29 julho 2021

O eu e o mar da realidade - Por: Emerson Monteiro


Bem isso, de querer resistir ao indomável, e permanecer no vazio das atitudes perdidas. Pretender determinar o transcorrer dos acontecimentos e haver de aceitar a fragilidade tal razão principal da humana condição. Usufruir da liberdade apenas como imitação do que poderia ser caso houvesse real consciência dos momentos assim vividos. Vagos instrumentos da perfeição, no entanto apenas vítimas dos frutos que tiver plantado. Esses agora feitos de vontade insuficiente de controlar o tempo que escorre pelos sentidos. Entes, pois, largados ali nas calçadas do destino quais pequeninos insetos ao sabor dos ventos e da sorte. Eus, muitos eus, de armas em punho, contudo sujeitos da fragilidade e da justiça eterna. Astutos bonecos artificiais, detentores da dúvida, morrentes criaturas da cachoeira das espécies. Pecados de almas arrependidas, superam a própria insegurança por meio das práticas e dos altares da existência. São eles, os eus, a soma de um eu maior de todos, a circular num caleidoscópio infindável de eras e películas, meros detentores do percurso vida agora e sempre.

Do lado de lá, o império da Lei do Cosmos. Sem tirar, nem botar, uma só vírgula, somos aprendizes de nós mesmos, na caligrafia da pele e do triturar dos ossos. Alvoreceres brilhantes seguidos de intensas epopeias de sonhos, após o que adormecem nos ombros das noites quase iguais. Luzes que se apagam, mais dia, menos dia. Artefatos de vozes e deveres, são cegos em busca do Sol. Máquinas do desespero, fomentam o desencanto nos demais, todavia iludidos nos prazeres da ilusão. A realidade, outrossim, insiste dizer a que objetivo, que a segredar na resistência dos justos.

Nem de longe haverá, então, desânimo perante o desencanto desses alienígenas que tangem aqui suas necessidades de perfeição. Porquanto, vez que tudo persiste na intenção da exatidão matemática do Universo, sustentar esse desejo de acertar fica por conta dos dias, sob o prisma do Eterno, e pronto. 


28 julho 2021

Célia Teles, um perfil de coragem - Por: Emerson Monteiro


Dentre meus amigos de Crato de todo tempo, onde imperam personalidades que marcaram definitivamente meu acervo de memórias inesquecíveis, existem pessoas que fixaram residência em minha história, dos quais jamais pagarei o tanto de riquezas em mim depositadas. Vários, vários deles persistem na caixa da gratidão, das lembranças raras, doces, valiosas. Fosse narrar as ocasiões de alegria que me proporcionaram, de certeza um oceano de felicidade já posso haver conhecido e nas suas vagas navego feito galeão de reconhecimento e paz.

Célia Teles é desses amigos raros com quem desfrutei ditos instantes jamais esquecidos, criatura de um amor à flor da pele, que viveu comigo fase de incertezas e realizações, no âmbito das artes, desde o cinema, a fotografia, pintura, desenho, exposições e aflições. Somos, pois, cúmplices de tantos segredos sinceros que apenas disso posso contar em tão pouco espaço e desta maneira.

Dentre nossas aventuras, fizemos juntos um filme inacabado, Terra ardente, do qual organizou a equipe e intermediou a participação de Marli Pladema, atriz principal; foi a curadora de minha primeira exposição de quadros pinturas e colagens no Instituto Cultural do Cariri, quando este ainda funcionava na Praça Três de Maio; em Crato. Passamos juntos os transes políticos de uma época da exceção, os anos parte dos anos 70; desfrutamos de muitas noitadas psicodélicas no sopé da Serra do Araripe; sonhamos os melhores sonhos da geração de que somos frutos; e sempre acompanhou meus passos com respeito e carinho.

Celinha Teles, personalidade marcante da geração interiorana do Cariri cearense, minha amiga incondicional, dotada de talento e liderança, força de trabalho e inovação, de uma capacidade extrema de produzir, nas artes e naquilo que resolva concretizar. Escolheu o mundo da moda por instrumento profissional, deslocando para Recife seu ateliê, lugar onde ora vive e trabalha.

Ninguém que não seja Célia Teles, personagem feminina emblemática, a fim de testemunhar a epopeia de todos nós, os visionários da segunda metade do Século XX, tempo de conflagrações e desespero. Ela uma bênção a todos, junto de quem sofreu contradições e furores.

Destarte, tomei a tento somar em pouco espaço o perfil desta heroína do meu tempo no mora no meu mais íntimo coração.

27 julho 2021

O poder inestimável do otimismo - Por: Emerson Monteiro


Diante dos acontecimentos, só a realidade persiste. Nuvens vêm e vão, às vezes escuras, tantas vezes suaves. Flores, há flores, esperança, que é a matéria prima da fé. Luzes que clareiam enquanto as noites dormem. Vontade intensa dos dias melhores, que sempre vêm. As cores, as formas, os dias, quanto de bondade envolve os corações. Quanto ainda resta até que nos rendamos de tudo à paz da consciência da gente. Quantas alegrias circulam os momentos, enquanto horas fluem nesse ritmo das horas. Isso de esperar o melhor daquilo que plantamos de mãos limpas. A certeza da justiça sobranceira, que jamais haverá de faltar. O ordenamento natural dos fenômenos a que temos de obedecer, porquanto de perfeição os céus do Universo assim determinam. Durante todo tempo, a configuração de uma plenitude dominante no quanto existe e existirá sempre. Motivos que sobram de a gente aceitar as condições ideais de tocar em frente nossas vidas, junto de pessoas que se amem e usufruam da grandeza desse amor.

Em face de tais justificativas, trilhemos o espaço das histórias de modo leve, de conformidade ao que mais desejemos, a nós e aos nossos irmãos. Que usufruamos das respostas que o sentido de viver possa produzir de útil das nossas atitudes. Que os valores que adotemos permitam que aguardemos consequências de felicidade, que disso alimentemos com firmeza. Que o transcorrer do tempo signifique resultados positivos perante os segredos da bondade. Sermos livres de pesadelos, salvos de nossos equívocos e amigos de nós mesmos, na prática das boas ações. Acalmar o coração e apaziguar os pensamentos por meio de novos métodos de cura da alma. Permitir ser autores dos instantes de harmonia que tanto aguardamos dia após dia. Realizar, pois, a nossa transformação através dos instrumentos de que recebemos a virtude. E então haverá um jardim de palavras claras e sonhos transparentes da Luz neste Chão.

