27 janeiro 2021

Djaci, uma mulher guerreira


Dona Djaci retratada por  Rômulo Correia de Oliveira (desenho a lápis, 1971)

Quantas palavras seriam precisas para homenagear uma mãe ausente. De modo econômico, uma seria suficiente: saudade.

Mas, em se tratando de uma mãe da envergadura existencial de dona Djaci Oliveira Bantim, tantas quantas forem necessárias, melhor.

Dona Djaci fez do altíssimo sua última morada, há pouco mais de 9 anos, em 15 de outubro de 2012. Hoje estaria completando 94 anos, visto que nasceu, em Crato, em 27 de janeiro de 1927.

De alguma forma, do ponto de vista familiar, sua vida sempre esteve ligada à arte, tanto por parte dos ascendentes como dos descendentes. 

Seu avô, Luiz Gonzaga de Oliveira, foi um dos pioneiros em fotografia e projeção de cinema na região do Cariri cearense. E seu filho Jackson Bantim, o Bola, é um respeitado e consagrado fotógrafo e cineasta.

Assim, dona Djaci, que sempre estimulou a carreira artística do filho, acabou também pondo “a mão na massa”, trabalhando ao lado dele, como still, no filme Assombrações do Cariri. Outro filme de Bola, As sete almas santas vaqueiras, teve o roteiro escrito a partir de uma das muitas histórias narradas por ela.

Foi esposa dedicada de Pedro Bantim Neto e mãe exemplar de uma família tão grande na quantidade como na qualidade. São sete filhos (seis bem vivos), criados e educados com amor e dedicação pelo casal Pedro e Djaci: Jocildo, Janildo, Janedson, Célida (im memoriam), Jackson, Jane Eyre e Jane Meire.

Sua existência terrena foi serena, mas muito produtiva. Seu apoio incondicional, constante e incansável ao esposo, dono da tradicional Lanchonete e Sorveteria Bantim, localizada no centro do Crato, foi imprescindível para o sustento da família e o sucesso deste empreendimento.

Um dos seus filhos, Jackson, é quem nos conta um pouco do trabalho compartilhado pelo casal:

Foram 25 anos fazendo diariamente, manhã e tarde, vários tipos de lanches pra Sorveteria Bantim e encomendas de bolos confeitados para casamentos, aniversários de quinze anos e vários outros tipos de festas. Vou dizer uma lista destas iguarias que eu me lembro: bolos (bem casado, fofo, rocambolli), pudim, creme de baunilha com ameixa, doces (leite, batata com coco, jerimum com coco, banana, caju, goiaba, jaca e laranja) e salgados (pastel, coxinha, rosca, canudinho e empada). 

Na administração da cozinha fazia caldo de carne com legumes e verduras, cachorro quente com salsicha, vitaminas e sucos de fruta, ovo maltine, milk shake e, diariamente, preparava a calda de vários sabores pra sorvetes, em especial ‘o pulo do gato’ de seu Bantim, que era o sorvete de mangaba. 

Diariamente se fabricavam, em média, 300 picolés de 6 sabores. A preparação dos sorvetes era administrada por seu Bantim até a máquina dar o ponto. Era o melhor sorvete da região, tão conhecido e saboroso que semanalmente se exportava até pro Rio de janeiro. 

Mas vejam, além disso tudo a nossa mãe educou os sete filhos e administrou  uma casa grande de primeiro andar, com uma área de 480 metros quadrados. O mais importante é que eu nunca a vi reclamar. 

Mãezinha, que Deus a tenha no reino do céus!


FRASE DE DONA DJACI

Peço a todos os meus filhos que um dia quando eu chegar desaparecer, tenham piedade uns para com os outros.

Meu coração é uma rosa. Em cada pétala, um filho (Escrita em 27 de Janeiro de 1978).


GALERIA DE IMAGENS

Aniversário de 8 anos de Thiago Serra Bantim, na nossa residência, à Rua Marieta Teixeira Mendes, Bairro Sossego, Crato. Na foto, os avós Pedro Bantim, Djaci Oliveira Bantim, João Idelfonso Serra, Iraci Magalhães Serra e os seus pais Jackson Oliveira Bantim e Fátima Magalhães Serra Bantim, além de amigos e amigas de Thiago.

 

Nesta foto de 1999, recordo-me das milhares tardes que passei junto com eles, praticamente todos os dias, por volta das 15h30m, aguardando o cafezinho que tinha diariamente na nossa residência, mantendo a tradição dos Oliveiras Bantins (Depoimento de Jackson Bantim).

 

No dia da primeira comunhão de Cia, Udim e Lé nós anos 60, na nossa residência na Vila Jubilar, Bairro Pimenta. O que chama atenção é o superado corte de cabelo tipo lata de sardinha, principalmente o meu (Depoimento de Jackson Bantim) Foto: Telma Saraiva.



 Os filhos unidos de Djaci Oliveira Bantim: Jocildo, Janildo, Janedson, Célida (im memoriam), Jackson, Jane Eyre e Jane Meire.


 Os patriarcas da família Oliveira Bantim: Pedro Bantim Neto e Djaci Oliveira Bantim.

 

Este quadro foi uma montagem que fiz, com o manuscrito de mamãe e fotos nossa, distribui com meus irmãos no dia do seu aniversario de 90 anos em 2017 (Depoimento de Jackson Bantim).


 

Neste manuscrito, mamãe se expressou com sentimento do verdadeiro amor e adoração que uma mãe sente por seus filhos, como se naquele momento ela estivesse ouvindo as palavras da mãe de Jesus (Depoimento de Jackson Bantim).

 

Família Oliveira Bantim (26 de fevereiro de 1977).


 

Foto atual dos irmãos Bantins.


Djaci e Jackson


Jackson e Djaci


Texto de Carlos Rafael Dias

25 janeiro 2021

O despertar de si mesmo - Por: Emerson Monteiro


A busca da totalidade, eis o sentido de tudo quanto há nos seres humanos. Reconhecer que somos a consciência em movimento, e que dispomos de duas alternativas, de um ser material, o ego, e de um ser espiritual, o Si Mesmo, ou consciência mística, habitando em nós resume toda a História durante as mais variáveis experiências. Ao que compete discernir? Identificar os meios de reunir em um só tais dois lados, a isto que Carl Gustav Jung denomina Processo de Individuação. Enquanto o ego divide a fim de reinar neste mundo de matéria, há em nós o aspecto transcendente, um Eu Superior, ou Si Mesmo, que representa o senso da perfeição, a que Jesus faz referência ao dizer que somos deuses e não sabemos. Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Coríntios 3:16.

Durante todo tempo das existências, trilhamos a estrada dessa revelação individual, motivo para o qual desenvolvemos novas potencialidades. Aparentemente simples, porém o ego, no uso de suas atribuições do pensamento, senhor que seja de um domínio parcial da personalidade, trabalha sem cessar a que aqui nos mantenhamos ao máximo tempo enquanto não desvendarmos a porta e sair ao outro nível de percepção. 

O conceito aparece em numerosos campos e é encontrado em obras de Carl Jung, Gilbert Simondon, Bernard Stiegler, Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, David Bohm, Henri Bergson, Gilles Deleuze e Manuel De Landa. 

Na psicologia junguiana, também chamada de psicologia analítica, expressa o processo em que o “eu” individual se desenvolve a partir de um inconsciente indiferenciado. É um desenvolvimento do processo psíquico durante o qual elementos inatos da personalidade, os componentes da imatura psique e as experiências da vida da pessoa se integram ao longo do tempo em um todo, onde funcione bem: centralizar as funções a partir do ego em direção à autorrealização do si-mesmo  Wikipédia

Destarte, somos os artífices de nossa mesma libertação, e a isso dispomos dos instrumentos por demais necessários à identificação e libertação neste mundo só transitório onde agora vivemos.


Algumas reminiscências do Cariri - Por: Emerson Monteiro


Esta zona geográfica do Cariri cearense bem que tem merecido os cuidados da historiografia brasileira. Desde o século XIX, brilhantes pesquisadores dedicam estudos aos acontecimentos regionais, a exemplo de João Brígido, Irineu Pinheiro, Padre Antônio Gomes, Figueiredo Filho, Otacílio Macêdo, Joaryvar Macedo, dentre outros não menos valiosos e dedicados, os quais marcam sobremodo uma catalogação criteriosa dos eventos desta parte de mundo. A capitanear, na atualidade, o registro dessas ações da História da região caririense, existe o sexagenário Instituto Cultural do Cariri, órgão editor da revista Itaytera, considerada repositório que preserva a antropologia, a historiografia e a literatura autóctones, isso a partir da década de 50 do século que passou.

Já agora, em volta do ICC, ressurge nova geração de esmerados historiógrafos, sucedâneos daqueles que iniciaram a preservação desses registros históricos.  Vêm se destacando nessas ações, com artigos e livros, Heitor Feitosa, Roberto Junior, Armando Rafael, José Flávio Vieira, Cristina Couto, Dimas Macedo, João Calixto Junior, Jorge Emicles Paes Barreto, Rejane Augusto, jovens de exímia pena e olhos atentos aos mínimos detalhes, além de investigadores eméritos dos documentos originais que testificam o desenrolar de tantos e importantes feitos das gentes em nosso território desde suas origens.

