade. Saudade que vem de solidão, soledade, sordade, até virar saudade, tal jiló que arde nas entranhas da pessoa que padece. A música possui  condão de mexer o íntimo e reinventar do que sobrou através da arte, na sensibilidade, no sentimento que resta ao fim de nada mais. Uma fala doce que sussurra no peito as mesmas emoções antes vividas, tocadas de perto, guardadas com extremo zelo nos acordes e percussões.

De tanto esperar o invisível dos tempos, terminamos aceitando escutar, pelo sentido espiritual da audição, a presença forte e distante de tudo que retivemos às dobras do sentimento; são as músicas, que falam disso e alimentam a certeza da alegria eternizada em nós escondido na ausência. Por isso, bem melhor agora abrigar os acordes da canção no prazer de estar bem aqui e viver de novo tudo de bom.

 

Realidade provisória - Por: Emerson Monteiro


Em 1978, voltaria a Salvador, onde permaneceria por sete meses. Nesse tempo, assisti a uma palestra de Huberto Roden, filósofo e ex-sacerdote jesuíta, autor e tradutor de dezenas de livros que eu lia e estudava com frequência e entusiasmo. Tratou de um tema relativo à filosofia oriental, tendo por base o pensamento hinduísta, da cultura dos vedas. Dentre outros conceitos, abordaria a noção de maya, ou ilusão.

Seu significado é complexo porque envolve ele mesmo uma dualidade, pois maya não pode ser real se consideramos o Absoluto (Parabrahman) como a única realidade, mas não pode ser irreal pois é a base de todo o universo objetivo. A realidade última, assim, envolve a compreensão da natureza de maya sem sua negação, mas distinguindo-a do Absoluto. Wikipédia

Depois de concluída a fala principal, vieram as perguntas. Um dos presentes indagaria que, se maya não existe, porque tanta preocupação, conquanto fosse só mera ilusão. Ao que o palestrante foi incisivo em dizer que enquanto estamos aqui ela se faz parte a influenciar o comportamento das criaturas no processo de viver. Possui existência transitória, porém determinante. 

Ainda que tenhamos ciência dessa transitoriedade ilusória, no entanto somos levados a agir, tantas vezes, sob sua influência.

...

A existência terrena significa, pois, mais que apenas agir, mas reagir em face das circunstâncias. Quais atores do destino, somos dele os responsáveis diretos, através das condições que se nos apresentem. Livres, contudo responsáveis pelas nossas ações na busca da realização pessoal. Ter por que viver e liberdade em aceitar as situações. Em nossas mãos, as rédeas do destino. Se eu não fizer, quem o fará. Se não faço agora, quando farei. Hilel Já que não se podem alterar as circunstâncias, que mudemos nós. 

Em nós, portanto, a alternativa de interpretar o Universo e dominar as malhas do desafio, até preencher de sentido a arte de viver.

(Ilustração: Arqueologia egípcia).

15 fevereiro 2021

Os deuses sabem que estamos aqui - Por: Emerson Monteiro


Eles sabem e silenciam. Guardam consigo as surpresas que haveremos de viver dias e dias, nessa longa estrada. Nem de longe querem aparecer às nossas vistas, e silenciosamente até trabalham os obstáculos e as facilidades com que nos defrontamos a fim de crescer e subir aos céus. Eles exercem papel fundamental em tudo quanto existe debaixo do sol. Espécies de condutores de rebanhos selvagens, zelam e alimentam nos seus mistérios a luz do dia e na escuridão da noite, afeitos que são aos ditames da Natureza.

Destinados que foram a construir novos seres em nós, agem quais fieis servidores que o são, no ímpeto de harmonizar os destinos. Falam-nos pelos sonhos, pelo canto dos pássaros, pelo soprar dos ventos, o bater das ondas, o marulhar das correntezas e o ciciar das florestas em flores. Ouvem nossos gritos de socorro, e respondem à medida do nosso merecimento. Alimentam nossos passos quais amigos anônimos, deixando que façamos o melhor e desenvolvamos o talento da nossa salvação.

Tantos até habitam a morada onde vivamos, disfarçados de irmãos, pais, amigos, a dividir conosco a fortaleza de existir, na sabedoria do crescimento espiritual. Chegam sempre nos momentos críticos; sustentam o instinto de continuar as lutas mais insanas; trazem palavras de conforto diante das dificuldades cotidianas. Riem dos nossos risos, enriquecem a nossa imaginação e nos aproximam dos lugares mágicos que nos façam acreditar na realização dos nossos planos. 

Eles vivem, sim, bem junto de todos, instrutores da esperança, arautos dos dias melhores, da verdadeira felicidade e dos sentimentos nobres da fraternidade humana. Trazem as ideias geniais dos novos engenhos que movem o mundo; oferecem meios de elaborar aquilo de que precisamos no desenvolvimento e inspiram líderes pelos caminhos da verdade. Sobrevivem a tudo por que tenham de passar, vez serem eternos e valentes. Nisto, falam-nos através da inspiração, da intuição, quando insistem sussurrar aos nossos ouvidos que sigamos em frente rumo à libertação desta vida ainda ilusória que nos foge das mãos, e busquemos tempos de paz definitiva. 

(Ilustração: Aguirre, a cólera dos deuses, de Werner Herzog).

O princípio da religiosidade - Por: Emerson Monteiro


Que é isto que aperta o meu peito?Minha alma quer sair para o Infinito ou a alma do mundo quer entrar em meu coração?         
                                                                     Rabindranath Tagore

Desde sempre que a humanidade percorre os caminhos dessa procura, através dos meios de que dispõe. Num lado, a origem, nos tempos de uma existência em fase de perguntas, porém dotada dos instrumentos necessários ao encontro definitivo consigo nas respostas da Natureza. São mil tentativas em tudo que persiste diante do Infinito. Daí a religiosidade, que noticiam os místicos; a fase interna da evolução nas criaturas, a que viemos, nós, seres humanos. Daí as instituições religiosas, que, por vezes, quiseram deter a si verdades exclusivas, quais não fossem estas direito de todos. Assim, os dramas seculares que demonstram quanto à urgência no fim de responder coerentemente ao desafio do autoconhecimento, da busca da luz espiritual. São setas no caminho da Eternidade, em alguns momentos restritas a grupos isolados de estudos, no entanto que Deus está solto, qual diz Fernando Pessoa. Livre tal a vida, que gravita pelos céus na revelação da Consciência a se revelar no íntimo de todos. 

Destarte, haverá um dia quando tudo será claro e uniremos nossos planos aos planos do Universo, e falaremos linguagem única de sermos irmãos no real sentido. Haveremos de praticar o que ensinam os credos religiosos com toda intensidade. Nessa hora, iremos compreender, em toda plenitude, aquilo que falam os sábios. 

Este o sonho dos humanos durante os milênios, de revelar em si o poder maior da Criação. Saber com intensidade a que viemos. Evidenciar o motivo do quanto vivemos vidas a fio nas religiões, nas filosofias, em todo o conhecimento; a causa caúsica do quanto existe virá à tona. Ver-se-á, então, que as circunstâncias foram tão só a razão de estar aqui e praticar bons sentimentos, que trouxeram os livros e os cultos Pois em tudo habitará o senso da imortalidade fraterna e o Amor verdadeiro. 


