28 setembro 2020

Os versos - Por: Emerson Monteiro


Minha infância depois dos cinco anos vivia em casa ampla onde morávamos, na Rua Padre Ibiapina, bairro Pinto Madeira, em Crato, vizinha a serraria de meu pai e de um tio, irmão de minha mãe, Quinco Monteiro. Na área em frente daquele sobrado de dois pavimentos construído pelo dentista Pergentino Silva na década de 40, empilhavam carradas de toros de cedro acinzentados do barro das margens do rio São Francisco, de onde procediam. Daí, demoravam utilizar em portas, janelas e móveis, confeccionadas por exímios marceneiros e carpinteiros.

Meus dois irmãos mais velhos, Everardo e Lydia, frequentavam o grupo escolar no turno da manhã, enquanto eu ficava no período a brincar no terreiro com os meninos da rua, ou vendendo a lenha, que sobrava do sarrafo das madeiras, utilizada em fogões domésticos anteriores aos de gás butano de hoje.

À tarde, seria minha vez de ir à escola, o Grupo Dom Quintino, no mesmo quarteirão, esquina da Rua São Francisco com a Monsenhor Esmeraldo.

No intervalo do trabalho, entre onze e uma hora da tarde, alguns dos operários, que procediam, na maioria, de Juazeiro do Norte, preparavam a refeição em cozinha improvisada num dos cantos da serraria. Alimentados, buscavam lugares mais amenos debaixo dos galpões para ouvir a leitura de folhetos de literatura de cordel que compravam na feira semanal.

Reservavam emoções especiais a esses momentos, mistura de mágica com recantos agradáveis de países distantes, aventuras em viagens fantásticas, batalhas de mouros e cristãos, príncipes, princesas, reinados esplendorosos, animais diferentes, bravatas, desafios, sonhos. Eu, ao meu turno, terminava rápido minha refeição já com endereço certo de ficar junto daquela confraria dos apreciadores atenciosos dos trechos lidos pelos operários. Acabou sendo esse o meu primeiro contato com a literatura. Eles denominavam versos aqueles livretos populares, nome genérico destinado a cada um, sem exceção.

O interesse de menino que demonstrava pelos cordéis me habilitava recolhê-los ao final quando se completava a leitura e reiniciavam a faina do trabalho. Com esses versos formaria bela coleção que guardava na gaveta da mesa principal da nossa casa, lugar mais seguro que encontrara, apenas por mim utilizada e fora da atenção das outras pessoas. Ocorria, raras vezes, no entanto, dos operários pedirem que trouxesse de volta para releitura algum dos volumes.

Passadas décadas, ainda me recordo o título de vários daqueles livretos que conheci na infância: Romance do pavão misterioso, Juvenal e o dragão, A triste partida (que chamavam de O verso da seca, da autoria de Patativa do Assaré), A chegada de Lampião no Inferno, A peleja de Zé Pretinho com o Cego Aderaldo, Aladim e a lâmpada misteriosa, Proezas de João Grilo, História de Roberto do Diabo, História do valente sertanejo Zé Garcia, O prêmio da inocência, A bela adormecida no bosque, A batalha de Oliveiros e Ferrabrás, A força do amor – Alonso e Marina, O soldado jogador, A vida de Cancão de Fogo e seu testamento, A prisão de Oliveiros, A filha do pescador, Os doze pares de França, dentre outros.

O mistério que existe nos livros eu descobri, pois, sua existência nesse tempo, através da literatura de cordel, este mundo encantado da tradição popular.

Curas musicais - Por: Emerson Monteiro

 


Certa vez, na década de 80, encontrei Luiz Gonzaga numa loja de móveis, em Crato, quando pude escutá-lo a falar algumas coisas sobre o poder de curar que tem a música, guardando, dessa ocasião, as duas histórias que agora escrevo.

Transcorriam os anos de ouro da Rádio Nacional do Rio, a cujo cast pertenceram os maiores talentos da música brasileira daquela época, dentre eles se inseria Gonzaga. Aos domingos, havia programa noturno da mais ampla audiência. Numa dessas ocasiões, o nordestino foi procurado por Netinho, trompetista que fazia parte da orquestra da emissora, a lhe dizer que estava com um filho enfermo, vítima de problema grave, o qual a medicina não conseguira diagnosticar. Por ser o garoto fã incondicional do Rei do Baião, queria o pai fazer-lhe uma surpresa e convidava o músico a visitar sua residência. 

De pronto, Luiz aceitou o convite, oferecendo, inclusive, seu automóvel como transporte para, tão logo concluíssem o trabalho noturno, seguirem até o bairro afastado onde residia a família do colega, assim, ocorrendo. 

Chegados à casa, o cantor, munido da famosa sanfona, se dirigiu aos aposentos da criança, que feliz pode ouvir as  músicas de sua preferência interpretadas pelo próprio ídolo.

Quase em seguida, para espanto de quem presenciava a cena, o menino, antes tomado por intensa febre que lhe prendia ao leito, esboçou imediata recuperação e, já na despedida, levantou-se, indo à porta, de todo refeito do mal que se vira acometido.

Ocorrência semelhante também se dera, de acordo com as palavras de Luiz Gonzaga, numa visita que ele e dona Helena fizeram a amigos, na cidade fluminense de Macaé. 

Tratava-se de casal de origem sírio-libanesa, estando o esposo a passar momentos difíceis por causa de doença incurável que lhe roubara o entusiasmo de viver. Informado da ocorrência, pouco antes do show que faria na cidade, Lua decidiu ver o amigo, indo a sua procura, mesmo sabendo que seria mínima a demora, dada a programação prevista. 

Depois de efetivada a deferência, seguiu em busca do compromisso, onde um grande público lotava a praça principal, esperando os acordes inesquecíveis do menestrel.          

Da hora em que saíra da casa do amigo até aquele instante não se passara muito tempo. Achava-se nas primeiras músicas da apresentação, entoava o Baião da Penha, quando percebeu algumas pessoas abrirem caminho no meio da multidão, oferecendo espaço a um automóvel que rumava na direção do palco. Nele vinha, junto da esposa, o dito senhor que Luiz Gonzaga há pouco visitara; aproximando-se, foram alçados ao palanque, onde permaneceram no decorrer da grande festa. Depois disso, conforme o relato daquele que protagonizou o ocorrido, desapareceram de todo e para sempre os sintomas da enfermidade e o amigo pode, sadio, viver ainda muitos anos.