26 julho 2021

Razão e coração - Por: Emerson Monteiro


Intelecto e sentimento, eis as duas parcelas do único todo que somos nós. Flutuamos, pois, entre os dois instrumentos dessa unidade que a transportamos no íntimo do ser. Trabalhamos nos dois pratos dessa balança à busca de equilibrar no fiel que nos domina; os dois hemisférios do que somos, alternativas às nossas mãos, durante todo tempo. Raciocinar e sonhar. E nesse movimento há o comando que se desmancha nas escolhas constantes de um eu que testemunha enquanto age, a mente, e o resultado é o existir.

Raciocínio vive nos limites da matéria, enquanto coração sobrevoa aos lugares distantes da fé, da imaginação e dos sentimentos. Bem nisso, nessa dicotomia, deslizamos quais equilibristas num fio. Por mais queiramos seguir doutro modo, a tais situações fomos estabelecidos desde sempre. Frutos dessas flutuações, viemos no intuito de praticar o senso da compreensão da árvore do Conhecimento entre eles dois. Um a um, independentes, no entanto restritos a este padrão de entendimento; assim tangemos o barco da existência feitos escravos e senhores de nós mesmos.

À medida de nossa evolução pelas vidas, identificaremos o jeito próprio de operar a condição humana, até galgar o nível superior na escala da evolução. A consequência disto representa o resultado da missão dos seres inteligentes. Autores da missão de participar da Natureza, que levemos em conta o aprimoramento da Consciência que nos foi depositada.

Herdeiros universais de tudo quanto significa a experiência de todos os reinos e elementos essenciais do processo Vida, tocamos adiante, o mecanismo dessa teia maravilhosa da Criação. Heróis em potencial de tudo, durante o infinito das eras, seres independentes entre si, elaboramos o roteiro, à medida em que aperfeiçoamos a compreensão, e exercitamos o poder de nossas mãos.

Ninguém, por si só, esteja abaixo ou acima dos demais. O que importa, na verdade, é cumprir fielmente aquilo a que estamos destinados, na busca da síntese do Universo através de toda Humanidade.

(Ilustração: 2001, Uma odisseia no espaço, de  Stanley Kubrick).

24 julho 2021

O que esperar da Eternidade - Por: Emerson Monteiro


Se existe o transitório, é que existe o Eterno. Isso lá depois de tudo daqui, passadas as sombras de nós mesmos, transpostas as barreiras do Infinito; o que esperar, pois, da Eternidade?! Pergunta estridente, que fere de dramas as histórias individuais e coletivas desses quadrantes dos milhões de séculos sem fim, amém. O que ali, nos jardins do Éden do eterno, iremos viver, após tantos trens de impacientes e assustados passageiros pelas estações destas vidas... Aonde iremos parar lá certa vez...

Bom, existem as mais diversas concepções quanto ao tema, no entanto todas vinculadas aos espelhos que as refletem, nós, os figurantes daqui. Assim qual luz dos tempos que espelham as pessoas e objetos no tabuleiro, a matriz do Universo desfaz seus enredos às margens do rio do Tempo. Desliza feitas folhas secas no vento, deixando marcas profundas nos olhos das criaturas e foge numa fração de mistério quais bichos inigualáveis.

Largados aos céus das almas, vamos fixos na ânsia de permanecer a todo custo nas vivências, morrer, jamais. As chances disso, contudo, são mínimas, pois exigem de quem as tanto deseja deixar de lado os apegos da ilusão e se abandonar à correnteza da inexistência. Enquanto ligados aos desejos de permanecer neste Chão, apenas restam as ruínas que os séculos desfazem tão logo em seguida, na cachoeira das eras.

Nisso, o que esperar da Eternidade significa isto de uma fantasia ausente nas consciências primitivas, carentes da plena realização, da auto realização, na descoberta do Ser, o salto definitivo da Salvação. Horas a fio que desafiam de continuar existindo, conquanto desvendem o segredo maior da presença num espaço até então desconhecido. E transportamos conosco a cura, na luz íntima da Consciência em desenvolvimento.

Todos, em tropel, clamam face ao desespero de, ali adiante, desfazer os laços da matéria e mergulhar nos véus do mistério tenebroso.

22 julho 2021

Aceitação - Por: Emerson Monteiro


Avaliar um pouco da necessidade dos seres humanos de compreender tudo quanto existe. Considerar a importância de confiar nos valores eternos, vez que ninguém que seja ora já identifica por inteiro as explicações dos mistérios. Que persistem razões definitivas do senso do Universo,
temos certeza disto, porquanto aqui neste momento impera a realidade insofismável. Dela impossível de esquivar. No entanto todos querem explicar à sua maneira. Até que faz sentido o que muitos afirmam, belas descrições, definições e depoimentos, porém difícil viver na prática tais interpretações.

Daí a quantidade dos credos, das filosofias, escolas variadas durante todo tempo. Quer-se encontrar o justo peso de todas as medidas, contudo restritos ao grau de compreensão de cada um. Nisso vagam pelos corredores do tempo, absortos nos limites da mentalidade humana. Seres ainda pequenos que alimentam desejos tão inatingíveis, pois a mente vive a insuficiência de tocar de tudo no invisível que percorre às cegas nos segredos universais.

Daí, que alternativa se não a entrega aos princípios da Fé, visões das dimensões que dominam tudo, afinal. É certo que há testemunhos daqueles que foram mais longe, os místicos, os santos, taumaturgos, iniciados... Eles dizem do que viram e veem, tais quem subiu mais alto as montanhas do imponderável e descreve ao seu modo o outro lado da paisagem. A vontade mesmo, todavia, representa esse esforço sobre-humano de chegar a estes patamares de convicção, perante os quais multidões aguardam ansiosas dias de uma certeza absoluta.

Outro jeito assim demonstram as criaturas humanas, de seguir os mestres, suas normas, suas narrativas, e pelejar no vácuo das fronteiras do desconhecido, olhos fixos na esperança de, lá um instante, vislumbrar a plena clareza da Consciência. Enquanto isso, aqui trabalham o íntimo do ser, à busca da paz de que tantos falam e quantos apenas sonham de olhos abertos.