Coisas da "ré--pública"

 

   Hoje faz 12 anos que o Brasil sofreu uma das maiores humilhações da sua história diplomática. O índio “cocaleiro” Evo Morales (que foi eleito e reeleito, várias vezes, para a presidência da república boliviana), sem nenhum constrangimento e com a omissão e cumplicidade do “presidente-operário” do Brasil, Lula da Silva, invadiu as instalações da Petrobrás em seu país. Apropriou-se do investimento brasileiro, acertado e oficializado em acordos diplomáticos e bilaterais, e – sem nada pagar àquela empresa – se apropriou (roubou, no popular) a refinaria da Petrobrás.

     Vivíamos os tempos do “petrolão”, de triste memória, que nos trouxe prejuízos de bilhões de dólares. A entrega da refinaria da Petrobrás à Bolívia, sem indenização alguma, foi apenas mais um episódio.

         O povo brasileiro não pode se esquecer do que fizeram esses dois pilantras...

Mesmo no exílio, a Princesa Isabel acompanhava tudo relacionado aos brasileiros

   Forçosamente exilada na França desde a quartelada republicana de 15 de novembro de 1889, a Princesa Dona Isabel, àquela altura Chefe da Casa Imperial e Imperatriz “de jure” do Brasil, tomou conhecimento de que o Doutor Ricardo Gumbleton Daunt não queria aceitar a cadeira de Deputado que lhe coubera nas eleições, pois era visceralmente monarquista e não queria, portanto, ocupar posto algum de saliência no Brasil sob a forma de governo republicana.

      Contrária àquele procedimento, a Redentora disse à irmã do eleito:
Diga ao seu irmão que ele deve aceitar a cadeira de Deputado e propugnar pela grandeza moral, econômica e intelectual de nossa Pátria. Não aceitando, ele estará procedendo de maneira contrária aos interesses da coletividade. De homens como ele é que o Brasil precisa para ascender mais, para fortalecer-se mais. Faça-lhe, pois, sentir que reprovo sua recusa.

Fonte: Livro “Revivendo o Brasil-Império” de Leopoldo Bibiano Xavier.

               A Princesa Dona Isabel de Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, 

durante o seu exílio forçado na França.



13 fevereiro 2021

O desafio das páginas em branco - Por: Emerson Monteiro


Que mais além do silêncio desta noite... Dizer por dizer... Cobrir as falas do vazio com os ruídos esquisitos vindos das entranhas da Terra nos saltos da imperfeição... Saber que ninguém conhece as raízes dos mistérios noturnos... Ciciar do vento nas árvores, pássaros que cantam fora de hora, gritos distantes de solitários esquecidos; esforços e dramas ocultos na imensidão...

As horas feitas monges enfileirados pelos minutos que desfilam nas janelas da escuridão e desaparecem para sempre nesses nada que insistem sobreviver no colo das almas. Só um fragor de esferas e essa distância imensa das estrelas no céu. Dentro de mim, o rio da saudade percorre esse infinito, olhos perdidos na ausência que não mais existirá logo adiante, enquanto o amor macera o peito; o bater dos sinos impossíveis. 

E as palavras, flores do pensamento, derramam significados sobre o papel, no desejo insano de contar as histórias do inesquecível. Transpirações da consciência, elas inventam o espaço e revelam desejos insaciáveis de continuar, ainda que persistam a dor, a morte e o medo... Lembranças que circulam em volta da sala; gnomos, fadas, duendes teimosos, que comprimem a ânsia de existir, quando claros do dia anunciam novo amanhecer.

As narrativas dos sonhos falam disso, da fome inesgotável de transportar os segredos da madrugada aos que continuavam adormecidos. Questionam o paraíso das luzes, com suas vastidões de lendas. Assim, páginas pulsam de serem vivas na imaginação, vontade extrema de acalmar o que habita aqui nos animais inocentes à procura da Eternidade. São contos das outras dimensões que despertam no frio das manhãs. Trazem farnéis de esperança e esfregam os olhos, querendo despertar de si mesmos.

As falas do dizer dos humanos... Réstias das cavernas que o somos... Estilhaços feitos pedras, dramas no coração de todos... Estranhos em movimento na face do desconhecido, isto que transportamos, tanto no pensar, quanto no querer dizer nas páginas em branco.


12 fevereiro 2021

Saudades dos Tempos Imperiais! Uma dura reflexão – por Armando Lopes Rafael

   A bem dizer, o cargo de  Presidente da República – em qualquer país que adota esta forma de governo – deveria ser o símbolo mais respeitado pela população. Deveria. Infelizmente, isso nunca aconteceu no nosso sofrido e querido Brasil. Iniciamos este novo século (e novo milênio) sendo governados por cinco presidentes. 

    Nenhum deles se afirmou como estadista! Nenhum deles serviu como motivo de união ou de unanimidade respeitosa para a totalidade da nossa dividida população. Um desses, por sua desastrada e incompetente administração, motivou milhões de pessoas saírem às ruas, Brasil afora, pedindo o seu impeachment. Outro, foi preso durante quase dois anos, acusado de corrupção, sendo o único Presidente do Brasil a cumprir tão lamentável papel. Dói dizê-lo.

  Diferentes eram os tempos do Brasil Imperial! Como bem lembrou Dom Luiz de Orleans e Bragança, atual herdeiro do Trono e Chefe da Casa Imperial Brasileira: 

“Mais de 130 anos já se passaram, e os contrastes entre o Brasil atual e o Brasil-Império só têm crescido. No tempo do Império havia estabilidade política, administrativa e econômica; havia honestidade e seriedade em todos os órgãos da administração pública e em todas as camadas da população, havia credibilidade do País no exterior. Havia dignidade, havia segurança, havia fartura, havia harmonia”.

    Nos dias atuais o Brasil tem saudades do Imperador Dom Pedro II, ainda hoje considerado “O maior dos brasileiros”. 

Dom Pedro II, conforme a Constituição do Império
"Imperador aclamado e Defensor Perpétuo do Brasil"


É Carnaval? e a Quaresma? – José Luís Lira (*)

 

     “Quanto riso, oh, quanta alegria!/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando/ Pelo amor da Colombina/ No meio da multidão”, os versos dos cariocas Zé Keti e Pereira Matos (1967), este ano de 2021 ficarão só na lembrança. Fazendo trocadilho com a marchinha do ano seguinte, 1968, de Paulo Sette e Umberto Silva, vemos um recado para este ano e uma esperança para 2022: “Este não ano vai ser/ Igual aquele que passou”... Ano passado houve comemoração que rima com aglomeração. Este ano ficaremos em nossos lares e se assim fizermos podemos manter a esperança de normalidade no próximo ano.

      As origens do carnaval são diversas e nesses dias, em tempos comuns, o País para. Uns dizem que na Babilônia, na Grécia e na Roma da antiguidade, já havia algo comemorativo. O carnaval surgiu no Brasil de modo simples, sutil. No período colonial os escravos faziam a festa. Depois foi crescendo e tomando corpo, passando pelo período belo das marchinhas de carnaval que se inicia com a composição de 1899 de Chiquinha Gonzaga, intitulada “Ó Abre Alas”. E as dimensões atuais são tamanhas que fazem todo esse “reboliço”.  Neste 2021, um vírus terrível nos assombra e nos faz ficar em casa ou naquelas atividades essenciais. 

