18 setembro 2021

Uma carta: "Impressionando os Anjos" – por José Luís Lira (*)

    Quando meu amigo Samyr Figueiredo faleceu, Você não acreditou. Ao me ver chorando, tentando me animar, Você pediu que eu ouvisse a canção religiosa “Verdades do Tempo”, de Thiago Brado. Em dado trecho da música se ouve: “Passado não volta, futuro não temos e o hoje não acabou/ Por isso ame mais, abrace mais/ Pois não sabemos quanto tempo temos pra respirar/ Fale mais, ouça mais/ Vale a pena lembrar que a vida é curta demais”. As lágrimas embaçam um pouco a vista e preciso, instantes em instantes, levantar os óculos para desumedecer os olhos...

   Há alguns dias encontrei várias fotos nossas. A Professora Graça Fonteles escreveu sua biografia para apresentar, oficialmente, seu nome para patrona da cadeira 40 da Academia Cearense de Cultura. Foram tantas lembranças e acabei indo a Fortaleza. Recordo bem do que Você falava de quando seu pai faleceu e Você ia ao cemitério só para estar lá. Acho que me impregnei desse sentimento e diante de seu túmulo, lembrei, também, de uma pergunta sua, há tempos... Estávamos num sebo no Rio de Janeiro e do nada Você perguntou: “Será que no céu tem livros?”. Eu indaguei o porquê da pergunta e Você disse que seria “muito triste a vida sem livros” e eu citei Jorge Luis Borges: “Siempre imaginé que el paraíso es una especie de biblioteca”. No retorno ao hotel, ouvi uma música que meu irmão Ticar já tinha me apresentado. Mas, hoje ela teve o real significado e a vejo nova...

    A música é “Impressionando os anjos”, de Theo Andrade e Gustavo Mioto, cantada por Mioto. É sobre uma separação pela morte. Dizem eles: “Hoje foi tudo bem, só um pouco cansativo/ Dia duro no trabalho que acabou comigo/ Tô aqui com os pés pra cima pronto pra dormir/ A saudade de você é visita frequente/ Que nem a sua tia chata que irritava a gente/ Ah, saudade da gente.../ Ah, falando nisso, terminei o livro que você pediu pra eu ler/ E só na página 70, entendi você/ Naquela parte onde diz que o amor é fogo que arde sem se ver/ Como é que tá aí?/ De você faz tempo que não ouço nada/ Fala um pouco, sua voz tá tão calada/ Sei que agora deve estar impressionando os anjos com sua risada/ Mas de você faz tempo que não ouço nada/ Fala um pouco, sua voz tá tão calada/ Aí de cima, fala alto que eu preciso ouvir/ Como é que tá aí?”

   A página citada é de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer”. Sei que diferentemente da música, Você não impressiona os anjos com sua “risada”, mas, com seus poemas, seus aconselhamentos, sua sabedoria e seu afeto que não conseguia esconder quando amava. Aqui, Sahila, a saudade é grande... Tantas coisas aconteceram. Algumas que nós até falávamos que aconteceria quando Você ou eu fôssemos e, ao mesmo tempo dizíamos, não: não será assim. Enfim, não esqueço de Você um só dia e como seria bom ouvi-la. Naquela varanda, com o vento batendo em nossas faces e Você a dizer coisas tão bonitas. É assim que a lembro...  “A saudade de Você é visita frequente... Como é que tá aí?/ De Você faz tempo que não ouço nada/ Fala um pouco, sua voz tá tão calada”... Mas, eu sei que Você está bem. Desculpe as reticências e nem me preocupei em tanto repetir “Você”... Sei que não incomodará!
    

   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


17 setembro 2021

Os riscos do imponderável - Por: Emerson Monteiro



- Quem sente o verdadeiro perigo a cada instante não teme um instante de perigo. (Rabi de Guer).
Histórias do Rabi – Martin Buber

Quais aqueles que, em sã consciência, poderão dizer que estejam plenamente seguros diante do Desconhecido em movimento? A todo o momento, em face de tudo, mergulhamos no limbo da realidade feitos peixes vindos de outros mares que sumiram nos céus. Tocamos em frente o trem da nossa história feitos meros viventes do inesperado, tateando o escuro do porvir, às vezes dotados do mínimo de certezas, no entanto apenas minúsculas partículas das horas. Fragmentos, pois, desse futuro, deslizamos os passos nessa estrada, nem sempre senhores de todos os meios de que carecemos no sentido da paz.

Foram tantas as ocasiões de juntar experiências, no entanto apenas isso sendo aquilo que daria certo se assim houvéssemos posto em prática. De faróis que iluminaram o passado, avaliamos meios de melhorar a nós mesmos, nesse processo de querer desvendar o verdadeiro motivo de estarmos aqui.

Portanto, de aprendizes a senhores demanda o Infinito. Ninguém, de pleno senso, haverá de manter o curso dos acontecimentos tão só pelo desejo de ser um sábio, pois a todo segundo vêm novas instruções da escola dos mistérios desta escalada incessante.  

A leveza desse universo de cada um significa, por isso, tempo da mais pura convicção de fragilidade das ações humanas, longe da prepotência e dos arroubos de quantos, neste deserto de extremo risco. Quando acalmar as águas turvas da insegurança, eis o equilíbrio de que necessitamos, a depender das firmezas interiores. Daí a importância de clarear a consciência e nela estabelecer a luz do conhecimento através das práticas pessoais. De tudo quanto sabemos que sejamos disto os senhores.

E dos frutos dessa fidelidade da gente com a gente virão os meios de que precisamos, no sentido da evolução individual e, consequentemente, do progresso da Humanidade de que somos parte inevitável.

16 setembro 2021

Jackson Bantim, um artista que enriquece a cultura caririzeira

Por Carlos Rafael Dias

Carlos Rafael e Jackson Bantim


É costume dizer que “santo de casa não obra milagre”. 

Definitivamente, esse provérbio não se aplica ao artista cratense (e caririzeiro) Jackson de Oliveira Bantim, também conhecido por Bola.

Fotógrafo, cineasta, artista plástico, produtor cultural, museologista, autor de letras de músicas em parceria com Cícero do Assaré, Francisco Saraiva, Luiz Fidélis, Willian Brito e Rosemberg Cariry, gravadas pelo Quinteto Violado, Cícero de Assaré, Francisco Saraiva & Herdeiros do Rei, Vicente Neto & Forró de Raiz e  Eduardo Júnior  &  filhos do Crato, dentre outros, - Jackson Bantim é a autêntica expressão de um artista militante que tem na cultura uma espécie de flâmula norteadora de rumos e prumos.

Na ativa desde o início da década de 1970 (portanto, já se vão 50 anos de vida dedicada à arte), Jackson Bantim conserva o entusiasmo de sempre. 

Não esconde, na sua pitoresca sinceridade, os desapontamentos e as angústias que os esporádicos reveses da vida causam indistintamente naqueles que fazem a opção pelo diletantismo caracterizador do amor verdadeiro à arte.

Segue em frente, de cabeça altiva e triunfante.

Suas obras sãos os louros da vitória que insiste ostentar, não por vaidade ou soberba, mas como prova da resistência tão necessária e urgente nestes tempos duros de pandemia e pandemências.

Encheria laudas e mais laudas descrevendo em minúcias as contribuições de Jackson Bantim para a nossa cultura caririzeira. 

Basta, no entanto, citar a receptividade que seu filme As sete almas santas vaqueiras vem tendo na plataforma You Tube. Já são cerca 75 mil visualizações, o que o transforma em um fenômeno de massa nesses tempos de modernidade líquida.


Jackson não sobrevive financeiramente do seu trabalho artístico. Tão pouco é um mercenário da arte. Ele trabalha há 18 anos na Universidade Regional do Cariri - URCA, e lá ajudou a fundar a Rádio Universitária 94,3, que foi um grande sonho por ele idealizado e, finalmente, realizado.

Antes, tive o privilégio de tê-lo como um profícuo e competente assessor quando fui secretário de Cultura do Crato, entre 1999 e 2000. Foi de sua lavra a condução de projetos comunitários mantidos em bairros carentes da cidade, a exemplo da Rádio Comunitária, Biblioteca e Videoteca Rabo da Gata, no Alto da Penha.

Jackson Bantim pode até não ser um santo, na acepção formal da palavra, mas é um milagre vivo que se multiplica em ações benévolas e altruístas.


Depoimentos sobre Jackson Bantim (Bola)


Ter valor é mais importante que ser famoso.

Valor é consistência, diante de tanto sucesso passageiro.

Valor é acender holofotes de dentro pra fora.

Quando alguém ou algum trabalho tem valor, isso é um verdadeiro sucesso.

Parabéns pela sua realização. E que a alegria de fazer bem feito continue a dirigir as suas produções, meu caro Bantim.

Thiago Araripe (cantor e compositor)


Eu sempre lhe considerei um expoente dos cineastas cearenses .... o problema é que as relações de poder contaminam o discernimento e o justo reconhecimento daqueles que militam na área de cinema... 

