25 julho 2020

Nas asas da Eternidade - Por: Emerson Monteiro


Há coisa de dez anos, a convite da Academia Lavrense de Letras, fomos, Luciano e eu, numa missão cultural a Fortaleza. Era época dessas chuvaradas intensas no Ceará, o que ocorre rara e inesperadamente. Não mais conseguiram bilhetes saindo da rodoviária do Crato e tivemos ir de táxi a Várzea Alegre e de lá de ônibus, só que restavam os derradeiros lugares do transporte, e foi lá nos instalamos. Uma longa noite pela frente. Conversávamos a respeito do seu trabalho, quando ele começou a declamar. Logo chamou a atenção de outros passageiros, que se aproximaram à escuta. Resultado, o que nos parecia difícil, tornou-se percurso divertido, agradável, quando vim a conhecer mais de perto a obra do poeta.

Daquela vez me tocou o desejo de ver seus poemas em um livro, inclusive sabia ser esta vontade que alimentava desde algum tempo. Em Crato, depois, planejei editar o que seria o seu primeiro livro além das dezenas de cordéis que já publicara, vindo dai em bem cuidada edição sob o patrocínio dos amigos através de Leonardo, um dos seus filhos, que auxiliou com força a que viéssemos a concretizar o sonho de Luciano Carneiro, trabalho confeccionado pela BSG Bureau de Serviços Gráficos, de Juazeiro do Norte.

Desse modo eu apresentaria o livro: Desde a primeira vez que ouvi a poesia de Luciano Carneiro, no lançamento de um de seus cordéis, hoje perto da cifra de cinco dezenas, compreendia que me achava diante de um dos gigantes da poesia sertaneja. Dotado da inspiração mais simples e pura, rima com naturalidade e declama seus versos como quem desbulha vagens de feijão maduro, fácil e espontâneo. Há, na obra de Luciano, um componente fundamental à boa literatura, a fluência e o senso de humor, que fazem menos densa as obras eloquentes da escrita, de si tendentes ao formalismo.

Assim me tornei um dos seus admiradores, alimentando o desejo de um dia ver seu trabalho transformado em livro. Os cordéis estes vêm sendo editados pela Academia dos Cordelistas do Crato, da qual é o poeta um dos fundadores e ex-presidente e vice-presidente, além de administrador da gráfica. Porém os poemas autorais, por vezes clássicos e magníficos, precisavam ganhar divulgação e vida longa. Numa viagem que fizemos a Fortaleza, para atender a um compromisso no Segundo Encontro Lusofônico de Fortaleza, em dezembro de 2009, pude aquilatar o valor da sua obra. Plena de conteúdo universal revelador dos mistérios de uma vida cheia de riqueza humana, vivências e tradições do nosso interior secular, concede matéria-prima de profundas reflexões, sobretudo diante das instituições ameaçadas dos dias atuais. Os perigos da formação dos filhos, a ganância dos poderosos, a incerteza dos caminhos desta vida, por vezes rodeados de ameaças, o esforço das lutas da sobrevivência material, a destruição da natureza, tudo isso encontra na inspiração de Luciano Carneiro uma verve suficiente e transformadora, guardando a esperança e os cuidados necessários ao ímpeto da religiosidade original. O leitor fiel ao sentido verdadeiro da poesia cabocla satisfará seu apetite exigente na habilidade deste poeta digno do instrumento que abraça com tamanha maestria, ao nível dos autores consagrados no exemplo de Patativa do Assaré, Pinto de Monteiro, Catulo da Paixão Cearense, Cego Aderaldo, Juvenal Galeno, para citar apenas alguns do panteão da glória popular. Veja por si mesmo a veracidade daquilo que lhes transmito nesta feliz edição dos versos de Luciano Carneiro, Onde mora a poesia, trabalho que tende a se tornar em um dos clássicos apreciados do nosso cancioneiro da rima nordestina.


Nesta hora, ao sabê-lo do outro lado da vida, fico parado olhado no tempo e lembrando a figura do poeta, simples e alegre, atento às surpresas boas da Natureza, a quem eu sempre perguntava: - Que é que está produzindo, Luciano? – e gentilmente me falava dos mais recentes versos, o que, de certeza, hoje também segue a produzir nos vastos salões da Eternidade.

- Abraço, Luciano, terás comigo bem guardada sua lembrança de amigo.

(Ilustração: Foto de Alemberg Quindins).

Missa pelo aniversário da Princesa Isabel

Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1889. 
Um dia antes do golpe militar que impôs a República sem consultar o povo. 
Atrás da nossa primeira Bandeira do Brasil (Criada pelo Imperador Dom Pedro I, 
com desenho do pintor Debret), vê-se o antigo  Paço Imperial, localizado na atual 
Praça da República,local onde se embarca para ir a Niterói, 
que fica do outro lado da Baía da Guanabara.