26 setembro 2020

O Santo Vicente – por José Luís Lira (*)

   Na prestigiada revista “O Cruzeiro” que circulava em 24/09/1960, há 60 anos, a escritora Rachel de Queiroz escrevia sobre os trezentos anos do falecimento de São Vicente de Paulo, o santo da caridade, celebrado domingo, dia 27. Depois de tantos anos, a palavra de Rachel de Queiroz que se declarava agnóstica (impossibilidade de dizer com certeza se Deus existe ou não), escreveu uma das mais belas páginas sobre o extraordinário São Vicente de Paulo. A crônica de minha amada madrinha Rachel merecia ser transcrita na íntegra, mas, o espaço aqui não é suficiente então, transcrevo trechos. Com a palavra, a imortal Rachel de Queiroz:

 “...em 27 de setembro de 1660, morria em Paris um ancião. Camponês de nascimento, pastor na sua infância, prisioneiro de piratas e cativo de um alquimista árabe nos seus vinte anos, padre, postulante em Roma, confidente de S. Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, discípulo do Cardeal de Bérulle, preceptor daquele que foi depois o demoníaco e aventureiro Cardeal de Retz, esmoler da Rainha Margot, confessor “in extremis” de Luiz XIII, diretor espiritual de Ana d’Áustria (...), esmoler-geral das galeras do Rei, intermediário de paz nas lutas da Fronda, fundador das congregações dos Lazaristas e das Irmãs de Caridade - chamou-se em vida Vincent-de-Paul. É o nosso São Vicente de Paulo. Mas, nos altares onde subiu, não é representado junto a reis nem rainhas - mas como um padre velho que abriga sob a capa duas crianças desvalidas. Pois o que fez um santo do camponês de-Paul, não foi a convivência dos grandes - foi a sua heroica virtude da caridade...

    Há, na santidade de Vicente de Paulo um elemento que o aproxima especialmente de nós, no nosso século tumultuoso. É a sua condição de ativista, de homem atuante, de operário de Deus, que enfrenta o mal pegando-o pelos chifres, em vez de apenas o exorcizar. Com a sua energia de camponês, o seu bom senso popular, fez da caridade uma tarefa do corpo, além de uma exaltação da alma. S. Vicente é um santo que a gente entende, e, como o entende, ama-o melhor que aos outros, os que sobem às altas esferas da doutrina e do misticismo. S. Vicente, contemporâneo de Richelieu e de Luiz XIV, soube ensinar a um mundo ofuscado por esses dois que foram o alfa e o ômega do Grande Século, que além da grandeza política, além do orgulho nacional, além do poder e da pompa de Rei, existe uma glória maior, mais duradoura: a glória humilde de servir, de enxugar lágrimas e sarar dores.

   Trezentos anos se passaram. De Richelieu e Luiz, o Sol, que resta? Pedras mortas, páginas de livros. Mas a obra de Vicente de Paulo está aí, viva, palpitante, eterna, maior ainda que em vida do santo, multiplicada muitas vezes. Não há lugar perdido no Mundo, na Europa, na Ásia, na África, na América ou na Oceania, que não apareça nos mapas da caridade como parte de uma província Vicentina. Hospitais, orfanatos, escolas, asilos - qualquer forma de caridade elas revestem”.

    Rachel prova aquela imortalidade que o também imortal Victor Hugo, célebre escritor francês, afirmou ao ser eleito para a Academia Francesa de Letras, em 1841, “Verdadeiramente imortais são os santos católicos que quase 2000 anos depois de sua morte ainda recebem culto”.
São Vicente de Paulo, rogai por toda a humanidade!
 
   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.