Parabéns meu amigo. Seu trabalho tem seu lugar junto aos grandes cineastas cearenses e brasileiros e não deixa a desejar em nada se comparado aos demais.

Ricardo Damasceno (professor universitário)


Parabéns, Bola.

Rosemberg Cariry (cineasta, poeta e escritor)


Pois é, meu amigo Bola... mas um dia esse reconhecimento chega...

Baden Powell (radialista)

15 setembro 2021

Fahrenheit 451 - Por: Emerson Monteiro


Desconheço o porquê de, há pouco, relembrar esse filme de François Truffaut, um clássico da década de 70, que trouxe às telas o livro homônimo de Ray Bradbury. O romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como "bombeiro" (o que na história significa "queimador de livro"). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius. Wikipédia

Motivo por demais pertinente na época de agora, quando praticamente os meios eletrônicos dominam o território das letras e imagens, e os jornais, antes detentores das mentes com suas edições impressas, veem-se na condição inesperada de circular pela rede internacional de computadores, e o livro também padece da febre fantasmagórica do anonimato dos números elétricos, dos celulares e computadores.

A que temperatura isso vem de queimar nos circuitos mentais desses aparelhinhos exóticos ninguém, por cento, possui instrumento de avaliar, nem mesmo nas urnas contemporâneas de tantas inovações. O que saber, no entanto, resta circulando pela galáxia dos lixos plásticos dessa nossa civilização de bombeiros a queimar certezas que somem no vasto universo das interrogações. Mesmo assim as editoras persistem no afã de lançar aos mercados seus lançamentos em refinadas produções gráficas.

O fetichismo do livro impresso ganhou, assim, dimensão jamais imaginada de entes exóticos e seus leitores, num tempo em que tudo permite vascular os gênios do passado em velocidade estúpida, porquanto nunca foi tão fácil usufruir das obras de todas as gerações, em questão de minutos, sejam livros, filmes, composições musicais, telas, fotografias, quais herança comum aos aficionados das artes e dos séculos a um só instante.

Ao que nos consta, porém, vivemos o frenesi dos objetos diante da carência de senso crítico, fruto de acomodação e excesso, a determinar carência do que sejam valores e atitudes. Entretanto só o desenrolar dos acontecimentos provará do avanço da ciência na alma humana.

Ernesto Piancó - Por: Emerson Monteiro


Às 10h45 do dia quente de março e eu aqui ao volante, numa quarta-feira de sol aberto, à espera do espaço providencial de voltar ao circuito do tráfego que sobe a Rua Cel. Antônio Luiz, não achando vaga, dado o fluxo intermitente, barulhento, de carros, motos e bicicletas, indo rápidos aos seus destinos. Essa artéria virou retrato do trânsito caótico citadino, nível a que se chegou em matéria de sobrecarga, na era escura do petróleo.

Naquilo de aguardar o momento certo de encaixar feito objeto, no círculo em movimento das coisas que lotam as ruas, lembrei de um personagem cratense, constante no tempo de minha infância, Ernesto Piancó, parente próximo de Dona Chiquinha, educadora emérita de boa parte dos meus estudos, na década de 60.

Seu Ernesto, homem robusto, atarrancado, gostava de andar com uma pasta preta de couro, e de conversar nas rodas de amigos, bem humorado, afeito na característica de sempre repetir em voz forte, gutural, cheia, a mesma expressão: - Ave Maria!

Figura de permanente simpatia aquele cidadão...          

Nisso continuo aguardando a hora exata de lançar o carro no burburinho das horas na roleta mecânica, lembrando dele, pessoa das tradicionais que marcaram época, nesse lugar antes pacato. Os tempos marcham céleres em qualquer canto de planeta. O progresso se oferece nas possibilidades de multiplicar fragmentos do relógio, sem que denote fácil quais os frutos imediatos que advêm disso. As pessoas correm, correm, noutros ritmos febris. Filas constantes de uns perseguindo os outros, trilhas urbanas cotidianas da civilização maquinal. Intimoratos defensores dos direitos civis, audazes parceiros da pós-modernidade, aqui perto eles passam feitos cometas, em seus trombáticos cavalos velozes de cores reluzentes...

O sol ainda mais quente aquece a pele, o cabelo, no brilho das máquinas trepidantes. Crato nada deixa a dever aos outros centros dagora. As mototaxistas vieram acrescentar melhores médias ao formigueiro populacional. Transportam passageiros com menor ocupação de solo, preços módicos e maior velocidade. Compromissos. Negócios. Responsabilidades. Época de sobreviver das inimagináveis profissões. Idades. Vocações. Saber esperar, ânimo de poucos. Paciência, qualidade rara das contingências.

Noutro momento, a cidade andava passos leves, românticos, talvez. Havia ocasião de falar em bancos de praça, parar nas esquinas e sentir o calor agradável das manhãs, sem preocupações urgentes, prementes. Os tipos populares marcavam a paisagem, naqueles dias dourados. 

Quem testemunhou manifestação da veia jocosa de Seu Ernesto foi o escritor Jurandy Temóteo: Certa vez, num tempo em que eram ainda precárias as acomodações da Praça Siqueira Campos, em Crato, estavam ele e Ernesto Piancó sentados em um dos poucos bancos que havia no logradouro. Próximo, duas jovens estabeleceram diálogo que parecia de pouco duração, no entanto se alongando a ponto de querem espaço no assento de três lugares já preenchido pelas duas pessoas que os ocupavam, Ernesto e Jurandy.

Uma das mocinhas, sem aguentar a demora dos assuntos que conversavam, aventurou a vaga que restava no banco, e insinuou:

- Seu Ernesto, o senhor poderia cruzar as pernas para que eu também sentasse?

De inopino, o personagem pitoresco revidou ao jeito do seu característico bom humor:

- Cruze a senhora, que não tem o que amassar. 

... 

Quando parece surgir a chance na correia dentada do carrossel, um pedestre corta meu barato e cruza ao meio na minha frente. Outras vezes de certeza virão, penso cá dentro.

Os pensamentos retornam a Seu Ernesto, sua pasta preta, seu vozeirão. Pasta de tipo menor, com alças de viajante, representante comercial. Ele vendia alguma coisa. Não lembro bem o quê fosse. Agora, arriscaria dar algum palpite: planos de saúde, seguros de vida, lotes de terra, publicidade... (Quem sabe?).

Enfim consigo a prenda esperada, jogar o carro no fluxo da onda, e vou junto, de novo, nessa roda viva em que transformaram os detalhes do caos generalizado. Sozinho, na quente manhã, ao som de suspiros, ergo a voz com gosto e alívio, simulando na lembrança a fala recorrente de Ernesto Piancó:

- Ave Maria! – entre as carcaças luminosas dos outros automóveis.

(Ilustração: Rua Dr. Miguel Limaverde, Crato CE).

14 setembro 2021

A consciência da Consciência - Por: Emerson Monteiro


Isto de saber que tudo em volta é mera sombra da luz que somos nós resume o significado de todas as coisas. Que somos a testemunha de nós mesmos daqui do Chão. Que ilusão e sombra representam o reflexo da luz que transportamos no nosso ser. Que a essência do que existe habita em nosso interior, na forma de consciência de Si. Que isso, de revelar a que viemos, tem por finalidade viver enquanto existimos provisoriamente no decorrer do processo das horas que se desfazem aos nossos olhos.

Transportamos vidas e vidas nessa busca incessante, o que acontece durante as vezes que aqui estamos ou estivemos nos dias pretéritos. Onde existe luz há de haver sombra, nas situações ora experimentadas, no dia-a-dia, nos sonhos, no sono, enquanto buscamos a resposta dessa longa interrogação que trazemos no íntimo. A sede da Consciência, da Luz essencial de que falamos, mora no âmbito do coração espiritual, mais do que só no coração físico. Eis o seu pouso geográfico em nosso corpo.

Todo tempo de reconhecer tais interpretações nos vem oferecido na máquina que aqui viemos exercitar, o trilho perfeito de responder ao enigma que lá um momento decifraremos e conquistaremos, ao sol do definitivo senso, a Consciência... As contradições destas horas na matéria são a escola do autoconhecimento.

Isto, pois, que seja a definição dos valores humanos face ao destino e às circunstâncias. Teto do mistério das indagações, pousaremos no Reino de uma paz soberana, esperança e glória da mais pura tranquilidade, conquista dos tronos e apreensões da História deste itinerário parcial ora vivido. Pela força do exemplo além da força das palavras, os aventureiros de mil experiências avançam dentro de si próprios, na firme convicção de vencer e chegar aos céus da tão desejada Felicidade durante quantos milênios, até o domínio da Consciência absoluta. 

(Ilustração: A luta entre o Carnaval e a Quaresma, de Pieter Bruegel, o Velho).

13 setembro 2021

O poder da palavra escrita - Por: Emerson Monteiro


Os temas dos livros falam disso, dessa capacidade que a palavra tem de levar adiante valores e influenciar gerações. Quais fermentos de épocas as mais distantes, causam revolução, modificam comportamentos e refazem a história dos povos. Avançam pelos costumes e transformam o modo de ver das civilizações. Desde sempre, os textos impressos marcam definitivamente o pensamento dos seres humanos. Tipos móveis no Oriente e a tipografia de Gutenberg, no Ocidente, sustentaram a transmissão do conhecimento, constituindo a base dos avanços desses tempos atuais.

