26 novembro 2020

Jamais se esqueça de si - Por: Emerson Monteiro


De tudo quanto importa, na verdade, eis o que durante todo tempo ouviremos na voz da Consciência em nosso interior. Pouco importa fatores e circunstâncias, venceremos o espaço estreito aonde viemos, porquanto contamos com toda a força do Universo. Alimentemos a vontade de encontrar os lugares do Amor em nossos sentimentos. Busquemos, intensos, a libertação dos limites desse chão em movimento constante. 

O de que melhor já existe face aos mistérios vibra em nossas almas. Acreditar nisto vale por todas as riquezas deste mundo. A fonte da vida que nos permitirá abrir as portas do tesouro que já o somos e que mora dentro de cada ser, conquanto necessidade maior persiste nos instrumentos naturais a que pertencemos desde sempre. 

Nisso a vontade viva rumo da felicidade completa e inextinguível que cabe aos passos de cada um nas estradas pelas quais ora desenvolvemos os dias da nossa própria história, criaturas perfeitas que precisam apenas se reconhecer. Ao nível de nossas mãos, o tempo oferece o condão da esperança; daí querer significa a base das lições que aqui viemos buscar. Ainda que nalgumas vezes dificuldades ofereçam desafios imensos, nessas ocasiões resta sacudir os fardos desnecessários e vencer o território estreito da matéria, pois somos espíritos imortais, senhores de todos os tesouros que transportamos em nossas almas. 

Quantas oportunidades habitam em todo momento ao dispor das criaturas humanas. Recolhamos, assim, as raízes de nossa salvação da essência do que possuímos em nosso interior. Há uma fonte viva de luz, paz e transformação no íntimo dos nossos corações. O testemunho dessa conquista virá de nós, mensageiros da revelação superior. Acreditemos, sobremodo, na imensa possibilidade que permeia fulgurante os segredos da criação. Vivamos, por isso, a construção dos mundos infinitos de que também somos seus autores e viventes.

(Ilustração: Vladimir Kush).

Intercessão valiosa - Por: Emerson Monteiro


Das inúmeras ocorrências verificadas no decurso da Confederação do Equador, no Ceará, idos de 1824, episódio impressionante narrou Esperidião de Queiroz Lima, no livro Tempos heroicos, o que transmitimos aos que ainda não leram a publicação.

Trata-se da execução de um dos sentenciados pelo tribunal militar conhecido por Comissão Matuta, no mês de outubro daquele ano, instalado para punir as hostes rebeldes. Julgados e condenados, cinco líderes republicanos seriam fuzilados no pátio da Cadeia Pública de Icó. Um desses, Antônio de Oliveira Pluma, autodenominado Pau Brasil, conforme sua assinatura no manifesto do movimento, insatisfeito com o resultado a que se via submetido, reagiu em altos brados, protestando misericórdia de quem ali se achava.

Recusara mesmo permanecer de pé, mas, sendo assim, forçaram-no em cordas a se sentar numa cadeira, onde, com olhos vendados, ainda pedia que o deixassem viver.

De nada lhe valeram as rogativas, pois logo em seguida o pelotão recebeu a ordem de preparação:

- Apontar!

E, ante os disparos iminentes, o pânico pareceu querer tomar a alma do condenado em face da morte inevitável, sob o monto de todo o idealismo que até ali dominara os atos de sua razão da existência. Outra vez, um gesto cresceu de sua voz, explodindo mais alto em reclamações de amparo, lançadas aos planos superiores:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

Nisto foi secundado pelo toque de comando: - Fogo!

Cessada a fumaceira, as balas achavam-se cravadas no muro onde o revolucionário permanecera incólume, sacudindo de espanto os presentes. Seguiu-se nova carga de munição. Restabeleceu-se a ordem preparatória, e se fez no ar outro grito de socorro:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

- Fogo! - comandou a ordem marcial.

Resultado: o alvo manteve-se intacto. Os tiros voltaram a ferir tão só e apenas o muro, para desânimo da escolta. Em meio do inesperado, tonto, pálido, o comandante reclamava prática melhor de tiro a seus homens, visando manter os praças no cumprimento do dever, tratando de retomar as determinações da próxima tentativa, que foi precedida pelo mesmo grito do condenado, tão pungente quando sincero:

- Valei-me, Senhor do Bonfim!

Os disparos se deram, de acordo com a obediência. Desta vez Pluma fora atingido por algumas balas, mas continuava vivo, segundo narra em seu livro Queiroz Lima.

Soldados de pronto se movimentavam para um quarto fogo. Nesse instante, a população presente, tocada de simpatia pelo confederado, se ergueu coesa e exigiu o direito do réu ser libertado, qual merecesse o valimento dos céus. Em seguida, essas pessoas levaram-no consigo, alheado e preso à cadeira do martírio, até à Igreja do Senhor do Bonfim, distante cerca de 200m do ponto onde a cena ocorrera, entre preces e benditos fervorosos.

Há registros do ano de 184l que dão conta de que o sobrevivente veio a ser titular da Promotoria Pública da comarca de Baturité, no Ceará, o que bem comprova sua resistência aos ferimentos naquele dia recebidos, na tentativa de execução de que fora objeto e sobrevivera, no município de Icó, dezessete anos depois.           

(Ilustração: Os fuzilamentos de 03 de maio, de Goya).

Padre Frederico - Por: Emerson Monteiro


Quem viveu em Crato nos anos 50 e 60 com certeza conheceu o padre Frederico Nierhoff, sacerdote responsável durante décadas pela paróquia de São Vicente Ferrer, na zona central da cidade. Dotado de espírito empreendedor, fez a reforma da igreja e ampliou o salão paroquial, além de instalar projeto comunitário rural no distrito de Ponta da Serra, na localidade denominada Mata, iniciativa de larga envergadura, deixando marcas profundas de sua liderança religiosa em todo o município.

Pois bem, sobre a personalidade forte do Padre Frederico algumas vivências ficaram registradas na memória do povo cratense. A sinceridade e o senso de humor lhe caracterizavam as atitudes. Homenzarrão de quase dois metros de altura, vozeirão, sotaque a lhe denunciar a origem; natural da Alemanha, viera ao Brasil na época da Segunda Guerra para atuar junto de outros compatriotas que fundaram o Seminário Sagrada Família, situado no sítio Recreio, imediações da zona urbana, prédio depois destinado às instalações do Hospital Manoel de Abreu e agora adquirido pelo governo do Estado para instalar um Centro Cultural. 

Dentre as suas histórias mais pitorescas se pode anotar o caso de um matrimônio da gente dos matos que veio de celebrar. No instante das partes aceitarem o definitivo do compromisso conjugal, a noiva saiu-se com inesperada recusa. Desfizeram com isso o cerimonial que só voltaria a acontecer passado algum tempo.

Da segunda vez, as peças se inverteram. Nessa ocasião quem negou a dizer sim foi o noivo, motivando outro constrangimento às famílias, aos convidados e celebrante. 

Até a terceira data, as coisas demoraram um tanto mais de tempo, porém mesmo assim verificando-se dentro da menos provável expectativa.

Todos a postos, silêncio apreensivo no ápice do ritual. Feitas as clássicas perguntas, suspiro de alívio percorreu o ambiente quando os dois responderem favoravelmente à pergunta do sacerdote. No entanto algo ainda faltava de suceder.

- Pois hoje quem não aceita sou eu - contra-atacou o vigário. - Vão embora que eu não celebro mais esse casamento encruado.