07 janeiro 2021

Cartas de uma aldeia global - Por: Emerson Monteiro


Era a década de 70 do século passado quando Marshall Mcluhan, estudioso canadense, escreveria a respeito da Aldeia Global em suas pesquisas a propósito dos meios de comunicação de massa que invadiam o mundo. Nos embates da Guerra do Vietnam, por exemplo, enquanto os jovens americanos lutavam nos campos da Ásia, a defender os interesses dos grupos dominantes do seu país, quase instantaneamente os familiares deles assistiam as cenas brutais pela televisão, por vezes ao vivo. Isso que apressaria, inclusive, o final do trágico conflito, por conta da influência na opinião pública deveras abalada com tanta atrocidade.

Depois os tempos foram passando e cada dia mais a influência dos meios de massa estreita as distâncias entre os povos e as pessoas. Nada acontece antes que não venha ao conhecimento de todos, nas versões manipuladas pelos veículos, sobremodo nesta atualidade, diante da internet e dos celulares, hoje instrumentos obrigatórios. A comunicação instantânea ganhou o status de primeira necessidade. 

Ainda que haja intenção de passar em branco os momentos, somos escravos, pois, dessas maquinetas contemporâneas. Vale mais um comentário do que o próprio acontecimento. Grupos de poder detêm a força das opiniões a partir da opinião que se estabelecer e propagar. Jamais, tal agora, o silêncio deixou de ser a alma do negócio. Resultado, no fringir das informações que circulem sempre vem embutido dominar as massas humanas.

Ignorar passou a ser risco de súbito desaparecimento individual. Ninguém quer mostrar a cara a não ser na pretensão de controlar o outro, pois um mundo secreto já domina o antigo mundo das aparências. Senhores de baraço e cutelo desta fase da História, são eminências pardas dos governos espalhados no Planeta. Daí as tantas versões que circulam soltas e sem dono. Claro que os instrumentos de punição a essa farra deslavada nem de longe possuem força de coibir tantos abusos.

Porém há que continuar existindo a Civilização, sendo agora o desafio supremo dessas indagações. A isto existem inteligência e criatividade desde que no sentido da evolução, de ver pelos olhos do otimismo o que passa a significar a principal atitude na busca dos dias melhores.

(Ilustração: Soldados jogando cartas, de Fernand Léger).

O cartão-de-Natal de Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil

 

À medida em que o Brasil se prepara para as comemorações do segundo centenário da Proclamação de sua Independência por meu tetravô Dom Pedro I, apraz-me contemplar os grandes vultos e os fatos mais importantes da nossa rica história.

Uma conclusão que se impõe a todo aquele que examine a vida e os feitos dos nossos heróis sob luz da Fé Católica é a de que nós, brasileiros, todas as vezes que nos confiamos à proteção da Santíssima Virgem Maria em momentos decisivos, temos sido por Ela favorecidos.
As muitas intervenções extraordinárias da Santa Mãe de Deus em prol do Brasil permitem-nos inferir que a Divina Providência reservou à nossa Pátria um destino glorioso. Uma das mais esplêndidas delas ocorreu durante a Primeira Batalha de Guararapes, decisiva para a expulsão dos holandeses do nosso território.

A maior ameaça à integridade e identidade do Brasil em seus cinco séculos de existência foi indiscutivelmente a ocupação holandesa em Pernambuco na primeira metade do século XVII, ambicioso projeto para um definitivo estabelecimento nas Américas, a “Nova Holanda”. Três esquadras, dezenas de milhares de homens em armas, artesãos de todas as especialidades, almirantes e generais e até mesmo um Príncipe de sangue empenhou a Holanda em tal intento. Mas, se abundaram os recursos materiais, faltou o mais importante para uma conquista definitiva, o dom das gentes. As populações pernambucanas, avessas a essa outra cultura e sobretudo à omnipresente e brutal pressão calvinista, passaram da resistência passiva às ações de guerrilha.

Em 1645, os principais chefes luso-brasileiros firmaram um pacto para a luta organizada contra o invasor: André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira e outros, Henrique Dias e Felipe Camarão – luso-brasileiros, negros, índios, logrando vitória, já naquele ano, na batalha do Monte das Tabocas, e em 1648 e 1649, nas duas decisivas batalhas dos Montes Guararapes. Nas três, travadas em grande inferioridade de condições dos nossos, foi patente o auxílio sobrenatural, registrado que está nos relatos do tempo.

Vale recordar o acontecido em 1648. Era o dia 18 de abril, Domingo de Páscoa, por volta das 11 horas da noite, quando o General Dom Francisco Barreto de Menezes deliberava com João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros sobre o enfrentamento com o inimigo que se daria no dia seguinte, festividade de Nossa Senhora dos Prazeres. Ciente de que dispunha de apenas 2.200 homens para enfrentar 7.400 do invasor, Dom Francisco, dirigindo-se a seus companheiros, disse-lhes: “Quero declarar-lhes que me lembro de nestes lugares erigir um templo à Virgem Nossa Senhora dos Prazeres se Ela, por sua poderosíssima intercessão, nos alcançar do Senhor das vitórias mais esta. Uma voz interior, uma força irresistível me aconselha que empenhemos a batalha, que a Virgem será conosco e ficaremos vencedores.” No mesmo instante, em meio a um grande estrondo, aparece-lhes uma estrela fulgurante e ouve-se distintamente uma voz que diz: “Dom Francisco, a proteção com que contas te será outorgada! Combate e vencerás!”

No dia seguinte a vitória foi estupenda: 1.200 mortos do lado holandês contra apenas 84 do lado luso-brasileiro, e o poderoso inimigo em retirada.

Nessa data - 19 de abril de 1648 - nascia o Exército Brasileiro e ficava cimentada a unidade nacional!
O voto foi cumprido, e erguida foi no local da batalha a majestosa Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes, que lá permanece até os nossos dias como testemunho da miraculosa intervenção da Santa Mãe de Deus em favor do Brasil. 

Neste Natal, diante da Santíssima Virgem no presépio, lembremo-nos de, a exemplo de Dom Francisco, pedir-lhe que interceda junto ao Divino Infante mais uma vez em favor de nossa Pátria. Ela, que nunca nos desamparou, certamente nos concederá um Ano Novo repleto de bênçãos.