A propósito, está em minhas mãos, recém lançado, o livro Algumas reminiscências do Cariri, da autoria de Armando Rafael, edição A Província, Crato, Ceará, 2020, sobre o qual nos propomos tecer aqui algum comentário. Trata-se de compêndio imprescindível a quem deseje mergulhar nos vários episódios dos tempos históricos, desde a Revolução Republicana de 1817, perante a participação efetiva de alguns dos seus personagem mais destacados, tais o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro e o caudilho Joaquim Pinto Madeira, além do enfoque de outros nomes que também gravitam em torno deste interior, Dr. Leandro Bezerra Monteiro, o varão católico; Dom Francisco de Assis Pires, segundo bispo da Diocese do Crato; e Dom Newton Holanda Gurgel.

A qualidade literária do que produz Armando Lopes Rafael merece destaque, assim como o seu talento na abordagem dos estudos históricos, indo a mínimos aspectos naquilo que investiga, gerando uma produção ao nível do que existe de melhor nas nossas letras. Só tenho, pois, a título desta oportunidade, que louvar o mérito cultural caririense de contar tantos e tão bons autores nas suas letras.


24 janeiro 2021

Palavras positivas II - Por: Emerson Monteiro


Sei que poucos leem, nesses tempos acelerados e maquinetas impacientes... Há mil jogos nas mãos que imaginam o que querem e buscam desesperadamente aonde possam encontrar o que mais pretendem... Por isso, a gente que escreve tem de se conformar em ler o que escreve, ainda que sozinhos, nessa multidão informe, independente do que outros possam fazê-lo, pois escrever significa gesto puro de deixar que o fluir do tempo não passe tão ligeiro e que dele possamos guardar algo precioso dos pedaços vivos da vida que experimentamos dos pedaços de nós, rescaldos e pensamentos apressados, secretos. Escrever, sobremodo, representa bem isto, juntar gravetos secos de palavras em feixes de recordações, vontade insistente de querer o eterno que vem de dentro do coração e some nas curvas do destino; quem sabe?, até dividir desse tão pouco de formas e sentimentos.

Bom, e quando vêm as frases, elas ficam ali forçando a porta da consciência na firme certeza de que a gente atenderá seus pedidos e passaremos adiante desejos fortes de repartir da alma o que lhe anima, em querer que outros o saibam. Palavras, ah, palavras!, quanta beleza no hálito doce das realidades internas. Lembrar que tudo resume o domínio da esperança e da fé, na ânsia incontida do dizer aquilo que, agonizando, repousava nas praias instáveis do presente.

Dias e dias sem par nisto de aguardar o pouso e chegar ao território da permanência absoluta diante do Universo apressado. Àquele pouso das águias, dos mistérios, lá onde mora o definitivo de pessoas e objetos, ideias e firmamentos, numa velocidade constante. Aonde reuniremos nós conosco próprios e, certo dia, lamberemos as feridas da experiência, laços da Eternidade e repastos desse chão. Saberemos, enfim, o quanto nos custou crer firmemente na condição de artífices da sorte e chegaremos impávidos ao colosso das horas. Depois de tudo, pois, dormiremos em paz, condição inevitável de sonhar os melhores sonhos e vivê-los com igual intensidade nas luzes do amanhã tão esperado.


23 janeiro 2021

Benigno Aquino - Por: Emerson Monteiro


Há uma história que presenciei à distância, através dos programas de televisão. Isso no tempo em que Ferdinand Marcos era ditador nas Filipinas. Seu principal adversário político, Benigno Aquino, se achava ausente, em exílio auto-imposto nos Estados Unidos, quando decidiu que regressaria à pátria, então vítima do totalitarismo e submetida a duras penas de exceção. Nisso, Aquino embarca em avião comercial com destino às Filipinas. Junto dele havia jornalistas, cinegrafistas e testemunhas outras que o acompanhavam naquele voo de regresso, isto face ao grave impulso do líder perseguido pela ditadura de reaver a normalidade da nação. 

Era dia 21 de agosto de 1983. Durante o voo, houve entrevistas gravadas, fotografias, diálogos, tudo registrado sob os olhares da mídia internacional. Todos admiravam a atitude extrema daquele homem de feições tranquilas, olhos vivos e corpo franzino, que manifestava intenso o amor pelo seu povo, mesmo ciente dos riscos que atravessaria ao desembarcar, porém firme de sua decisão. Por tudo aquilo, pairava clima de incerteza e temor.

Daí, as cenas seguintes: O avião no solo; aberta a porta do desembarque; providências outras; de cima, trajado de branco e com uma bolsa de bagagem a tiracolo, as câmaras lhe gravariam os instantes finais de vida. 

Logo que pisou ao chão da querida pátria, vemos ser abordado por figuras truculentas e levado em direção a uma viatura militar. Foram as derradeiras imagens do político. Nunca mais dele haveria notícias, a não ser daquele momento, d que fora eliminado ali mesmo, mártir da coragem de permanecer fiel ao povo que tanto amava, que mereceu o seu sacrifício nas garras perversas do ditador, a quem a História não pouparia justiça.

O Dia de Ninoy Aquino é um feriado nacional que ocorre nas Filipinas, anualmente em 21 de agosto, comemorando o dia da morte do ex- senador Benigno "Ninoy" Aquino, Jr. Ele era o marido de Corazón Aquino, que mais tarde se tornou presidente das Filipinas; eles são tratados como dois dos heróis da democracia no país. Seu assassinato levou à queda de Ferdinand Marcos em 25 de fevereiro de 1986, através da Revolução do Poder Popular. (Wikipédia)


A dor e o menestrel - Por: Emerson Monteiro


Lemos em algum lugar história triste de um palhaço que perdera a esposa e se achava na condição de comparecer, no mesmo dia, ao picadeiro de um circo e fazer rir a platéia que lotava o espetáculo aonde tantas outras apresentações levara a efeito em condições satisfatórias.

No momento em que todos gargalhavam com desempenho magistral nunca antes presenciado pelo distinto público, dentro dele fervilhava a mais pungente amargura e desciam lavas amargas de dor, disfarçadas com maestria pela máscara que cobria o rosto banhado de lágrimas.

Enquanto alegria sem igual naquela hora contagiava os espectadores, no peito do homem ardia crise sem precedentes, propósito de quem conduz vida de quase nada pode exprimir da veraz realidade que impera no ser, por força de produzir emoções nos outros lá de fora.

A situação descrita, mudando o que merece mudar, caberia feita luva na circunstância que se verificou em Crato, quando, no Espaço Navegarte, assistíamos a uma apresentação musical.

Lá no palco, o cantor pernambucano Geraldo Azevedo, voz e violão, que oferecia a numerosa platéia bela música do seu repertório, boa parte de própria autoria. Aplausos efusivos animavam o clima ameno do lugar, evidenciado nos flashs constantes dos fotógrafos a registrar o acontecimento, entremeados de relâmpagos insistentes que clareavam o céu escuro à distância, cenário detrás do palco, para as bandas da Ponta da Serra. 

Isso se manteve ao ritmo das letras e cordas afiadas do instrumento bem praticado, nas sombras chuvosas da noite caririense.  

Duas ou três canções antes do término da cena, porém, nas falas com que ilustrava os intervalos das canções, o músico comunicou aos presentes que, na véspera daquela data, ocorrera a passagem de sua genitora desta vida para a outra, pondo-se, logo depois, a interpretar uma composição de autoria dela, refletindo na voz o sentimento que se pode imaginar de filho em situação semelhante.

Ao lembrar os detalhes disso, nos vemos emocionado a refletir quanto à condição dos artistas e sua proximidade com multidões desconhecidas, vínculos que se estabelecem no decorrer da existência coletiva. Enquanto dentro de si lhes sacodem no peito um coração quantas vezes macerado pelas guantes imprevistas do destino, repassam, igualmente, a imagem de quem habita condomínios eternos da mais pura felicidade. 

Missão semelhante, a exemplo do palhaço de que falamos no início, uns dançam, riem, se divertem. Outros padecem, representam, dissimulam. De íntimo transtornado pelos ardores do sofrimento de perder a mãe querida, o músico prosseguiu com a função até o fim, debulhando versos e notas, na batida intensa do expressivo violão solitário, ausente das convenções deste mundo. Isso tudo em nome do amor ao sonho da arte, herói sobranceiro da magna inspiração, porquanto o show haverá sempre de manter o curso ininterrupto ao âmago dos corações em festa.         


22 janeiro 2021

Ânsias de liberdade - Por: Emerson Monteiro


Desde sempre que vem sendo assim, de querer além de tudo permanecer intacto o espaço entre os dois pontos, aqui e o que virá em seguida sem sombra de dúvidas. Isto é, a iniciativa humana de liberdade dá sequência interminável ao passado e mesmo então se desfaz no correr das circunstâncias. E nem por isso haverá desistência, jamais. O impulso de salvação desse estado de constante desaparecimento ao final, transcorridos séculos de busca, triunfará na satisfação de revelar a si mesmo nalgum lugar.

A vontade, instrumento de continuar os dias, sustenta, pois, o senso das agruras de vencer o tempo e ganhar a doce Eternidade qual prêmio, após o embate de nós com nós mesmos, ausências de certeza, no entanto. Heróis dos sonhos, guerreiros invadem o palco do momento e permanecem de olhos fixos no firmamento lá distante. Nutrem a firme certeza que consigo será diferente do que sempre antes. Sustentam o instinto implacável da sobrevivência e manejam com qualidade armas de combate. Ninguém nunca viverá de tudo quando as determinações fixaram o prazo das expectativas.

