02 outubro 2020

Um mundo se refaz a todo momento - Por: Emerson Monteiro


A cena final do filme Ran, de Akira Kurosawa, genial diretor do cinema japonês, mostra dois exércitos feudais em confronto numa planície linda, de verde intenso e luzes fulgurantes. Nisso, o plano de próximo vai distanciando para o alto afastando daquela batalha derradeira dos dois clãs em luta, ficando cada vez maior o plano e menores as imagens... até desaparecer numa única visão planetária, minúscula, e sumir de tudo. Quando, certa vez, perguntado o que representaria essa conclusão do filme, Kurosawa considerou ser o que imaginava a visão de Deus quanto aos acontecimentos daqui do chão, dos movimentos de causas e condições, fluir universal das consequências que somem no vazio cósmico.

Esta diluição dos instantes se sobrepondo a novos instantes que vêm e vão, céleres quais vieram, bem significa o que denominamos realidade, sem sustentação definitiva, sem praias de respiração. Apenas um escorrer de tintas nas telas do Infinito, ensaios de um artista magistral, incansavelmente, repetitivamente. Espécie de rascunhos de sonhos que desfazem ao vento das horas mortas, as ânsias humanas gestam o firmamento e somem de junto, autores da própria função, no entanto ausências de resultados, desparecimentos, desejos e velas acesas apenas repastos feitos ao nada inevitável dos dramas.

Nesse intervalo entre dois fragmentos de tempo ali moramos todos, nutrição de eternidade que nunca ultrapassa a visão imediata, eixo central das horas em movimento no carrossel bravio das circunstâncias. Assim contemplamos o definitivo, porém almas largadas aos caprichos da mutação permanente de coisas e seres entre partos e sepulcros, fantasmas nas madrugadas anônimas dos séculos em decomposição.

Há, outrossim, lógica em tudo. Esse roteiro das descobertas face ao mistério das existências, lesmas de rochedos monumentais e oceanos indóceis, o segredo de todos os códigos representa a razão essencial de andar pela História feitos animais esquecidos de contos maravilhosos. Neste trotar de pernas no deserto da solidão, somos heróis das lendas que viveremos lá um dia nos trilhos da Esperança e da Paz. 


Os santos em nossos dias – por José Luís Lira (*)

 

São Francisco

      Em 3 de outubro, no longínquo ano de 1226, acontecia o trânsito da terra para o céu, a morte, de São Francisco de Assis, Giovanni di Pietro di Bernardone, simplesmente Francesco. Ele foi uma dessas figuras que se fazem únicas. De jovem rico e aventureiro como qualquer um outro, cavaleiro, Francisco abandona tudo e opta por uma pobreza completa, após ouvir o chamado do Senhor: “Francisco, reconstrói a minha Igreja”. E o santo mudou a Igreja. Seus irmãos ainda hoje são presença na Santa Madre Igreja Católica e os franciscanos são campeões em número de Santos. A ele, símbolo de perfeição, neste dia 4 é dia celebração, dia que, em tempos normais, estaríamos em Canindé, a mais franciscana das cidades do Brasil, ou no Santuário de São Francisco aqui em Sobral ou paróquias em toda a parte, mas, sem a preocupação que temos hoje. Mas, isso passará, e pedimos a São Francisco rogar a Deus pelo fim da pandemia.

    Carlo Acutis, que será beatificado no próximo dia 10

    E foi de Assis, de Francisco e Clara, que na data da celebração de Santa Teresinha, a flor mais bela do Carmelo, que veio a imagem bela da santidade em nossos dias. O corpo do jovem Carlo Acutis, italiano, falecido aos 15 anos, em 12 de outubro de 2006, jovem como tantos jovens de sua idade que presenciou as tecnologias, conhecia muito bem a Internet e gostava de desenvolver programas educativos em computadores, brincou, foi feliz e em suas próprias palavras, fez da Eucaristia sua autoestrada para o céu. Acometido de leucemia, ao ser internado em hospital, disse aos pais: “Ofereço os sofrimentos que deverei sofrer ao Senhor, pelo Papa e pela Igreja, para não ir ao Purgatório e ir direto ao céu”. E nos sofrimentos, procurava minimizar. “Há pessoas que sofrem muito mais do que eu", respondia às enfermeiras e recomendava: "não acorde a mãe que está cansada e se preocuparia mais”.


    Na doença, lembra o brasileiro Marcelo Câmara, Marcelinho, que viveu mais que Carlo, mas, que tinha valores e sofrimentos tão parecidos. O milagre aprovado para sua beatificação, ocorrido no Brasil, é o reconhecimento dos céus à sua santidade e o corpo preservado é testemunho belo. É a primeira vez na história da Igreja que vemos um santo vestido de calça jeans, tênis e moletom. O rosto sereno. Os cabelos. De certo usaram alguma técnica de preservação para a exposição, mas, está uma perfeição. Ele foi sepultado no Cemitério de Assis há 14 anos. Tecnicamente nada teria além de ossos, mas, ele foi preservado. Seu corpo está exposto no Santuário do Despojamento, em Assis, Itália, onde, próximo dia 10 acontecerá a cerimônia de beatificação, na Basílica superior de São Francisco. Grande emoção e alegria! Deus continua a abençoar-nos com pessoas santas!


     Nestes dias, celebramos Santa Teresinha, dia 1º, embora a santa-doutora que teceu um caminho da infância espiritual, em seu belo “História de uma Alma”, tenha falecido em 30 de setembro, celebração de São Jerônimo, santo e doutor da Igreja, tradutor da Bíblia. 29 de setembro, foi a festa dos Arcanjos, bem como ontem, 02, foi dia do Anjo da Guarda, nosso protetor. E você ainda lembra daquela oraçãozinha que nossas mães nos ensinaram na infância?. Vamos rezá-la: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a Piedade Divina, sempre me rege, guarda, governa e ilumina. Amém.”  
Deo Gratias!

 (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.