04 setembro 2020

Dr. Thomaz Corrêa – Um pouco de perfume – por José Luís Lira (*)



   Minha pretensão para essa edição, era escrever sobre a proximidade dos 200 anos da independência do Brasil que será celebrado em 7 de setembro de 2022. Este ano é o 199º aniversário do corajoso ato de Sua Majestade Imperial Dom Pedro I, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil. Aliás, há dois anos, na data de hoje, 5 de setembro, eu fazia a entrega do Busto do Imperador Dom Pedro I ao Museu Histórico Nacional, sediado no Rio de Janeiro, em meu nome e no de meus colegas de pesquisa Cícero Moraes e Paulo Salles, com trabalho artístico de Mary Bueno.

   Foi um dia memorável. Mas, no último dia de agosto, por volta de 21hs, tomei conhecimento do falecimento do Dr.  Thomaz de Araújo Corrêa, médico e benfeitor de Ipu e da região circunvizinha, casado com dona Margarida Timbó de Araújo Corrêa, desde 1951. No momento em que soube, quase não acreditei. Apesar de seus 97 anos de vida e 72 de medicina, Dr. Thomaz me parecia eterno. Pensava nas comemorações de seu centenário tendo ele fisicamente entre nós. De imediato meu veio à mente um cântico que entoei e ouvi em várias ocasiões: “Fica sempre um pouco de perfume/ nas mãos que oferecem rosas/ nas mãos que sabem ser generosas”.

     Este espaço não seria suficiente para narrarmos a vida honrada de Dr. Thomaz que foi narrada no livro “De Corpo e Alma: Trajetória de Thomaz de Araújo Correa, Ícone de Ipu”, com mais de 600 páginas, organizado pelo genro e pela filha dele, Dr. Emmanuel Teófilo Furtado e Dra. Luísa Elisabeth Timbó Corrêa Furtado.

     Dr. Thomaz chegou ao Ipu muito antes de que tivéssemos em Guaraciaba do Norte os médicos Dr. Francisco Cardoso Martins e Dr. Egberto Martins. Por isso, era a Ipu que recorríamos e lá encontrávamos o Doutor Thomaz Corrêa. Nasci, no final de 1973, no sítio Correios (10km de Guaraciaba do Norte) e as condições de saúde eram muito precárias naquela região. Pego pelas mãos da parteira minha tia-avó Cristina Lira, nasci menino frágil. Tive um seriíssimo problema nos ouvidos. Eram fortes dores, o ouvido “estourava”. Pais zelosos que tenho, eles não mediram esforços para que eu ficasse bom. Foram muitas as vezes que na madrugada saíamos na velha caminhonete do papai para o Ipu. O papai sabia onde era a casa do Dr. Thomaz e não se intimidava em chamá-lo. Saía aquele homem de voz de timbre forte, culto e educado e ia atender àquele menino. Tenho certeza de que se não fossem seus cuidados eu teria perdido uma de minhas audições.

     A vida é uma aventura constante. Um dia, já formado, ocupante de uma cadeira na Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará – ALMECE –, fui incumbido de fazer saudação a agraciados com Mérito Cultural e Sócio-Honorário. Qual foram minhas surpresa e alegria ao ver entre os Sócio-honorários o nome de Dr. Thomaz Corrêa, honraria que pude lhe conferir quando também presidi a Academia Sobralense de Estudos e Letras. Anos mais tarde, propus o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), ao notável médico.

      Nestes tempos complicados em que vivemos, não pude ir a Ipu despedir-me de Dr. Thomaz. Seu filho Dr. Luiz de Gonzaga até pediu-me que eu não fosse. Rezo por Dr. Thomaz com a sensação de que nosso grande médico está junto ao médico de homens e de almas, São Lucas, no céu, intercedendo por todos nós!

      Minha gratidão, meus respeitos, Dr. Thomaz! Descanse na paz do Senhor!
 
  (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.