Nisso, os livros chegam às consciências, constroem impérios e definem o jeito de viver das multidões, o que exige senso crítico de quem lê. Ainda que produzidos em série, as obras literárias ficam restritas a pequenos bolsões de leitores fieis. Dos alfabetizados, pequena quantidade alimenta a vocação pelas páginas, gastando o que aprendem tão só no uso da sobrevivência, nas leituras especializadas.

Contudo, há gama infinita de alternativas, desde estilos a gêneros, dos contos e crônicas, aos romances, ensaios, dissertações aprofundadas de assuntos, filosofias, religiões, manuais técnicos, todos ao sabor das necessidades e dos tempos. Por vezes, criam modas e dominam grandes públicos. Editoras mil produzem belas obras e bibliotecas as acumulam em gama de incontáveis autores.

Daí, as influências restam ao gosto de todo leitor. Qual dizem, o papel aguenta tudo. Isto sujeita, no entanto, a resultados nalgumas horas adversos, porquanto a dualidade dessas influências permite inocular vírus letais naqueles que leem. No que seja deste chão, corre o risco das distorções. A arte literária, ao seu tempo, não poderia deixar de sofrer tal contingência. Os livros transportam, pois, os efeitos de seus criadores, isto indiscriminadamente.

Esse poder inolvidável da palavra escrita requer, portanto, zelo de quem a utiliza, seja na emissão quanto na percepção. Os frutos deste plantio significam resultados espirituais nos aficionados das letras e podem iluminar as mentes e transformar quem melhor delas usufrua, nessa conquista de tantas realizações maravilhosas.

Madre Feitosa - Por: Emerson Monteiro


Neste dia (13 de setembro) vemos registradas atitudes de reconhecimento à Carmelita Feitosa, Madre Feitosa, pelos seus cem anos de nascimento, anjo de bondade, em ocasião propícia a que patenteemos nossa gratidão face aos tantos seres humanos que usufruíram e usufruem da oportunidade do crescimento por meio do carinho da uma inteira vocação à formação da juventude, matéria prima da realização dos ideais da Verdade, da Justiça e da Paz.

São raras essas pessoas, contudo elas existem. Realizam trabalhos de bondade e amor e deixam marcas profundas nas pessoas e nos lugares onde vivem. Demonstram a grandeza dos espíritos evoluídos durante suas existências e aprimoram a consciência de quantos puderam delas se aproximar e testemunhar da pureza das almas que possuem, nos momentos em que desfrutam dessa ágape, confirmando o poder dos assuntos espirituais. Têm brilho próprio, refletem dimensões superiores da realeza divina ainda aqui neste chão. Prudentes, coerentes, justos, exercitam a força viva do Bem nas obras que idealizam e promovem. Deixam traços da mais infinita sabedoria que contém os santos, razão principal de estarmos na condição humana, o caminho indelével da transformação dos seres perecíveis em puros espíritos, neste laboratório de salvação, o que, um dia, faremos nesta caminha da luz à busca de nossa essência, onde traçamos nossos destinos. Estrelas que iluminam o trilho de muitos através da educação, da cultura, do exercício profícuo das profissões, das religiões, das missões de liderar os demais seres humanos, sempre estarão junto dos grupos sociais, demonstração cabal do sentido maior que viemos cumprir, e que nunca estaremos sozinhos diante do Eterno.   

Assim, querida amiga e orientadora, rendo-me às graças benfazejas desta comunidade caririense em lhe querer retribuir, no mínimo possível, as virtudes que dedicou a todos que desfrutaram e desfrutam da grandeza de sua alma, chama votiva do amor de nosso Pai e Senhor da Existência.

Meu abraço e minha admiração, venho agora, manifestar, hoje e sempre, em nome da minha geração agraciada por sua rara presença de Amor e Trabalho.

11 setembro 2021

Lá onde dormem os sonhos - Por: Emerson Monteiro


Vê o tempo como uma imagem de sombras, fora dele está nossa verdadeira face.
Jalal ud-Din Rumi

Ali na raiz de tudo quanto existe, nas dobras dessas noites que fogem na luz às sombras do dia, bem ali, repousam, em seus ninhos, os sonhos. Íntimo coração das existências, há em nós estes céus do Infinito que sacodem nossas almas diante da persistência do tempo, a escada que esconde a paz das horas. Ali, dentro das lembranças do quanto de histórias deixamos guardado, o mistério trabalha na oficina dos sonhos. E crescemos pouco a pouco pela face do firmamento, elaboramos a esperança e a fé, enquanto rugem as dores dos rios nas suas cachoeiras inesgotáveis de tanta maravilha.

Sacudimos passos nas estradas poeirentas do destino, olhos fixos na felicidade, porém andarilhos de mundos até então desconhecidos. Alimentamos o fulgor de perfumes e desejos, enquanto vivem os instantes das horas dentro do tesouro desta realidade que o somos. Muitos dias, quantas luas, no desfilar dos fenômenos que se desfazem imediatamente das nossas mãos. Nem os imaginamos, e somem na trilha das ausências, numa velocidade incontrolável. Pequenos, uns quase nada, testemunhamos esses fiapos coloridos que desparecem dentro e fora da gente. Morada dos no entanto, persistimos na possibilidade dos depois inexistentes. Lúgubres de talvez, avistamos o impossível nessas fagulhas apressadas dos momentos que de nós se desprendem, nos devoram e fogem indiferentes.

Assim, borbulhas desses mares de contrições, rendemos graças ao calabouço de todos os credos, e adormecemos nos braços da vontade imprudente que significamos. Andamos, andamos, e sonhamos, no pouco que nos resta, face a face conosco e nossas apreensões. Quais escravos, pois, do tempo, num tal dia ganharemos a liberdade tão sonhada neste sonho de viver eternamente as flores da certeza no Eu da perfeição que já trazemos dentro de nós, ao sabor deste tudo que se desfará em um Nada absoluto.

(Ilustração Jalal ud-Din Rumi).

10 setembro 2021

A hora do acerto - Por: Emerson Monteiro


São as normas da Natureza às quais só resta obedecer com fidelidade. Tantos equívocos jogados na roleta da sorte e quando menos esperar o vértice do triângulo acenderá na escuridão das noites mornas e chegarão os emissários do Infinito a impor suas condições inarredáveis. Quantos mistérios ainda estão a caminho?! Horas a fio, nesse andar dos movimentos, enquanto aceitamos viver sob as mil circunstâncias do existir...

Rendição incondicional, a cada um conforme seu merecimento. As luzes do original que cercam o Universo de todo lado nem disso cabem fugir, conquanto sejamos cativos da mera contingência dos humanos. Todavia transportamos no íntimo todos os códigos e as interpretações de revelar, neste plano, os segredos de amar, autores, portanto, da própria salvação. Os mestres vêm a isso, de dizer as formas do encontro consigo próprio no âmago da Consciência, e nisto ultrapassarmos o abismo das ausências.

Nesse dizer de tantos pelas histórias deste mundo, há definições perfeitas de encontrar as portas do depois, porquanto viemos nesta disposição. Durante o tempo das nossas presenças, bem aqui, impera o ditame da transcendência, de vivenciar compreensões do que seja a suprema Lei que tudo rege, enfim.

Quem contará dos passos que daremos vida afora perante as dúvidas desse encontro com as bênçãos da Eternidade? Séculos, milênios no calendário dos destinos. Forças exponenciais dominam o instante nas trilhas dos céus. Todos, sem exceção, a tanger os sóis, nos riscos deixados a todo dia. Nós, senhores dos mesmos desafios, respostas às interrogações das doces amarguras.

Quantos filmes ainda iremos ver, quantas músicas ainda ouviremos, quantos sonhos?... Sabe-se, contudo, que existem as barreiras e as estações, os cravos e as ferraduras... Angústias e faustos... Passageiros, pois, dessa harmonia, alimentamos certezas de um dia ser feliz, almas enfileiradas aos pavios dos moinhos feitas instrumentos da realização do Ser na espontaneidade natural que nos transporta. Filhos da solidão, apenas vislumbramos o pouco do que dizem os santos e mergulhamos na individualidade, fieis autores da criação deste momento sem fim, amém.

09 setembro 2021

Estava a Mãe Dolorosa – por José Luís Lira (*)

      O martirológio romano traz-nos, em 15 de setembro, a memória de Nossa Senhora das Dores. O Stabat Mater, hino muito antigo que do latim significa “Estava a mãe”, afirma: “Estava a Mãe dolorosa/ Junto da Cruz, lacrimosa,/ Da qual pendia o seu Filho./ Banhada em pranto amoroso,/ Neste transe doloroso,/ A dor lhe rasgava o peito”. Em Lucas 2,33-35, vemos a profecia de Simeão à Maria Santíssima: “Uma espada de dor transpassará a tua alma”. 

