05 janeiro 2021

Noites de ontem - Por: Emerson Monteiro


O tempo psicológico não corresponde ao tempo matemático. José Saramago

São lembranças de outras horas que agora vazam do passado e chegam devagar à consciência, refazendo momentos vários lá de antes, de quando havia doces augúrios de esperança no horizonte dos dias. A gente era apressado em querer conhecer de tudo que fosse. Eram músicas, livros, jornais, filmes de diretor, as histórias das ruas, as praças... Olhos fixos em mil possibilidades, líamos Jorge Amado, Érico Veríssimo, Ernest Hemingway, Sartre, Camus, Exupéry... Ouvíamos João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Roberto Carlos, Chico Buarque, Gonzaguinha... Assistíamos Bergman, Visconti, Godard, Truffaut, Buñuel, Kurosawa, Antonioni, Glauber Rocha, Fellini, Pasolini... 

Andávamos acesos aos jornais alternativos, O Pasquim, Movimento, Jornal de Amenidades... E O Bondinho, a revista padrão dos amantes de ideias e novidades. Enquanto fixávamos ponto nos bares, nos pés-de-serra molhados, nas tertúlias e matinais dos clubes da cidade, quais zumbis, sonhávamos acordados, uma espécie de videntes dos becos escuros e das noitadas de fumo, namoro e viagens siderais... 

Quantas e tantas vezes tocamos as mesmas teclas de ilusões que seriam dosadas pelas ressacas e desespero do dia seguinte, angústias em forma de gente; cabeludos, barbudos, sonhadores, precursores do rock, das legendas de ficção, adoradores dos Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Janis Joplin, Bob Marley, Ravi Shankar... Isto bem no auge dos anos 60, segunda metade. As reações de liberdade dos países da Cortina de Ferro, a Guerra do Vietnam, Maio de Paris, a Primavera de Praga, Festival de Woodstock, os hippies, as viagens pelo mundo, vadios das ausências de uma época romântica que resultaria em tudo isso que aí está, nestas décadas posteriores até aqui.

Logo chegaríamos ao misticismo de O Despertar dos Mágicos, livro emblemático dessa geração aturdida pelos meios de comunicação de massa. Depois sumiríamos uns dos outros, espalhados pelas cidades grandes à procura da sorte, repositórios de saudades. Então vieram as religiões, as profissões, os empregos, as famílias, o ancião do Tempo em movimento, a largar no vento aquelas relíquias valiosas de tudo então que vivemos com tanto carinho e tamanha intensidade, tangidos no barco dos sonhos.

(Ilustração: Festival de Woodstock).



“Se a monarquia é um sonho, a república que temos é um pesadelo”

 

    Não custa repetir a íntegra desta afirmação, do historiador Armando Alexandre dos Santos (escreveu e publicou 64 livros), professor da Universidade Sul Catarinense: “Na verdade, a monarquia, longe de ser uma forma de governo arcaica e ultrapassada é moderníssima e de grande maleabilidade. Muitos a criticam por puro preconceito ou por desconhecimento, mas ela é, a meu ver, um caminho viável para o Brasil atual. Pode parecer um sonho, mas, como escreveu Fernando Pessoa, “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Por outro lado, se a monarquia parece um sonho, a república que temos, sem dúvida, é um pesadelo”.

   Verdade. À época do Império do Brasil, mais precisamente no reinado de Imperador Dom Pedro II, tivemos um longo tempo de estabilidade política e progresso em todas as áreas da sociedade. O velho Imperador foi o responsável pelo nosso vertiginoso desenvolvimento. O Brasil recebeu os avanços tecnológicos que surgiram nos EUA e na Europa. Ademais, deve-se a nossa Família Imperial a extinção da maior injustiça que havia no Brasil: a escravidão do negro. 

   No Parlamento tínhamos estadistas, ou seja, políticos que atuavam acima dos interesses partidários e dos próprios interesses pessoais. Sobre este tema, Rui Barbosa, que segundo alguns historiadores teria se arrependido profundamente do golpe republicano, escreveu:  "O Parlamento do Império era uma escola de estadistas, o Congresso da República transformou-se em uma praça de negócios." (Rui Barbosa)

    Pedro II foi o maior estadista de nosso país. São inúmeros os exemplos onde ele coloca os interesses da nação à frente de seus próprios interesses e dos interesses da elite brasileira de então.