     Escrevo esta coluna numa quinta-feira, véspera da sexta-feira em que antecede o carnaval que se deseja sem aglomerações, para o bem de todos. A rodoviária de Sobral está fechada. E fazer o quê? A vida é o bem essencial e para protegê-la tudo é válido. O registro que faço é para que a posteridade conheça que o passamos. E recorro de novo a Paulo Sette e Umberto Silva para quando o próximo carnaval chegar, embora que eu nesunca tenha sido bom folião, mas, quando do carnaval deste ano falarmos, vamos dizer: “Eu não brinquei/ Você também não brincou/ Aquela fantasia que eu comprei/ Ficou guardada e a sua também/ Ficou pendurada”, “Mas este ano está combinado/ Nós vamos brincar...”, serão “... três dias de folia e brincadeira”. E voltando a Zé Keti, diremos, “Foi bom te ver outra vez/ Tá fazendo um ano/ Foi no carnaval que passou”... “Eu quero matar a saudade/ Vou beijar-te agora/ Não me leve a mal/ Hoje é carnaval”.

      Este ano o Carnaval, palavra originária do latim, carnis levale, significando retirar a carne, não terá festas, desfiles e aglomerações. As casas de praia e de serra não receberão inúmeros convidados. Ficaremos reservados. É que as autoridades nos recomendam e, no momento, se constitui necessidade vital. Portanto, este carnaval se aproxima muito mais do período que viveremos na sequência, a Quaresma, com início na Quarta-Feira de Cinzas. Há uma grande simbologia nos 40 dias da Quaresma (que a bem da verdade são mais que 40, pois, o dia festivo do Senhor, domingo, não é contado). Remetem-nos aos 40 anos de caminhada dos hebreus do Egito à Terra Prometida; aos 40 dias que Jesus jejuou no deserto. 

      Após esses 40 dias que se seguem ao carnaval, teremos a Semana Santa que culmina com a Páscoa Cristã, no primeiro domingo após a primeira lua cheia do outono do hemisfério norte. A Quaresma é a preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, momento de triunfo da vida eterna sobre a morte humana. Que nesta Páscoa ao celebrarmos a Ressurreição de Jesus, tenhamos o fim da pandemia!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


11 fevereiro 2021

Dimensões - Por: Emerson Monteiro


A condição das pessoas de viver entre o antes e o depois significa divisão no tempo sem senti-lo nos próprios pés, tal fossemos estações de rádio fora da sintonia exata. Bem isso, a intenção da Natureza de nos trazer aqui e oferecer os meios de encontrar o hic et nunc (o exato lugar no exato instante); invés de se dividir a favor de um dos lados, uni-los. Isto também na rota da procura de Si mesmo, no esforço de nos unir conosco, poder sobre-humano de identificação das duas forças que trazemos: o ego material e o Eu espiritual, este a porta de acesso à nova dimensão: - Meu reino não é deste mundo – afirmava Jesus.

Enquanto que as ações de quantos ficam presas só ao chão, um ser interno dentro da gente aspira sentido real de tudo quanto há. Face às tentações da matéria, muitos prendem laços nas argolas dos dias e dias, e somem como que por encanto na cachoeira do que virá. Nem sei o motivo claro, a não ser de fixar interesses aos chamamentos imediatos, esquecidos das perspectivas da disciplina e dos mistérios que os somos. Presa, pois, de armadilhas equipadas de iscas quase irresistíveis, a horda vende almas nos mercados da ilusão. 

Tratar tema desta envergadura diante das palavras exige o mínimo de compreensão de quem diz e de quem escuta. Entretanto a ausência de respostas plausíveis, coerentes, ainda vaga feito quimeras assustadoras. Os desencantos do chão fazem disso as provas. São vidas e vidas, gerações e civilizações que passam, nos dramas da História. Ninguém que foi restou além de lembranças, obras criativas, e dos ensinos que deixaram. Grandes nomes de feitos magistrais. Igualmente, apenas isto, registros de memória e desejos largados nas estradas, vidas a fora. 

Futuro bom é hoje, esta hora, a todo instante, ocasião de revelar por que viemos, e transformar rotinas de sacrifício em missão evolutiva, até cruzar a fronteira dos destinos, nessa viagem de achar a resposta e despertar o nosso o ser definitivo no coração, morada dos sentimentos verdadeiros.


Séria ameça ao Brasil: venda de terras para estrangeiros – por Hélio Brambilla


   No final do ano legislativo o Senado desengavetou um projeto que “dormia nas gavetas” havia mais de um ano. Trata-se do PL 2963/19, apresentado pelo Senador Irajá Abreu, o qual foi aprovado em apenas 44 minutos na noite do dia 15/12/2020! O projeto torna realidade a venda ou o arrendamento de propriedades rurais a empresas estrangeiras. O texto seguirá para a Câmara e, caso não sofra alteração e seja aprovado, seguirá para sanção presidencial. Segundo notícia de O Estado de São Paulo (17/12/20), a medida dispensa autorização ou licença para aquisição de qualquer modalidade de posse por estrangeiros. (…) O texto determina que a soma das áreas não poderá passar de 25% da superfície dos municípios. 

    O leitor concorda que 2.136.857 km² de nosso território de 8.547.403 km² sejam vendidos para estrangeiros? Sabe que essa área é maior que os territórios da Alemanha, França, Espanha, Itália, Portugal e Áustria juntos? Tem alguma dúvida de que a grande interessada em comprar o Brasil é a China? Deseja ver seus filhos e netos nascendo sob o regime comunista? O projeto constitui uma aberração política, pois o mais provável comprador dessas terras será a China comunista, que além de estabelecer inadmissíveis enclaves no Brasil, cultivaria essas imensas áreas para perpetuar a escravidão do seu sofrido povo. Se este não tiver o que comer, o regime vem abaixo. 

    A Europa está de joelhos, com uma população envelhecida e entulhada de muçulmanos, graças à permissividade do Papa Francisco e dos governos das nações que a compõem. As medidas econômicas suicidas tomadas por elas para enfrentar a pandemia arruinaram suas economias e não impediram a ceifa de milhares de vidas. Enquanto os países muçulmanos superpovoam a Europa, a China a locupleta com dinheiro, visando alcançar o mais rapidamente possível a sua hegemonia mundial. 

    Felizmente o governo brasileiro está na contramão dessa política suicida. Na véspera do Natal, o atual Presidente da República voltou a condenar o malfadado projeto de venda de terras a estrangeiros. Se estes comprarem 25% das áreas limítrofes de três grandes municípios, possuirão um território maior do que muitos Estados da Federação e até mesmo do que diversos países.

10 fevereiro 2021

Moacir Siqueira, uma joia que sempre brilhará

 Por Carlos Rafael Dias

 

Moacir Siqueira era um personagem típico de nossa cratensidade, apesar de ter nascido em São José do Egito, Pernambuco.

Sua história com o Crato é uma verdadeira epopeia.

Com 14 anos saiu de casa, pegando um trem para outra cidade.  O destino, entretanto, o trouxe para cá. Ele errou de trem na hora da baldeação.

Chegou ao Crato, garoto ainda, com a cara e a coragem, somente.

Cara e coragem de caboclo, trazendo nos ombros o peso da ancestralidade que se fez guerreira, para sobreviver o holocausto cruento de trezentos anos de colonização predadora.

Como ele disse, de maneira alegórica, limpou m... com as mãos para poder se radicar na Princesa do Cariri.

Mas sua sina o predestinara a ser um vencedor. Seja como jogador de futebol, defendendo com galhardia (ele gostava muito dessa palavra) times e a seleção do Crato, seja como empresário. 

Foi um político efêmero. O destino novamente se encarregou de fazê-lo prefeito da cidade que ele adotou e que também, a duras penas, o adotara.

E foi um político e mandatário atípico. A História, nem sempre imparcial, há de lhe fazer justiça.

Agora resta a sua memória de homem íntegro, amigo, pai de família.