    Muitas das pessoas que nos leem são mães. Todas tiveram a alegria da notícia de que estavam grávidas, contemplaram seus filhos no nascimento e por eles se apaixonaram e nesse momento vemos o amor imortal, aquele que transcende a qualquer amor. É muito bom às mães contemplar os momentos de alegria dos filhos, os destaques na escola, na faculdade, na vida. É muito, muitíssimo doloroso pensar que um dia haverá uma separação entre os dois. Mas, isto é a lei da vida. Maria Santíssima experimentou das alegrias, mas, também experimentou das dores. Ela guardava tudo no coração. No coração de Mãe que minha mãe diz que nunca se engana.

    Maria Santíssima acompanhou todos os passos de Jesus. E eu a imagino à distância, vendo a missão do Filho que também era Deus, o Messias esperado por seus antepassados, acontecendo. Como ela saberia, estando em Nazaré e Ele em Cafarnaum, ou em Betânia, ou na Cidade Santa de Jerusalém? Como seriam as comunicações naqueles tempos? Não sabemos...

   Ela o encontra na quarta estação da Via-Crucis. É sua quarta dor. Os admiradores de Jesus e até seus discípulos não O acompanhavam. Um destes em quem Ele muito confiava até disse que não O conhecia. É a vida. Com ela estavam sua irmã, João, o evangelista, e Maria Madalena. Eles não abandonaram o Mestre nem sua Mãe. 

   Madalena haveria de ser a que primeiro viu o ressuscitado e espalhou a boa-nova por onde andou. João, um pouco antes do momento áureo da morte de Jesus que para os que cremos não foi morte, mas, sim um retorno aos braços de Deus – que Ele nos ensinou que é AMOR –, foi chamado, junto com Maria Santíssima, pelo Mestre como se o fizesse a todos nós, a toda a humanidade e disse, olhando para sua Mãe: “Eis aí o teu filho” e olhando para João, “Eis aí tua mãe”. E o Evangelho diz que desde aquela hora João a honrou como Mãe. Esta rápida reflexão não poderia concluir o mistério que aí se encerra. Jesus-Deus demonstrando toda sua preocupação com aquela em quem habitou por nove meses, um ser especial, escolhida entre todas as mulheres para aquela missão. Se preocupa também com a humanidade, em João. E nos dá uma responsabilidade que às vezes nós não enxergamos como deveria: a de honrar sua Mãe, Maria Santíssima, como nossa mãe. 

   Aquelas dores da Mãe de Deus se transformariam. Ela sabia que seu filho era o Filho de Deus. Era o Deus-Vivo. Penso eu que, embora sem compreender humanamente, no íntimo ela sabia que tudo era parte do plano de Deus ao permitir que seu Filho, Deus com Ele, estivesse na Terra. Maria se torna nossa Mãe, ao pé da Cruz, e a crucifixão que era a mais horrenda condenação, símbolo da maior injustiça, nos possibilitou a abertura das portas do Paraíso e se tornou símbolo do cristianismo. A exemplo de Maria, é preciso ter esperança, mesmo em tempos turbulentos!

    Viva à Mãe da Esperança!

   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


Há um ser original - Por: Emerson Monteiro


Aonde quer que seja, em tudo, afinal, persiste o mistério da Criação. Nem de longe a razão dos humanos galgou explicar o primeiro passo das existências, inclusive da própria racionalidade donde vêm as dez mil coisas. Assim, vaga, solto no ar dos infinitos, o sinal enigmático de quem, lá um dia, resolveu trazer à tona tantos do que, todo momento, mantêm viva a continuidade e o furor dos acontecimentos. Um Ser soberano, até então inexplicável nos termos conhecidos, algo que flutua entre o Tempo e a Eternidade, entre os números e as palavras. Ser capital das inesgotáveis finalidades, raiz das condições e penhor da Justiça absoluta, que rege e contém no seu âmago a real concretude dos valores definitivos.

E, o que, por demais, toca as possibilidades na essência de tudo, na alma do Universo, habita todos os seres, fagulhas da mesma Luz, sol da mesma finalidade. Numa perfeita harmonia, os segundos marcam, pois, o ritmo do Cosmos, qual o que pulsa em nossos corações. Ajustar a tanto, resta que desvendemos a caligrafia original, que a isto aqui viemos. Parceiros da magnitude, tangemos nossos barcos aos mares da Felicidade, quais senhores dos astros e experimentos das nossas indagações e magnitudes. Isto é, partes desse penhor de eternidade que conduzimos em nossos passos.

Daí, fora de cogitações e dos raciocínios só materiais, ora prosseguimos na elaboração da arte de extrema criatividade, peças que compõem cores e sonhos, à medida de todos os instantes. Criamos de nós o íntimo dos mundos e os fazemos em movimento.

Senhores de si, respondemos aos chamamentos de nossa humana consciência até quando de tudo façamos um instante só da pura Paz, de que seremos autores e fieis senhores, conquanto em todo há um Ser original.

06 setembro 2021

Sementes de eternidade - Por: Emerson Monteiro


Isso é o que nós somos. Em um mar de fragmentos, que se desfazem no tempo, transportamos em nós a força de permanecer para sempre, no entanto algo a despertar no transcorrer das gerações. Tais instrumento que habita nosso ser espiritual, então, há que vir à tona, certo dia, quando chegar na consciência do absoluto, o dispositivo vinculado à perfeição, pois somos disso os guardiões. Moléculas do eterno, deslizamos no Tempo feitos aprendizes que buscam sua origem essencial. A todo instante vêm lições, num processo de constante experimentação às respostas que oferecermos aos deuses do Infinito.

Um nada diante do turbilhão de tudo, queremos achar o pouso de tantas vidas, feitos viajantes perdidos pelas florestas do esquecimento. Universos paralelos ao itinerário dessa condição, observamos o espaço, os objetos e as pessoas, exercendo a função de conhecer. Tateamos numa escuridão enigmática, porém dotada dos elementos de que carecemos até desvendar de vez o mistério das existências.

Espécie de ficção em que somos autores e personagens, desvendamos nossa história, segundo a segundo, quais realidades e espelhos num mesmo indivíduo. Esse estado transitório significa a presença dos seres no momento de agora, no presente, razão única de tudo quanto representa o universo da Criação. Um a um, constituímos, assim, o sentido da história das civilizações durante toda a Eternidade.

Os meios a que cheguemos ao destino vêm dos elementos dos mundos aonde vivermos. Nós e a realidade, destarte, conduzimos em si o significado das esperanças dos tempos felizes. São infindáveis chances de equilibrarmos o estado definitivo das eras e dos astros. Nisso, diante de tão nobre razão de continuar, haja o que houve, seremos os artesões dos destinos e audazes criadores de tudo quanto existirá no decorrer dos acontecimentos deste Chão e do que virá logo depois, nesta hora.

04 setembro 2021

Independência do Brasil, ano 199– por José Luís Lira (*)

 


   Cinco de setembro, amanhã, há 199 anos, o futuro Imperador Pedro I, longe da sede da Corte por quase um mês, deixava São Paulo rumo ao Rio de Janeiro naquela que se tornou a viagem da Independência do Brasil. O Príncipe Real fora apaziguar os ânimos em São Paulo. Durante sua viagem, chegou ao Rio ordens para que ele, Dona Leopoldina e os filhos retornassem para Portugal. A Princesa, chefe do Conselho de Estado e Regente Interina do Brasil, naquele 02/09/1822, convocou o Conselho de Estado que se manifestou pela Independência do Brasil. A Princesa e o Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva enviaram cartas ao então Príncipe Pedro de Alcântara, a quem caberia a decisão e este, corajosamente, aos 24 anos incompletos, proclamou a Independência quando alcançava as margens do Rio Ipiranga, já distante da capital paulista, na época, em 7 de setembro de 1822. No próximo ano celebraremos os 200 anos da Independência do Brasil.

   Dom Pedro I do Brasil ou Pedro IV de Portugal é o grande herói da Independência do Brasil. É um herói que precisa ser reanalisado popularmente. Ele foi-nos passado nos livros de História da República do Brasil como aventureiro, autoritário e sua biografia contradiz tudo isso. 

   Proclamada a Independência, Dom Pedro I (Ele afirmou que se “se visse obrigado a governar sem uma Constituição, imediatamente deixaria de ser Imperador” [REZZUTTI, Paulo. SP: Leya, 2015, p. 177]) e o Império (Forma na qual, inteligentemente, garantiu a unidade do País), queriam uma Constituição. Empossada em 03/05/1823, a Assembleia Constituinte se degastou, num processo que acabou por obrigar o Imperador a dissolver a Assembleia e nomear um Conselho de Estado, sob sua coordenação, para fazer uma Constituição muito mais liberal do que a que pretendia a Assembleia. Em 15 dias a Carta estava pronta. No livro “Dom Pedro: A história não contada”, Rezzutti afirma: “Se analisarmos as propostas da Constituinte de 1823 e a Constituição de 1824, uma coisa fica clara: a segunda era realmente mais liberal em diversos pontos. (...) Quanto aos direitos invioláveis das pessoas e propriedades, a Constituição de 1824 listava 34 pontos, enquanto a anterior só mencionava seis”. Em 25/03/1824, Dom Pedro I apresentava ao Brasil sua primeira Constituição. 