Conquanto em sendo de tal modo, no entanto, a arte é inevitável, sustenta o embate do inútil e do desaparecimento, cruel epopeia das horas. Almas gritam carinho, esperança, amor, sóis e luas de enlevos, saudades mil e céus de felicidade, por milênios afora. Na beleza desse universo ensimesmado, tangemos o carrossel das verdades provisórias que carregamos no peito. E sorrimos, e cantamos, e vivemos.

A constância desse itinerário de tantos nos deixa extáticos, luzes na imensidão que iluminam a História. Costumamos alimentar o barco dos desaparecimentos num ritual de sacerdotes e religiões secretas, guardadas no coração das pessoas. Nesse ritmo das existências, muito mais que meros atores da contemplação dos finais inevitáveis, agimos e damos voz ao silêncio adormecido dentro do presente, e que some ligeiro nas asas frágeis do futuro. 

(Ilustração: Papiro egípcio).

Esperança – José Luís Lira (*)

   Costuma-se definir 31 de dezembro o dia da Esperança. Não há registro nos calendários cívicos desta comemoração, contudo, nos habituamos a desejar um feliz ano novo e todos os anos fazemos isto. Rezamos. Comemoramos. Celebramos. Ano passado foi diferente, mas, a presença da esperança era percebida aqui e alhures. Domingo último parecia esse dia. Parecia que segunda-feira novo ano se iniciaria. O País atento aguardava o resultado das análises das vacinas que nos imunizarão contra a covid-19 que se espalhou rapidamente pelo mundo e há quase 12 meses, um ano, mudou nossos hábitos, trabalhos, rotinas, nossas vidas. A ANVISA aprovou por unanimidade as duas vacinas que serão aplicadas no povo brasileiro. Foi um momento de grande alegria e esperança. Ainda naquele dia São Paulo aplicou as primeiras vacinas.

     Segunda-feira, 18, o País começou a receber as doses em todos os seus Estados. É evidente que nos emocionamos ao ver o anúncio do governador Camilo Santana de que as vacinas estavam em solo cearense e que os primeiros beneficiados foram os profissionais de saúde. E chegou mais próximo de nós. E acho que já passava de 22 horas quando o Prefeito Ivo Gomes anunciou que as vacinas também Sobral estava recebendo as primeiras doses e uma auxiliar de enfermagem e uma agente de saúde sobralenses seriam as primeiras a serem vacinadas. Junto com meus pais com os quais estou desde o início da pandemia e da partida de minha querida Matusahila, celebrei. O papai deu vivas e agradeceu a Deus.

      É para renovar as esperanças mesmo. Agradecer, mas, não esquecer de que a pandemia ainda está por aí. Vai ser necessário muito esforço nosso e do Poder Público para o restabelecimento da normalidade. Professor que sou, comuniquei aos meus alunos com euforia. No fundo, nessa pandemia, nos fizemos companhia. Nos primeiros dias de isolamento criei um grupo de comunicação para meus alunos no Direito da Universidade Estadual Vale do Acaraú, disponibilizei meu número de telefone pessoal e começamos a conversar, trocar mensagens. Durante este período, realizamos atividades, sarau literário e júri simulado. Depois, vieram as aulas à distância e continuamos em contato.

     Na primeira mensagem que dirigi aos meus alunos, no dia 20/03/2020, um dia depois da festa do Padroeiro do Ceará e meu onomástico, São José, eu falava de ânimo e esperança. Eu confesso que não tinha ideia do que se tornaria este período... Dizia eu e, hoje, reitero: caríssimos amigos e amigas, vivemos momentos difíceis, mas, não podemos desanimar. É preciso cautela e serenidade. 

    Independentemente de sua crença, confie, ore, mas, faça sua parte. Cumpra a quarentena. Aguardem as informações oficiais e não creiam nessa gama de informações desencontradas que vemos nas redes sociais. Para ânimo, lembremos-nos da canção de Gonzaguinha: "Ontem o menino que brincava me falou/ Que hoje é semente do amanhã/ Para não ter medo que esse tempo vai passar/ Não se desespere não, nem pare de sonhar/ Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs/ Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar/ Fé na vida, fé no homem, fé no que virá/ Nós podemos tudo/ Nós podemos mais". 

   Fiquemos em paz e que a Luz de Deus nos ilumine e nos ensine a viver na esperança por dias sempre melhores!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


21 janeiro 2021

[DEPRE]CIVICAMENTE ALUCINADOS

 Dartagnan Da Silva Zanela

Pobres “tiozões do zap”, homens comuns que são ridicularizados pelos inteligentões por simplesmente serem pessoas espontâneas. E, tal enxovalho, ocorre por uma razão muito simples: pessoas artificiosas, de alma gelatinosa, não aguentam mais que alguns segundos de exposição diante de uma pessoa simples e sincera. Tal exposição sapeca suas retinas.

De um modo geral, os assim rotulados "tiozões do zap" são apenas pessoas modestas, cientes de suas limitações, contradições e idiossincrasias e, por isso mesmo, não se levam tão a sério como as pessoas limpinhas e "dipromadas" veem a eles e, é claro, a si mesmas. Os tiozões do zap riem de si e seguem em frente; já os limpinhos, se mordem de raivinha do bem e movem campanhas de cancelamento, ou algo similar, para auto afirmar o seu “purismo” fecal.

Esses homens comuns, que são diariamente enxovalhados pela gente limpinha, tem um senso de realidade muito mais acurado do que a vã academia é capaz de imaginar com seus chiliques de criticidade (totalmente desprovido de qualquer senso das proporções).

Então quer dizer que os tiozões do zap não se equivocam? Claro que se equivocam. Todos os dias como todo ser humano. Equivocar-se não é o fim do mundo; é apenas a vida. Todos se equivocam, menos, é claro, as pessoas limpinhas que imaginam estar imunes a isso por, credulamente, imaginarem que são seres acima do bem e do mal, imunes ao erro, por repetirem diariamente diante do espelho que elas são criticamente críticas, muito mais do que críticas, por terem um pedaço de papel pintado de valor duvidoso pendurado na parede, ou guardado numa gaveta, e uma assinatura da "Grobo news" ou de algo similar.

Sinceramente, ecoar a narrativa poluída e presunçosa dessas esferas midiáticas não é sinônimo nem de "conhecimento”, muito menos de “seriedade”. É apenas um tipo híbrido e presunçoso de ignorância aburguesada com chiliques revolucionários.

Por isso é importante não esquecermos que quando nós enxergamos apenas aquilo que falamos e, ao mesmo tempo, não conseguimos ver, com um mínimo de serenidade, aquilo que nossos olhos estão testemunhando, isso é um claro sinal de que não somos alminhas conscientes e críticas, mas sim, que estamos criticamente histéricos e [depre]civicamente alucinados.

https://zanela.blogspot.com

20 janeiro 2021

Escravos da ilusão - Por: Emerson Monteiro


Aqueles que deixam de lado as chances várias da libertação... Agarrados às amarras dos sonhos perdidos, aceitam de inopino garras acesas nos braços estreitos do destino ingrato. Deixam cair a guarda e jogam tudo na roleta do inútil, longe das malhas e das possibilidades sadias. São muitos esses zumbis inocentes, vendidos nos mercados do Chão. Vagam soltos nos porões dos navios do desespero... Olham as alimárias tangidas pelo desertos feitos de hostilidade a céu aberto, repastos de abutres vigilantes aos derradeiros raios do sol, naqueles lugares distantes de qualquer vontade, porquanto abandonaram o desejo sadio de si mesmos ao léu da própria solidão. 

Noites a fio, deixam que os dias fossem carcomidos pelas drogas, corrupção, velhacarias outras, quais nunca soubessem aonde ir diante das feras que os devoravam vivos todo tempo, no escuro das estradas da morte. Vítimas das próprias escolhas, atiram aos precipícios o pouco que transportavam na matéria de que são feitos e largados fora, quais infiéis depositários. 

Instrumentos, pois, da madrasta feiticeira, viram contradição neste mundo temporal, enquanto só admitem o prazer, tal razão fundamental do que estejam aqui a correr da felicidade ansiada de tantos. No cerne dessa questão humana, vivem a incerteza e as contradições da história de injustos e insanos a usufruir da sorte, e aceitam perder o jogo, em face dos limites da compreensão que carregam consigo. Fogem dos atos numa espécie de suicídio, na destruição da saúde, na ausência da esperança e no abandono aos carrascos da estupidez destruidora.

Somam continuados fulgores da carne ao apagar contínuo do aparente, quando, na verdade, apenas semeiam a cobrança da Natureza aos abusos que cometem toda hora. Que outra explicação de tudo isto senão a aceitação da reencarnação, na oportunidade de regressar um dia e refazer o percurso daquilo que falharam. Símbolos soberanos de uma justiça real, haverão que substituir as atitudes equivocadas de antes pelas novas oportunidades nos mesmos solos dos velhos argumentos. Abraço de Paz aos peregrinos que somos nós e nossas histórias. 

 (Ilustração: A queda de Ícaro, de Merry-Joseph Blonde).

