04 julho 2020

Entre o Ser e o Nada - Por: Emerson Monteiro


Nada é tão importante para o homem como sua condição, e nada lhe é tão temível como a eternidade.  Blaise Pascal

Diante do silêncio absoluto das estruturas universais, entretanto, que mais senão a oportunidade que bem lhes significa existir?!... Face a face, pois, consigo próprios, seguem os passos do instante inesgotável, enquanto vivem os seres humanos. Que alternativa lhes caberia qual não fosse tocar em frente o desejo de ser feliz e encontrar a resposta? Experimentar todas as máscaras do semblante, reapresentar a si o espetáculo do Sol, e adormecer no colo do que carrega consigo há milênios nas fibras do coração?...

Em uma velocidade inevitável, tempo sobre tempo escorre-nos entre os dedos a lâmina de aço da história nas cólicas do destino. Os demais são meros espectadores de nós, e nós deles que também o somos. Testemunhos das cenas dantescas do desparecimento na Eternidade, vez em quando reaparecem/emos cenários adentro, fantasmas de notícias ocasionais.

Claro que isso de pisar este chão é tarefa intrigante, estonteante. Reino de senhores onde predomina a força da matéria e resulta em submissões e fantasia, uns se entredevoram, resolvem falar mais alto, e outros aceitam humilhação dos valores espúrios a troco de deixarem comer e ir em paz. Ninguém mesmo detém a ciência do espírito com toda a coerência, porém se acham donos do saber e das interrogações. E nisso transcorre calorosamente o século ao sabor das esferas próximas ou distantes.

Vez por outra afloram racionalistas que dizem vir do pensamento a justificativa dos astros. Quase num só momento, vêm arautos do invisível que estabelecem bases nos tempos abstratos. Conquanto restritos a conceitos só mentais, resta aos indivíduos mergulhar o íntimo e desvendar princípios nos trilhos da consciência, o que permitirá, belo dia, na solidão das estrelas, acender as horas inevitáveis da luz no Ser em movimento.

Pequenos fatos da nossa História: a primeira viagem feita ao Brasil pelos herdeiros de Dom Pedro II, após o golpe militar de 15 de novembro de 1889


Foto: O Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, acompanhado de seu avô paterno, o Príncipe Dom Gastão de Orleans, Conde d’Eu, de  sua mãe, a Princesa Imperial do Brasil, Dona Maria Pia de Bourbon-Sicílias de Orleans e Bragança, e de seu irmão, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Luiz Gastão de Orleans e Bragança, a bordo do vapor Massilia.

   Nos pequenos fatos da História pátria – diria mesmo nos “fatinhos” – pouca gente conhece o fato abaixo, publicado no Facebook da Casa Imperial Brasileira. A conferir:

   Em 1922, o Governo Epitácio Pessoa convidou formal e oficialmente o Príncipe Dom Pedro Henrique de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, então menino de 13 anos de idade incompletos, a vir ao Brasil a fim de tomar parte nas celebrações do Centenário da Independência, proclamada no dia 7 de setembro de 1822 por seu valoroso trisavô, o Imperador Dom Pedro I.

   Nascido na França, em virtude do injusto e penoso exílio imposto à Família Imperial Brasileira por ocasião da quartelada republicana de 15 de novembro de 1889, o jovem herdeiro do Trono embarcou rumo à sua Pátria, a qual veria pela primeira vez, visto que fazia apenas dois anos desde a revogação da odiosa Lei do Banimento da Família Imperial, que vigorara desde dezembro de 1889.

   A bordo do vapor Massilia, vinham também sua mãe, a Princesa Imperial Viúva do Brasil, Dona Maria Pia de Bourbon-Sicílias de Orleans e Bragança, seu irmão e imediato herdeiro dinástico, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Luiz Gastão de Orleans e Bragança, e seu venerando avô paterno, o octogenário Conde d’Eu, que, contrariando as recomendações de seu médico, fazia questão de vir pessoalmente, para apresentar seus netos ao povo brasileiro – infelizmente, aprouve a Deus chamar a Si, já em águas territoriais brasileiras, o velho herói da Guerra do Paraguai.

   Conta o jornalista Assis Chateaubriand que durante o embarque do Chefe da Casa Imperial, os membros brasileiros da tripulação do Massilia subiram aos mastros e começaram a bradar “Viva Dom Pedro III!”, em um claro gesto de aclamação daquele menino que era, “de jure”, o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, e que em fim iria conhecer a Pátria que estava sendo educado para servir, e sobre a qual deveria reinar.