   A História registra a renúncia de Dom Pedro a dois tronos. Primeiro o de Portugal, em favor da filha que se tornaria D. Maria II e depois, o do Brasil, em favor do filho que se tornou D. Pedro II. Dom Pedro de Alcântara, o Duque de Bragança, faleceu poucos dias antes de completar 36 anos, em 1834. 

   O Ministro José Bonifácio, ao saber da morte do grande homem, escreveu a Dom Pedro II: “... D. Pedro não morreu, só morrem os homens vulgares, e não os heróis. Eles sempre vivem eternamente na memória ao menos dos homens de bem, presentes e vindouros; e sua alma imortal vive no céu, para fazer a felicidade futura do Brasil e servir de um modelo de magnanimidade e virtudes a Vossa Majestade Imperial, que o há de imitar...”. 

   Precisamos estudar verdadeiramente este homem para celebrar seu ato histórico no próximo ano com desfiles cívicos nas ruas, porque neste, com pandemia, não é recomendável as ruas, mas, sua memória podemos fazer onde estivermos!
   Viva Dom Pedro I!

   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


03 setembro 2021

A essência de tudo - Por: Emerson Monteiro


Os poemas de Castro Alves por vezes regressam ao gosto do sentimento e marcam presença de um passado bem de hoje junto de nós. São falas do doce coração a reviver sonhos de antigamente nos olhos da imortalidade. Um querer de sempre, alimento das vivas impressões de horas eternas grudadas intensas na memória da gente, que se sobrepõem à vontade de permanecer nos momentos de felicidade. Unidas, ah quem pudera, numa eterna primavera...

Quantos lugares na alma insistem permanecer assim perenes no campo da continuidade. As existências inesgotáveis na música do instante, pedaços de emoções que sustentam os céus das substâncias de quando tudo houver depois, no sumiço das cores e dos movimentos. Nem sei o tanto de lembranças que flutua no decorrer desse mistério de estar e aqui permanecer para sempre.

As palavras têm disso, retalhos das paisagens de rastros inolvidáveis, sobrevivência dos haustos da alma em forma de colchas que o tempo sacode nas fímbrias do horizonte sem fim. Luzes. Imagens. Sentimentos acesos nas tardes intensas do universo das vidas. Amor, afinal. Força de um poder descomunal que rege fenômenos e sóis nos céus. Sacode as circunstâncias e alimenta o gosto de sustentar as barras dos dias nas hostes dos corações. Suavidade intensa, música terna e doces harmonias. De tudo, a luz definitiva de uma calma interior.

Fermento dos deuses, o Amor cobre de sonhos a inexorabilidade das dez mil coisas que compõem os acontecimentos. Sustenta a condição dos seres que sentem seus segredos guardados no tesouro da existência. Resiste a tudo quanto há, no fio condutor da essência que rege o Mistério. Amor, fonte suprema das histórias e dos personagens que nele movimentam o oceano das certezas. Amor, o limite das existências no sacrário de dores e virtudes, esperanças e realizações. Amor, o autor do quanto alguém imaginou e fez disso o eterno motivo de todas as aspirações de perfeição. 

01 setembro 2021

1º de setembro de 2021 – há 100 anos, Denizard Macedo nascia em Crato. (por Armando Lopes Rafael)

 
Prof. Denizard Macedo, um cratense ilustre

   José Denizard Macedo de Alcântara veio ao mundo em Crato, na Praça da Sé, em 1° de setembro de 1921. Naquele dia a população cratense festejava a data consagrada a Nossa Senhora da Penha, Imperatriz e Padroeira desta cidade. Talvez por isso seus pais fizeram-no afilhado da Virgem da Penha.

      Denizard Macedo viria a se destacar como um intelectual. Foi, também, professor em várias instituições de ensino de Fortaleza, além de um homem de ideias firmes e transparentes. Lecionou na Escola Preparatória de Cadetes, do Colégio Militar do Ceará, Instituto de Educação, Faculdade Católica de Filosofia, Escola de Serviço Social e vários educandários de segundo grau. Incursionando na política foi eleito vereador por Fortaleza. Foi também jornalista, ensaísta, historiador, conferencista e geógrafo. Pertenceu à Sociedade Cearense de Geografia e História, Instituto do Ceará e Academia Cearense de Letras (onde ocupou a cadeira de n° 34, substituindo outro cratense, J.de Figueiredo Filho).

       Foi, também, Secretário da Cultura do Ceará. Escreveu as seguintes obras: A Universidade na Defesa Nacional; Fundamentos da Administração Cearense; A Conjuntura Histórico-Geográfica da Industrialização Brasileira; Racionalização da Competência Administrativa do Município; Geografia da América; Cultura e Universidade; Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro; Ascensão e Declínio do Magistério Brasileiro; Ensino de Filosofia no Ceará e Retrato da História da Independência.

                                                         Casamento de Denizard & Eliana

          Católico sincero, possuidor de sólida formação moral e religiosa, Denizard era monarquista convicto, apesar de a República brasileira, àquela época, proibir qualquer divulgação pública sobre as vantagens da forma de governo monárquica. Para quem não sabe, os monarquistas foram os últimos anistiados políticos desta ineficiente e caótica república brasileira. Havia uma cláusula pétrea, vigente nas Constituições republicanas (foram 6 no total) as quais proibiram,  durante 100 anos (de 1889 a 1988) mencionar-se, em público, as vantagens da monarquia.  Somente com o advento da sétima constituição republicana – a atual –, promulgada em 1988, concedeu liberdade aos monarquistas de exporem à luz do sol suas ideias. 

     Denizard Macedo faleceu com 63 anos de idade.É considerado uma das mais valorosas pessoas nascidas na Cidade de Frei Carlos Maria de Ferrara.

Denizard Macedo pouco antes da sua morte
 

31 agosto 2021

A História não se repete - Por: Emerson Monteiro


Esses caçadores de ilusão que o somos vivem disso, de imaginar perenidade no tempo que passa e alimentar a fantasia de que tudo será qual ontem foi. Isso, no entanto, os deuses da história nem de longe querem sustentar, sob pena de quebrar o senso da espontaneidade que de longe a tudo devora todo instante. Enquanto o presente significa rio entre dois fogos, o passado e o futuro, a história, por sua vez, representa o espelho no qual a humanidade reflete a imagem dos séculos, muitos deles até perdidos na imensidão do abismo das inexistências.

A velocidade com que a vida disfarça o tempo em movimento, tal vela acesa que alumia e nunca retornará, marcam as criaturas a angústia do inevitável das abstrações que o vento arrasta pelos céus. A isto negam razão de ser e mergulham nas trevas do que teria sido. Fogem de si quais vítimas da própria incoerência. E resistem ao desespero formando trincheiras imaginárias, desenhando visões do paraíso nos prazeres e objetos, escondendo da alma um desejo constante de humana salvação.

...

Durante o itinerário dessa busca, estabelecem os padrões, as religiões, as ciências. Nisso, a razão cria na velocidade das horas. Sustentam os haveres das alucinações. Sabem que seriam eles os autores das revelações, todavia. Cavam o solo da solidão onde imperam. Estabelecem as lutas da sobrevivência até sem nelas acreditar, bandos alucinados de zumbis nas noites escuras.

...

Lá um dia, então, deparam com o princípio da Consciência maior e refazem o percurso donde vieram. Abrem os braços aos segredos da promissão que carregaram consigo durante infinitos, e adormecem no alvorecer da iluminação de Si mesmos. Bem isto o repicar da História mãe, nos carinhos das maravilhas em que vivemos o despertar da Eternidade.

30 agosto 2021

Discernimento - Por: Emerson Monteiro


Observar com calma e nitidez a distinção entre o que sentir e pensar, qual houvesse um observador dentro do que é observado, vem de uma espécie de agente de acompanhamento de como gastamos o tempo. Ele seleciona o que aproveitamos e dispensa o que classifica de desnecessário. Nisso, o grau de compreensão que determina o que somos do que poderíamos ser. Dessa soberania, resta avaliar pensamentos, sentimentos, atitudes, compromissos, desistências, encaminhamentos, planos, etc. Daí, o custo da administração, que fica por nossa conta. Tal agente de acompanhamento, no entanto, desaparece logo após seus julgamentos e encaminhamentos, e ficamos nós conosco próprios a sorver os resultados, frutos da responsabilidade daquilo que aceitamos do ente misterioso que sumiu ali pelos resvaladouros deste mundo depois de nos dizer o jeito de agir. Vivemos quase que sem saber do onde vieram as orientações, ou desorientações, a ponto de imaginar que parecia estar fora de si, e que recebera nem sei de onde os sinais do que devesse praticar.

São, assim, quais três personagens em um só, o que pratica, o que ouve e o que determina. Deles todos, o principal significa o que sai de cena e deixa que os outros dois vivam de perto as situações que acontecem no transcorrer da existência. Três funções de um mesmo ser: autor, diretor e ator.