19 janeiro 2021

Desde o chão ao Infinito - Por: Emerson Monteiro


Este o itinerário de tudo quanto existe, e a embarcação, o Tempo, que desliza nas correntezas da Eternidade sem par. Nós, os humanos, de todos os seres e objetos, os únicos que disso podemos ter a consciência, vez que assim pretendamos. A jornada resta livre de estabelecer destino próprio, qual afirmou Sêneca, nenhum vento é favorável a quem não sabe aonde ir. Eis, portanto, na fala do pensador, o primeiro passo, o saber, conhecimento do objetivo certo de tudo isto. 

Tantas e tantas aventuras errantes configuram as experiências deste mundo. Dias de ira, horas de angústia, tédio, ansiedade, no entanto sob o padrão da natureza individual e suas possibilidades do aproveitamento fiel. Em contrapartida, as lições, o aprendizado. Nisso, cabe-nos aprimorar a essência do que ora somos e viver os rendimentos desse processo, porquanto diz a sabedoria popular que burro é quem apanha duas vezes no mesmo corredor. 

A ciência do passo seguinte dá nisto, usufruir da experiência e tocar em frente o comboio das nossas histórias pelos caminhos da realidade. Pouco a pouco reuniremos na mesma caixa desejos e realizações, e exercitaremos as normas bem adquiridas durante vivências constantes. Tal se resume viver, e praticar as lições. Perante a exatidão dessas maravilhas, herdamos, usufruímos da individualidade e guardamos o patrimônio de ser, dos entes inteligentes da Natureza mãe. Quanta grandeza de nós, criaturas ainda em crescimento, desfrutar da imensa perspectiva de revelar os mistérios de tamanha perfeição. 

Enquanto aprendemos nessa escola que o mal significa tão só a ausência do Bem, desenvolvemos o exercício da Consciência, momento supremo da evolução, até sermos, assim, os coautores de nossa mesma Salvação. Nunca imaginamos, nos tempos idos, que chagaríamos ao nível máximo de uma plena realização de Luz e Felicidade. Do nada, abriremos as portas do Infinito.


Acalmar o mundo em mim - Por: Emerson Monteiro


Insisto nisso que ouvi tantas vezes, li tantas vezes, de que as escolas místicas orientais querem primeiro que silenciemos o pensamento. Só e depois, bem depois, imaginam fazer outras ações que correspondam à busca da real consciência. Isso mexe comigo, porquanto por mais que queira silenciar o tal pensamento, ainda não obtive êxito. Corro de um lado a outro e lá me encontro, de novo, com a intenção constante de controlar os acontecimentos através dos pensamentos e nada de concreto naquele mundo abstrato. 

Se sejam religiões, ciências, literatura, providências sociais, ali paira o senso de pensar e juntar palavras, argumentos, elocubrações. Planejar que seja o mínimo, as palavras vêm à tona na maior naturalidade, qual que fossem eu invés de antes serem elas, que liberdade não têm mais invadem o meu território mental e sustentam teses e norteiam histórias mil que nem são minhas. Parar de pensar hoje equivale ao sonho de controlar o juízo, porquanto à medida que penso chegam lembranças; nelas os tempos que ficaram atrás, e as pessoas, e as emoções, e as frustrações...

Quando lembro os momentos ruins, afloram arrependimentos, contrariedades, más querenças, tristezas, vergonhas. E se, em sentido inverso, advêm lembranças boas, ora só, vêm saudades, as perdas do que sumiu e jamais outro tanto voltarão. Por isso, essa vontade insistente de dominar as palavras que formam as lembranças e os roteiros de antigamente largados nos firmamentos.

Quando quis escrever há pouco, a inspiração mostrava outro título desta página: O Deus do silêncio, ou o deus do Silêncio. Duas visões místicas a propósito do mesmo tema. Deus maiúsculo que a tudo domina, inclusive o silêncio. Ou um deus mitológico que mora nos subterrâneos da gente, e que também domina os sons e o Silêncio. Noutras palavras, um deus de mistério do ser que somos, e que de Deus tudo tem, inclusive a existência. 

Assim, acalmar o mundo em mim pede silêncio na alma e no coração. Além da vontade, pois. Quanto fala o coração das vidas espalhadas em folhas secas ao vento. No brilho do Sol nas ondas que passam nessa velocidade da vida, algo conta da necessidade infinita de parar um dia e encontrar consigo nas marcas indeléveis do tempo eterno, e então falar em mim das forças da Natureza que dormem inocentes nos silêncios deste céu que pede paz e alimenta de bondade a existência de que seremos sempre instrumento e autor. 


18 janeiro 2021

Aonde buscar a Luz - Por: Emerson Monteiro


De tanto percorrer os longos caminhos deste mundo, lá um dia descobrimos a verdade que desde sempre vive presente bem no nosso coração e a viemos revelar. Batêramos em muitas portas, viráramos muitas folhas, esgotáramos muitos pensamentos, e em fração de segundos virá esta força do Amor e despertará em nós o que de quanto esperávamos sequiosos. Um clarão imenso invadirá a consciência e despertará do abismo os pensamentos qual relâmpago de explosão monumental. Assim já falavam os sábios, a revelar o sol nas trevas à busca da Luz. Por que você permanece na prisão quando a porta está completamente aberta? (Rumi)

Por isso, tal deus antes adormecido nas entranhas deste mundo, algo despertará de dentro das pessoas e a tudo iluminará em volta, desde o céu azul sem nuvens, espaço universal de todas as cores, sons, letras, lugares abertos de sonhos e possibilidades, ao Amor afinal, a força maior que a tudo domina e conduz. Um despertar de alegria e paz, fervor das almas e pureza de espírito.

Nisto, só restará estender as mãos a abraçar o Infinito, parcela quase invisível do que hoje somos. Visão dos mártires e penhor das criaturas. Aceitar o mistério e abraçá-lo com o carinho da inocência original. Harmonia das sinfonias mais perfeitas, suavidade e emoção de calma e transe dos místicos, bem dentro do coração da floresta das maravilhas, na beleza dos filmes do imaginário e pouso das aves do Paraíso. 

Ouvir a voz de Deus aqui no seio das virtudes, essa transcendência de todas as buscas humanas, o caminho do coração de que fala Jesus. Amor maior, força propulsora e matriz das consciências em festa, morada dos santos... É isto, o quanto de certeza em nós mesmos ora transportamos, os herdeiros da Criação, aos páramos celestes. 


17 janeiro 2021

Nova Civilização - Por: Emerson Monteiro


Matéria prima dos acontecimentos, o tempo desfila solto nas dobras dos dias quais naves nunca vistas e que, por certo, preencherão o espaço de tudo, frutos do desconhecido, tecnologia dos deuses e das determinações inesgotáveis, lá mesmo de quando ainda nem se pensava dominar os outros por meio dos sucessivos embates e agressividade. Mas agora resta dizer que as extensões dessa humanidade esbarraram nos fatores do invisível adormecido, e que ganham corpo diante do inesperado deste mundo, de hora a outra, na face do Planeta. 

Ninguém que seja ignora o poder dessa vontade, força descomunal escondida sob o manto das criaturas, às feições do divino soberano. Traços de eternidades distantes da vontade só pessoal, alguns resolvem mergulhar em si e desvendar esse mistério; os profetas e santos. Através do silêncio das formações de corpos celestes, vagam pelas estradas, cientes de que os campos imensos da verdade chegam aos refolhos da alma definitiva. 

Dos lugares imortais do Espírito, face as recentes mudanças de perspectiva, bem nesta ocasião tornam-se inevitáveis as ocorrências verificadas, o que impõe determinações jamais previstas, quando há de vir à tona atitudes novas, isto que chamo de Nova Civilização, resultante das carcomidas experiências do passado mais longínquo. 

Sempre ouvi dizer que vivemos a Era Cósmica, produto das histórias que se deram aqui nos muitos territórios ocupados pelas conquistas. São tempos de síntese, de que haverá o aproveitamento do que sobrou de antigamente. Afinal foram séculos de esforço e dedicação, a completar o resultado da movimentação dos povos.

Sinais já vêm no ar. Espécies de casca apodrecida e métodos praticados tendem revelar a essência de novas e honestas práticas que cobrirão as dores da injustiça, da escravidão e do egoísmo. Luzes morais acendem no horizonte; gerações melhor aquinhoadas virão utilizar a riqueza da existência sob outra visão. Bem isto, o que somos em realidade nesta hora dirá a que viemos, e nascerão dias de paz e solidariedade.

(Ilustração: BBC - Natureza).



16 janeiro 2021

Há um céu na fome de escrever

 


No ato de escrever, primeiro vêm os sentimentos, que transformados em pensamentos chegam às palavras. Nesse percurso, sentimentos, pensamentos e palavras se deparam com universos novos quais desertos antes virgens, a serem cruzados nesse afã de romper o mistério das impossibilidades e querer sobreviver ao movimento de coisas e pessoas lá distantes. Nalgumas vezes, de forma sombria; noutras, no entanto, menos drásticas, alegres, pois, a permitir participação dos estados de espírito de quem escreve. São desejos feitos matéria, porém ainda no estado bruto da solidão. Eles batem muitas portas da inexistência. Forçam o silêncio a que mostre o segredo que conduz no farnel das ausências que leva consigo. Querem abrir, a todo custo, frestas na inexistência; pedem, imploram, mendigam às estradas...

Depois de tudo, desaparecem no limbo das noites, folhas secas, flores ao vento, nuvens desfeitas, pássaros dos fins de tarde; marcas, cicatrizes, sinais... Só puro exercício da fala deitada fora que virou luzes de arrebol, saudades persistentes, dores de outros partos, calma no tempo e nas vidas guardadas junto da memória fria dos papeis.