Tive o privilégio de ser seu amigo e de ter sido seu assessor no seu breve, mas profícuo tempo de prefeitura, na condição de secretário de Cultura.

Tenho muitos exemplos de sua grandeza. Vou me reportar a um que me tocou fundo o coração.

O poeta Luciano Carneiro, outra vítima, como ele, dessa maldita “gripezinha”, era vigilante do Museu do Crato, onde também funcionava a Secretaria de Cultura.  Ele tinha passado algum tempo de licença de saúde, em decorrência de uma depressão que o acometera pela morte de um filho, vítima de um acidente de motocicleta. Retornou ao trabalho, mas não estava totalmente recuperado. Veio falar comigo. Disse-lhe que nada podia fazer, pois não tinha autoridade para tanto.

Passaram-se alguns dias e, certa noite, em um evento que realizávamos no Museu, Moacir chegou e viu o poeta de farda, no seu turno de trabalho. Moacir, então, perguntou:

- Poeta, o que você está fazendo aqui?

Luciano respondeu que estava trabalhando, pois era o vigia da repartição.

Moacir disse-lhe que “poeta é para fazer poesia”, e dispensou-lhe daquele encargo tão tormentoso, o cedendo à Morada da Poesia, gráfica da Academia dos Cordelistas do Crato, do qual o poeta Luciano Carneiro era sócio.

Na sua simplicidade, Moacir mostrou quem era e para que veio.

Agora, com certeza, está mostrando para onde vai, deixando esse conturbado mundo mais pobre de exemplos nobres como os dele.

Morreu Moacir Siqueira, o prefeito que consagrou Crato a Nossa Senhora de Fátima -- por Armando Lopes Rafael (*)

   Era o dia 27 de janeiro de 2000.

   O Palácio Alexandre Arraes, sede da Prefeitura Municipal de Crato, estava lotado. Ante uma belíssima imagem de Nossa Senhora de Fátima, o então Prefeito, Moacir Soares de Siqueira, visivelmente emocionado, comandava a solenidade de Consagração da Cidade de Crato ao Imaculado Coração de Maria, com a leitura do texto a seguir transcrito.

    “Ó Virgem Senhora de Fátima, a cidade de Crato, prostrada aos vossos pés, crê e espera, deseja e implora a realização de vossa grande promessa: Por fim, o Imaculado Coração Triunfará!
      E nós, enquanto Prefeito deste povo fiel, em união com o Santo Padre o Papa João Paulo II, com o nosso Bispo Dom Newton Holanda Gurgel, e todo o clero, aclamamos desde já este triunfo, que fará raiar no mundo o Reinado de vosso Divino Filho, Cristo Jesus, nosso Redentor.

      E, ao mesmo tempo, suplicamos a graça de sermos instrumentos em vossas mãos para edificação deste Reinado, que só será verdadeiramente de Jesus, se for inteiramente vosso! Sois Vós, Senhora, a Estrela da Esperança e a Aurora do Terceiro Milênio. Foi por Vós que Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo, e será por Vós que ele reinará no mundo.

       E nós, vossos filhos de Crato queremos buscar em primeiro lugar este Reino, o Reino de Jesus em Vosso Imaculado Coração, bem certos de que todas as outras coisas nos serão dadas por acréscimo.

       Para selar oficialmente este propósito, nos Vos consagramos – tanto quanto nos outorga nossa autoridade de representante civil deste povo católico – nós consagramos ao vosso Sapiencial e Imaculado Coração nossa cidade, com todas as suas famílias e instituições.

       Aceitai, Senhora, esta consagração. Nós a depositamos em vosso Coração Imaculado, para assim nos consagrarmos mais santa e plenamente ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Divino Filho. Assim seja.”

* * *

        A emoção e o silêncio de todos os presentes dava a entender que Nossa Senhora tinha aceitado esta consagração e parecia dizer a cada coração: “Fiquem tranquilos. Por fim, meu Imaculado Coração triunfará.”

        Assim, naquela singela iniciativa de 27 de janeiro de 2000, o Prefeito Moacir Soares de Siqueira – com a legítima autoridade de que estava investido – ao consagrar o Crato a Nossa Senhora de Fátima, separou para Deus esta cidade e seus moradores, oficializando-os – no âmbito civil – como propriedade da Virgem Santíssima. Esta, certamente, cuidará ainda com mais carinho e desvelo maternal, tanto da cidade como do seu povo, que já lhe pertenciam por desígnios de Deus, e cuja pertença foi ratificada por suas autoridades civis constituídas...

(*) Armando Lopes Rafael é historiador

O caminho nos próprios passos - Por: Emerson Monteiro


Todos os que caminham de costas para o Sol estão seguindo sua sombra.
                                                                                            Rumi

Tal seja assim, andar, de ir adiante, no ensejo de quem quer que exista nas quebradas do Tempo soberano. Mundos a fio, idas adentro da gente. Busca incessante de salvar o nexo de viver, nas missões dos que aqui e quantos existam. Sonhar, seguir nas estradas das noites, dos dias, horas sem par na imensidão de futuro imenso, réstia dos séculos. Nisso, revelar a essência de si aos rochedos da Eternidade. Entes misteriosos de histórias inesquecíveis, braços estendidos ao desejo das luas novas que passam velozes no trilho do horizonte, tateamos na procura dos Céus, frutos que somos do Amor divino, filhos diletos da Criação superior.

Caímos tantas vezes nesse agir das circunstâncias, que nós, titãs da Felicidade, só admiramos as belezas do Universo; no entanto queremos experimentar o fascínio das taças do mistério quais aprendizes dos erros de ignorar, experimentos da sorte que seremos, diante da perfeição do Paraíso, e tocamos em frente à luz que transportamos no íntimo, senhores do coração. O querer que nos conforta neste passar de momentos oferece os meios de nos salvar dos medos e das ruínas.

Há isto, porém, de vir revelar o ser primordial que já habita em nosso existir, pois viemos dotados de tudo o de que carecemos até localizar na alma o poder infinito de transformar o mundo em cada um e ser. Disso falam os credos, descrevem a paisagem onde formulamos o roteiro da felicidade. Seremos sempre esses artífices da solidão no exercício da paz, dotados de suficientes recursos de fazer do barro imagens luminosas, precursoras da esperança e da realização plena do que aqui viemos buscar.

Destarte, olhos postos na imagem que ora projetamos à nossa frente, saberemos que uma luz esplendorosa nutre o caminho sobre que andamos, nesta e noutras vidas, autores dos passos seguintes, no itinerário único da Fé.


08 fevereiro 2021

Nhá Chica e a republica brasileira – por Armando Lopes Rafael

       Para quem que ainda não ouviu falar na Beata Nhá Chica, informo que este era um apelido dado a Sra. Francisca Paula de Jesus, filha e neta de escravos. Dona Francisca de Paula de Jesus – mais conhecida por Nhá Chica –, foi beatificada pela Igreja Católica em 2013. Nascida em Minas Gerais, em 1808, num distrito do município de São João del Rey, aos dez anos, em 1818, ela acompanhou sua mãe que se mudou para a vila de Baependi. Nesta última cidade, Nhá Chica viveu toda a sua vida, vindo a falecer – em odor de santidade – em 14 de junho de 1895. Ficou órfã de mãe aos dez anos de idade. E a partir daí viveu sozinha. Dizia Nhá Chica que “cresceu e viveu sob os cuidados de Nossa Senhora”. Nunca aceitou propostas para casamento.

