08 junho 2020

Lá um dia - Por: Emerson Monteiro


Certa feita participei de um curso de contar histórias (estórias, qual diziam antigamente). A professora, depois de toda a explanação do material didático, nos passou de tarefa a elaboração de uma peça que correspondesse ao que havíamos aprendido. Dentre as determinações rígidas exigia a necessidade inevitável de que as histórias devessem principiar com o clássico Era uma vez, pois dizia que assim, e só assim, começavam as narrativas que se prezam.

Era uma vez, pois, apesar de querer contestar frontalmente a mestra daquele curso, era uma vez uma humanidade vivendo num mundo suspenso no ar dos universos, espécie de globo em movimento constante, inevitavelmente exato, perfeito e submisso a leis inderrogáveis, sofisticadas e profundas. Decerto, sem sombra de dúvidas, ambos, humanidade e mundo, criados por Ser soberano e único.

Cercados de extremas exatidões matemáticas, somos esses tais seres humanos trazidos aqui vindos de não sei ainda onde e guiados não sei ainda aonde. Envoltos nos mistérios e segredos de tudo enquanto, olhos postos nas estrelas ou na linha do horizonte, questionam a si e esgotam as inúmeras oportunidades que os levariam a revelar do enigma a origem, vagos sábios de mentes sombrias, que buscam no tempo o que só viverão na Eternidade.

Esses autores de histórias impossíveis apenas habitam o solo que lhes colherá as sementes de novas gerações. Heróis anônimos das próprias lendas, narram fábulas de gigantes milenares e sofrem fantásticas visões ao sabor dos sonhos, escravos e senhoras das interrogações pessoais. Sabem que são meros alienígenas que retornarão aos céus e aguardam as naves que virão sob imensa tempestade. e que lhes sofrerão de saudade maior que o firmamento que a tudo envolve.

Por isso, passageiros da agonia e do tempo, trocam de papéis cientes de guardar na alma o senso dessa revelação que virá, passados que sejam os dias e as horas, fiéis ledores da sorte nas portas do Infinito. Os profetas e os santos, no entanto, já avisaram que nada estará de todo perdido para sempre, disso eles têm certeza.