Reminiscências do Cariri por Armando Rafael – por José Luís Lira (*)

    Na última terça-feira, dia 20, celebrou-se o 87° aniversário da chegada do Pe. Cícero Romão Batista no céu, sem presença, por conta da pandemia, de romeiros ou “amiguinhos” do Pe. Cícero espalhados pelo Brasil e que sempre se fazem representar em Juazeiro do Norte.  A partida do Pe. Cícero desta vida terrena se deu no dia da amizade. Em 18 de outubro de 2016, eu me encontrava em Roma para assistir à canonização do querido São José Luís Sánchez del Río, quando recebi um comentário de Armando Lopes Rafael a uma publicação minha em rede social e surgiu uma amizade leal e sincera. 

     Citei Padre Cícero e amizade, pois, sendo Armando Rafael um intelectual de alta envergadura, historiador por formação, professor universitário, pensei que ele não fosse devoto do Padre Cícero como eu não fui uns tempos atrás. Invadido por contrainformações, eu tive uma visão distorcida do Padre Cícero. Inicialmente, fiquei receoso de falar isso a Dr. Armando, até que um dia toquei no assunto e foi uma felicidade em ver que ele também compartilha dessa visão. Chegamos a ir à estátua do Padre Cícero e fizemos fotos como romeiros.

     Todavia, o tema de hoje é sobre um dos tantos contributos que Armando Rafael, amante da arte de Heródoto e monarquista, ofereceu à sua terra e sua região. A publicação foi feita pela Editora “A Província”, sediada no Crato, em 2020. Recebi exemplar autografado junto com cartão sempre personalizado do autor. Entre as tantas atividades obrigatórias, feitura de um livro e outras coisas, o livro, embora lido inicialmente, ficou aguardando uma manifestação o que faço não por dever, mas, por satisfação e justiça.

       A(s) epígrafe(s) de um livro, recordando aulas dos Doutores Carlos Cozzi e Ricardo Machado, em Buenos Aires, diz ao que se propõe o trabalho e Armando Rafael vai a Honoré de Balzac: “Há duas histórias, a oficial, mentirosa, Ad Usum Delphini, e a secreta, em que estão as verdadeiras causas dos acontecimentos, História Vergonhosa”. E Armando parte para, digamos, uma terceira via, a História real, amparada em arquivos pessoais e enriquecida fontes biobibliográficas para fazer justiça a três caririenses de nascimento e dois por adoção.

   Trata, em artigos organizadíssimos e delimitados no rigor científico, sobre: 1) o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, contrarrevolucionário de 1817, relacionado à Revolução Pernambucana de 1817, onde se destacaram figuras que depois estariam, também, na Confederação do Equador. 2) Joaquim Pinto Madeira, o caudilho que se relaciona com as duas revoltas citadas, fuzilado no Crato. 3) Dr. Leandro Bezerra Monteiro, o varão católico, advogado e político caririense, nome de destaque na questão religiosa do II Império. 4) Dom Francisco de Assis Pires que recebeu do Cardeal Leme o epíteto de violeta do episcopado brasileiro, por sua fidelidade, castidade e humildade. 5) Dom Newton Holanda Gurgel, quarto bispo de Crato, a quem, conforme o autor, Crato deve grande homenagem. Poder-se-ia dizer que são cinco ensaios biográficos num livro.

   “Algumas Reminiscências do Cariri”, ilustrado com a Bandeira Imperial hasteada no cimo da chapada que abriga aquela região, é uma pequena/grande joia histórica e literária que deve ser lida e apreciada por nós, brasileiros e pelo mundo. Parabéns, mais uma vez, Dr. Armando.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


21 julho 2021

Homenagem de Jackson Bantim para sua amada Fátima

 

Meu grande amigo-irmão Jackson Bola Bantim estar casado com Fátima há 41 anos. 

Hoje, ela está fazendo aniversário. Jackson lhe prestou uma linda e comovente homenagem, que fiz questão de publicar.

“Hoje é dia de celebrar o dom da vida de uma pessoa mais do que especial para mim, minha amada esposa Fátima. 

Também estamos comemorando 48 anos, 7 meses e 5 dias desde que nos vimos pela primeira vez.

E foi amor à primeira vista.

Neste dia eu estava em Recife e pedi a minha irmã Jane que registrasse em fotografia aquele memorável evento, enquanto escrevia na areia da praia o nome da mulher que, eu já sabia naquele momento, seria a minha esposa para o resto de minha vida. 

Essa escrita foi simbólica, pois, na verdade, o seu nome ficou gravado para sempre em meu coração.

E pedi para que as águas do mar protegessem para sempre o grande amor que perdura até hoje, com as bênçãos do nosso bom Deus.

Daqui a 9 anos, em 8 de Setembro de 2030, com as graças divinas, iremos comemorar nossas bodas de ouro, considerando a data do nosso enlace matrimonial, selando, assim a historia de um casal feliz e que tem Deus no coração”.

Jackson Bantim, 21/07/2021.

O meu grande abraço para este casal dileto e amigo. Toda a felicidade do mundo para os dois.



20 julho 2021

A quantas anda o destino de tudo - Por: Emerson Monteiro


Isso de olhar o tempo que passa e deslizar junto dele, com se ele sendo. Deixar que os pensamentos habitem fora de nossa alma quais intrusos intermitentes que os acharam aliados que aceitam de mão beijada transcorrer só nas memórias e pronto. Entregues, pois, à horda de si mesmos, ao impulso dos instintos, derramam pelas calçadas o comércio desta vida, o melhor que pudesse haver, no entanto. Acham bom que seja assim, nem sabem justificar a razão. Contudo as marcas deixadas pelos céus de nada significam que mereça as mais sinceras avaliações. E desse modo transcorre o destino pelas trilhas do Infinito, amarrando nas rugas das pessoas nenhuma justificativa justa. Seriam meros gastadores de existências na estrada dos momentos que somem logo ali.

Querer considerar a necessidade urgente de conhecimento daquilo que se faça, que bem significaria o sinal dos tempos atuais. Porém as rudes compreensões, quais peneiras vazias, não contêm esse direito maior de interpretar o sentido e os acontecimentos. Bandos fortuitos de pessoas aceitam permanecer no ócio e mergulham de cabeça nesse vendável de paixões. Perdem, que possa ser, os melhores instantes aonde pudessem sustentar as propostas maravilhosas dos valores espirituais, por exemplo. Valores humanitários, também pudessem dizer. Bondades, amores, fraternidade, etc.

Nem sempre de tal maneira o segmento determina que ocorra. Pedem bênçãos, conquanto venham no benefício particular das fortunas. Alimentam apegos desnecessários aos borbulhões das corredeiras. Permitem a si largar ao léu o vão da sorte. Amarguram, por isso, o futuro da própria irresponsabilidade no agora que permitem.

