27 junho 2020

Querer falar dos abismos da alma - Por: Emerson Monteiro


Assim qual quem quer, por fina força, mudar de assunto e se apegar a outras histórias cotidianas lá de fora; no entanto essa vontade imensa de perscrutar as trilhas da consciência. Num jeito meio impetuoso de contrariar o pensamento e deixar que os sentimentos cuidem da condição do comboio. Saber das matas virgens dos céus interiores, avançar as fronteiras da inconformação e buscar justificativas da criatura humana persistir na ânsia de conhecer mais e desvendar o mistério da Eternidade que pulula nos refolhos desse universo adormecido da alma.

Nalguns momentos, feitos autores da própria existência, queremos desvendar os tais recônditos, e nos deparamos com a inexatidão das palavras e atitudes, quais infiéis a bater às portas do sagrado, porém de mãos profanas, meros aventureiros de novas conquistas do domínio das coisas vãs, atrozes produtores de altares de barro em meio das contradições do sentimento.

Noutros, contudo, haverá doce a calma de propósitos, enquanto as dores do parto do espírito confrontam as limitações deste Chão. Nessas horas, alquebrados aos valores da matéria, fingem sinceridade, dobram a cerviz sob o lenho das farpas deste mundo, e chegam menos estridentes. Discípulos da virtude, no entanto, mourejam debaixo de solidão estonteante. Restam, com isso, profetas de si mesmo noutro nível de compreensão, porquanto cruzaram as barreiras físicas e rasgam lá de dentro os véus da Verdade. A luz intensa desse sol reduz ao Nada o que antes significa motivo absoluto de viver.

Agora são músicas harmoniosas, perfeitas obras da criação artística. Abertas, pois, as comportas daquilo que vislumbrava, tontos de felicidade, adormecem nas profundezas do Infinito, espécie de esquecidos da alma antiga, agora transformados em senhores do desejo e luzes da realidade e do Amor puro. Na epopeia de revelar a Consciência, vê-se, então, integrados na claridade dos santos que sabem a Deus e chegam numa outra dimensão.

(Ilustração: Composição (1913), de Kandinsky.

Dentro das paredes deste lugar - Por: Emerson Monteiro


Ainda que visse lá de fora pela janela, era tudo, no entanto, o mundo cinza permaneceria quando vieram os primeiros raios de sol rasgando nuvens que passeiam pelo céu. Fome de tudo. Um gesto interno de pura vontade no querer transformar emoções antigas em máquinas de superação da dor. Pois o impulso de continuar vivo investe contra a vidraça feito besouro teimoso de permanecer aqui mesmo que o fastio queira tomar conta do universo em volta.

Ele sai batendo nos objetos espalhados pelo chão. Mochilas de antigas cavalgadas, rastros de campos de batalha e marcas de sangue espalhadas nas árvores secas da caatinga. Pedaços de saudades escorregando feitas formigas impacientes através das telas do horizonte. Fiapos de melodias. Nervos e engrenagens percorrendo o corpo inteiro, por se saber passageiro preso dentro da velha cápsula rumo do céu do infinito. Enquanto isso, as pessoas, que vêm e vão, acenam pela porta entreaberta nos cumprimentos agradáveis de parceiros da jornada em outros veículos iguais. Sabe que elas gostam dele. Respeitam sua história, sem com isso poderem sentir o tamanho da dor de existir que lhe fere o peito com a intensidade dos mil sóis.

Se as frestas todas se abrissem num único instante por certo dividiriam o passado interminável por milhões, daí querer responder a questão do porquê do que atravessa premido naquelas circunstâncias. Pisa quase automaticamente os passos que caminha. Solto pelo ar, voa integrado ao corpo do bólide que conduz, na missão da vida. Passageiro, comandante, deus. Olhos acesos, de algum ponto do espaço lhe contemplam o andamento da jornada. Deixaram de compor o quadro interior dos pensamentos, pois revelaram pouca razão de pensamento. Eles desaparecem do jeito que chegam, longe de mudar o nível de energia que alimenta os motores da nave.

Com isso, dias passam, os astros, os animais, as cores, as visões fantasmagóricas do destino, as amarguras, os sonhos. Passam, passam, passam pelas janelas, mexendo nos sentimentos. Pequenos filamentos de antigos módulos formam os restos das bodas que sumiram no escuro dos mares, fora, no céu imenso. Só permanece consigo os traços deste presente que unem com o presente seguinte, quais bolhas que nunca param de formar novos mistérios do foco de existir. Só isto. E sabe que há tantas conexões disponíveis todo tempo. Elas aparecem num dos lados da tela principal.

Ideia da transposição das águas do Rio São Francisco partiu de um cratense


  Segundo a Wikipédia (*) “A ideia de transposição das águas do rio São Francisco remonta à década de 1840, no tempo do Império do Brasil sob o reinado do Imperador  Dom Pedro II, já sendo vista, por alguns intelectuais de então, como a única solução para a seca do Nordeste. Os dois anos de estiagem que o Nordeste enfrentou – de 1844 a 1845 – motivaram o intendente (era assim que se denominava os “Prefeitos” naquele tempo)  da comarca do Crato, no Ceará, engenheiro Marcos Antônio de Macedo, a propor um projeto para trazer água do São Francisco para o seu estado.