      Nhá Chica era analfabeta. Na infância aprendeu com a mãe a amar a Deus e fazer caridade às pessoas, sem distinção. Tinha profunda devoção a Virgem Maria. Venerava, no seu humilde lar, uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Em frente a essa estatueta rezava por horas seguidas... E nesses colóquios recebia orientações para ajudar a quem a procurava. Ganhou fama de uma mulher santa, visionária, que sempre acertava nas profecias anunciadas.

        Quando de sua beatificação, o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança escreveu: “Durante muito tempo o Brasil católico — a Terra de Santa Cruz — sentiu a ausência de santos brasileiros reconhecidos. Afortunadamente eles vêm chegando, como a manifestar o desvelo da Providência em que nossa Nação conte, nessa quadra histórica, com mais intercessores. E Nhá Chica é muito genuína e caracteristicamente brasileira, por suas origens, seu temperamento, sua bondade, sua Fé singela e íntegra.” 

            Mas voltemos ao título e assunto deste artigo. Com fama de vidente, Nhá Chica foi procurada, em 1889, por um grupelho de “republicanos” de Baependi, torcedores da derrubada do Imperador Dom Pedro II do Trono Brasileiro e da implantação do regime republicano na nossa pátria. No livro “Nhá Chica, perfume de rosa – Vida de Francisca de Paula de Jesus”, o escritor italiano Gaetano Passarelli, narra o fato: “Um deles saiu-se com o seguinte pedido: “Dona Francisca, reze para o Senhor ajudar a mandar embora o Imperador”. A anciã o fitou e ficou impassível. A essa altura, ela perguntou: “Por quê? é uma ingratidão com relação ao Imperador, ele é o pai de todos nós”.

              Desconsolados, eles pediram então que ela fizesse pelo menos a previsão de quem venceria a disputa: se os monarquistas ou os republicanos. Nhá Chica disse que iria rezar diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição e voltaria com a resposta. Retirou-se. Depois de algum tempo voltou e disse: “Podem gritar: República”. Entretanto, em 1895, pouco antes de falecer, Nhá Chica teve uma longa conversa com o médico Henrique Monat. Este deixou escrito detalhes do encontro. Durante o diálogo com Monat, Nhá Chica deu seu veredito sobre os rumos do regime republicano no Brasil: “Estou vendo a República como uma coisa sem consolo nem sossego”.

                 A profecia de Nhá Chica, feita há 125 anos, não poderia ser mais exata...

Fonte de Consulta: PASSARELLI, Gaetano. Nhá Chica, perfume de rosa – Vida de Francisca de Paulo de Jesus. Edições Paulinas. São Paulo, 2013. Páginas 151,152 e 171.   

07 fevereiro 2021

Eles somos nós - Por: Emerson Monteiro


Enquanto multidão ignara bate no peito e diz que odeia política e se esconde detrás das portas do anonimato, eles saem com vontade forte a dominar os poderes e cargos públicos, determinam as bases da sociedade, e o mais já sabemos. Frutos das árvores que deixamos de plantar, e eles plantam a valer no solo das nossas mesmas chances largadas ao vento. Bem isto, no fazes por ti que os céus te ajudarão, do dizer popular. Ou se deixares de fazer, outros farão dalgum modo, quase sempre a interesse próprio, longe dos valores da coletividade.

Depois saem vagando pelas malhas deste mundo de olhos vendados às responsabilidades deixadas ao léu da sorte, que sobram às garras fratricidas dos que investem na política feitos feras famintas, por isso perdas acumuladas há séculos, no decorrer da história. De todas as vezes pouquíssimas oferendas foram aproveitadas pelos cidadãos deste mundo.

Porém nunca será tarde a que possamos exercitar o direito das nossas escolhas e transformar os destinos sociais. Contudo é urgente a participação de todos junto às instituições políticas. Abrir os olhos e agir, invés de abrir mãos desse poder sagrado. 

A respeito disso, certa feita, ouvi do então deputado federal Lysâneas Maciel a seguinte narrativa: Na Alemanha, um reverente pastor zelava pela sua comunidade religiosa quando ocorreram as primeiras detenções do período negro que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Primeiro prenderam líderes comunistas. Ele pensou consigo: - Não sou comunista, portanto nada tenho com isso. E se omitiu de reagir em face das violências daquela hora.

Os senhores da ditadura de Hitler seguiram, pois, na escalada do terror, vindo deter também os socialistas, motivando no religioso idêntico descompromisso. Por não ser socialista, permaneceu indiferente, aceitando como normais as manobras da Gestapo.

Depois, levados seriam homossexuais, prostitutas, ciganos e outras minorias perseguidas; ele apenas repetiu o raciocínio de ficar inerte diante de tudo o que observava, sem, no mínimo, falar ou demonstrar qualquer posição perante o que presenciava dos desmandos às pessoas de sua comunidade.

Também prenderiam judeus e católicos; o religioso em nada alterava suas relações com as forças do poder, conquanto via fora de propósito tomar atitudes que pensava não lhe dissessem respeito. Nem de longe avaliava qualquer responsabilidade pelas arbitrariedades praticadas. Até que, na sequência dos acontecimentos, bateram na porta da sua igreja para levá-lo, e nessa hora ninguém houve que mobilizasse forças em seu auxílio. Todos estavam ausentes. 

Sei que alguns podem ler tais palavras, o que me faz trazê-las dalgum modo, sobretudo lembrando as gerações que nos sucedem e necessitarão, de certeza, das razões que justifiquem uma ativa participação política. 

06 fevereiro 2021

As cores de Matusahila – José Luís Lira (*)

   Matusahila Pereira de Sousa ou, simplesmente, Matusahila Santiago, nasceu no dia de Santa Dorotéia, virgem e mártir, aclamada a Santa das Flores, seis de fevereiro. A Santa era nobre e bem educada. Viveu em Cesaréia, capital da província romana da Capadócia e foi martirizada por ser cristã no ano de 304 d.C., vítima das perseguições do Imperador Diocleciano.

     Foi na festa desta Santa que Deus mandou à terra Matusahila. Seu pai lhe escolheu um nome único, mostrando que a filha seria especial não só para ele, Sr. João Elmiro e Dona Olga, mas para todos os que com ela viessem a conviver.

    Matusahila herdou de sua Santa protetora, Santa Dorotéia, a nobreza e a educação e, ainda, o amor pelas flores. Era raro encontrá-la sem uma flor ornando sua beleza. Fátima Lemos lhe escreveu uma linda crônica sobre suas rosas, em sua partida. Ainda é difícil para mim sobre ela escrever. Ela possuía uma capacidade de radiografar a alma humana. 

    Relembro de suas cores: amarela (sua preferida), azul, preto, verde e vermelho.  A cor amarela representa leveza, descontração, otimismo. Simboliza criatividade, juventude e alegria. O azul produz segurança, compreensão. Propicia saúde emocional e representa lealdade, confiança e tranquilidade. O preto, segundo a tradição, permite a autoanálise, a introspecção, pode significar, também, dignidade, estando associada à inteligência e ao mistério. O verde simboliza esperança, perseverança, calma, vigor e juventude.  O vermelho ativa e estimula, significando elegância, paixão, conquista, requinte e liderança. 

    Estas, para mim, eram as cores de Matusahila que da cor amarela tinha a leveza e o otimismo que a faziam alegre e jovem sempre; a segurança, compreensão e lealdade do azul que fazia com que nela encontrássemos um porto seguro e tranquilo; do preto, a dignidade, a inteligência e o mistério; do verde, a esperança, a perseverança que não a fez nunca desistir de um intento ou de um projeto; finalmente, o vermelho era ela própria: elegância, paixão, conquista, requinte e liderança. 