Eis a cara de muitos desses habitantes das cavernas de antigamente, que ainda vagam soltos nos domínios dos mercados. Sobejam da fome dos desejos. Agem quais meros instrumentos das desumanas areias. Aferrados aos desassossegos que constroem, do tanto de poder que lhes ofereçam criam as ferragens das guerras e dos palácios. Atores dos dramas que produzem, desaparecem na esteira de depois sem a menor cerimônia, e deixam atrás os rastros de uma fumaça invisível na saudade dos milhares que antes já haviam desaparecido.

18 julho 2021

Escolhas e consequências - Por: Emerson Monteiro


O senso do Absoluto, que a tudo rege e domina, assim conduz a sequência natural. Habitar a existência bem isto significa, obedecer ao andamento das circunstâncias. No entanto são tantas as opiniões quanto a isto, que de quase nada representa querer compreender que seja assim. Vez em quando alguém de algum lugar se ergue e redefine a arquitetura da Criação. Tantos desses sonhos circulam no Universo das criaturas que mais um menos um impõem os gestos de percorrer os desertos lá de fora.

Acalmar os ânimos de si mesmo vem sendo isto de aprender a viver. Controlar os instintos de enfrentar os desafios quais razão principal. Viver e sobreviver, e aguardar as consequências do que foi feito. Estas nascem das escolhas pessoais, porquanto leis determinam o produto daquilo que plantamos. Correr, não tem aonde. Somos submetidos aos padrões superiores de ordem ainda inalcançáveis, a nós seres humanos.

Por mais profundas sejam as filosofias, dão de cara com essa incapacidade do reconhecimento pleno dos valores que sustentam os pilares de tudo. Máquinas perfeitas em fase de experiência, esses protótipos que aqui atravessam as gerações, somem no infinito dos tempos. Creio ser nítido pensar nas limitações que arrastamos. Porém os frutos crescem nas árvores que plantamos.

Talvez seja por isso a insignificância dos aprendizados das gerações. Vêm, aprendem e desaparecem. A vivência de uns serve de modelo aos outros. Quanto a isto, parece até lento o ritmo desse mecanismo. De comum, os erros tanto se repetem que deixam a impressão de só pura vaidade dos que foram e pura vaidade dos que aqui persistem durante mais algum tempo. Que aprendem, acho que sim, mesmo que numa velocidade por demais reduzida face aos equívocos deixados sucessivamente no chão. Devem melhorar algum dia, alimento esse desejo a meio dos sonhos que vivem comigo durante todo esse tempo.

16 julho 2021

Limoeiro dos Pompeus por Romário Alves– por José Luís Lira (*)

Livro de Romário Alves


    Por ocasião da Live de lançamento do livro “Nossa Senhora dos Prazeres e a História de Guaraciaba do Norte”, resultado de longos anos de pesquisa, recebi o livro “Limoeiro dos Pompeus: Um resgate do Passado”, do historiador Romário Alves. Logo na apresentação diz o objetivo de trabalho: “eternizar de forma escrita a história de uma localidade chamada Limoeiro dos Pompeus”. E “Cada povoado tem suas histórias, seus contos, suas memórias, a sua peculiaridade”. O livro de Romário insere “O homem do campo, a dona de casa, o menino que joga bola no campinho... (...) no universo da História Nova, que vê todo e qualquer indivíduo, independente de sua classe social, como protagonistas do passado, do presente e do futuro”.
 
     Muita coisa interessante se observa em Limoeiro dos Pompeus. O primeiro rádio ali chegado nos anos 1940 e eu fico pensando as transmissões da segunda guerra mundial. As TV’s em preto e branco, fogão a gás etc., tecnologias que foram chegando e ficaram, se aperfeiçoaram, com inovações como telefonia e Internet, entre outras. Cita a economia e aqui lamento o fechamento dos engenhos de cana-de-açúcar, até a produção de açúcar mascavo. Destaque nesse item o mestre Enéas, que fabricava as peças dos engenhos. Vemos as hortas orgânicas, as bodegas que ainda existem e tantos registros. 

      Quando cita as secas, lembra a seca de 1915, imortalizada por Rachel de Queiroz, minha madrinha, no romance “O Quinze”. Os esportes são recordados com dois times locais e as famosas lendas de cada lugar se fazem presentes. De certo modo tive saudades do sítio Correios. São histórias bem parecidas e ressalto o protagonismo de meus pais em alguns itens naquela outra localidade.

      Nosso autor dedica, ainda, belas páginas à Capela de Nossa Senhora Aparecida que teve sua construção iniciada no Paroquiato do saudoso Pe. Raimundo Nonato Lúcio e os atuais tempos estranhos de pandemia são citados. Excelente registro. Quiçá todo povoado tivesse um desses. Nossa história seria mais rica.

      Sobre o “dos Pompeus”, deixo um desafio ao nosso autor: quando falo na educação de Guaraciaba do Norte no meu livro “De Volta a Campo Grande...”, cito que o Senador Pompeu estudou em Campo Grande. Quando falamos no episódio triste do Frei Agostinho, em 1850, concluímos que Maria Cambute (que ajudou o frade) trabalhava para os pais de João Miguel da Fonseca Lobo, nascido em Sussuanha, filho de Vicente Alves da Fonseca Lobo e dona Geracina Carolina de Sousa Lobo, parenta do Senador Pompeu, do qual Cambute foi “ama de leite”. O pai do Senador, Capitão de Milícia Thomaz d´Aquino e Sousa (alguns registra ‘de Souza’), faleceu em Guaraciaba do Norte, a 23/11/1839. O próprio Senador Pompeu cita isso num caderno de lembranças, transcrito no livro “O Clã de Santa Quitéria”, de Nertan Macêdo. O capitão acresceu aos nomes dos dois filhos homens que teve com Jeracina Isabel e Sousa, o nome Pompeu: Antônio Pompeu de Sousa Catunda (que seria pai do Senador Joaquim Catunda) e de Thomáz (Tomás) Pompeu de Sousa Brasil, o Senador Pompeu. Será que essa propriedade não era de Thomaz d’Aquino, pai dos Pompeus Antonio Pompeu (nome de importante rua em Fortaleza) e de Thomaz Pompeu (Senador Pompeu)? A sorte está lançada, ao nosso historiador cabe a pesquisa.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


 


14 julho 2021

As aparentes contradições - Por: Emerson Monteiro


Sujeito até deixar imaginar que existam ocorrências fora do previsto, que o barco do Tempo fugiu do controle do Absoluto e anda solto pelas marés das incertezas. Que as amarras do navio deste mundo romperam e que os sobressaltos da tempestade parecem tomar de conta de tudo. Que nada significa a perfeição. No entanto impera o domínio das horas além do quanto de interpretações os grupos, em conflito, na maré dos destinos, querem oferecer de justificativa. Disso nem de longe há que se imaginar proceder no âmbito das ações desse infinito das histórias num eterno vir a ser. Desde resistir aos sacolejos das frases, que querem esparramar os assuntos, até o poder descomunal das consequências inalcançáveis na mente dos humanos.

