17 outubro 2020

O tempo – José Luís Lira (*)

   Em tempos de notícias falsas, fica difícil compartilhar notícias que circulam aqui e alhures. Por esses dias uma notícia acerca do grande poeta Mário Quintana, o poetinha. Se por um lado falei em notícia falsa, prefiro o português ao inglês. Todos sabem o inglês aplicado ao termo. Todavia, o autor do texto em questão disse que romanceou a história e vejam o que dá quando o poeta é parte da tão usada licença poética.

    O texto narra um episódio na vida de Quintana quando ela muda do hotel em que morava e foi convidado pelo jogador Falcão (Paulo Roberto Falcão) oferece hospedagem ao grande Poeta, mas, como dissemos, o texto publicado há alguns anos e viralizado nos últimos dias, o autor usou de certo exagero e comoveu leitores com fatos que não se deram. Há, inclusive, erro no nome do hotel que Quintana morava. De logo a Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), sediada no prédio do Hotel Majestic, em Porto Alegre (RS), onde o Poeta residiu por longos anos esclareceu os fatos e a verdade surgiu, mas, temos que considerar que tais equívocos trouxeram certo vexame aos fãs de Mário Quintana. Não vou alongar o texto porque não cabe. O autor já pediu desculpas. Os parentes do poeta disseram e confirmaram que tal situação não ocorreu e aqui não vou repeti-la. Apenas lembra e vejo a necessidade de termos cautela ao passar adiante essas informações que por aí circulam.

    O título dessa coluna é de um poema de Quintana (não retirei de um livro, embora tenha sua obra completa, ela não se encontra comigo no momento, mas, é dele). E nestes tempos em que a realidade e a ficção andam tão próximos, vale apena refletir as palavras de Quintana.
 

“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
 Quando se vê, já são seis horas!
 Quando se vê, já é sexta-feira!
 Quando se vê, já é natal...
 Quando se vê, já terminou o ano...
 Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
 Quando se vê passaram 50 anos!
 Agora é tarde demais para ser reprovado...
 Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
 Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...”.

 
    Quintana fala em sua época, mas, o poema pode, perfeitamente, ser lido e observado na atualidade. Já estamos em outubro num ano que parece que nem começou por conta da pandemia, mas, lembrando outro poeta, Cazuza, numa de suas canções, o tempo não para. E nós temos que dar nossa parcela de contribuição para que, mesmo na adversidade, tenha valido a pena viver.

     Aproveito o ensejo para agradecer as inúmeras mensagens que recebi pelo dia do Professor. Ensinar e aprender é uma das mais belas artes e neste ano nós, professores, estamos nos reinventando. Não gosto muito de rótulos, mas, essa é a realidade que vivemos não só não no Brasil, mas, em todo o mundo. E mesmo com perdas, com dificuldades e uma série de outras coisas, ainda podemos sorrir e confiar em tempos melhores, pois, a esperança nos acompanha e Deus não nos desamparará.

    E reiterando, cuidado ao compartilhar algo. Verifique se é verdade, busque fontes e, se houver dúvidas, não passe à frente. Isto é bom para todos e nestes tempos eleitorais, excelente para a democracia.  

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.