    Seu nome se originou de Matusalém, do hebraico, que significa aquele que maneja a lança. Matusahila foi leitora assídua do Antigo Testamento, de onde se origina seu nome e onde encontro uma definição para ela: “Uma mulher de valor, quem a encontrará? Ela vale mais que o coral” (Provérbios 31,10).

    A Matusahila foi poeta sensível, cronista de mão-cheia e diria até que nos seus artigos sobre etiqueta social, aqui e acolá, ela resgatava histórias milenares, dava exemplos e, além de nos ensinar como deveríamos nos portarmos socialmente, ensinava-nos o que de mais precioso devemos buscar: a viver!

    Ela sabia bem o valor da imortalidade. Comigo fundou duas Academias, mas, a menina dos seus olhos foi a Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, onde nos conhecemos e que ela tanto amava.

   Este texto foi escrito antes e agora adaptado. Com Matusahila dividi tantos sonhos, afeto, emoção... Este é seu primeiro aniversário no Céu. Ela reencontrou seu pai, sua mãe, a titia Elisa, o seu irmão Walmuso, a madrinha Mirtes..., está feliz! Para nós, ficou uma saudade imensurável e, “aquele adeus, não pude dar”. “Você marcou [para sempre] em minha vida”!

   Com lágrimas nos olhos, feliz aniversário, Sahila!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.
 


05 fevereiro 2021

O fascínio da Arte - Por: Emerson Monteiro


Lá num tempo bem distante, enquanto iniciava a busca impetuosa da consciência, os primitivos já desenhavam nas paredes das cavernas primeiras manifestações de querer reproduzir outras realidades, na magia simpática, raiz da Arte desde sempre. Esse impulso iremos ver noutras e tantas ocasiões; nas salas de cinema, nos guetos, nas praças; livros, telas, espetáculos mil espalhados neste chão. Das cavernas aos abismos de nós mesmos, bem de dentro, nasceram filosofias, religiões, escolas; os mistérios dos romances, de telas imensas largadas nos céus da beleza incontida, nas linhas dos códigos da Terra; nas histórias de adormecer; no anseio incessante dos andarilhos da sorte e, certo dia, achar o pouso das aventuras até construir os palácios da paz, vindos esses pelas rondas do destino.

Os artistas são os investigadores da alma humana, habitantes do coração das pessoas. A necessidade primeira da gente é a criação, qualidade latente que às vezes manifestou seu poder nas muitas horas das civilizações. Eles são também místicos, viajores doutros mundos na forma de visões que falam o que dizem e só eles podem escutar. Avisam, repercutem e padecem o preço de serem audaciosos na pauta comum das sociedades rotineiras. Qual provar doutro jeito aquilo que presenciam nas furnas de si e transmitem através dos tratados sobre-humanos ignorados?! Nisso desvairam diante das tradições, e indicam o que virá das colinas do depois. Eles, os artistas de constelações e muitos céus, senhores das sensações do alto aonde foram e jamais retornarão.

Lembro emoções de quando planejávamos, semanas a fio, ver os filmes em cartaz no Moderno, no Cassino, na Educadora, e quantas vezes passeamos por dentro de cenas em telas imaginárias, esses eternos viajores dos encontros guardados na película do Infinito.

Daí os grandes autores e as histórias maravilhosas, unicamente, mágicos da percepção e donatários de heranças inigualáveis. Há um brilho no olhar dos artistas, primeiros habitantes dos países da esperança e mestres das possibilidades que carregam conosco todo tempo. Algo de fascinante, pois, significa essa criatividade dos menestréis das lendas sem fim.


04 fevereiro 2021

Nessas tardes azuis - Por: Emerson Monteiro


Frutos de um desejo persistente, sem fim, de real felicidade, vamos aqui aos sóis de tantas luzes, quando esta fome de viver nos arrastar vidas adiante. Passos entre o crivo da ilusão e a vontade por vezes inútil de encontrar o céu, cabe resistir, pois, a todo custo face dos ditames do vazio que persegue as noites mais escuras das vilas esquecidas. Os quadros das horas que se foram regressam insistentes cheios das notas musicais que vagavam soltas pelo ar e chegavam fortes ao coração. Vozes quase gritos pedem socorro a si mesmas, na ânsia de dominar o movimento incessante das pulsações, fatalidades e destinos. Vêm de dentro da alma quais de calabouços imaginários. Sobem às bordas do firmamento e clamam veementes que lhes deem ouvidos, escutem as velhas cantigas do presente em chamas, vozes dessa oração de graves perguntas e poucas ou nenhumas respostas da humanidade extática. Só falas de almas penadas a deslizar nas telas do pensamento e virar dores no peito a meio palmo dos longos suspiros de saudade.

Horas cadenciadas ao sabor dos fiapos dessas palavras que escorrem pela boca do sentimento e refazem de lama as trilhas doutras histórias; passam ao largo feitos pequenos roedores soltos nas planícies de antigamente. Furor de existir a todo custo, querer vencer a guerra do desaparecimento e contar que tudo viveu ao clarão das fogueiras iluminadas. Reflexos de quantos dias feitos ausência, viagens noutras terras de outros filmes que repousam guardados na memória e voltam sempre, perante o instinto de sobreviver a tudo. Força descomunal da existência que ainda mantém aceso o tempo nas criaturas que haverão de concretizar qualquer sentido, mesmo que hoje de pureza inalcançável. 

Frações de segundos sustentam essa esperança de controlar o infinito da consciência, e nisso fincar as unhas na carne deste mundo em que percorrem as florestas do Sol. Duendes audazes olham os próprios olhos e vislumbram a montanha encantada de que disseram lá um dia. Sabem ser ali em que vivem os tais senhores da esperada Felicidade, e exaustos adormecem outra vez à sombra dos amores ausentes. 

(Ilustração: Centro de Artesanato Mestre Noza - Juazeiro do Norte CE).

02 fevereiro 2021

Sem título - Por: Emerson Monteiro


Mais à noite, quando todos dormem e o silêncio sai na busca de encontrar os solitários que vagam sem direção pelas ruas da cidade. Horas distantes até mesmo do tempo, quando ninguém encontrará ninguém que seja, nessas calçadas desertas. Só o bater de corações adormecidos lá no galpão dos apartamentos, e uma saudade imensa mantém o calor das paixões junto dos desavisados. Nessas horas, pois, há música pelo ar, acordes leves de blues, toques dolentes de pianos, e vozes suaves invadem a escuridão. Os estirões dos trompetes cadenciam a ausência forte das vivalmas no firmamento. Nisso, bem ali tudo acontece, qual jamais antes. 

Foram as tantas noites assim que construíram os pilares da Eternidade. Pessoas que deslizavam nos vultos das sombras e decidiram que devessem continuar para sempre com as horas, nas páginas acesas do momento. Criaram ficções de lugares e cenas onde pudessem acontecer os mistérios que hoje perlustram o senso dos vagabundos soltos em horas mortas. Reconstruíram de desejo a vontade incontida de achar alguém que lhes pudessem escutar na mesma linguagem, que nasciam dessas ocasiões inevitáveis. Aprenderam pelo amor da solidão a se lançar ao mar da sorte quais perdidos fossem de portos inexistentes.