Por mais tentador que seja, o Mal e o Bem dormem juntos na mesma cama dos aflitos. As ausências e presenças apenas trocam de opinião diante dos astros. Vidas que fossem e jamais fugiram disso, dessa ordem universal soberana por demais. Pouco importa a intenção de classificar o desespero, porquanto são faces do mesmo poliedro das luas que cruzam os céus. Tão só a gente ainda carece da real compreensão, nada mais.

Quanto mistério a desvendar na face do instante. Quantas aventuras far-se-ão nas vagas dos oceanos, até o dia da plena aceitação de tudo. Hostes em aflição, que ora transigem a paz, verão, lá certa feita, o tanto de ansiedades que dominava os motivos torpes sem razão de ser. De que nada representava o desespero de impor condições aos outros, na sequência dos acontecimentos. A isto flui o rio da memória em todos que somam o constante aprendizado.

Assim, o senso acalma do pesadelo as civilizações que fizeram o chão desse vasto império dos animais inteligentes durante os milênios a fio. E persiste a dúvida de si para consigo, das multidões enfurecidas perante as injustiças, porém cientes da justiça das esferas que as aguarda logo ali, na curva do próximo segmento vivo.

12 julho 2021

Sem fugir de si - Por: Emerson Monteiro


O homem está envolto na sua própria sombra e se admira por estar tudo escuro.
Preceito zen

 Andar assim de peregrinar neste mundo, às claras do dia, no entanto a transportar nos sentimentos força viva da aparente incompreensão de tudo quanto há na semente viva da libertação desse eu que a gente carrega no peito na forma de pensamentos. Um andarilho da própria sorte, eis o que somos na verdade. Nisso, a construir, da matéria prima das horas, os frutos do aprimoramento. Andar às claras, ou tanger nos antes e depois os desejos já mortos no passado, ou a morrer no futuro. Enquanto que nós significamos isso de admiradores dos escuros que envolvem o esse tempo dagora.

Carecemos de revelar o instante perene de todo momento.

Bom, eis o diagnóstico da procura dos dias. Aonde chegar que seja de esperança, felicidade, vontade leve de sobreviver às tempestades. Desvendar os segredos do nós que ora somos, conquanto, de certeza, ninguém veio aqui só aos pedaços em decomposição. Dispomos, no íntimo do ser, da fagulha que iluminará o Universo inteiro. Nesse código secreto persistirá o destino de todos.

Invés de mergulhar nos momentos que passam velozes diante da janela dos vagões, cabe descobrir por dentro de si, longe dos objetos em queda livre, o ápice da realização do Ser. A isto viemos, pois.

Instrumentistas da nossa orquestra divina, tocamos as peças geniais do Tempo, que já possuímos todas as melodias, os ritmos e harmonias. Sobreviventes deste Si poderoso que transportamos na essência, viajamos às estrelas. Lá fora, percorrem os espelhos das almas e fazem e desfazem os humores dessas criaturas em que habitamos temporariamente, enquanto não identificarmos o senso do eterno através das nossas veias e mistérios.

À nossa frente, firmes interrogações. Escolhas perfilam dúvidas e cativam as existências, quais de embriagados provisórios. Nem que quiséssemos desesperadamente fugir, haveremos de achar a porta e sair livres aos Céus.

 

11 julho 2021

A Santa Casa pelo Padre Zé Linhares – por José Luís Lira (*)

 


   O título desta coluna que hoje será maior que o habitual, tem sentido amplo. Referiremos à publicação do livro enciclopédico e histórico em dois volumes escrito pelo Padre José Linhares Ponte, nosso querido Padre Zé: “A História da Santa Casa de Misericórdia de Sobral: Sonho, Saga, Sacramental (Mistério e Milagre)”. Padre Zé dedicou parte importante de sua vida àquela Instituição criada pelo primeiro Bispo de Sobral, Dom José Tupinambá da Frota, e que os bispos que seguiram Dom José mantiveram, com as portas abertas à caridade. 

     Vamos falar um pouco sobre o autor. Natural de Sobral Padre José Linhares Ponte foi ordenado sacerdote por Dom José Tupinambá da Frota. Realizou cursos nacionais e internacionais nas áreas de filosofia, teologia, psicologia e línguas. É filósofo, teólogo, psicólogo, pedagogo, administrador, escritor, educador, viveu ativamente a política, exercendo o cargo de deputado federal de 1991 a 2014, e presidindo o Conselho Estadual de Educação do Ceará de 2015 a 2019.

     Sua vasta folha de serviços prestados à Diocese de Sobral se inicia no Seminário São José de Sobral, como professor, depois foi Assistente Eclesiástico na Diocese de Sobral (1957), Reitor do Seminário São José de Sobral, Diretor da Obra das Vocações Sacerdotais, Diretor da Rádio Educadora do Nordeste de Sobral e passou a ser Professor de Ciências Religiosas e de Psicologia em 1964. Posteriormente, foi Vice-Diretor da Faculdade de Filosofia Dom José de Sobral e Diretor do Colégio Sobralense. Foi Diretor, Administrador e Provedor da Santa Casa de Misericórdia de Sobral durante três décadas e porque não dizer, “anjo tutelar” da instituição à qual ainda hoje se sente parte, sendo reconhecido com a denominação do Hospital do Coração que ele construiu e prova todo seu amor nesta publicação ao complexo ao qual se vinculam o Abrigo Sagrado Coração de Jesus e o Hotel Visconde (também construída na gestão do Padre Zé).