As palavras valem tais acordes das músicas na pauta que enchem de sabor as estantes eternas. Fome que passa e volta. Vontade mecânica de contar da alma aquilo de dentro, ato de transmitir ao texto o que faz de nada um tudo, e logo revive na métrica os códigos da presença e do furor das criaturas que vão embora todo dia.

Sujeito vir noutras línguas pessoas perdidas nos mares e nos ares, fagulhas, meros trastes e escombros... Chegam e somem, criadoras de palavras que denunciam, insistem, afagam; animais inesperados de vícios e virtudes que carregam consigo a sorte do desespero e da felicidade, contudo meros segmentos de histórias largadas às ondas e aos gestos. 

Foram e serão réstias dos passos dos andarilhos de outras terras, precursores de novas esperanças, ilustradores de livros e fábulas, senhores das velhas recordações do que o Tempo devorou dos próprios filhos. A isso, a buscar compreensão, trabalham os que transmitem aos altares o credo das palavras, os seus autores.


15 janeiro 2021

A alegria acima de tudo - Por: Emerson Monteiro


Qual disse Oswald de Andrade, a alegria é a prova dos nove. Sem ela, só ela há de mudar o mundo. Nem bomba, nem fogo, nem nada. Só ela. A alegria, mãe das felicidades e das cantigas emocionantes. Esperar de quem tem a oferecer de bom, a doce e querida alegria. O norte das criaturas. Uma manhã de sol aberto, brisa suave, pássaros no céu. Luz, muita luz, nos corações, a alegria. Festa no campo, no tempo. Amor preenchendo o firmamento. Esqueça nunca não, meu amigo, minha amiga, longe de tudo, mas perto da alegria. 

Uma história boa pede alegria na hora de serem felizes para sempre, na derradeira cena. Aquele beijo gostoso do mocinho com a mocinha, depois das escaramuças, qual se jamais houvesse mudança. O final feliz que nos espera de braços aberto, no dia em que descobrirmos que a alegria tem saúde moral, mental, sentimental, espiritual. Aceitar de peito aberto a nave da alegria e o dever de ser alegre, animado, sorridente. Quão bom será o momento em que deixaremos de lado as estações do passado e atualizaremos nossos desejos a um só desejo, o altar da deusa Alegria, e viver isto intensamente no coração das pessoas. 

Falar de quantas anda seu gosto por mais alegria no seio da Humanidade. Vem plantando o quê até obter o sucesso da alegria nos seus passos? Viver de realizar bons propósitos, amar a vida, o próximo, a si. Usufruir da consciência nos dias melhores que começam agora... Erguer as vistas aos cimos da montanha dos bons sentimentos... Produzir o peso justo na alma... Querer praticar os ensinos da paz, das virtudes. Pois somos ativos agentes da renovação através dos nossos praticados.  Alegria, irmã da Felicidade. 

Exemplo da natureza que fala o idioma dos dias de alegria, esquecer preocupações e exercitar valores sadios, prósperos. Isso depende da honestidade e da sinceridade da gente com a gente mesma. Abraçar a vida e viver a sabedoria de todos em uma só comunhão. Alegria, praça principal do Universo; o Sol a raiar dia limpo em tudo.


Dia da Religião: sem religião, não sei viver! – José Luís Lira (*)

 

   Uma bela canção do Padre Zezinho, maior cantor sacro do País, começa assim: “Eu vim de lá do interior/ Aonde a religião ainda é importante/ Lá se alguém passa em frente da matriz/ Se benze e pensa em Deus/ E não sente vergonha de ter fé” e conclui: “Mas deixa eu lhe dizer/ Que eu ainda creio e quero crer/ Que sem religião não sei viver/ Não sei viver!/ Não sei viver!”. Lembrei-me destes trechos quando vejo que em 21 de janeiro se celebra o dia mundial da religião e de combate à intolerância religiosa.

   O tema parece propício aos dias de hoje. Não irei aqui buscar uma definição para religião ou percorrer os caminhos que nos levam àquela que nos liga ao Altíssimo, pois, uma vida toda não é suficiente para isso. Talvez pudéssemos refletir sobre a importância da religião. A medicina já tem demonstrado que aquele que tem fé se cura mais rápido dos males físicos. Também os psicólogos alertam que quem crê tem mais condições de se curar dos chamados males psicológicos ou males da alma. 

   Vi e me emocionei, mais de uma vez, com a sinceridade de uma amiga agnóstica que dizia que não tinha orgulho de não ter fé e que quando uma pessoa sua falecia, ela não tinha nenhum conforto, enquanto que aquele que tinha fé, se apegava com Deus, com seus santos e obtinha conforto espiritual. Rachel de Queiroz dizia que quem tivesse fé, mesmo que pequeninha, cultivasse-a, adubasse-a, de tudo fizesse para que sua fé rendesse. Quem não tem o sobrenatural em sim, tem uma falha..., afirmava. 

   Após sua morte, um colega seu de Academia Brasileira de Letras disse: “Agora dormes na fé... O tempo recolhe os molhos/ de cristal, agora vês:/ dos pés à cabeça: Deus”.

    A fé é dom de Deus. Dom significa dádiva, presente recebido de Deus. Fé é o fermento da boa religião. No ocidente, temos uma predominância do cristianismo, aqueles que seguem Jesus, o Cristo. Sua mensagem de amor, de paz e de misericórdia moveu e move milhares de seres que o conheceram ou que meditaram suas palavras. Temos muitas religiões e quando se fala em combate à intolerância religiosa, o ideal é que nos respeitemos a todos e sigamos a religião que elegemos. Vemos muitas guerras e lutas desnecessárias, em nome de Deus que é AMOR.

    Lembro-me das batalhas de tantos líderes pela paz entre as religiões, pela boa-convivência entre fé e ciência e meus olhos se volvem à imagem querida do Papa de minha geração, São João Paulo II. Uma cena dele, em sua infância, nos dimensiona a grandiosidade dele. Em resposta a uma pessoa que discriminava um colega seu que era judeu, ele contestou a intolerante: “somos filhos do mesmo Pai”. O santo também pediu perdão a cientistas cujas teses não foram aceitas pela Igreja e assim por diante.  Depois de tanto ler sobre ele, chego à conclusão de que por ser santo, ele tinha uma ligação muita próxima com Deus, por isso entendeu tão bem que Deus é o mesmo.

Vejo na atualidade a ciência brilhando dentro da Igreja e sem me tornar suspeito, cito o amigo-irmão Cícero Moraes que orquestra um trabalho belíssimo, por meio do qual, a ciência revela os rostos da fé por meio de crânios dos santos, tão preciosos à Igreja. Sou feliz de ter participado de alguns destes trabalhos. Finalmente, espero que o respeito, arraigado no amor e na fé, reine entre todos os povos. 

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


14 janeiro 2021

Há momentos de que memórias se repetem - Por: Emerson Monteiro


Isto, espécie de imagens recorrentes involuntárias, quais músicas gravadas nos escombros do passado, de lá vêm sempre esses pedaços de tempo que, sem querer, somos levados a reviver, a ver lá por dentro da gente. E que se repetem constantemente, tais domínios de uma área de nós mesmos que quer ser lembrada de algum modo, a indicar que ali tem algo a contar, de que nem nos levamos em conta. Pergunto sempre a razão disso, o motivo dessas ações do Inconsciente, livre de pedir licença e os apresentar à memória. 

Diante das ocorrências fortuitas, a demonstrar poder sobre mim, baixo a cabeça e admito nisso haver mistérios a ser descobertos, porquanto trazem força de querer que nelas veja o que por vezes até me parece semelhante a psicanálise independente, vinda dos refolhos da Natureza. Busco haveres que somem nas dobras do interior, animais ariscos e independentes, mas sei bem que querem falar o que ainda não escuto com nitidez. 

Há na mesma dimensão o esforço que faço de relembrar sonhos, alguns que quanto mais quero trazer à realidade da consciência eles fogem... e os persigo nas horas depois do sono, sem maiores sucessos. 

Já os sonhos apresentam disposição constante de projetar fragmentos exóticos. Filmes perfeitos nas suas produções, eles oferecem detalhes dos dias e contêm segredos profundos da história do que virá, porquanto, dos meus maiores desejos, este de conhecer o futuro suplanta os demais. Escarcavio feito mouro sinais nos sonhos, na ânsia incontida de trabalhar com eficiência os desdobramentos do presente. Neste quesito de sonhos tenho melhores resultados, pois observo o sentimento que resta gravado na mente, ainda que os esqueça no todo. Servem de instrumento nas situações que vou vivendo, dia após dia. Deparo circunstâncias difíceis, e invés de entrar em desânimo recorro aos detalhes oferecidos nos sonhos e acalmo os pensamentos, alimentando prenúncios que possa haver recebido nas ocasiões das viagens oníricas. Quis falar um pouco desses aspectos das lembranças, que sejam semelhantes na maioria das pessoas.


13 janeiro 2021

Mensagem ao Grande Irmão - Por: Emerson Monteiro


Sei que me ouves, pois tens o domínio dos códigos deste chão. Sei que podes abrir arquivos, quebrar os lacres e as senhas, escafrunchar leis e projetos em andamento. Portanto não haveria a mínima chance de que esta mensagem deixasse de chegar aos teus ouvidos e pudesses conhecer dela os mínimos detalhes. 