Em tudo isto, o que vem à tona, no ato simples de experimentar um jeito de responder ao desafio de estar aqui, e qual disso a finalidade, fica por conta do que podemos aceitar dos segredos da natureza de que somos parte.

Nisso de usufruir o melhor em tudo, impera o discernimento do que fazemos daquilo que nos caberia fazer. Em torno de todo personagem, há os fatores que circunscrevem o espaço deste aprimoramento. Território estreito, a individualidade permite descobrir o momento e o motivo exatos de estar neste mundo, e o que o futuro tem a nos julgar.

(Ilustração: Ieronimus Bosch).

29 agosto 2021

Antes de ouvir o silêncio - Por: Emerson Monteiro


Antes e depois das explosões deste mundo parcial, na aflição dos refugiados que sobrevivem às injustiças dos homens, na fome do desespero dessas populações largadas a ermo, partos angustiados das mães em luta contra a indiferença das guerras, logo em seguida vem o grito surdo das multidões desesperadas, olhos postos na lama dos séculos; são os fieis ao sonho da liberdade prometida. Quanto de clamor penetra, pois, o silêncio das realidades, na solidão de amores esquecidos, calmaria de barcos abandonados às marés dos desencantos, tropel inútil das marcas que ferem os dias da indiferença, lesmas a deslizar pela inconsciência dos tais senhores desavisados.

Enquanto isso, nalgum lugar dos céus, a meio caminho das pessoas e do tempo, retomam seus acordes os instrumentos dessa sinfonia das certezas de que tudo perderá o senso diante do repicar dos sinos da Verdade. Ainda que pareça drama de perdidos autores, há o equilíbrio que constrange ao fim os vermes, aqueles que praticaram gestos obscenos de furor e perversidade, na ilusão de ser donos e superiores, a ferir de morte o valor inevitável das oportunidades.

Quais torrentes de luz, somos esses espelhos de um tudo, neste passeio constante da realidade. Reunimos em nós pedaços da eternidade que transportamos; construímos as trilhas de toda geração que nos sucede. Ao destoar o coro da perfeição, aprendemos nisto divisar o que nos aguarda logo ali nas raízes do inevitável. No entanto a escola ensina sempre que há o Ser divino, a Razão absoluta.

Daí a gente ouve, no escuro dessas noites, as notas da melodia que toca o coração; revivem os sentimentos e alimentam a saudade doutras esperanças. Inúmeros acordes vagam no vento, nos ciciar das matas, no latido distante dos cães nas madrugadas. Compomos em nós próprios os amores da felicidade que agora pulsa os momentos em nossas almas. A suavidade das estrelas envolve de emoção as pausas dos sons, sob a regência magistral de encantos do Infinito.

O Conde D'Eu e suas lembranças do Brasil

(Postagem feita inicialmente no Facebook da Pro Monarquia)

    Em 1921, quando – após mais de três décadas do início do injusto e penoso exílio imposto à Família Imperial Brasileira quando do golpe de Estado republicano de 15 de novembro de 1889 – o Conde d’Eu enfim pôde visitar o Brasil, um ano antes de seu falecimento, Sua Alteza foi recepcionado e acompanhado pelo historiador Max Fleiuss, que deixou narrados alguns episódios ocorridos naquela ocasião:

“No Palace Hotel, onde se achava hospedado, assisti a várias cenas que lhe confirmavam a estupenda memória. Certa manhã foi visitá-lo um cavalheiro da família Miranda Montenegro. Ao entrar, fez uma reverência. O Conde encarou-o, e de pronto chamou-o pelo nome de batismo, e nos disse havê-lo conhecido menino, na fazenda de seus genitores, contando pitorescamente vários incidentes, um dos quais foi a passagem numa pequena ponte carcomida, do que resultou um banho nada confortável.

“Outra visita foi a de um ancião de grandes barbas brancas, calças da mesma cor e um fraque antigo. Ao vê-lo, o Conde abraçou-o com enternecimento e, pondo-lhe a mão na cabeça, exclamou:
“– Cá está ela!
“Era uma depressão produzida por bala, na batalha de Campo Grande. O velho chorou de prazer.” 

 

Fonte: XAVIER, Leopoldo Bibiano. Revivendo o Brasil-Império. 1º ed. São Paulo: Artpress, 1991, p. 177.

Foto abaixo: Sua Alteza Imperial o Príncipe Dom Gastão de Orleans, Conde d’Eu, na última fotografia tirada antes de seu falecimento, ocorrido a 28 de agosto de 1922.


 

Um Presidente de República católico visto na perspectiva de um Príncipe Católico

 (excertos de uma postagem do Facebook da Pró Monarquia)

   No último dia 6 de agosto, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, foi convidado de honra da Conferência “Dom Gabriel García Moreno: o Presidente dos equatorianos de ontem, hoje e sempre”, promovida no formato de videoconferência, a fim de marcar o transcurso, naquela data, do 146º aniversário do martírio daquele que muitos consideram o maior estadista católico do século XIX.

   Falando em espanhol, o Príncipe Imperial proferiu palestra intitulada “García Moreno sob a perspectiva de um Príncipe Católico”, discorrendo brilhantemente sobre aquele monarquista e paladino da defesa da Santa Igreja, que foi Presidente do Equador por duas vezes – entre 1861 e 1865 e depois entre 1869 e 1875 – e consagrou seu País ao Sagrado Coração de Jesus. Eleito para um terceiro mandato, foi assassinado a 6 de agosto de 1875, pela Maçonaria. Mas sua memória é até hoje celebrada no Equador.

   Discípulos de Doutor Plinio, o Príncipe Imperial e seu irmão, o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, foram desde o início, em 1960, membros da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, e hoje são Diretores e grandes entusiastas do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, tendo participado de sua fundação, precisamente por encontrarem ali a principal frente de batalha em prol de um Brasil autenticamente cristão e monárquico, a Terra de Santa Cruz.


Assista também em nosso canal no YouTube: https://youtu.be/zISSb0sYhzo
Aqueles interessados em assistir à Conferência “Dom Gabriel García Moreno: o Presidente dos equatorianos de ontem, hoje e sempre” podem fazê-lo através do link:
https://www.youtube.com/watch?v=oo-lG0WB1P4

28 agosto 2021

A Arte da Escrita – por José Luís Lira (*)

    Um leitor me escreve (meu e-mail está na coluna e procuro dar resposta a todos os e-mails) pedindo que eu fale sobre a arte de escrever. É última semana de recesso do meio do ano para nós professores, dia de clima temperado aqui no sítio e decidi ir ao encontro de velhos poetas. Sou tentado a transcrever autopsicografia para atender ao leitor. O vate português Fernando Pessoa que tão bem encarnou e viveu a alma poética, dizia: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.// E os que leem o que escreve,/ Na dor lida sentem bem,/ Não as duas que ele teve,/ Mas só a que eles não têm.// E assim nas calhas da roda/ Gira, a entreter a razão,/ Esse comboio de corda/ Que se chama o coração”.

   Rachel de Queiroz, a autora que mais me inspira indiscutivelmente, em sua última crônica publicada na imprensa, em 22 de março de 2003, a partir daí ela disse que iria tirar férias, as primeiras em seus 70 anos de crônica e jornalismo, mas, não voltou, destaca na crônica “A ‘inspiração’ não vem para todos”: “O processo todo é penoso e dolorido – e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com o processo fisiológico -, que se assemelha terrivelmente à uma gestação, cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos”. Rachel dizia que não gostava de escrever e por isso, talvez, sua escrita tenha sido genial, tão bem trabalhada nos mínimos detalhes.

   Mas, ainda tentando responder ao leitor, decidi assistir pela enésima vez ao filme “Shakespeare Apaixonado”, de 1998, que retrata uma espécie de bloqueio criativo em Shakespeare que não consegue escrever nada. Em resposta a um dono de teatro que lhe cobrava “a peça”, o intérprete de Shakespeare diz a este: “Você não tem alma. Como iria entender o vazio da solidão?”. Mas, tudo se muda quando ele encontra uma paixão, uma musa para seus textos que passam a fluir naturalmente.

    Embora considere que escrever é algo “viciante”, Você começa e não quer mais parar, para se ter algo bem escrito é preciso ter uma causa a atender e porque não dizer que se escreve melhor quando se está apaixonado, que nem o tema do filme? A paixão tem variadas manifestações e aqui me lembro de Dom Helder Câmara que dizia que o segredo da eterna juventude era ter um ideal. Não quero aqui falar em livro meu, mas, quando o trabalho tem uma razão, ele flui. Não simplesmente por acaso, como quando numa hora vaga escrevo um poema, busco uma ideia para uma crônica. E até esta crônica tem razões de ser. Primeiro, é uma resposta; segundo, almejo que seja lida e seria estranho, mais uma vez citando o filme, “um poeta sem palavras”.