     Padre Zé, Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), presidiu o Rotary Club de Sobral, é imortal da Academia Sobralense de Estudos e Letras. Foi, também, professor do Curso de Enfermagem da UVA; presidiu a Federação das Misericórdias e Entidades Filantrópicas do Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Foi Vice-Presidente e Presidente da Confederação das Misericórdias do Brasil (São Paulo). Foi Presidente do IDT de Sobral e Presidente da Confederação Internacional das Misericórdias, presidindo, ainda, a Confederação das Misericórdias do Brasil e esta coluna seria pequena para seu invejável e honrado curriculum.
       Os livros têm início com um prelúdio e nele o autor diz a razão da publicação: “legar à posteridade, simultaneamente a História, a Saga e a Sacramentalidade desta Instituição, servidora incontestável de toda a Região Norte do Estado do Ceará, estendendo sua ação a nossos Estados vizinhos, Piauí e Maranhão”.
     Neste texto, Padre Zé lembra o simbolismo da sobralidade. Com atenção a documentação histórica da Santa Casa, ele lembra a figura máxima de Dom José Tupinambá da Frota e o quanto o primeiro Bispo sofreu para edificar a Casa de Misericórdia Santa. Lembra também sua participação no sofrimento do fundador quando decidiu fundar o Hospital do Coração e o Hotel Visconde. E diz Padre Zé: “a Santa Casa é ao mesmo tempo m Mistério e um Milagre” ao qual se unem “Fé e Caridade”, Amor ao próximo nos moldes propostos por Jesus Cristo.

  Num segundo prelúdio do primeiro volume, Padre Zé transcreve as Efemérides de Dom José Tupinambá da Frota eu encontrei no Museu Diocesano Dom José e, com a autorização de Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos e patrocínio da Diocese de Sobral, lançamos como livro. Agradeço, comovido, o reconhecimento do Padre Zé. Este volume tem início com o registro da inauguração da Santa Casa e a frase célebre: “Abram-se as portas da caridade”. Atas, a chegada das Filhas de Sant’Ana à Santa Casa, balancetes, relatórios e demonstrativos da fundação ao ano de 1949 estão neste volume.

     No segundo volume o segundo prelúdio trata da gestão do autor à frente da Instituição, relatórios, a conversão da Sociedade Beneficente conforme estava no Estatuto da Santa Casa para Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Sobral, entronização da bandeira da Santa Casa, hino, medalha Dom José e todo um registro documental e histórico de sua gestão, incluindo dados do Hospital do Coração, do Hotel Visconde e do Abrigo Sagrado Coração de Jesus.

      Na marcha histórica do tempo, a Santa Casa de Misericórdia seguiu, segue, seguirá. E recorda o texto bíblico: “ele o viu e tomou-se de compaixão. Aproximou-se, atou-lhes as feridas...” (Lc 10,33-34) e esta missão é desenvolvida pela Diocese de Sobral por meio da Santa Casa de Misericórdia que tem nos recursos de sua constituição um contributo do apóstolo da caridade, Padre Ibiapina. A Instituição segue, “fazendo o bem sem olhar a quem”, com as bênçãos do fundador, Dom José, de seus sucessores, os bispos de Sobral, representados por nosso atual Bispo, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, do Clero de Sobral, das Religiosas de Sant’Ana e tantos outros. Deus seja Louvado!

     Sobral já é grato pela existência do Padre José Linhares Ponte e sua visão de gestor. Agora, a História de Sobral agradece por esta obra história que afinco de grande pesquisador e memorial pois que o segundo volume é escrito por quem protagonizou a História da Santa Casa de Misericórdia por mais de 30 anos.

     Parabéns, Padre Zé! Gratidão, sempre!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


10 julho 2021

Vagas lembranças - Por: Emerson Monteiro


Escrever, mais do que antes, é o gesto de confessar a vida. Nalgumas horas, se quer fugir de si mesmo, no entanto a escrita quase que determina atitudes de retorno às páginas, e dizer, dizer, até acalmar os ânimos lá de dentro, fervilhando de sonhos. Fazer, montar, contar, impor a condição de existir ao que as palavras querem gravar ao sair feitas lágrimas, gestos, suspiros, vômitos, raspas largadas ao monturo dos dias, quais diários infindos e intermitentes. Pensar, e dizer, ou dizer sem pensar. Juntar restos de lembranças e formar esse caudal de passados a nos cair às mãos de modo incisivo, fortuito, contrição de achar alguém que seja que leia, ou não, de um dia parar aqui e comungar com o autor as suas impropriedades de violar o silêncio de que se fizera inconfidente no ato de escrever. Às vezes, ao ouvir alguma música, nos intervalos de pensamentos, nas bordas dos sentimentos, vêm saudades, as revivescências bem distantes daquilo que desapareceu nas décadas. Lembro horas de Salvador, de Brejo Santo, de Crato, das viagens, vertentes escondidas nas fímbrias da alma que chegam e sufocam o presente numa compulsão de doce amargo. Vejo ocasiões específicas de instantes lavrados no inconsciente desses tempos antigos, talvez até de outra pessoa que não seja eu. Contam das oportunidades e das experiências presas junto às paredes de nós mesmos, a escorrer tais histórias vivas que jamais irão desaparecer depois que ocorreram. Nisso, viram palavras, frases e textos, na função de quem escreve, nesse ato insano dos perdidos nas noites do firmamento azulado. Vultos de visagens que percorrem ruas desertas, e vamos solitários nas sombras do coração, a tanger com força as lembranças metálicas, compulsivas. Nem mais sei confessar senão outro falando de si ou que ouça dessas almas penadas de infinitos remotos que persistem vivos nos refolhos das criaturas viventes. Assim, descem as ruas que vão levar no mar das existências, ou das inexistências. Mergulham fundo nos mistérios da ausência e dormem ao definitivo das escritas, que seguem soltas no eterno e nas crenças do abismo e na solidão.

(Ilustração: O pagamento de títulos, de Brueguel o Jovem). 

07 julho 2021

É domingo - Por: Emerson Monteiro


Falar um pouco a propósito deste livro que nasceu nas páginas do Jornal do Cariri, na coluna do mesmo nome É domingo, título que veio nos fiapos de lembranças de tempos imprevisíveis, incertos, época da Tropicália, quando ouvia uma música de Gil (Domingou) (...) São três horas da tarde, é domingo / Na cidade, no Cristo Redentor - ê, ê / É domingo no trolley que passa - ê, ê / É domingo na moça e na praça - ê, ê / É domingo, ê, ê, domingou, meu amor (...) E eu a retornar a Brejo Santo, em tardes de fria solidão, ricas de emoções e saudades, ideais fervilhantes no peito... Longe de um mundo impossível, que mexia as estranhas pedindo existência de qualquer jeito, nem que fosse noutros sonhos reais da memória, no futuro, talvez. Domingo, dia neutro, em que as conquistas de ontem (sábado) ressurgem nas esperanças de amanhã (segunda-feira).