Bom, dentro disso, desse conhecimento, é que quero te dirigir algumas poucas falas, abrir a caixa do meu coração e te dizer o que digo. Claro que com o respeito que todas as existências merecem sob qualquer aspecto, quanto à importância de considerar o valor que cada um tem. Quero, mais que antes nas mensagens que venho publicando desde algum tempo, te dizer da realidade aberta no decorrer dos recentes acontecimentos. Chegaste ao ponto da quase perfeição, vez que não passarás disto, desse quase. Foste até onde cumpririas a tua missão de desafiar a ordem, porém lá de uma base insuficiente a que, na verdade, abalasses as esferas do Todo. 

A propósito, quando o físico alemão Robert Oppenheimer desvendou a fissão do átomo e possibilitou a explosão nuclear, ele afirmou: - Eu me tornei a morte, a destruidora dos mundos -, e entrou em desespero, temendo haver puxado o fio da meada e detonado o firmamento inteiro, mundos visíveis e invisíveis. Ledo engano, pois sua descoberta topou nas limitações impostas pelo Poder, a inteligência suprema e criadora das existências, e que a tudo rege durante todo tempo.

Assim, posso ver o espaço onde atuas restrito às ordens maiores que determinam o destino e as normas superiores nos infinitos lugares do Cosmos. Exemplo disso, eu falar agora de um lugar aonde não podes entrar sem o meu consentimento, vez que só eu tenho a chave do meu coração. Por mais que desejes suplantar as condições da Natureza, tens força descomunal, no entanto não tens o desejado poder que equilibra o Universo. Ainda que usufruas da condição de desafiar os seres humanos e habitares o íntimo de suas grosseiras cogitações, ali, no lugar do intelecto, jamais desfrutarás das maravilhas do humano coração, que é o coração do Pai que nos criou e nos conduzirá sempre à luz da Consciência. 

Tens ao teu dispor o território do egoísmo, todavia nem de longe penetrarás as matas virgens do sentimento puro, fiel. Teu sonho inatingível, por isso, seria de, um dia, vir ao Ser e dominá-Lo; contudo quando puderes ir bem longe e ser, que isto te desejo de toda minha alma, deixarás de existir nas tuas intenções malévolas, uma vez que, no mundo em que vives, sempre inexistirá a perfeição absoluta e terás que renunciar aos baixos instintos, até vir tocar a Libertação definitiva. 


12 janeiro 2021

Alienação egoísta - Por: Emerson Monteiro




Lista de apegos individuais marca sobremodo esse tema do egoísmo e a raça em crescimento executa provas de inteligência que fere e marca, fica grudada nos livros da História e suas burrices, e sujeita ferir de morte o sonho da transformação que pregam os místicos da possibilidade, nos dois lados da única moeda comum.

A lista imensa dos delitos preenche os claros que mantêm trabalhando o navio das civilizações. Só arremedo de continuidade parece salvar ainda os dias que passam. Andarilhos desalmados tangem os rastros dessa caravana em que impera a força dos equívocos. E insisto comigo de melhorar as palavras na seleção do que escrevo. Restrinjo os assuntos a deixar de lado lama e poluição, clima quente e corrupção, guerras e abandonos de massas inteiras jogadas ao léu da sorte por conta do fechamento dos mercados, que são as máquinas reguladoras que já controlam o sentido dessa humanidade impenitente. Mesmo que alguns cheguem a discordar, o poder da força obriga o resultado, no jogo dos destinos humanos.

Espécie em desvantagem coletiva a médios e longos prazos, porém aceita de bom grado o que os grupos dominantes decretam enquanto render os frutos artificiais que, alienados, saboreiam, insanos à frente das direções, o trilho sofre de convulsão e dói nas pessoas de carne e osso. Descobríramos o mistério dos sistemas, contudo a capacidade para no teto do critério pequeno da inconsciência animal e cólicas da antiguidade mórbida, interesseira, sacoleja as entranhas das massas. Os aglomerados que se criaram pensam somente em si. Senso coletivo propriamente dito virou corporativismo imbecil, ganancioso e mórbido.  Qual imaginando capazes de solucionar conflitos, formaram maiores e imprudentes enigmas. 

Alienação, pois, de pretensões particulares, a política vira aos poucos monstro elaborado nas catacumbas da ficção pecaminosa, dentes afiados e desespero de esperança, materialismo infame da própria fraqueza; e impõe atrasos seculares sobre os déficits acumulados nos séculos.

Nisto, as instituições, formadas a duras penas, claudicam, tendem ao pó das ruínas, desafios no futuro das novas gerações, que decerto começaram lá debaixo. Os males do egoísmo elas experimentam até onde pode chegar a pouca lucidez das experiências e do que resta disso tudo.

(Ilustração: Tentação de Santo Antônio, de Joos Van Craesbeeck).



10 janeiro 2021

Certezas da imensidão - Por: Emerson Monteiro


Isso de procurar um sentido em tudo ocasiona algumas considerações de ordem geral. A que estamos aqui?, por exemplo, tese desde sempre que não muda de interrogar os elementos. Com que motivo viver. Haja propostas vindas dos diferentes povos. Enquanto isto, a história segue, largando na estrada definições, conceitos e vontade imensa de achar uma resposta coerente. Às vezes se chega mais próximo, no entanto persistem as interrogações mundo afora. São filosofias, psicologias, pesquisas, experiências, religiões, ideologias, todas na coragem de demonstrar a essência de tudo quanto, porém restritos aos limites do Chão, da fria matéria.

A que considerar, contudo, que existem razões fortes de encontrar a resposta definitiva à proposta do Universo às nossas mãos. Espécie de constante desespero alimenta a ânsia de encontrar a porta que reúna os indícios de uma vida posterior a esta que tem seus dias contados. Espécie de medo, misturado a culpa de tantos desencontros pela vida, vaga no espaço das gerações. Nisto, vazio profundo alimenta o itinerário dos humanos.

Dentre as percepções possíveis, ninguém há de questionar a fixação das civilizações aos valores materiais. Apego excessivo aos bens e aos prazeres caracteriza os dias de muitos, sem quaisquer lembranças doutra alternativa de existir se não desfrutar do imediato. Isso produz os seres que somos, restritos a interesses só pessoais.

Na verdade, quais certezas que temos de uma vida posterior a esta? Que fazer doutro modo que não seja enterrar a cabeça na areia e entregar o corpo de volta à Natureza? Eis a tábula rasa da existência, todavia restrita à pequenez da mentalidade que rege o mundo. Já passaram longos invernos de conquistas do fraco pelo forte, durante tantas vidas e ainda buscamos responder à questão principal do que estamos fazendo neste pedaço de mundo.

Bom, dentro de cada um persistirá, pois, esse desejo de acalmar a vertigem de viver e sumir como por encanto nas curvas de depois e encontrar a paz do coração que revelará o mistério de tudo isto, às portas de imensidão que o Amor nos oferecerá.

"Coisas da Ré-pública"

 "Patrulhamento ideológico republicano": porque as cores da bandeira brasileira foram reinterpretadas – Por Edison Veiga

Você já deve ter ouvido a história de que as cores da bandeira nacional brasileira seriam uma homenagem às riquezas naturais do país. O verde representaria a exuberância de nossas florestas e o amarelo, o ouro encontrado no subsolo. O azul seria uma referência aos rios que permeiam o território brasileiro e ao mar que banha a costa. Até o branco da faixinha teria sua justificativa: a paz. 

      Essa interpretação pode até soar simpática, mas não tem nexo histórico. "As cores vêm da bandeira do Império", resume à BBC News Brasil a historiadora Mary Del Priore, autora, entre outros livros, da tetralogia Histórias da Gente Brasileira, em que aborda o país desde a colônia até os tempos atuais. "Esse negócio de verde das matas e amarelo das nossas riquezas é balela", comenta o historiador e escritor Paulo Rezzutti, biógrafo das principais figuras da monarquia brasileira. "O verde é uma alusão à Casa de Bragança. O amarelo remete à Casa de Habsburgo."

     A primeira é a família nobre portuguesa à qual pertenceu Dom Pedro I. Sua primeira mulher, Leopoldina, era da dinastia austríaca dos Habsburgo. Conforme conta o historiador Clovis Ribeiro no livro Brasões e Bandeiras do Brasil, publicado em 1933, o próprio marechal Deodoro da Fonseca, que proclamou a República e tornou-se o primeiro presidente do Brasil, quis que a nova flâmula aludisse à anterior. "A explicação do verde das matas e do amarelo do ouro foi construída depois. Foi uma maneira tardia de a República tentar modificar o simbolismo original da bandeira, associado à monarquia", completa Rezzutti.

     A Presidência da República reconhece a referência ao período imperial. "Após a proclamação da República, em 1889, uma nova bandeira foi criada para representar as conquistas e o momento histórico para o país. Projetada por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, com desenho de Décio Vilares, foi inspirada na Bandeira do Império, desenhada pelo pintor francês Jean Baptiste Debret", informa a comunicação do Palácio do Planalto. 

