12 agosto 2020

O justo fruto das nossas ações - Por: Emerson Monteiro

                                 O ímpio recebe pagamentos enganosos, mas quem semeia a justiça colhe segura recompensa. Provérbios 11:18

Ao chegar da escola, ainda contrariada por causa de alguma ação das colegas, tratava de procurar a avó na busca de conforto. E mais de uma vez ouviu essa história que gravaria pela vida afora:

Próximo de um vilarejo distante morava pedinte que, vez em quando, vinha ali a mendigar o sustento. Sempre que recebia qualquer auxílio que fosse, repetia agradecido: - Quem bem fizer pra si é. Quem mal fizer pra si é também. – Nisso, percorria as casas e depois regressava aonde vivia sozinho num casebre no meio da mata. Assim passavam os dias e se alimentava do que lhe dessem por donativo.

Mas havia uma pessoa na vila que teimava duvidar do que dizia o velho senhor ao receber os mantimentos. Com isto, resolveu demonstrar o contrário do que com tanto gosto ele afirmava. Certa feita pegou uns pães e neles aplicou forte dose de veneno. Tão logo ouvira o petitório do homem, cuidou de oferecer de esmola os pães envenenados.

..

Há pouco vindo da povoação, o ancião escutou, desde a mata, gritos aflitos de criança. Eram dois garotos que tinham se perdido nas imediações. Correu na direção dos gritos e trouxe os garotos até seu humilde casebre. Daí quis saber de quem se tratavam. Para surpresa, eram filhos da dita senhora que naquele mesmo dia oferecera os pães adulterados.

Alegre por saber pertencerem a família sua conhecida, o homem acalmaria as crianças fatigadas e lhes ofereceria alguma refeição, cabendo, então, por fatalidade, exatamente os pães que recebera da mãe deles. Pediu que ficassem aguardando, enquanto voltou à vila e trouxe consigo a senhora já feliz de localizar os filhos. No entanto, qual não foi o desgosto de acha-los exangues, vítimas fatais do que armara na intenção de provar a inexatidão do que o pedinte tanto afirmava: Quem bem fizer pra si é. Quem mal fizer pra si é também.

 

2 - Sacerdotes católicos que ficaram no imaginário popular do Cariri

Monsenhor Joviniano Barreto – O Mártir do Dever



   O ano de 1950 começou promissor para Juazeiro do Norte. A comunidade católica daquela cidade preparava-se para comemorar – no mês de março – os 15 anos do profícuo paroquiado de Monsenhor Joviniano Barreto. Este, por sua vez, após ajudar na instalação da Congregação Salesiana em Juazeiro do Norte, aguardava o dia 6 de janeiro com certa ansiedade. Era a data marcada para o lançamento da pedra fundamental do convento e seminário dos frades franciscanos capuchinhos, recém chegados àquela cidade, após pacientes negociações feitas entre o Bispo de Crato, Dom Francisco – com decisiva participação do Monsenhor Joviniano Barreto – e a Província Regional Franciscana.

     A quase totalidade da população ordeira e humilde de Juazeiro do Norte professava a religião católica. Mas, como ocorre em toda cidade em fase de grande crescimento, Juazeiro abrigava alguns portadores de esquizofrenias. Um deles, Manoel Pedro da Silva, natural de Açu, Rio Grande do Norte, vinha, nos últimos meses, insistindo (junto a Monsenhor Joviniano) para que o vigário o casasse com uma senhora já casada. Em vão o sacerdote explicou ao esquizofrênico que a Igreja Católica proibia a realização desse matrimônio.

     Consta que, por algumas vezes – por vingança ante a recusa do sacerdote em realizar o ilegal casamento – Manoel Pedro procurou assassinar Monsenhor Joviniano. Uma dessas ocasiões durante a Missa de Natal de 1949. E só não foi concretizada, porque, na hora planejada para o delito, faltou coragem a Manoel Pedro para praticar o homicídio.
Entretanto, no início da fatídica noite de 6 de janeiro de 1950, após a solenidade de lançamento da pedra fundamental do convento dos capuchinhos, Manoel Pedro veio na direção de Monsenhor Joviniano e lhe desferiu profunda facada no coração, matando-o na hora. A pedra fundamental do convento dos capuchinhos foi, assim, regada pelo sangue desse servo bom e fiel, um verdadeiro “Mártir do Dever”.

     Monsenhor Joviniano Barreto nasceu no município de Tauá, no Sertão dos Inhamuns, em 05 de maio de 1889. Oriundo de família com sólida formação católica, ele era afilhado de crisma do segundo bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira.
Estudou no Seminário da Prainha, em Fortaleza, onde recebeu ordenação sacerdotal em 22 de dezembro de 1911, aos 22 anos. Enquanto aguardava a idade canônica para receber a ordem do presbiterato lecionou naquele Seminário, entre 1908 e 1909 e no Colégio São José de Crato, entre 1910 e 1911.

     A criação da Diocese de Crato veio encontrar o já então Padre Joviniano Barreto como vigário-cooperador de Lavras da Mangabeira. Posteriormente, ele foi Cura da Catedral de Crato, Secretário do Bispado, professor e reitor do Seminário Diocesano São José, vice-presidente do Banco do Cariri (pertencente à diocese) e diretor do Ginásio, posteriormente denominado (até sua extinção em 2020) de “Colégio Diocesano de Crato”.

     Segundo o escritor Mário Bem Filho: “Na administração episcopal de Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, primeiro bispo de Crato, Monsenhor Joviniano Barreto era o padre de maior projeção da diocese. Homem apostólico, dedicado, trabalhador, inteligente e culto. Tinha um caráter forte e uma personalidade marcante. Contava com a amizade e estima de todo o clero diocesano. Impôs-se pela bondade. No governo do segundo bispo, Dom Francisco de Assis Pires, Monsenhor Joviniano era depositário de toda a confiança do pastor diocesano que o tinha como conselheiro. Dom Francisco mandava-o chamar frequentemente, ao Palácio Episcopal, para ouvi-lo”.

     Com a morte de Monsenhor Esmeraldo, vigário de Juazeiro do Norte, ocorrida em outubro de 1934, aquela paróquia ficou novamente vaga e o Bispo de Crato encontrava dificuldades (junto aos seus padres) para que um deles assumisse aquela jurisdição paroquial. Um grupo de senhoras de Juazeiro do Norte veio, certa vez, ao Seminário São José, em Crato, pedir a Monsenhor Joviniano para aceitar a missão de pastor dos juazeirenses. Ele respondeu negativamente ao pedido. Dias depois, sem que ninguém soubesse o motivo da mudança, Monsenhor Joviniano procurou Dom Francisco e disse que aceitava a nomeação para Vigário de Juazeiro do Norte, uma função que representava, àquela época, um grande desafio.

      Assumiu a Paróquia de Nossa Senhora das Dores em 26 de março de 1935. Durante 15 anos reorganizou a vida paroquial. Dinamizou as associações religiosas. Reformou totalmente a igreja-matriz – hoje Basílica Menor – deixando-a com o aspecto como está hoje. Ajudou na evolução social da Terra do Padre Cícero, participando de todas as iniciativas que representavam progresso para Juazeiro do Norte. Foi professor da Escola Normal Rural e concluiu sua profícua missão pastoral em 6 de janeiro de 1950, quando foi assassinado por um débil mental, passando à história como “O Mártir do Dever”.

Texto e postagem de Armando Lopes Rafael