Domingo, daquele poema (Estatutos do Homem) de Tiago de Mello, onde (Fica decretado que todos os dias da semana, / inclusive as terças-feiras mais cinzentas, / têm direito a converter-se em manhãs de domingo).

Reuni textos em profusão, o que implicou na seleção ainda profusa que vai aqui, a pedir, quiçá, mais restrição com base nas semelhanças dos assuntos, evitando desnecessárias surpresas de uma crônica para a outra. De reflexivas em menos humoradas (anedóticas), pois quero que signifiquem material de estudo, às tardes domingueiras do leitor, quando há espécie de preparação visando retomar os assuntos, na segunda-feira, projetos pessoais revisados durante o fim-de-semana.

A princípio, imaginei poder juntar os textos e caldeá-los com algumas pinceladas, logo os dando por prontos. No entanto notei a seriedade imprescindível de caprichar na seleção e na revisão, fazendo dia a dia, um, dois, no máximo três, às vezes até com  excessiva autocrítica, porém no limite do tolerável, senão já me daria por satisfeito, numa atitude urgente e desterro do material, sem pretensões de publicar. Em sendo assim, restringiria de vez o gosto de fazer, superando o desejo de ampliar leitores e amigos. Porquanto, a sua razão principal será o pretexto de conhecer novas pessoas e informar o que se passa nas cavernas insondáveis do ser, brechas do Inconsciente, passadas na arte, o sonho posto no papel, nas paredes, no som, no jardim, nas nuvens, no discurso...

Por que publicar? Por que chorar, sorrir, caminhar, ler, escutar, perguntar, responder, viajar, comprar, vender, assistir, imaginar, arquivar, transmitir, vacilar, mirar, viver, comer, etc.?

Sartre disse que seria viver ou escrever e que ele preferiu escrever... Uma enzima que existe na natureza, que contagia pessoas desavisadas, intranqüilas, teimosas, farofentas, visionárias.

Em cada texto busquei mostrar surpresas quando a situações, o inesperado, ou pouco esperado, somando elementos do conto na crônica, ou da crônica no conto. É tanto que não sei dizer bem qual seja o gênero literário, se isto ou aquilo (conto ou crônica), ou os dois juntos, ou apenas gestos reunidos de pedaços de falas de quem faz de conta que tem o que passar aos outros, enchendo papel, imitando quem fez parecido e melhor, decerto. Uma busca de dizer o que, não sei, recontar coisas ouvidas, vividas, afã de registrar momentos que somem e  deixam ecos grudados na parede dos pensamentos,
lodo em forma de esperança, religião, etnografia, folclore, sociologia, literatura popular, nessa estática do tempo interno das criaturas, naquilo que Glauber Rocha classificou não ser nem teoria nem prática, do Cinema Novo. Restos de um tanto de repasto das dúvidas e procuras nos livros, nas paisagens, personagens, nos contos, aspirações de mudar a si nas coisas manifestadas por quem quase, ou nada, sabe além de produzir colares de gestos e falas, ouvidos, guardados.

Talvez dissesse na presença e chegasse mais perto, nessa pobreza de repassar o conteúdo. A escrita impõe condições severas, formais, hábitos estilizados, vincados, armadilhas da espontaneidade.

As palavras de Tiago Araripe, no comentário que fez do meu livro Cinema de janela, ao dizer, por exemplo, que fora escrito com a lente do olhar, corresponde um tanto ao que não consigo interpretar do que faço, por me achar sob o formato dos tubos de ensaio da vida, e me incluir nas malhas impostas pela própria paisagem, tripas viradas ao vento.

Em resumo, quisera não dar por perdido esse material que reuni em estilo de resposta ao silêncio pegajoso e insistente que sobrevoa, cruel, as latas de lixo abandonadas às estantes do Mundo.

Um senso de angústia ao modo de interrogações, tardes mornais de todos os domingos, redes armadas em varandas desertas, ao calor abafado das horas velhas amigas esquecidas... Aonde insiste o chamamento do caminho da literatura de prazer, em conteúdo passível do entendimento da fé, do inusitado, meus idealismos crônicos.

A foto da capa, de Augusto Pessoa, compõe bem o projeto, numa paisagem de Atacama, o deserto de sal do Chile, visto entre cactos de dentro de uma caverna.

 

06 julho 2021

Novos fatores de sobrevivência - Por: Emerson Monteiro


A todo momento vem a urgente necessidade de manter uma visão positiva da realidade qual fator inevitável da sobrevivência da espécie humana. Isso por conta das demandas negativas que preocupam muitos, quando, circunstancialmente, impera tal humor de dificuldades e procuras. Nuvens de desencontros sujeitam a barra dos dias. No relacionamento com os demais, nódoas de incompreensão e aflições diante do enredo que fustiga os acontecimentos imediatos, a ponto de criar factoides, bichos tortos em movimento pelas frestas do tempo, nas estradas às vezes infelizes das encostas dos obstáculos.

Daí ser importante o valor do otimismo, numa vocação pouco utilizada. Bloquear o senso das reações de agressividade, jamais revidar, numa certeza firme da precisão de sorrir aos dissabores. Interpor gosto pelos bons instintos, livre das situações desagradáveis que ficam na estrada. O que até parece meio irresponsável, porém sábio de não ter tamanho, na valoração das atitudes. Há um Poder maior de tudo que rege o firmamento.

Olhar o Universo de olhos limpos, eis a condição das percepções para evitar dissabores, desavenças, abusos. A depressão, na opinião corrente, virou o mal da atualidade, e nada representará além dessa covardia moral de olhar o mundo no papel de vítima. Erguer a mente acima da linha do horizonte, porquanto o mesmo acontecerá nas áreas do cérebro encarregadas de gerar bioquímicas de satisfação. Longe de apenas pensar no que é bom, viver o que é bom, no instante presente, se torna a base da positividade mais que necessária.