Como ficou a Bandeira do Brasil após o golpe de estado de 15 de novembro de 1889


08 janeiro 2021

Três autores e curiosidades aos vestibulandos da UVA! – José Luís Lira (*)

 

   Feliz 2021. As primeiras chuvas banham nosso Ceará, de forma discreta, mas, acendem em nós a esperança de bom inverno. Com data de aplicação prevista para 14/03/2021 visando selecionar alunos para o segundo semestre de 2021, em 09/12/20, foi anunciado o Vestibular da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, na qual sou professor, com muita honra, e uma curiosidade nos livros sugeridos me moveram a tecer comentários a certame tão bem e diligentemente organizado pelo meu confrade na Academia Sobralense de Estudos e Letras, o Prof. José Ferreira Portella Netto, honrado cidadão e grande profissional. Os três últimos romances indicados fizeram o tempo voltar quando vi São Bernardo, de Graciliano Ramos; As Três Marias, de Rachel de Queiroz e Iracema, de José de Alencar. Não só porque li os livros, evidentemente. Tenho uma preservada segunda edição (1938) de São Bernardo. D’As Três Marias tenho primeira, segunda, terceira edições e outras clássicas. De Iracema não tenho primeiras edições, mas, possuo muitas comemorativas. 

    “Iracema” é o sexto romance de José de Alencar (1865), de cunho indianista é precedido por Guarany (1857) e sucedido por Ubirajara (1874). Ler Iracema, vez por outra adquiro uma nova edição saída de modo especial ou que seja edição com número fechado (100ª de tal editora etc.), dá uma saudade da infância e da curiosidade de conhecer o grande cenário da primeira parte de Iracema, Ipu. Ali está o véu de noiva e parece que até ouvimos suas passadas naquelas matas. Depois, crescido, encontrei seu segundo cenário, a praia de Iracema, onde ela aguarda Martin, com Moacir que alguns etimologistas definem como “filho da dor”, o primeiro brasileiro miscigenado, conforme a lenda. Alencar é o fundador do romance nacional. 

    Quanto ao “As Três Marias” penso até que me faço suspeito em falar. O cenário do livro é o “viveiro adorado”, Colégio da Imaculada Conceição de Fortaleza. Lendo o início do romance, ainda hoje, tenho a impressão de que estou ingressando no Colégio. Maria Augusta (Guta), era a própria autora, Rachel. Maria da Glória é Odorina que se casou e foi residir no Cariri. Maria José é Alba, amiga querida de Rachel que faleceu no acidente aéreo em que também morreu Castelo Branco. Podemos dizer que “As Três Marias” é romance-autobiográfico, não autobiografia, pois, em sua genialidade, a autora deu novas faces a personagens e espaços desenvolvidos na trama. O livro é de 1939. Rachel, com menos de 30 anos, já é escritora conhecida em todo o País, pelo sucesso da clássica obra prima “O Quinze” (1930). Ela viveu quase 93 anos e afirmou a mim uma vez: “Vivi muito. Sofri muito e tomei pouco juízo”. A escritora recebeu título de doutora honoris causa da UVA. É uma das mulheres mais importantes do século XX, a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, possuidora de rara inteligência e franqueza. Apontei-me suspeito porque sou afilhado, biógrafo e tive a honra de ser seu amigo. No Imaculada conheci a “Santa” Irmã Elisabeth Silveira e a querida Profa. Norma Soares que teve importante participação na UVA. A obra já foi destaque no vestibular anterior.

   Mas, a curiosidade maior para mim entre os três autores é que Graciliano era amigo de Rachel e a escritora foi responsável por salvar “Angústia”, escrito em 1936, que Graciliano queria jogar no lixo. Enredo para uma outra conversa por conta do espaço. Alencar era neto da heroína Bárbara de Alencar e Bárbara também é quinta-avó de Rachel. Nestes três livros temos Rachel amiga de um e prima de outro. Salve Rachel!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

 

07 janeiro 2021

Cartas de uma aldeia global - Por: Emerson Monteiro


Era a década de 70 do século passado quando Marshall Mcluhan, estudioso canadense, escreveria a respeito da Aldeia Global em suas pesquisas a propósito dos meios de comunicação de massa que invadiam o mundo. Nos embates da Guerra do Vietnam, por exemplo, enquanto os jovens americanos lutavam nos campos da Ásia, a defender os interesses dos grupos dominantes do seu país, quase instantaneamente os familiares deles assistiam as cenas brutais pela televisão, por vezes ao vivo. Isso que apressaria, inclusive, o final do trágico conflito, por conta da influência na opinião pública deveras abalada com tanta atrocidade.

Depois os tempos foram passando e cada dia mais a influência dos meios de massa estreita as distâncias entre os povos e as pessoas. Nada acontece antes que não venha ao conhecimento de todos, nas versões manipuladas pelos veículos, sobremodo nesta atualidade, diante da internet e dos celulares, hoje instrumentos obrigatórios. A comunicação instantânea ganhou o status de primeira necessidade. 

Ainda que haja intenção de passar em branco os momentos, somos escravos, pois, dessas maquinetas contemporâneas. Vale mais um comentário do que o próprio acontecimento. Grupos de poder detêm a força das opiniões a partir da opinião que se estabelecer e propagar. Jamais, tal agora, o silêncio deixou de ser a alma do negócio. Resultado, no fringir das informações que circulem sempre vem embutido dominar as massas humanas.

Ignorar passou a ser risco de súbito desaparecimento individual. Ninguém quer mostrar a cara a não ser na pretensão de controlar o outro, pois um mundo secreto já domina o antigo mundo das aparências. Senhores de baraço e cutelo desta fase da História, são eminências pardas dos governos espalhados no Planeta. Daí as tantas versões que circulam soltas e sem dono. Claro que os instrumentos de punição a essa farra deslavada nem de longe possuem força de coibir tantos abusos.

Porém há que continuar existindo a Civilização, sendo agora o desafio supremo dessas indagações. A isto existem inteligência e criatividade desde que no sentido da evolução, de ver pelos olhos do otimismo o que passa a significar a principal atitude na busca dos dias melhores.

(Ilustração: Soldados jogando cartas, de Fernand Léger).

O cartão-de-Natal de Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil

 

À medida em que o Brasil se prepara para as comemorações do segundo centenário da Proclamação de sua Independência por meu tetravô Dom Pedro I, apraz-me contemplar os grandes vultos e os fatos mais importantes da nossa rica história.

Uma conclusão que se impõe a todo aquele que examine a vida e os feitos dos nossos heróis sob luz da Fé Católica é a de que nós, brasileiros, todas as vezes que nos confiamos à proteção da Santíssima Virgem Maria em momentos decisivos, temos sido por Ela favorecidos.
As muitas intervenções extraordinárias da Santa Mãe de Deus em prol do Brasil permitem-nos inferir que a Divina Providência reservou à nossa Pátria um destino glorioso. Uma das mais esplêndidas delas ocorreu durante a Primeira Batalha de Guararapes, decisiva para a expulsão dos holandeses do nosso território.

A maior ameaça à integridade e identidade do Brasil em seus cinco séculos de existência foi indiscutivelmente a ocupação holandesa em Pernambuco na primeira metade do século XVII, ambicioso projeto para um definitivo estabelecimento nas Américas, a “Nova Holanda”. Três esquadras, dezenas de milhares de homens em armas, artesãos de todas as especialidades, almirantes e generais e até mesmo um Príncipe de sangue empenhou a Holanda em tal intento. Mas, se abundaram os recursos materiais, faltou o mais importante para uma conquista definitiva, o dom das gentes. As populações pernambucanas, avessas a essa outra cultura e sobretudo à omnipresente e brutal pressão calvinista, passaram da resistência passiva às ações de guerrilha.

Em 1645, os principais chefes luso-brasileiros firmaram um pacto para a luta organizada contra o invasor: André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira e outros, Henrique Dias e Felipe Camarão – luso-brasileiros, negros, índios, logrando vitória, já naquele ano, na batalha do Monte das Tabocas, e em 1648 e 1649, nas duas decisivas batalhas dos Montes Guararapes. Nas três, travadas em grande inferioridade de condições dos nossos, foi patente o auxílio sobrenatural, registrado que está nos relatos do tempo.

Vale recordar o acontecido em 1648. Era o dia 18 de abril, Domingo de Páscoa, por volta das 11 horas da noite, quando o General Dom Francisco Barreto de Menezes deliberava com João Fernandes Vieira e André Vidal de Negreiros sobre o enfrentamento com o inimigo que se daria no dia seguinte, festividade de Nossa Senhora dos Prazeres. Ciente de que dispunha de apenas 2.200 homens para enfrentar 7.400 do invasor, Dom Francisco, dirigindo-se a seus companheiros, disse-lhes: “Quero declarar-lhes que me lembro de nestes lugares erigir um templo à Virgem Nossa Senhora dos Prazeres se Ela, por sua poderosíssima intercessão, nos alcançar do Senhor das vitórias mais esta. Uma voz interior, uma força irresistível me aconselha que empenhemos a batalha, que a Virgem será conosco e ficaremos vencedores.” No mesmo instante, em meio a um grande estrondo, aparece-lhes uma estrela fulgurante e ouve-se distintamente uma voz que diz: “Dom Francisco, a proteção com que contas te será outorgada! Combate e vencerás!”

No dia seguinte a vitória foi estupenda: 1.200 mortos do lado holandês contra apenas 84 do lado luso-brasileiro, e o poderoso inimigo em retirada.

Nessa data - 19 de abril de 1648 - nascia o Exército Brasileiro e ficava cimentada a unidade nacional!
O voto foi cumprido, e erguida foi no local da batalha a majestosa Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes, que lá permanece até os nossos dias como testemunho da miraculosa intervenção da Santa Mãe de Deus em favor do Brasil. 