Rio São Francisco no tempo do Brasil Imperial

    “O canal partiria de Cabrobó, em Pernambuco, para abastecer o Rio Jaguaribe, um dos principais do Ceará. Foi o primeiro projeto de transposição das águas do rio São Francisco, elaborado em 1847. Naquela época, não foi iniciado o projeto por falta de recursos da engenharia. 30 anos se passaram sem que o Imperador Dom Pedro II tomasse conhecimento do ousado plano, até que o Nordeste enfrentou uma das mais terríveis secas de sua história, conhecida como a “Grande Seca”, de 1877 a 1879. Toda região foi afetada, contudo a província do Ceará foi a mais atingida, onde cerca de 10% da população morreu (a província tinha por volta de 800 mil habitantes). Desistiu de retomá-lo, porém, porque estudos feitos pelo Barão de Capanema demonstraram não haver recursos técnicos para fazer com que as águas transpusessem a Chapada do Araripe, localizada na divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco.

    Nos últimos 12 anos do Império, o parlamento brasileiro sempre recusou as propostas do imperador para a construção de um canal de transposição, alegando que tal idealização tratava-se de uma obra faraônica e de elevado custo. Dom Pedro II vendeu joias, obras de arte e pinturas para arrecadar fundos a fim de custear as obras, entretanto, a quantia obtida era insuficiente.

     Depois da seca de 1877, o imperador envia uma equipe de engenheiros para a região nordestina para estudar as possibilidades de projetos de engenharia com a intenção de amenizar as consequências das secas. Os resultados desses estudos, realizados por engenheiros brasileiros e ingleses, indicaram a construção de barragens ou açudes. O Açude do Cedro, em Quixadá,  foi umas das primeiras grandes obras de combate à seca realizadas pelo Governo Imperial. A ordem de construção foi dada por Dom Pedro II em decorrência do grande impacto social provocado pela seca de 1877, porém o início das obras deu-se durante os governos republicanos entre 1890 e 1906.

(*)  https://pt.wikipedia.org/wiki/Transposi%C3%A7%C3%A3o_do_rio_S%C3%A3o_Francisco

Águas da Transposição: Ceará tem potencial para quadruplicar área irrigada, diz secretário

Fonte: “Diário do Nordeste”, 27-06-2020, por Carolina Mesquita


     As águas do Rio São Francisco chegam ao Ceará trazendo mais do que a garantia do abastecimento para o consumo humano em período de estiagem. O agronegócio local também comemora e será efetivamente beneficiado, abrindo possibilidade de expansão da produção. Segundo o secretário executivo do agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Estado (Sedet), Sílvio Carlos Ribeiro, o Ceará possui potencial para quadruplicar a área irrigada, totalizando 300 mil hectares.

     Atualmente, segundo Ribeiro, são apenas 70 mil hectares utilizados. Com mais recursos hídricos disponíveis, o crescimento da produção é natural. "É um momento histórico e importante para a economia. Até hoje, tínhamos a necessidade de ter segurança hídrica para diversos setores da economia. Desde 2012, quando começamos a enfrentar essa seca sem precedentes, o agronegócio vem com essa preocupação. Essa nova disponibilidade de água permite fazer um investimento, desenvolver a área irrigada, sabendo que será possível produzir por dois, cinco, dez anos. É um conforto maior", afirma.

Exportação
     Além da área irrigada propriamente dita, o Ceará tem diferenciais que também devem atrair mais investidores daqui para frente, entre os quais condições logísticas favoráveis à exportação e certificações de áreas livres de pragas, além do atual comportamento do câmbio e a abertura de mercados internacionais para a produção brasileira.

      Tendo isso em vista, a fruticultura deve ser uma das atividades mais beneficiadas com a Transposição. Por ter valor agregado mais alto que os grãos, por exemplo, e boa aceitação no mercado externo, as frutas passam a ser o foco dos negócios. Com produtos de maior valor, a participação do agronegócio no Produto Interno Bruto (PIB) cearense pode crescer em ritmo ainda maior que a área irrigada.

"Se nós só dobrarmos a área irrigada atual, para 140 mil hectares, apenas com fruticultura, o PIB agropecuário será bem maior do que se mantivéssemos as safras já existentes", ressalta Ribeiro.
Com a disponibilidade de recursos hídricos, novas colheitas poderão passar a ser cultivadas em solo cearense, hoje muito concentradas apenas no melão e melancia, além de garantir a produção de culturas permanentes, como a banana e a laranja.

"Tendo essa segurança hídrica, podemos diversificar as frutas no Estado. E mesmo quando se tiver pouca chuva, não teremos de deixar de plantar, como antes. Outros mercados estão se abrindo, como a China para o melão. Se começarmos a exportar para lá, teremos de ter mais área", aponta Luiz Roberto Barcelos, presidente da Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas)".

     Ele ainda ressalta que as culturas com maior valor agregado e possibilidade de dar retornos mais consistentes serão as principais beneficiadas devido ao alto custo para a utilização das águas do Rio São Francisco. "Vários setores serão beneficiados, inclusive a pecuária com alimento para o gado. A fruticultura, sem dúvidas, será muito beneficiada", aponta Barcelos.