Existe quem afirme significar a soma dos tantos momentos, dos baixos e altos, numa média positiva. Portanto, trabalhar nos detalhes de cada momento o momento seguinte. Saber e praticar, eis a norma primeira da renovação dos tempos. Querer e poder, nas providências diárias. Pequenas doses de bom senso e objetividade representarão, pois, saúde, paz e resultados produtivos ao fio da história individual, fruto da ação pessoal dos pensamentos e sentimentos, quando se é o sujeito responsável pela própria visão existencial.

Com isto, sendo o método de permanente felicidade, ocasionar filmes bons a toda hora, no firmamento das ideias, e se produzirá a peça chave de uma vontade positiva, primeiro na pessoa, depois na sociedade como um todo.

Esta a intenção principal do comentário, aprender da experiência que o querer bem, pensar bem e agir bem, resultarão, de modo efetivo, na força da alegria, matéria prima de nossa caminhada de sucesso.

05 julho 2021

Na floresta das palavras - Por: Emerson Monteiro


Nem sempre elas obedecem ao que a gente quer dizer. Tomam das nossas mãos e viajam por dentro das consciências ao vão da sorte que por si determinam. Quais senhoras dos tempos, elas movimentam pensamentos de jeito enviesado, alterando, por vezes, o sentido das intenções. Formulam conceitos doutras histórias nos lugares menos indicados e contornam os desejos do pensamento de quem disse. Feras dotadas desse instinto aguçado, chafurdam nas matas virgens dos sentimentos dum jeito de senhoras absolutas do que querem e não do que queremos. Animais dotados, pois, de razão própria, tocam discursos à maneira doutros princípios que não os nossos. Palavras a falar de métodos inexistentes ao nosso conhecimento.

Nalgumas situações, até que respeitam a contra-vontade dos autores, porém longe do que de real existirá durante todo tempo. Vamos, nisso, rasgando espaços de falas soltas feitos quem cava minério em terras estrangeiras. Nunca se sabe o que elas pretendem na verdade que só elas conhecem.

Caprichosas, revertem o quadro das cores e das flores, e impõem seus espinhos, suas mágoas, e dominam o sonho das inspirações. Vacilam, claudicam, desaparecem a meio dos momentos sórdidos, bichos sonsos dos dramas medievais. Contudo, ainda assim, nesse impulso das falas, persistem na visão de renovar a face do Universo partindo do bem que a isso lhes compete, de donas efetiva da floresta onde imperam livres, enquanto ficamos prisioneiros das surpresas que podem nos acarretar.

Mais que nunca, os humanos precisam domar a força descomunal das palavras que lhes chegam a todo instante. Crer nas possibilidades que eles trazem de reverter pensamentos em ação e sentimentos em atitudes. Amar os valores nobres que carregam consigo, desocupar o farnel das tradições e acalmar a fome de realizar o melhor entre as pessoas. Fazer delas que a gente possa mudar em alegria as dores deste mundo, alimento da esperança viva de novos céus que nos aguardam logo ali na outra face do ente que nós somos.

03 julho 2021

Tomé e Paulina, testemunhas do amor maior – por José Luís Lira (*)

 

São Tomé

Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus

   Os apóstolos de Jesus não eram perfeitos. Alguns, valentes, outros, cheios de fé, outros precisavam “ver” para crer, um traiu... e assim sempre vi a humanidade retratada naqueles doze homens e nos discípulos de Jesus. Das muitas emoções que tive na Terra Santa, duas delas a eles se relacionam. Ao chegar ao cenáculo, lembrei-me de Tomé. Sei que todos ali estiveram, Madalena e Maria Santíssima também. Elas e as outras mulheres que não aparecem naquela passagem do Novo Testamento, certamente estavam ali. 

   Hoje, a Igreja celebra Tomé e por isso recordo este grande santo. É João, evangelista, que narra o testemunho de fé do santo celebrado. Após Madalena trazer a boa-nova da Ressurreição aos seguidores mais próximos de Jesus, Ele aparece aos discípulos, mas, naquela ocasião não estava Tomé. Todos disseram eufóricos a Tomé que Jesus esteve ali. Este respondeu: “Se eu não vir em suas mãos a marca dos cravos, e não enfiar a minha mão no seu lado, não acreditarei”. 

   Oito dias depois, diz o Evangelista, Jesus apareceu novamente e lá estava Tomé. Jesus convida Tomé a ver as marcas dos cravos e conferir o lado chagado. Tomé, carregado de emoção, só consegue dizer: “Meu Senhor e meu Deus”. E, ainda hoje, tantas vezes nós repetimos essa que se tornou uma jaculatória. Quando nos faltam palavras ou mesmo quando as temos, nós repetimos: “Meu Senhor e meu Deus”. E por meio de Tomé, Jesus se refere aos cristãos de todos os tempos, pois, Tomé precisou ver para crer, mas, “... bem-aventurados os que não viram e, contudo, creram”. O outro testemunho é dos discípulos de Emaús. Eles acreditaram que Jesus realmente havia morrido naquela sexta-feira e que seu ministério havia se encerrado ali e decidiram voltar às suas origens, dar seguimento às suas vidas. Passei nas ruínas de Emaús e lembrei-me daquele encontro. O “forasteiro” que os acompanha na caminhada parecia não saber o que havia acontecido a Jesus, o nazareno. Então, Cléofas lhe conta e fala. Depois, pelo andar da conversa eles percebem que o forasteiro era o próprio Cristo e voltam correndo a Jerusalém para contar a boa-nova aos discípulos e apóstolos. 

   São testemunhos que nos fortalecem a fé e nos lembram que mesmo aqueles que viveram o mesmo tempo de Jesus Cristo, fraquejaram em algum momento, como também ocorreu a muitos santos e santas que tiveram sua noite escura. E aqui recordo Santa Teresa de Calcutá por seus últimos escritos.

   Preambularmente citei Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus, reconhecidamente a primeira santa do Brasil-Brasil, como dizia sua postuladora, saudosa amiga Irmã Célia Cadorin, lembrando que Santa Paulina não se autodeclarou estrangeira em dado tempo e por isso foi considerada brasileira e todo seu apostolado foi aqui no Brasil. Após ser, injustamente, destituída da condição de superiora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que fundou, depois, demonstrando sérios problemas de saúde (diabetes), sofrendo amputações, sem enxergar. Dois anos antes de seu retorno à Casa do Pai, ela reafirmou como Paulo, sua imensa fé: “Confiai sempre e muito na Divina Providência. Nunca, jamais desanimeis, embora venham ventos contrários”. Santa Paulina é celebrada no próximo dia 9 de julho.

   Santos e Santas de Deus rogai por nós!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.