25 novembro 2020

O ferreiro de Barcelona - Por: Emerson Monteiro


As trevas da Inquisição cobriam a Europa de mártires e de terror. A Idade Média anulava os anseios religiosos da grande população, através de cruel intolerância solapando liberdades civis qual fosse uma peste sulfurosa. Durante o século XIII, cometeram-se ignomínias e atrocidades, aplicando penas que iam do confisco dos bens a execuções sumárias, torturas e outros castigos inimagináveis.

No auge de tudo isso, existia na cidade espanhola de Barcelona um ferreiro afamado que ganhara a preferência dos executores das penas no mister de confeccionar requintados instrumentos adotados pela repressão impiedosa. Suas algemas mereciam respeito face ao primoroso zelo com que as manufaturava, sem existir quem lhe pudesse superar na qualidade. Cumpria de sobra com as encomendas apresentadas. De suas produções jamais alguém conseguia escapar. Um profissional e tanto o ferreiro daquelas peças de trancar perseguidos da oligarquia que avassalava as consciências desse período trágico, no combate das idéias renovadoras e escarmento de tantas vítimas.

Pois bem, esse homem se orgulhava de que ninguém era capaz de se livrar das suas tenazes; ninguém, que fosse, chegava a fugir quando preso com os ferozes mecanismos.

O tempo, justo e sobranceiro, porém, guarda surpresas na aparente monotonia dos gestos humanos. 

Dias e noites passavam céleres, até que durante uma festa de insistentes brindes, perante vasta multidão, o ferreiro, animado além do tanto nos assuntos do vinho, excedeu-se nas palavras, deixando transpirar segredos inconfessáveis, aos quais chegara por via do prestígio adquirido junto às cúpulas do Santo Ofício. Na carraspana, inconfidenciara notícias que determinariam o seu próximo destino.

Coisa pior não lhe poderia acontecer. Caía desse jeito nas garras do mesmo tribunal a quem servira. A 

equipe dos doentes espirituais, por meio de julgamento improvisado, cuidou da sua condenação, ficando desfeita a velha aliança.

Após o pesadelo das primeiras horas, ele despertava desnudo em solo úmido de masmorra infecta. Colado a pedras ásperas, sentiu nos pulsos crivos frios de metais enegrecidos. Entre dormido e acordado, buscou esperanças no manuseio do mecanismo que o retinha de encontro à tosca parede da prisão.  

Recobrara os sentidos para perceber, qual não foi a surpresa, que se via atravancado nos pulsos e tornozelos por dois pares de grilhões que produzira na véspera da comemoração onde fora se meter, perdendo o domínio e sentenciando o merecimento da justiça torpe dos que antes auxiliara.