Daí quantas vezes regressam fragmentos daqueles apegos dos turnos apagados na memória, porém que nunca esquecem reviver a saudades escondidas sob o manto concreto do passado que sobrevive aos escombros. Chamas de outras fogueiras apenas aguardam novas chances de gritar de dentro do peito e dizer que resistem a tudo. Desafiam na música, nos livros, nas flores, nas paixões... Acordes submersos daqueles sonhos antigos hoje voltam abertos ao Infinito, tais aprendizes do amor que viveu nos sentimentos esquecidos.

Elas são nítidas presenças que andam lado a lado com a gente nessas viagens internas que o coração realiza, nas excursões das noites, no entanto que as dominam, esses andarilhos dos céus entre estrelas e naves de aventuras errantes. Lembro a mim, umas muitas vezes, cruzando a ponte que divide o instante e a percepção; ali vejo cores e luzes que formam a existência e os mundos guardados nos refolhos do ser que ora somos. 


01 fevereiro 2021

As histórias da História - Por: Emerson Monteiro


O homem é naturalmente um animal político.
 Aristóteles

Neste momento, aonde for, iremos nos deparar com situações nitidamente fora daquilo tão desejado desde sempre face aos sonhos da humanidade no decorrer dos tempos. Lá antes, ainda na Grécia Antiga, pensadores idealizaram época quando se faria, na prática, o que guardavam das suas cogitações sobre a alma humana. Porém desde então experiências vêm sendo elaboradas através dos povos, sem, no entanto, chegar à esperada perfeição.

De piores a melhores instantes são registrados, a partir da prática política. Líderes e líderes entram no cômputo das oportunidades, assim, de igual modo visando transformar as sociedades, contudo logo em seguida muito do que trazem aos dias desaparecem como que por encanto nas gerações posteriores. 

Nesta fase, por exemplo, há nítida confusão entre política e finanças em tudo que é país deste mundo. Virou investimento privilegiado investir em cargos públicos. Isto por conta do poder que representa a mobilização do erário e do afastamento imediato dos cidadãos na zona de comando, vista a sofisticação da sociedade. Por mais que pretendam, os afazeres cotidianos fraciona a participação política, alienação necessária aos moldes com que lutam pela sobrevivência. 

O pragmatismo dessas horas significa entregar aos eleitos à distância e sob a propaganda massiva dos meios de comunicação o destino de tudo enquanto, a partir da organização precária das instituições aos valores morais e espirituais. Ninguém sente segurança ao escolher os próximos titulares dos postos ditos democráticos, quando, no chegar aos níveis de poder, demonstram, moto constante, profundas contradições naquilo a que foram escolhidos. Hoje virou pecha de atividade inglória a escolha dos nomes que governam, com raras exceções, o que, inclusive, merece destaque, qual não seja esta a missão essencial de quem foi eleito. Ser-se honesto, justo, ético, nesses tempos inglórios, só de longe vem caracterizando o exercício pleno dos mandatos outorgados pelo povo.

Bom, foram algumas avaliações que me chegaram ao pensamento, na intenção de interpretar aspectos característicos desses turnos da política, fruto de resultados que nos trouxeram até aqui na História contemporânea. 

(Ilustrações: O Gato do Rabino (Le Chat du Rabbin) – França, 2011
Direção: Antoine Delesvaux, Joann Sfar).

31 janeiro 2021

A leveza dos corações em festa - Por: Emerson Monteiro


Às vezes, me pergunto que sentido há em tudo, a que esse tudo propõe diante da eternidade das existências. Isso que representa a justificativa dos elementos em ação, a causa do movimento intermitente de estarmos aqui, enfim. Isto de que o juízo reclama de explicação. O princípio e o fim, sequência natural de acontecimentos. Espécie de tambor incansável ressoa no coração; no cérebro, circuitos elétricos de corrente contínua registram, sem cessar, o conhecimento; pensamentos persistem resistentes na visão cinematográfica a que, por certo, existem e existimos, dentro e fora do mistério das formas e cores, sombra e luz; o porquê e o por quê dessas funções nas quais somos atores, aprendizes e expectadores...

Espécies que se alimentam do próprio voo, tangemos passos nessa estrada feitos rebanhos que assim o seremos, de uma só família, talvez inocentes, insistentes, fieis de credos mil, no entanto aqui, olhos postos na cena posterior, incansáveis e uteis de realizações que somem à medida de um tempo que nunca passa e nunca para de passar. 

Nisso, a força inevitável deste poder sem par que sustenta os barrancos do firmamento, damos nosso jeito de aguardar sempre a alegria de estar vivos na próxima cena imaginária. Buscamos inevitavelmente ser felizes, pois alimentamos o desejo mais forte do sucesso naquilo que queremos e sonhamos do melhor a todo instante. Máquinas exóticas de uma criação sofisticada, tocamos em frente essa história da qual fazemos parte, todavia artesões de tapetes silenciosos ainda longe de conhecermos suas reais finalidades, nestes céus ilimitados.

Barcos livres na correnteza da sorte, abraçamos as horas e nos acreditamos autores de nossos próprios destinos. Ah, esquecemos o desconhecido que rege a orquestra que trazemos guardado nalgum lugar de nós mesmos o sol, anônimos personagens de nossos dias de viver, conviver com isso que agora bem representa o que caberia exercer sob o manto deste Ser que tece harmonioso seu segredo e avalia os resultados do que fazemos de nossas almas livres, na peleja inevitável de um dia despertar noutro universo de absoluta perfeição.


30 janeiro 2021

Fideralina Augusto Lima - Por: Rejane Monteiro


Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensões de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação
. (BORGES, 2011, p.11)

Distante, até onde minha mente alcança, vejo o seu olhar sisudo e irrequieto, um sorriso pequeno e triste. Vestido comprido, xale com franjas sobre os ombros, sentada numa cadeira de balanço no alpendre do Tatu. Bacamarte do lado e um outro adiante, no peitoril da janela. Fogueira ardendo no terreiro, um pouco distante da casa, iluminando desde os menores movimentos dos cabras armados, com cartucheiras atravessadas ao peito, ao dos negros escravos que procuravam abrigo na senzala. Ali faltava Ildefonso, há pouco tempo falecido. "Ali estavam seus doze filhos, os mais velhos com 23 e 22 anos de idade e os menores com 6 e 8 anos" (CEARÁ, 1877). Ali, o alvoroço de pensamentos, planos e incertezas, a sacudirem a paz e o silêncio de Fideralina.

Difícil imaginar a nova face do seu ego em eclosão, até então latente. Como animal acuado, que rompe a corrente que o prende, tem ânsia de luta, tem garra, tem coragem para enfrentar a situação que a surpreende. Tem visão e sensibilidade. Mãe e educadora exemplar, prega aos filhos o respeito e o acatamento às determinações, que deveriam nortear sua conduta. Projeta-se neles, mantendo-os nos melhores colégios e cursando a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, filho e neto, enquanto inicia os menores nos bancos da escola na vila e cidade de Lavras. Elege-os deputado provincial, deputado federal e deputado estadual. Reveste-se de mulher política. Destaca-se no cenário do Estado por influência do voto dos comandados, que alimenta seu prestígio no Governo, fortalecendo a liderança política em Lavras e no centro-sul do Ceará. Os chefes dos municípios, seus pares, "andando sempre armados, vários deles, onde quer que estivessem ou aonde quer que fossem, acompanhavam-se de cabras, igualmente armados, para os quais, nas próprias residências dos coronéis, havia dependências reservadas" (MACEDO, J., 1990, p. 37)  "Como verdadeira coronela do sertão, tinha que andar armada e protegida por gente guerreira. Também, devia dispor de um arsenal de armas e grande quantidade de munição" (PAIVA, 2008, p. 71).  Assim, reina no grande feudo que recebera de herança do pai e do marido, conseguindo manter-se no poder político por força das armas. Punhal e bacamarte, extensões do seu braço, sabia usá-los, para defesa, como ninguém. Leal com os amigos, impiedosa com os inimigos, imprime deferência e autoridade, gozando da confiança dos influentes e poderosos coronéis. Em seus embates, sucessivas vitórias. Não viu o fim da oligarquia que implantou, por sinal, uma das mais duradouras do Ceará. Desse modo, "não entrou na História por grandes desafios e conquistas em tempo curto. Entrou, sim, porque participou das lutas pelas transformações políticas e sociais do Ceará durante sua longa existência". (GONÇALVES,1991, p.31)