(Baseado em trecho do livro “Dom Pedro Henrique, o Condestável das Saudades e da Esperança”, de autoria do Professor Armando Alexandre dos Santos).

Imagem da Padroeira de Crato completa cem anos neste 2020 – por Armando Lopes Rafael



   A escultura de Nossa Senhora da Penha, ora venerada no altar-mor da nossa Catedral, foi adquirida pelo primeiro bispo de Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, em 1920. Em artigo publicado na revista Itaytera, Mons. Rubens Gondim Lóssio escreveu que a imagem “foi adquirida na Europa”. Entretanto, está gravado na base da estátua: “Luneta de Ouro, Rio, 1920”, como a comprovar que ela foi adquirida através da famosa loja de esculturas religiosas localizada, àquela época, à Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

      No entanto, esta imagem só chegou a Crato em 1921. Uma curiosidade: quando da sua recepção houve fortes e ostensivas reações, advindas de segmentos da comunidade cratense, contrárias a substituição da “Imagem Histórica” (venerada desde 1745) pela nova escultura adquirida por Dom Quintino. A prudência deste fê-lo retardar a entronização da nova imagem. Dom Quintino, viria a falecer em 1929 sem colocar a nova representação de Nossa Senhora da Penha na Sé Catedral de Crato. Coube ao segundo bispo diocesano, Dom Francisco de Assis Pires – empossado em 1932 – aguardar mais sete anos até a solenidade de entronização da nova estátua da padroeira dos cratenses.

    Por isso, durante 17 anos, a escultura da Virgem da Penha permaneceu guardada no interior da Catedral. Sobre ela escreveu Monsenhor Rubens:
 “De tamanho bem maior que o natural, (Nota do articulista: mede cerca de 1,80m e foi esculpida em madeira) em atitude de quem aparece para defender o pastorzinho Simão, prosternado ao lado direito, enquanto o temível crocodilo se arrasta à esquerda, o vulto impressionante tem uma beleza encantadora. Trazida com dificuldades até esta Cidade Episcopal, teve a Imagem festiva recepção, em 1921, quando o povo acorreu ao seu encontro, na estrada do Buriti, onde se congregaram cerca de 32 zabumbas. Todavia, continuou ela guardada, até que, preparada a mentalidade do povo e feita a reforma da Capela-Mor por Dom Francisco de Assis Pires, colocaram-na no altivo e gracioso nicho de onde preside às funções do Culto e aos destinos do Crato. No dia 1º de setembro de 1938, foi-lhe dada a bênção do Ritual e, a partir de então, não tem ela cessado de conceder a todos as maiores graças e as melhores bênçãos”. 

    Em 2006, devido aos trabalhos de conservação efetuados no interior da Catedral a estátua de Nossa Senhora da Penha foi retirada – pela primeira vez – do alto do nicho, no qual estava há 68 anos. Esse acontecimento levou muita gente à Catedral, na manhã de uma segunda-feira, 03 de julho daquele ano. Entretanto, após a descida da imagem, uma surpresa: constatou-se a existência de várias rachaduras na escultura de madeira.

     Preocupado, o então Cura da Catedral, Padre Edmilson Neves Ferreira (hoje Bispo Diocesano de Tianguá), procurava um profissional para recuperar a estátua. Atendendo ao seu apelo mantive contato com a Prof.ª. Olga Paiva, funcionária do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional–IPHAN, 4ª Superintendência Regional sediada em Fortaleza. Esta indicou para o trabalho a restauradora italiana Maria Gabriella Federico. O restauro da imagem durou cerca de três semanas. E, depois de recuperada – pela primeira vez – a terceira imagem da padroeira do Crato percorreu, em procissão, as ruas da cidade que a tem como Imperatriz e Protetora.
     Estava programada para 2020, na festa da Padroeira de Crato (celebrada anualmente de 22 de agosto a 1º de setembro), as comemorações do centenário da imagem da Virgem da Penha. Assolada pela pandemia chinesa do coronavírus, o principal templo cratense (a exemplo das demais igrejas católicas do Brasil) se encontra fechado há quatro meses. Oxalá nossa Mãe Santíssima escute as orações dos seus fiéis e faça cessar os malefícios dessa enfermidade epidêmica, amplamente espalhada por todas as nações da terra. Só assim os cratenses poderiam comemorar à altura os cem anos da sua querida Imperatriz e Padroeira.