   Meu caro leitor, Wagner Mello, não sei lhe dizer se há uma técnica. É um mistério e lembrando Shakespeare, existem muitos “mistérios entre o céu e a terra”. A inspiração ajuda muito, uma razão, destinação também. Você não me diz no e-mail se escreve também ou se pretende escrever, mas, se puder dar alguma orientação, é interessante escrever de modo que todos entendam, nada de termos muito rebuscados. É preciso ser entendido para poder ser lido, seja em texto poético, histórico, jornalístico, enfim, na crônica ou romance. E recordando a musa Rachel de Queiroz, ademais, se “pena, padece e só então escreve”.


   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


24 agosto 2021

O céu das palavras - Por: Emerson Monteiro


No instinto de encontrar a paz na consciência, objetivo de tudo quanto há, eis que os nativos pelejam nos desertos da solidão, feitos feras que fogem de si pelas sombras de procuras desesperadas. Insistem na esperança de, lá um tempo, desvendar o mistério dessas andanças, e quando mesmo aguardam, nisso dão de cara com as visagens que sempre lhe perturbaram antes. Vasculham o lixo dos desassossegos e das ideias, e veem o tanto de perdição das horas equivocadas no pranto das vezes largadas ao vento quais inúteis paisagens fossem das noites insones.

Daí que vêm as palavras a trazer orações, confortos e litanias. Gritam sons harmoniosos, entoando loas aos sentimentos, ferindo de dor as fibras da emoção, paixões desenfreadas, ânsias e desejos que alimentaram essas ocasiões escuras de saudades e prantos. Palavras cadenciadas à luz da verdade escondida debaixo dos olhos da ausência de quem mais esperava os segredos desta vida. Elas, as palavras, que consolam e alimentam. Revivem sonhos adormecidos que persistem vivos na memória, certezas de melhores momentos de amor e carinho.

São inúmeras as oportunidades em que as falas dizem disso, desses amores que vagam pelos dias, nas portas abertas dos instantes que se renovam perante almas perdidas no lodaçal das amarguras. Trazem notícias de mundos outros que ainda virão tão logo as mágoas sejam só fumaça no coração das pessoas. Existem, pois, essas possibilidades vivas de recriação das luzes da plena Felicidade. Que sustentem a firmeza na fé e trabalhem a certeza íntima do Ser. Porquanto a continuação de tudo leva a isto, da reconquista dos sois que pertencem a todos.

E nisso as palavras falam com força e constroem o instinto de encontrar a paz da consciência, objetivo de tudo quanto existirá, no entanto.

23 agosto 2021

Um começo de conversa - Por: Emerson Monteiro

 


O canto / Está escrito: “Ele pôs termo às trevas”. / Ao ler estas palavras, o Rabi de Kotzk costumava exclamar: ­– Deus deixou um canto livre nas trevas para que o homem possa abrigar-se. (Do livro Histórias do Rabi, de Martin Buber)

Há que ser sempre assim, canto a que chegar um dia deste, através de si próprio, pelas trevas da matéria onde ainda estamos no dispositivo da consciência de achar o portal da libertação aonde possamos nos abrigar do destino.

A isto viemos aqui. Quais labirintos a céu aberto, e tocamos as existências neste segmento de revelar a nossa Salvação. Nisto indicam as escolas filosóficas e religiosas, durante todo tempo, setas no caminho do Infinito, pois a tanto somos destinados, numa missão redentora.

Quais viventes livres nos labirintos individuais da Natureza, tocamos cada passo na busca desse desiderato de argonautas do Espírito, frutos da sequência original de tudo quanto existe. Daí, as muitas histórias pessoais do conhecimento adquirido no transcorrer das gerações, porquanto viemos aqui tantas vezes quantas necessárias sejam até desvendar a saída deste Chão e encontrar o reino definitivo da Eternidade espiritual.

Porquanto significamos um sistema inteiro de autoconhecimento, a dispor da evolução pessoal, estrada dos sonhos e das luzes, em nossas mesmas mãos. Das experiências guardadas, somamos forças de, lá num certo momento, divisar, no horizonte das reencarnações, o sentido pleno de tudo quanto vivermos e guardarmos, farnel das jornadas aprendidas e praticadas. Simples, pois, interpretar os motivos que nos trazem neste mundo, conquanto pudermos avaliar a perfeição absoluta da Criação a que pertencemos.

Por mais desejemos fugir dessa sequência natural do processo da transcendência aos níveis superiores, em nós importam os limites desta liberdade maior aos quais nos destinamos, seres em potencial da Certeza de uma fé perene e reveladora.

22 agosto 2021

Sucatas eletrônicas - Por: Emerson Monteiro

Vida é aquilo que acontece enquanto se está engalfinhado nas redes sociais.
 Nesses tempos só eletrônicos, de admirar que ainda estejam vivendo, pois. Outro dia, meus netos acharam restos de um computador jogado nas calçadas do bairro e ficaram a examinar seus componentes; a placa, os eletrodos, os circuitos, assim quais quem descobre as entranhas de um lagarto mecânico seco no sol. Nas entrelinhas das peças, olhos bem abertos, jamais imaginariam que hoje o mundo depende disso com quase exclusividade, não fosse comer, trabalhar e dormir. Disso e das bolsas de valores espalhadas nos pregões das matinês. Quanta mudança em tudo. Sobremodo nesta geração que vem do telefone de parede e das velas acesas dos jantares solenes. Dias e séculos em tão poucos minutos, na cachoeira do tempo a deslizar pelas corredeiras. Na escola de Jornalismo, a gente estudava a proximidade da notícia. Que, na redação, seria mais importante a notícia do vizinho que levara um tombo e torcera o pé do que um atentado terrorista do outro lado da Terra. Já agora tanto faz, quanto tanto fez, porque nem dos vizinhos a ninguém importa o suficiente (Farinha pouco, o meu pirão primeiro, qual dizem na Bahia).
De caras enterradas nos jogos eletrônicos e nos celulares, correm as multidões à busca da fúria do próximo desejo. Tais máquinas de fazer o filme do inútil, no canal por assinatura, as emoções viraram coisas, objetos de somenos. Correr sem ter aonde, viver aos trancos e barracos as invenções do último tipo. Chavões de si mesmos, criaturas pensantes resistem às horas feitas aos pedaços de uma engrenagem avassaladora jogada no lixo, em que dinheiro pesa o quanto de felicidade que podem adquirir nos shoppings de esquinas engarrafadas. Tipo isso de crítica de nós próprios, vemos nenhuma coerência de submissão aos valores deturpados da evolução científica, no entanto numa fase de experiência mil.

20 agosto 2021

Diocese de Tianguá: Jubileu de Ouro – por José Luís Lira (*)


   A Diocese de Tianguá foi criada por São Paulo VI, Papa, juntamente com as Dioceses de Itapipoca e Quixadá, a 13/03/1971 e foi desmembrada da Diocese de Sobral, em todo o seu território.

   É interessante, nesse Jubileu, destacar a importância de Dom Walfrido Teixeira Vieira, Bispo de Sobral (1965-1998), na criação da Diocese de Tianguá, embora se saiba que o projeto estava nos planos de seu antecessor, Dom João José da Motta e Albuquerque. Também interessante é lembrar carta assinada por cinco párocos, vigários e um cooperador, dirigida ao Bispo de Sobral, Dom Walfrido, datada de 31/07/1965, pedindo a criação da Diocese de Tianguá. São eles: Mons. Antonino Soares, Pároco de Guaraciaba do Norte; Mons. Antônio Regino Carneiro, Pároco de Viçosa do Ceará; Pe. José Aristides Cardoso, Vigário de Ibiapina; Pe. João Batista Araújo, Vigário de Carnaubal; Pe. Tibúrcio Gonçalves de Paula, Vigário de Tianguá e Pe. Fulton Bezerril, Vigário Cooperador de Tianguá. Durante muito tempo, a Diocese de Tianguá recebeu o epíteto de “a Diocese dos Monsenhores”, visto que grande maioria de seu clero recebera essa titulação da Santa Sé.

   Dom Frei Timóteo Francisco Nemésio Pereira Cordeiro, OFM, foi nomeado o primeiro Bispo da Diocese de Tianguá, a 30/04/1971, sendo sagrado Bispo no Santuário de São Francisco das Chagas de Canindé, no dia 04/06/1971, pelo então Bispo de Sobral, Dom Walfrido Teixeira Vieira, o grande artífice da criação da Diocese.

   A instalação da Diocese de Tianguá e sua posse se deram em 22/08/1971, em solenidade sob a presidência do Cardeal Aloísio Lorscheider, contando com a presença do Núncio Apostólico, D. Umberto Mozonni, de numerosos bispos, destacando o de Sobral, Dom Walfrido Vieira e Dom José Coutinho, de Estância, Sergipe, que foi pároco na Diocese e Bispo Auxiliar de Sobral; do então Governador do Estado e outras autoridades.

   Dom Timóteo ainda é lembrado pelos diocesanos e recebe homenagens. Após o falecimento de Dom Timóteo, ocorrido em 20/03/1990, o Mons. Tibúrcio Gonçalves de Paula foi eleito administrador Diocesano, pelo Colégio dos Consultores da Diocese, até a chegada do novo Bispo.