"Aos 16 dias do mês de janeiro de 1919, faleceu em sua residência, na rua Major Ildefonso, cidade de Lavras, Dona Fideralina Augusto Lima, viúva  do Major Ildefonso Correia Lima" (CEARÁ, 1919). Falecida aos oitenta e sete anos, recebeu os sacramentos da Santa Igreja. Seu cadáver amortalhado em hábito preto, foi sepultado no cemitério público de Lavras, conforme termo assinado pelo Vigário Monsenhor Meceno Clodoaldo Linhares.

Um século com a memória de DONA FIDERALINA AUGUSTO LIMA

A figura de Fideralina perdura no tempo, na memória coletiva de várias gerações e atravessa um século. Certo é dizer que continua mais intensamente entre nós, mostrando-nos a evolução dos fatos históricos, dando-nos testemunho do papel de mulher guerreira que se destacou na sociedade machista e patriarcal. Depois de um século, ainda se procuram respostas e razões para uma vida cheia de surpresas e contrastes, de atitude subversiva em torno dos costumes da época em que viveu.

Com inteligência e sabedoria, passa aos filhos e netos o bastão da caneta, e deixa como legado o estudo, a literatura, o livro, extensões da memória e da imaginação. "O bacamarte e a caneta ela os transmitiu para os filhos e netos, mas o cruzamento desses objetos e símbolos do poder tornaram-se também a representação do Município de Lavras". (MACEDO, D. 2017, p.146)

Por que, nesses cem anos, mais livros registram sua história, mais histórias são criadas pelo imaginário? Surpreendente o número dos que buscam compreendê-la e estudá-la nas rodas acadêmicas, nos grupos de pesquisa, em monografias. "Extensas são as crônicas históricas ao seu respeito desde Raquel de Queiroz a Cego Aderaldo, que escreveram e cantaram suas aventuras e bravuras por todo Nordeste brasileiro" (COUTO, 2018 p. 27). No ano de 2013, o III Cariri Cangaço, capítulo de promoção periódica da Sociedade Brasileira do Cangaço, incluiu em sua programação oficial uma visita ao Sítio Tatu. "Essa entidade de pesquisa antropológica, envolveu nesse ano de 2013, estudos da força marcante de Dona Fideralina Augusto Lima, a matriarca da família Augusto, nos capítulos da ancestralidade cearense". (MONTEIRO, 2016, p.117). Que o diga Dimas Macedo, a disputa de memória em torno de Dona Fideralina Augusto está ainda começando. É fato que já existem trabalhos fundamentados em pesquisas e tradição, que têm preenchido lacunas no seu conhecimento, como é certo que é inseparável sua história das lendas e fantasias criadas com seu personagem. Enfim, todo o conhecimento que se tem sobre a líder política singular dona Fideralina é assaz pequeno diante do que representa o desconhecido. Mas temos a esperar e veremos, por estudos científicos, "às luzes da Ciência Política e da Sociologia Política" (MACEDO, D. 2017, p.166) que sua memória viverá em outras gerações, por mais séculos, também consagrada nos livros que hão de vir.

"Dona Fideralina, ainda hoje, anda na boca dos cantadores". O folheto de cordel e a cantoria têm consagrado seu nome e sua história ao longo do século. Não poucos poetas repentistas têm cantado sua memória e levado aos admiradores da Literatura, com a riqueza de expressão própria de cada um, o encanto de uma vida que deixou marco no final do Século XIX e início do Século XX. Rimas e versos da poesia popular imortalizam o nome da mulher guerreira que hoje compõe o lendário cearense: "Tudo era cronometrado/ não fazia nada à toa/ carrasca para os inimigos/ para os amigos era boa/ insultada era uma fera/ outros diziam que ela era/ uma rainha sem coroa" (TELES, 2013, p. 5). É do poeta Geraldo Amâncio: "Desse clã uma mulher/ é o vulto mais notável,/ de uma resistência incrível,/ de bravura incomparável,/ é Dona Fideralina/ uma força feminina/ até hoje inigualável" (AMÂNCIO, 2018, p.5).

Quanto a sua descendência, sente-se feliz e orgulhosa de fazer parte dessa grande árvore, desse complexo imenso de filhos, desse corpo vivo, secular: família Augusto Lima, árvore de raízes profundas. Sua descendência, por longo tempo, ocupou Cadeira de prefeito municipal de Lavras e tem ocupado nos diversos municípios nordestinos, assim como sempre ocupou e ocupa na Câmara Federal, Estadual e Municipal, além do Senado, e  com destaque no meio artístico, científico e intelectual. Numa demonstração de fidelidade aos anseios da Matriarca, há cem anos falecida, seus descendentes têm tido consciência da responsabilidade de ir repassando às gerações que surgem o bastão da caneta e da política.

Fortaleza CE, jan. 2019.

Rejane Monteiro Augusto Gonçalves

BIBLIOGRAFIA

AMÂNCIO, Geraldo. Fideralina Augusto: a matriarca de ferro. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018, 21 pp.

BORGES, Jorge Luis, 1899-1986. Borges, oral & Sete noites/Jorge Luis Borges; tradução Heloísa Jahn.  São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

CEARÁ. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO. Certidão [de] Inventário [de] Ildefonso Correia Lima. Emitida em: 15 set. 2000. Cartório de Lavras, 1877. Processo n. 31, Pacote n. 13. Inventariante: Fideralina Augusto Lima. Inventariado: Ildefonso Correia Lima.

COUTO, Cristina. A Tragédia de Princesa: o caso Ildefonso Augusto de Lacerda Leite. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018, 183 pp.

GONÇALVES, Rejane Monteiro Augusto.  A Vocação política de Fideralina Augusto Lima, Fortaleza: IOCE,1991, 37 pp.

CEARÁ. ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO. Certidão [de] Inventário [de} Fideralina Augusto Lima. Emitida em: 15 set.2000. Cartório de Lavras, 1919. Inventariante Gustavo Augusto Lima. Inventariada: Dona Fideralina Augusto Lima.

MACEDO, Dimas. Dona Fideralina Augusto: mito e realidade. Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017, 181 pp.

MACEDO, Joaryvar. Império do Bacamarte. Fortaleza: Casa de José de Alencar Programas Culturais-UFC, 1990, 274 pp.

MONTEIRO, Emerson. Histórias do Tatu. Crato: Gráfica Ideal, Cajazeiras PB 2016,154 pp.

PAIVA, Melquíades Pinto. Uma matriarca do Sertão: Fideralina Augusto Lima (1832-1919), Fortaleza: Livro Técnico, 2008, 156 pp.

TELES, J. História versada sobre Dona Fideralina Augusto Lima. Lavras da Mangabeira: Edição do autor, 2013.