29 outubro 2020

O que as palavras jamais dirão - Por: Emerson Monteiro


Bem que a vontade humana deseja, durante todo tempo, dominar o impossível. Na ânsia de afirmar o sonho e regressar às origens até então desconhecidas do existir, pululam neste mundo suas almas vazias na busca de revelar o mistério que habita o mais profundo silêncio. Aspiram invadir os domínios da solidão e contar, em longas falas, o conhecimento guardado debaixo das sete capas, nas cavernas do destino. Tocar as dobras do Infinito e trazer de volta os dias que aqui passam sem que deixar marcas reveladas, porquanto apenas deslizam feitos lesmas no rochedo das horas mortas.

Quantos sois sumiram lá no horizonte após iluminar perdidas aventuras de um palco de dores e amargas ilusões... Quantas saudades largadas às noites fantasmagóricas na forma dos reajustes inevitáveis... Nisso, apenas vastos desertos preenchem becos de angústias, enquanto o tempo senhor de si revolve as velhas feridas acumuladas no armazém das vaidades.

Assim, face o tropel dos instantes sucessivos, inesgotáveis, olhos buscam aflitos respostas pelo raciocínio e saqueiam o mercado das palavras ao impulso de acalmar corações magoados. Elaboram nas frases romances, poemas, tratados, relatórios, no senso de anotar o que, decerto, se perderia pelo espaço do inexistente. Tão intocável qual tapetes feitos de nuvens, tudo percorre o vento e desaparece no abismo, tangido pelos monges que conduzem a barca dos amores ausentes.

A enfieira dos seres viventes aceita, pois, obedecer, ainda que ignorando a finalidade que presencia fugir-lhes pelas mãos na forma de luzes em movimento, filmes da aparente realidade. Veem, e só, nenhuma alternativa senão fluir junto no firmamento, e gritam verdades, calam todas as dúvidas que por ventura pudessem alimentar, porque simplesmente lhes desfazem as próprias formas, rochas em decomposição, entes que não dominam nem a forma que os compõe. 

Nisso, restam pensamentos e sentimentos que acumularam nas palavras tentativas frustradas de compreender o incompreensível, os risos harmoniosos do silêncio que envolve de sombras o manto colorido de enigmas inaudíveis...