08 setembro 2020

Herança - Por: Emerson Monteiro


Nas vastidões geladas do Ártico, em meio a naturais dificuldades, viviam pai e filho, únicos habitantes de cabana modesta, longe dos valores da civilização, num tempo em que pouco se sabia dos atuais degelos, quando se prevê outra glaciação na Terra. 

Era costume do povo do lugar a existência das pessoas restrita à capacidade individual para se sustentar do necessário através da caça e da pesca, sob os rigores do clima abaixo de zero. Após a decrepitude, as famílias agiam com naturalidade depositando nas planuras desérticas idosos ou doentes sem cura, qual cumprissem a lei da sobrevivência. 

Naquela casa, porém, o filho retardava a providência quanto ao pai já em fase que chegava na época do despejo, quando surgia no filho a disposição de constituir família e iniciar outro sistema de vida, restando-lhe apenas se livrar do genitor e liberar a vaga para noiva bela e intransigente.           

Mesmo admitindo aquele procedimento, o filho insistia manter em casa o velho pai, além até dos hábitos de grupo, pois não sabia justificar o que de vantagem propiciavam as tradições do lugar. Ao menos para si, no íntimo, achava certo querer consigo por mais algum tempo quem tanto sacrifício fizera na sua criação e na continuidade do lar.

Os dias prosperavam, no entanto.  A noiva nutria pelo sogro sentimentos agradáveis, os quais, todavia, diminuíam em face do instinto conjugal. Dotada de especial talento, tecera bela manta que pretendia ofertá-la quando da viagem definitiva do idoso aos penhascos gelados, em data sem muita demora, segundo planejado.

Nisso, não tardou a madrugada quando movimentos diferentes sacudiram a humilde choça. O filho atava os cães ao trenó, reuniu alguns poucos trastes, ligeiros mantimentos, e instalara o pai no meio da carga, fazendo-se a caminho. 

Depois de tempestuosa jornada, se viram numa longa planície branca circundada de montanhas sombrias e ameaçadoras. Tão logo o escuro da noite principiou envolver o mundo, cumpriram a parada definitiva. Naquele sítio cinzento, dar-se-ia o desfecho da longa espera. 

Sem trocarem palavras, de cabeça pendida no peito, os dois se olharam pela derradeira vez, num adeus quase primitivo, selvagem, assim podemos dizer. O ancião buscou tirar por menos, desviando-se para fora da trilha, de olhos presos na solidão, exercitando compreender o peso daquela hora. O filho refazia o que restava da bagagem; alimentou os animais e deu mostras de ter cumprido a missão, pronto para retornar. Após sacudir no espaço as dobras do relho com que tangia seus cães, de súbito ainda ouviu a voz do pai a chamá-lo:

- Filho, filho! - gritos ecoaram no vazio gelado e de suas mãos pendia a manta que a nora confeccionara. – Quero isso não, é desnecessário para mim. Prefiro que a conserves contigo e uses quando teu filho vier aqui, um dia, te oferecer ao desconhecido.


Lá onde andam os sentimentos - Por: Emerson Monteiro

 


Nas fibras do imenso coração deste mundo, olhos fixos nos sonhos maiores, as almas de todos os dias ligadas à alma da gente, bem ali, no íntimo das madrugadas febris da percepção, das doces saudades, dos sonhos reais, nas luzes sombrias das ruas desertas, andam os sentimentos encapuzados, alimentados do frio suave da solidão. Terra fértil da esperança, no seio das flores iluminadas de cores e perfume, plumas leves da natureza, passo-ante-passo, pisam o macio os sentimentos, razão das existências, motivo crucial dos dias e das gerações. Eles, que pouco ou quase nada pensam, sobem os caminhos da felicidade na maior sem cerimônia, à busca da paixão, qual quem conhece por demais o direito de amar incondicionalmente o amor desmedido.

Quisesse parar e mergulhar a pele dos sentimentos, ver-nos-íamos braços dados com a verdade inextinguível das existências. Abraçaríamos as causas da Criação original e bem compreenderíamos o que planejara Deus ao distinguir os seres com a força do bem maior do coração. Daí, dormiríamos em paz conosco próprios, de saber da alegria dos que vivem toda intensidade dos que amam e se permitem usufruir do motivo que lhes deu a vida.

Território de plena espontaneidade, dos sentimentos vem a essência dos fenômenos e causa do que nos traz aqui perante os Céus que nos aguardam de braços abertos de quando revelarmos a Consciência. Música da espiritualidade, alimentam o compasso da história e aguardam o momento exato de quando abrir a todos nós os portais da Luz.

Por isso, enquanto esgotamos desejos do Chão, há na condição humana oportunidade perene de revelar a trilha da iluminação que transportamos vidas afora, sinete da herança divina que nós somos. Assim inexiste perdição definitiva, porquanto mais cedo ou mais tarde chegaremos à casa do Pai, por via dos sentimentos limpos e do conhecimento da Verdade.