08 outubro 2020

Esses pobres amantes - Por: Emerson Monteiro

 


Desde as pompas preparatórias, danças lotavam de nobres os salões iluminados e deslizantes casais. Os dois, a lady e o príncipe, semelhavam pássaros alegres, reflexos dos olhares longos de damas e cavalheiros, imagem milenar das monarquias, saracoteando sedas no efusivo ambiente. 

Puro sonho, festa de casamento que durou três dias. Ela chegara à real família pelo amor romântico tecido nas teias da candura. Nobre, linda, porém fruto de linhagem paralela onde a fidalguia concedera-lhe o sétimo céu de ser princesa no reino da Inglaterra.

Essas emocionadas fases, conquanto depois contraditórias, cobravam da família detalhes essenciais à preservação das condições iniciais. Diana Spencer existiu para o marido, seus dotes e filhos herdeiros. Repetidas vezes, quis se arremeter de encontro ao destino que lhe tirara da história plebeia, largado-a no paço. Entretanto reservara-se discreta no silêncio das alamedas, submissa ao cerimonial, das viagens de ofício e compromissos outros.

Fluíram longos dez, doze, quinze anos de regularidade protocolar.

Numa bela manhã de primavera, na discreta cavalariça, próxima de James Hewitt, oficial instrutor dos príncipes, viu o que lhe fez recordar os livros infantis, as histórias de encanto, no reservado coração adormecido.

Dispararam em si tontas emoções retidas pelo contrato nupcial das máscaras oficiais. O castelo hostil veio no seu encalço. Saber disso jamais poderia, visto fugir da lei e, estoica, abandonar as calandras escuras do preço que pactuara. 

Nalgum impulso, as carnes rasgaram a tradição do sossego. Apaixonada, a princesa amou quanto necessário, quiçá pela primeira vez. Sentimentos ganharam corpos. Dois amantes pecaram no palácio imperial. Ela jogou ao solo muralhas carcomidas de todas as convenções. Charles também derivou noutras aventuras e o conto de fadas virou crônica galante. Os filhos, sempre eles, pagam o desamor dos pais. 

Separada a união do século XX, feridas abertas aos tabloides sensacionalistas, repercutiram escândalo e dramas particulares, na roupa suja lavada nas praças. Viajou pelos países, a servir de emissária que tutela os exilados desse mundo torto. África. Ásia. América.  

Uma noite a todos de novo surpreende. Em 31 de agosto de 1997, em Paris, morre Diana junto de outro namorado, após baterem com o carro nas estruturas urbanas da capital francesa. 

Cinco anos do desaparecimento, jornal inglês traz a notícia de que o ex-amante da princesa fixou preço para suas cartas de amor. O diário londrino News of the World, na edição de 15 de dezembro de 2002, disse que o oficial James Hewitt buscou vender pelo valor de 10 milhões de libras (US$ 15,6 milhões) a correspondência amorosa. Esta é a primeira vez que um membro da família real escreve a um soldado que está no front, disse Hewitt, que recebeu as cartas de Diana durante a Guerra do Golfo, ao servir no Kuwait. Isso num besto desvairado de quem acolheu o amor imperial e perdeu a licença possível que houvesse para os amantes verdadeiros nos tribunais da Eternidade.


As chances dos turnos eleitorais - Por: Emerson Monteiro


No aspecto clássico, a palavra política fica vinculada ao Estado e sua administração, isto, porém, numa tendência prática de ver política apenas como o exercício frio do poder. Qual disse Platão que a perfeição só existe no mundo das ideias, mesmo assim há que imaginar uma atitude humana mais inteligente diante dos problemas que afligem o mundo e as sociedades, daí a intenção de encontrar soluções justas dos problemas e definir padrões comuns de responder aos desafios.

Nisso, o que resta às populações, no sentido de rever o encaminhamento do sistema social, diz que a política deve ser um instrumento de considerar as dificuldades coletivas e descobrir métodos de funcionamento adequados à harmoniosa existência das pessoas.

Tal esforço demanda praticamente toda a história conhecida. Demasiadas oportunidades vêm tendo a raça no sentido de responder aos impasses dos tempos, contudo sempre a braços com limitações do imediatismo, em face do nível moral em que ainda nos achamos, quando o egoísmo domina pela força bruta e insiste continuar no poder mesmo a troco dos sonhos de paz e progresso, o que bem caracterizaria o ideal da perfeição.

Existem personalidades marcantes na História que lideraram profundas mudanças no comportamento das coletividades e ocasionaram o grau evolutivo em que ora nos achamos, no entanto tais exemplos só de longe são seguidos pela massa, a ponto de só verem a política qual trampolim de dominação, independente que quaisquer virtudes e nobrezas. O sonho clássico da política, hoje, no mundo inteiro, com raríssimas exceções, representa o instinto do domínio escravocrata de constranger os demais a pretexto de angariar recursos e marcar a divisão das classes sociais, em que o forte domina e impõe seus costumes perversos.

Eis o quadro real dos dias, onde a lei da selva como que ganhou conceito de inevitável, feras na luta de sobreviver a todo custo, não importa o idealismo e a Verdade. Na faixa estreita da liberdade que herdamos de enfrentar a ganância dos profissionais da política cabe a todos acreditar nos valores nobres e prosseguir fieis às lições da Ética durante todo tempo.

Ilustração: Detalhe de Jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch.