29 junho 2020

O senhor dos acontecimentos - Por: Emerson Monteiro


A cada geração há que se rever conceitos e guardá-los no íntimo da consciência até quando, lá belo dia, resolvermos praticar desse aprendizado em nossas relações. Enquanto isto, a máquina da perfeição não para de ordenar o Universo, tudo sob a primorosa exatidão das matemáticas. Aflito com essa dificuldade em localizar donde veio tudo o que existe e desvendar o propósito das existências, seguem na trilha dos destinos os seres humanos.

Sabem que o acaso jamais explicaria o quanto das maravilhas que totalizam os fenômenos da mãe Natureza. Resultado: perguntas sucessivas e respostas insuficientes. Com isso, nos deparamos face a face com o Senhor, o mestre dos acontecimentos.

Este procedimento de largas interrogações leva, pois, ao sentido das ciências e das filosofias, sem, contudo, preencher em absoluto a sede que esbarra no infinito das histórias e lendas, crenças e superstições. Ninguém a dizer-se dono da Verdade, porquanto persistirá abismo profundo até a plena noção dEle, do autor de tudo que existe e existirá.

Entretanto, eis um gênero de primeira necessidade, revelar a si mesmo nossa origem maior, a causa cáusica do que aqui estarmos diante, esmolés da sorte em noites escuras da alma. Uma epopeia de gênio viver com maestria, tarefa para os super-heróis e semideuses. E nisso, quantas e tantas gerações já pisaram no chão ao afã de ampliar os conhecimentos da Divindade e promover a harmonia do espaço comum e das criaturas humanas.

Conhecer Deus, aprimorar nosso espírito a fim de chegar à transcendência e modificar o instinto em sentimento, sendo amor o sentimento por excelência.

É ele o senhor dos acontecimentos a que tantos aspiram conhecer. Amaciar os valores materiais e abrir, nas gerações, o portal da imortalidade através de uma consciência clara. Destarte, tal conquista significará o clímax da aventura humana em perene evolução a regressar ao aprisco celeste e conquistar a definitiva Felicidade eterna.

EDUCAR É ELEVAR O ESPÍRITO



A busca do conhecimento é algo inato ao ser humano. Ninguém conscientemente prefere viver nas trevas da ignorância podendo facilmente acessar a luz da inteligência. No entanto, o estudo requer a identificação de um chamado interior, para que tudo aquilo que se queira aprender passe a ter um contexto adequado a cada um de nós. Nada mais é do que encontrar uma razão pela qual estudar um determinado assunto se torne importante em nossas vidas. Mas se uma mudança de postura começa dentro de nós mesmos, o segundo passo é mudar o nosso ambiente – seja restaurando o mínimo de razão nele; seja abandonando-o de uma vez por todas. E, como se fossem círculos concêntricos, essas mudanças de atitude devem se expandir, criar um vínculo entre as pessoas, num sentimento mútuo de que é realmente possível tornar menos insuportável a nossa vizinhança, o nosso bairro e, por que não dizer?, a nossa cidade, o nosso país. Qualquer ensinamento parte de precisas definições. Os conceitos fundamentais de um assunto são o que dão suporte ao que se eleva como conhecimento. Por outro lado, há sempre uma tentação irascível de saltar diretamente às tendências mais modernas, sem a preocupação de uma formação anterior. Também não seria ousadia dizer que, num empenho em buscar um pensamento estritamente novo e original, pode-se acabar por recusar ou esquecer uma tradição de pensamento já existente. Longe de negar o que ainda se possa fazer do futuro, mas nos privarmos do que possuímos de forma efetiva em sólidos fundamentos, reinventando uma cultura sem antes herdarmos as tradições existentes que expressam realmente o que somos, é repetir a experiência de formação de uma classe intelectual que não enxerga além de seus cacoetes sem sentido. Quando falamos em cultura, devemos abarcá-la em todas as suas possibilidades para definirmos bem o motivo que nos leva à manutenção de uma tradição. Grosso modo, e para não me estender demais neste tema que é, em verdade, o pano de fundo do que pretendo discutir aqui, toda uma tradição e seus costumes dedicam-se à unificação. É um elo entre um povo ou nação, aquilo que o torna único, que cria vínculo entre pessoas. Assim, tais tradições e costumes expressos principalmente nas artes têm apenas uma função: educar. Certamente os costumes e tradições vão evoluindo junto com uma cultura universal. Note que universal aqui é usado como uma ligação com o Eterno. Todavia, na ânsia de buscar uma cultura popular, tolera-se ignorar uma ligação – ou diálogo – com essa cultura universal. Não criamos a literatura, tampouco o teatro ou a pintura. Tratam-se de formas universais de expressão cultural. E ignorando este diálogo cria-se o que convencionalmente chamamos de crise. Segundo o filósofo Mário Ferreira dos Santos*, a palavra grega crisis significa separação, abismo. Onde há crisis, há uma separação, e separar é abrir distância entre pares. Mas como surgiria a ação de separar se não existisse aquilo que une? Eis aqui o ponto de vista acerca do coração desta crise: qual o elo entre os brasileiros? O que nos une? Nesta direção, observamos o fato de que habitua-se a memória para absorver somente alguns adornos, pouco se ocupando com os valores mais intrínsecos. Porque mesmo uma tradição ou costume pode ter qualidades nefastas. Na civilização Maia, para dar um exemplo, era costume extrair o coração de pessoas vivas em sacrifício aos deuses, enquanto batucavam-se ritmos ritualescos. E creio eu não haver um ser vivo não-dependente de haloperidol que se entusiasme na presença de tão infausta tradição. O que então devemos resgatar culturalmente? Tudo aquilo que possa se conectar com o Eterno, livrando-se, sem nenhuma culpa, daquilo que é lutuoso, imprestável e que fatalmente nos diminui. Educar é elevar o espírito. E só é possível uma ascensão quando olhamos para o alto, quando buscamos acessar o que nos parece inatingível. É uma forma de superação que traz consigo a possibilidade de crescimento, seja como indivíduo; seja como nação.

* Santos, Mário Ferreira dos. A Filosofia da Crise, São Paulo, Editora Logos, 1956.

Há 19 anos, Dom Fernando Panico assumia a Diocese de Crato


   O dia 29 de junho de 2001, Festa dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, caiu numa sexta-feira.  Naquela data, pela manhã, chegou a Crato, para tomar posse como 5º Bispo da nossa diocese, Sua Excelência Reverendíssima Dom Fernando Panico. O povo saiu às ruas para saudá-lo, naquela manhã. Desde o primeiro momento, a simpatia do novo bispo conquistou a todos. À tarde, a Praça da Sé – onde fica a Catedral –, estava lotada com delegações dos diversos municípios componentes da Diocese de Crato, que vieram assistir à posse do seu novo pastor.
São Pedro e São Paulo
  
       Na sua homilia de posse, Dom Fernando leu um bonito e expressivo texto, do qual transcrevo abaixo uma pequena parte. Nela, o novo bispo antecipou um dos eixos que marcaria sua atuação pastoral:

“Esta de Crato é uma diocese que, sem conhecê-la ainda, já entrou no meu coração. Quem sabe, será porque para a nossa diocese convergem os olhares, os corações e os pés de um povo simples e bom? Refiro-me ao constante e numeroso afluxo de romeiros, que, carregados da fé dos simples, fizeram deste vale do Cariri, diria uma Terra Santa. Não podemos desconhecer este fato que é peculiar e desafiador para a nossa ação evangelizadora. O Pe. Cícero Romão Batista – o “Cearense do Século XX” – como foi aclamado pelo povo, é filho de Crato. 

Ao redor da sua pessoa e da sua memória, desencadeou-se uma expressão de religiosidade popular tão forte e tão rica de símbolos que, pelo menos, chama o meu interesse de pastor e estudioso de liturgia. Vejam só o que me aconteceu, no fim do mês passado. Encontrava-me em São Paulo, hóspede da casa provincial dos Missionários do Sagrado Coração. Ao abrir a porta dos meus aposentos, logo vislumbrei uma pequena imagem de madeira do Pe. Cícero, em cima do armário.

 Fiquei bastante surpreso. E pensei comigo: será este um sinal de Deus? De fato, não deixa de ser curioso o futuro bispo de Crato dando de frente com a imagem do Pe. Cícero, no seu quarto, e em São Paulo. Tomei aquela imagem nas mãos e pedi permissão ao Superior Provincial para levá-la comigo para Crato. Os meus confrades acharam isso muito interessante, desejaram-me um feliz encontro com o Pe. Cícero, em Juazeiro e ficaram comentando: “Será que o Pe. Cícero não está pedindo um auxílio ao seu novo bispo?”

   Naquele instante, a massa humana que lotava a Praça da Sé irrompeu em demorado aplauso. Por certo Dom Fernando sentiu, naquele instante, que a maioria do seu novo rebanho era simpática à memória e à herança espiritual deixada pelo Padre Cícero.

     Dom Fernando Panico foi vitorioso nessa sua batalha! Em 2015, o Papa Francisco enviou a hoje famosa Carta de Reconciliação da Igreja Católica com a Herança Espiritual do Padre Cícero.

Dom Fernando Panico permaneceu entre nós durante 15 anos e meio. Ao renunciar, por motivo de saúde, em dezembro de 2016, deixou um legado de grandes e profundos frutos como Bispo Diocesano de Crato. De forma resumida poderia citar.

– A valorização das romarias e do acolhimento aos romeiros, com novas atitudes e um cuidado pastoral com eles.
– As Santas Missões Populares que, preparadas ao longo de três anos, acentuaram o rosto missionário da nossa Igreja Particular.
– A reestruturação pastoral da Diocese em Foranias e Comunidades.
– A realização do 13º Encontro Intereclesial das CEB’s, na cidade de Juazeiro do Norte.
– A elevação da Igreja Paróquia de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte, ao título de Basílica Menor.
– A criação de 13 novas paróquias e de quatro Santuários Diocesanos.
– A construção de uma unidade da Fazenda da Esperança, no município de Mauriti, destinada à recuperação de jovens e adultos dependentes do alcoolismo e outras drogas.
– Reconhecimento diocesano de novas comunidades de leigos consagrados. Acolhimento de vários institutos religiosos, em cidades da nossa diocese, a exemplo da Abadia das Monjas Beneditinas, em Juazeiro do Norte.
– Ordenação de 68 novos padres para a diocese e a instituição do Diaconato Permanente, tendo ele ordenado 39 diáconos permanentes;
–  A abertura do Processo de Beatificação da menina Benigna Cardoso da Silva, a Mártir da Castidade, nascida em Santana do Cariri, outra grande vitória do seu episcopado, pois essa Beatificação ocorrerá em breve;
–  A criação do curso de Teologia no Seminário São José, o qual, graças a isso, passou a ser Seminário Maior, e formou sacerdotes para cinco dioceses nordestinas: Crato e Iguatu (no Ceará), Salgueiro e Petrolina (em Pernambuco) e Cajazeiras, na Paraíba;
–  Entrega da administração do Hospital São Francisco de Crato à Ordem dos Camilianos, providência que salvou aquela unidade hospitalar de encerrar suas atividades, como vem ocorrendo com outras instituições congêneres no Cariri;
–  Construção dos dois blocos que compõem a nova Cúria Diocesana;
–  Construção do novo Seminário Propedêutico, no bairro Granjeiro, em Crato, dentre outras iniciativas que delongaria aqui alinhar.

     A Dom Fernando Panico a nossa manifestação de gratidão e do nosso profundo reconhecimento pelo muito que ele fez pela Igreja Católica Apostólica Romana no Cariri e no Nordeste brasileiro.
(Por Armando Lopes Rafael)