    O segundo Bispo foi Dom Francisco Javier Hernández Arnedo, OAR, nomeado bispo de Tianguá por São João Paulo II, em 06/03/1991 e, recebeu a sagração episcopal das mãos do Cardeal Aloísio Lorscheider, a 19 de maio do mesmo ano, em Manaus, sendo empossado no dia 24/06/1991. No seu profícuo pastoreio criou paróquias, áreas pastorais e deu nova dimensão à Diocese.

    O atual Bispo de Tianguá é Dom Francisco Edimilson Neves Ferreira, empossado a 20/05/2017.

    A Diocese possui em seu território Litoral e Sertão e a Serra da Ibiapaba, denominada de “Serra Grande da Ibiapaba”, um Planalto com média de 640 a 950 metros de altitude sobre o nível do mar e politicamente, conta com 13 municípios, 20 Paróquias e o Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Fátima da Serra Grande, sediado em São Benedito.

   Nessas celebrações, neste domingo, 22, Frei Santiago Lazaro, pároco de Nossa Senhora dos Prazeres, de Guaraciaba do Norte, inaugurará a nova Galeria dos Párocos e as fotos dos três Bispos da Diocese de Tianguá.
 
     Senhora Sant’Ana, padroeira da Diocese, juntamente com Nossa Senhora – a Virgem dos Prazeres, proteja todo este povo de Deus!

   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



19 agosto 2021

Os quatro cavaleiros do Apocalipse - Por: Emerson Monteiro


Tudo a seu tempo. Nos idos da Segunda Grande Guerra, quando imaginaram haver topado no limite previsto pelas Escrituras de que a raça humana, lá um momento, chegaria aos extremos das eras e ...

Bem, por que escrever assim trazendo tamanhos conceitos históricos, quando há tanto o que ainda realizar? Fico meio sem jeito de fugir dessa rotina de mensagens que ora circulam o mundo. Pensar no tanto que já se obteve de sucesso nas tantas áreas do raciocínio e, de uma hora a outra, tudo virar apenas isso de perdição?

Sei não, mas acho cedo de pensar no desaparecimento das civilizações e começar tudo outra vez, dessa em níveis mais adiantados, segundo outros conceitos, de que a Terra passará a um patamar superior, sob o prisma dos planetas habitados.

Porém imperam graus de barbarismo nos muitos aspectos do que ora presenciamos diante dos acontecimentos. Espécie crônica de egoísmo parece querer dominar a mentalidade, numa indiferença de causar espanto, sob seus variados aspectos.

Enquanto que as experiências do passado precisam fazer efeito positivo no comportamento das pessoas, que abram os olhos da consciência e passem a exercitar os valores aprendidos no decorrer das gerações, no que, por vezes, a preguiça moral impera e destrói esperanças e sonhos.

Sei, por conta do instinto, que o Espírito tem condições de aprimoramento e o senso da fraternidade, e trabalhar os sentimentos é um dever, a fim de encontrar as respostas dos desafios à maldade, às indiferenças e aos desastres cometidos sem a menor reação de solidariedade. Sabe-se, a toda hora, da urgência de sentido às ações praticadas no transcorrer dos séculos, que tão só depõem contra a perfeição que poderíamos identificar em nós mesmos. No entanto a História demonstra exatamente o contrário, em uma avaliação geral do que até agora se produziu de consistente. Conquanto desejemos dias claros e realizações de paz, seremos sempre os atores da cena de que necessitamos vivenciar.

(Ilustração: Pieter Brueguel, o Velho).

16 agosto 2021

O que dizer nesta hora - Por: Emerson Monteiro


Neste tempo de enormes contradições que parecem dominar o palco dos acontecimentos mundiais, o que deixa vir à tona e acrescenta algo que seja de esperança e mudança positiva. Tempos de guerras localizadas, mesmo assim não menos cruéis do que as mundiais, com morticínio em massa de grupos sobre grupos, aos olhos de uma humanidade incapaz de apresentar saídas justas e equilibradas. Hora crítica também no quadro sanitário, com virose de proporções inimagináveis a ceifar vidas dentre todos os povos. Fase de crise alimentar que se alastra no Planeta e ameaça sobremodo os países mais populosos. Urgência de lideranças honestas e estadistas de visão que possam mitigar a necessidade coletiva de comandos justos. Que dizer, pois, que represente alguma perspectiva, invés de encher o espaço, pura e simplesmente, de aflição e desânimo. Olhemos com olhos claros.

A expansão indisciplinada dos seres humanos pela face da Terra, cedo ou tarde, daria nisso, numa ausência de sentido às experiências egoístas dos poderosos na luta de fracos e fortes, que significa poder viver diante das suas carências básicas. Até convencer os donatários da riqueza de que os recursos naturais devem ser repartidos de igual para igual nenhum sintoma indica esta sensibilidade nos viventes atuais. Apenas uma sede galopante de posse empana os céus. Aonde virar e vemos a ganância prevalecer sobre o bom senso.

Seguíssemos assim, haveria impasse absoluto na existência da vida. No entanto há que surgir alternativa que vença tais inviabilidades. Em termos práticos, a força de uma certeza maior que prevaleça quanto a tudo de ruim. Os limites aí estão face ao quadro dantesco de um momento jamais vivido. Só a destruição, por si só, em nada representaria o Poder maior das existências que nos trouxe até aqui. Queremos crer, por isso, por tamanha adversidade a superar, que vivemos agora um novo desafio, parto de novos tempos e novas luzes.

15 agosto 2021

A arte de dominar o Sentimento - Por: Emerson Monteiro

Ou seja, de que jeito dominar a Si Mesmo e preencher o pano da visão.

Existe uma parábola zen que fala de um monge que sai a procurar um touro bravio que fugira e avança mata adentro. Depois de longa jornada, quando localiza o animal, principia a domá-lo, tarefa das quase impossíveis. Nessa aventura, termina por conquistar a fera. Assim, obtém a graça de montar o touro e retornar, pondo-o no curral. Em tranquilidade, se senta na varada e ali permanece a contemplar a Lua.

Outro tanto disso tudo significa o empenho de cada um aqui do Chão, dominar a natureza de que parte, alentar o ânimo da imaginação, penetrar as sombras da vontade e desvendar na calma a Paz de que fomos feitos.

De quando em quando, vem essa impetuosidade de sentir a força do Amor, a que empenhamos esforços de controlar, restando saudades, angústias, solidão, impasses, talvez até o desânimo. Agonia. Dizem que quem ama sofre, mas quem não ama sofre mais. Nesse ímpeto de tocar em frente, que inexiste outro tanto senão isso, o monge que trazemos conosco avança nas florestas da alma, na ação de desvendar os mistérios da felicidade, que fogem pelas esquinas do desconhecido. E vivemos, e seguimos, e amamos mesmo assim.

Contam as escolas místicas que o maior empenho de Jesus há de ter sido condensar toda sua vibração inigualável num único Ser e vir ao mundo demonstrar, a todos nós, as vias da Salvação. Magnânimo empenho, magistral compensação. Enquanto que resta-nos concentrar nossos esforços, energia, pensamentos e sentimentos, numa causa primeira e encontrar a Luz da Consciência nas palmas do coração. Quanto viver, quanta arte, quanta verdade. A isto viemos e daremos de conta, no vigoroso compromisso de apaziguar a nós mesmos e realizar o Bem maior, penhor da nossa maior gratidão.

13 agosto 2021

E quando soar a última trombeta - Por: Emerson Monteiro


Ali quando chegar a hora derradeira do impossível de seguir adiante, na pequenez do que nós somos. Quantos sinais de interrogação podem surgir nessa frase dos tempos finais da consciência?! Nisso, as gerações se sucedem. Lastro de tantas vidas que demonstra o tanto de viver e esperar mais no tempo. E o que fazer senão tocar em frente o prumo das existências e aguardar novos sóis e novas terras? Isso bem na hora do limiar dos infinitos que nos aguarda de braços abertos.

Assim, o vislumbrar do instante definitivo, daquela ocasião quando fecha a empanada e os atores saem de cena, por vezes exaustos, noutras apenas trôpegos das visões do inútil. Luzes apagadas indicam o término da função, e surgem as perguntas de o que aprendemos dos apuros e das festas.

O som cavo do horizonte a gritar pelas vastidões do mistério, e nós apenas afeitos ao inesperado quais alimárias sem destino. Sim, seres individuais. Mapas estanques de si mesmo, pranteamos a história que termina. Alguns admitem que o mundo acaba a quem morre. Outros, no entanto, narram dos livros sagrados que virá um instante preciso de prestar contas do que aqui nos fora entregue, a fim de revelar os segredos da Natureza. A alma, qual livro de todas as explicações, soma necessidade com sinceridade; bem sabem da urgência do sentido que caminha aqui ao nosso lado. Ninguém veio neste chão por mero acaso, pois.

Nessa intenção, inesperam as expectativas sólidas dos dias que passam na esteira silenciosa do tempo, que transcorre sem avisos prévios. Há os credos que falam da hora precisa em que os céus mudarão de cor e astros rolaram no espaço. A quem nos cabe indagar dessa hora crucial a não ser à nossa consciência?! Que sou, donde venho e aonde irei, causas essenciais que moram sempre no coração da gente.