Neste Natal, diante da Santíssima Virgem no presépio, lembremo-nos de, a exemplo de Dom Francisco, pedir-lhe que interceda junto ao Divino Infante mais uma vez em favor de nossa Pátria. Ela, que nunca nos desamparou, certamente nos concederá um Ano Novo repleto de bênçãos.


06 janeiro 2021

O ano era 1500. O dia, 26 de abril

   Naquele longínquo dia e ano foi celebrada a primeira missa no Brasil. Estavam lançadas as bases de um Brasil Cristão... Coincidência, era o Dia de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, cujo afresco milagroso, aparecera há 33 anos antes na cidadezinha medieval italiana de Genazzano, próxima a Roma. Nossa Senhora do Bom Conselho, há 521 anos já tinha seus desígnios sobre nosso país continental. O pensador católico Plínio Corrêa de Oliveira definiu bem esse fato histórico:

“Implantando a primeira cruz, erguendo o primeiro altar, rezando a primeira Missa, e congregando, no ato sagrado, portugueses e índios, Frei Henrique de Coimbra lançava as bases do Brasil cristão. Vencendo os obstáculos opostos pela natureza bravia, pelas distâncias imensas, pelas agressões externas como pelos entrechoques internos, o Brasil vem crescendo num ritmo seguro e vencedor. É o êxito da Fé, implantada pelo fervor dos missionários e servida pela intrepidez dos bandeirantes e dos guerreiros, como pela inteligência de seu povo e as mil destrezas, ágeis e sorridentes, do "jeitinho" nacional, que se vai tornando lendário

Mas,
Nestes dias, novo adversário se apresenta, mais possante do que os calvinistas franceses e holandeses de outrora, ou os adversários com os quais pelejamos no Continente, para a defesa de nossas fronteiras e de nossos direitos. E que só com coragem e "jeitinho" não dá para vencer. Pois suas garras, que chegam agora até nós, também já vão envolvendo o orbe. Diante de um adversário maior, as circunstâncias exigem que se levante uma nação capaz de se engrandecer pela própria dramaticidade da conjuntura.

A presente conjuntura mostra quanto vai ganhando terreno entre nós essa penetração alienígena, que não se omitiu de fazer infiltrações em esferas das mais altas da sociedade temporal, e ousou até esgueirar-se no Santuário. Diante de nós abrem-se vias mais incertas do que as que tiveram de palmilhar missionários e bandeirantes. O Brasil contemporâneo encontrará, nas suas reservas morais, os recursos necessários para vencer esta terrível conjuntura?

Sim!
Mas sob a condição de levantar a Deus a mesma súplica humilde dos seus fundadores, reunidos em torno do primeiro altar: "Senhor, protegei o país que está sendo fundado sob um céu azul e luminoso” rezavam eles. "Senhor, protegei o país que vai crescendo nesta atmosfera carregada de preocupações, de desavenças e ameaças” devemos dizer nós, para nos prepararmos a transpor, cristãmente vencedores, o grande limiar do terceiro milênio do Salvador”.



05 janeiro 2021

Noites de ontem - Por: Emerson Monteiro


O tempo psicológico não corresponde ao tempo matemático. José Saramago

São lembranças de outras horas que agora vazam do passado e chegam devagar à consciência, refazendo momentos vários lá de antes, de quando havia doces augúrios de esperança no horizonte dos dias. A gente era apressado em querer conhecer de tudo que fosse. Eram músicas, livros, jornais, filmes de diretor, as histórias das ruas, as praças... Olhos fixos em mil possibilidades, líamos Jorge Amado, Érico Veríssimo, Ernest Hemingway, Sartre, Camus, Exupéry... Ouvíamos João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, Roberto Carlos, Chico Buarque, Gonzaguinha... Assistíamos Bergman, Visconti, Godard, Truffaut, Buñuel, Kurosawa, Antonioni, Glauber Rocha, Fellini, Pasolini... 

Andávamos acesos aos jornais alternativos, O Pasquim, Movimento, Jornal de Amenidades... E O Bondinho, a revista padrão dos amantes de ideias e novidades. Enquanto fixávamos ponto nos bares, nos pés-de-serra molhados, nas tertúlias e matinais dos clubes da cidade, quais zumbis, sonhávamos acordados, uma espécie de videntes dos becos escuros e das noitadas de fumo, namoro e viagens siderais... 

Quantas e tantas vezes tocamos as mesmas teclas de ilusões que seriam dosadas pelas ressacas e desespero do dia seguinte, angústias em forma de gente; cabeludos, barbudos, sonhadores, precursores do rock, das legendas de ficção, adoradores dos Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Janis Joplin, Bob Marley, Ravi Shankar... Isto bem no auge dos anos 60, segunda metade. As reações de liberdade dos países da Cortina de Ferro, a Guerra do Vietnam, Maio de Paris, a Primavera de Praga, Festival de Woodstock, os hippies, as viagens pelo mundo, vadios das ausências de uma época romântica que resultaria em tudo isso que aí está, nestas décadas posteriores até aqui.

Logo chegaríamos ao misticismo de O Despertar dos Mágicos, livro emblemático dessa geração aturdida pelos meios de comunicação de massa. Depois sumiríamos uns dos outros, espalhados pelas cidades grandes à procura da sorte, repositórios de saudades. Então vieram as religiões, as profissões, os empregos, as famílias, o ancião do Tempo em movimento, a largar no vento aquelas relíquias valiosas de tudo então que vivemos com tanto carinho e tamanha intensidade, tangidos no barco dos sonhos.

(Ilustração: Festival de Woodstock).



“Se a monarquia é um sonho, a república que temos é um pesadelo”

 

    Não custa repetir a íntegra desta afirmação, do historiador Armando Alexandre dos Santos (escreveu e publicou 64 livros), professor da Universidade Sul Catarinense: “Na verdade, a monarquia, longe de ser uma forma de governo arcaica e ultrapassada é moderníssima e de grande maleabilidade. Muitos a criticam por puro preconceito ou por desconhecimento, mas ela é, a meu ver, um caminho viável para o Brasil atual. Pode parecer um sonho, mas, como escreveu Fernando Pessoa, “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”. Por outro lado, se a monarquia parece um sonho, a república que temos, sem dúvida, é um pesadelo”.

   Verdade. À época do Império do Brasil, mais precisamente no reinado de Imperador Dom Pedro II, tivemos um longo tempo de estabilidade política e progresso em todas as áreas da sociedade. O velho Imperador foi o responsável pelo nosso vertiginoso desenvolvimento. O Brasil recebeu os avanços tecnológicos que surgiram nos EUA e na Europa. Ademais, deve-se a nossa Família Imperial a extinção da maior injustiça que havia no Brasil: a escravidão do negro. 

   No Parlamento tínhamos estadistas, ou seja, políticos que atuavam acima dos interesses partidários e dos próprios interesses pessoais. Sobre este tema, Rui Barbosa, que segundo alguns historiadores teria se arrependido profundamente do golpe republicano, escreveu:  "O Parlamento do Império era uma escola de estadistas, o Congresso da República transformou-se em uma praça de negócios." (Rui Barbosa)

    Pedro II foi o maior estadista de nosso país. São inúmeros os exemplos onde ele coloca os interesses da nação à frente de seus próprios interesses e dos interesses da elite brasileira de então.


04 janeiro 2021

Harmonia do Universo - Por: Emerson Monteiro


Isto de reagir face às situações, sejam elas quais sejam, fica por conta só do indivíduo. Já o agir, por sua vez, este vem limitado a circunstâncias. Por mais que não desejemos, vivemos o exercício de restrições iniciais durante todo tempo. Nascemos previstos ao espaço e ao tempo, temperatura, pressão, dotados de especificações diversas; raça, nacionalidade, gênero, etc.; e em determinado grupo social. Porém, há que aceitar, devido normas de consciência, pôr em prática esse protótipo do que somos dotados. Temos de entrar em cena e existir pela determinação de ser.

Para Jean-Paul Sartre, o homem está condenado a ser livre, no entanto. O conceito sartreano de liberdade deduz que o ser humano constrói sua essência e sua salvação. Assim, mesmo restrito ao ato de agir diante das determinações originais, lhe cabe agora reagir ao universo existencial que o compõe. Aparentemente simples tal conceito, o que, contudo, requer valores da consciência de viver perante a presença inevitável da liberdade. Isto seja a capacidade humana de reagir, e formular o modo essencial de ver e viver o mundo.

Por isso, livres o somos. O que fazer da liberdade, eis o sentido último de existir. Qual veja o mundo na sua ótica. Quais as minhas escolhas de exercitar viver. Até onde possuo força suficiente a reagir diante das circunstâncias e qualificar a minha liberdade indeclinável?

Partes deste universo em que existimos, resta aos indivíduos a função de harmonizar consciência e circunstâncias; plenificar a liberdade; e desvendar o mistério de todo caminho que caminhar, instrumentos do próprio despertar rumo à finalidade do destino.

Detemos com isto a perspectiva de transformar nossas primeiras condições e qualificar a sociedade, porquanto significamos as veias determinantes dos acontecimentos. Disso haveremos de ser avaliados no decorrer dos momentos eternos, segundo as religiões, e jamais seremos partes isoladas do grande todo da Natureza, razão de tudo aquilo que viemos encontrar, a nossa chance de sermos livres com a responsabilidade pela existência.

(Ilustração: A liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix).