04 março 2022

Cidades invisíveis – por José Luís Lira (*)

 


   Nos primeiros dias deste ano, Salete Araújo me sugeriu o livro “Cidades Invisíveis”, da jornalista Kelly Garcia, que atua em seu site de notícias. O título me levou a uma das epígrafes do meu último livro publicado, “Nossa Senhora dos Prazeres e a História de Guaraciaba do Norte”, onde se lê o imortal José Saramago: “No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos”. 

   E, neste carnaval, depois de ter esquecido o livro no sítio Monte Alegre, além de minhas obrigações acadêmico-universitárias, para o ministério do magistério, peguei-o novamente e a leitura de suas mais de cem de páginas me segurou. A capa e as ilustrações são de Vando Figueiredo, autor de tela especial com um menino mexicano de quem sou homônimo e de quem sou devoto. Na dedicatória, a letra delicada da autora me deseja que suas crônicas me transportem para a Fortaleza que nela habita. “E, de repente, não me que de repente”, eu me vi não só na cidade “invisível” que na autora habita, mas, naquela cidade que também está dentro de mim.

   Artur Eduardo Benevides dizia que “Em poesia, o que não for saudade é liturgia”. E nas 23 crônicas enfeixadas neste livro, vemos a saudade falando e parecia que eu ouvia parte do refrão do Hino de Fortaleza: “Fortaleza! Fortaleza!/ Sempre havemos de te amar”. E é isso que ocorre quando chegamos à nossa Capital. A amamos. Não tem outra saída. Ela não perde sua majestade, não deixa de nos encantar.

   Kelly Garcia conseguiu passar bem isso nas páginas de suas crônicas poéticas, cheias de “recortes de um tempo que não volta”. E vem a Ponte dos Ingleses, metálica mesmo no popular, e que saudades ela reacende em quem a frequentou para um sorvete ou pôr-do-sol. Nem mesmo um navio naufragado na costa da praia de Iracema passa despercebido, esta Praia tão encantadora. Recorda o velho Estoril e as coca-colas, me fazendo, irremediavelmente lembrar de Rachel de Queiroz a quem meu pensamento volta quando ela cita o ano de 1925, quando Rachel se formou professora, no Colégio da Imaculada Conceição, também lembrado.

   Rachel dizia que “o trem era o rei do mundo, só tinha como rival o navio, que anda por cima do mar”. E assim, após passear na Praia de Iracema invisível aos olhos de hoje, dos sábados no Cais-Bar, Kelly chega à Estação João Felipe, saudosa... Caminha na Praça do Coração de Jesus e o Centro de Fortaleza, coração da Cidade, das livrarias, dos cafés, dos restaurantes que não mais existem, surge, sob o olhar Hotel Excelsior, seu construtor e sua amada que me fizeram lembrar de ilustres hóspedes dali, Amélia e Clóvis Beviláqua.

   A data de criação de Fortaleza é lembrada e foi num desses aniversários que Matusahila, de quem morro de saudades, e eu, decidimos fundar a Academia Fortalezense de Letras. O grande Dr. Ximenes, do Montese, mas, antes, de Groaíras, e sua esposa, são lembrados. E já quase no finalzinho, aparecem as damas Beatriz Gentil e Suzana Ribeiro (que tinha o sorriso de minha avó), prima de Mílton Dias, a quem a autora escreve lindamente e quase me arranca lágrimas quando chegou ao Centro Dragão do Mar, encantador, sempre.

   “Cidades Invisíveis”, de Kelly Garcia, é da Editora Sol Literário, e mais não digo nem cito os amigos que escrevem orelha e prefácio, Bruno Paulino e Raymundo Netto, pelo espaço e para deixar que o leitor mesmo constate a beleza da obra.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



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