19 setembro 2020

Como explicar o golpe republicano de 1889? – por Armando Alexandre dos Santos (*)

 

       O movimento monarquista vem encontrando, no Brasil atual, um clima favorável para sua expansão. Multiplicam-se os Círculos Monárquicos, realizam-se em sucessão os Encontros Monárquicos regionais e um número cada vez maior de jovens esperançosos e cheios de futuro acorrem a nossas fileiras. Uma pergunta que muitos deles fazem é como explicar a proclamação da República. Como foi possível que um Império estável e bem sucedido desabasse, de repente, de modo tão espetacular, a ponto de surpreender aos próprios republicanos?

   O declinar do Império acompanhou, passo a passo, o declinar da própria saúde de D. Pedro II, personalidade marcante, profundamente entranhado no imaginário e na mentalidade dos brasileiros. De tal modo ele representava, simbolizava e personificava toda uma ordem de coisas política, social e cultural que, por assim dizer, generalizou-se a ideia de que essa ordem não poderia sobreviver ao velho monarca.

     O que faltou foi uma maior explicitação e conscientização de que o regime monárquico transcende muito a pessoa de um monarca, por mais paradigmático e carismático que ele seja. Faltou uma fundamentação doutrinária que, expressa em termos acessíveis aos homens da época, representasse um “exorcismo” suficientemente poderoso para resistir às tentações e aos cantos de sereia das novidades republicanas. Faltou, igualmente, uma campanha de propaganda inteligente e bem articulada que chamasse a atenção da opinião pública para os grandes predicados pessoais da Princesa Isabel, que sem dúvida estava à altura de conduzir, após a morte de seu pai, os rumos nacionais.

   Com sua formação religiosa e sua fina sensibilidade feminina, ela teria sabido consolidar tudo quanto havia de bom no reinado de D. Pedro II, corrigindo de modo jeitoso os pontos que inegavelmente precisavam ser corrigidos. Ela teria sabido levar o indispensável trabalho de inserção condigna, na sociedade e na vida econômica do Império, dos libertos do cativeiro. Ela teria sabido promover a imigração, a expansão da fronteira rural, o crescimento populacional e, mais tarde, quando chegasse a hora adequada, a industrialização do Brasil – tudo isso de modo temperante, equilibrado e adequado ao modo de ser e à índole do povo brasileiro.

    A própria federalização do País, que já era anseio de muitos monárquicos antes de ser uma reivindicação republicana, e uma mudança no sistema eleitoral (já preconizada pelo próprio D. Pedro II, nas instruções escritas que deixou a sua filha quando esta, pela primeira vez, assumiu a regência do Império), poderiam se ter dado naturalmente. Em suma, com um terceiro reinado isabelino, todas as inevitáveis transformações políticas, econômicas, sociais, culturais, poderiam ter ocorrido numa linha geral de continuidade e sem rupturas traumáticas em relação ao passado.

    Os republicanos pareciam temer o terceiro reinado, que se tivesse ocorrido com esplendor e brilho teria por certo afastado para sempre suas pretensões. Daí se empenharem tanto na campanha sistemática para denegri-la e humilhá-la. Mostravam-na como beata de igreja, ignorante e pouco esclarecida; diziam ser ela influenciada e conduzida pelo Conde d’Eu, ao qual também denegriam de todas as formas. Não houve uma contrapropaganda articulada à altura. Essa foi, a meu ver, a principal razão da proclamação da República. Mas não foi a única. Voltaremos ao assunto.


(*)  Armando Alexandre dos Santos é Licenciado em História e Filosofia,  Doutor em Filosofia  e Letras, membro do Círculo Monárquico Barão de Rezende, de Piracicaba, no Estado de São Paulo, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa de História. Artigo publicado na edição de 29 de agosto do “Jornal de Piracicaba”. Excertos de artigo publicado originalmente no Face Book Pro Monarquia.