03 junho 2020

A hora da Razão - Por: Emerson Monteiro


Dentro das minhas lembranças de criança, lá um dia, por volta dos quatro anos de idade, fui com minha mãe visitar amiga sua que morava na Rua São Francisco, próximo à igreja do santo, no Bairro Pinto Madeira, em Crato. Chegáramos ao bairro alguns meses depois de virmos de Lavras da Mangabeira. Naquela tarde, sei bem não, estávamos na pequena residência, nessa visita, onde demoraríamos só pouco tempo, mas o suficiente a que eu presenciasse passar cena que marcou momentos posteriores. Viria passar em frente à casa um enterro, féretro de algum morador daquela área. Observador contumaz, notei o movimento daquelas pessoas a transportar a urna mortuário e quis saber do que aquilo se tratava.

Até então, vivendo na fazenda dos meus avós, nunca soubera detalhes do jeito de devolver a matéria ao chão; noutras palavras, desconhecia o suplemento de viver que espera a todos logo ali no final da curva da existência. Aliás, sabia que os bichos morrem, lógico, pois via morrerem os carneiros, os animais de quintal, frangos, galinhas, que eram levados à força ao repasto das pessoas. No entanto ignorava por completo aonde terminavam os humanos, revelação vinda naquela tarde fria, em Crato.

Primeiro contato direto com o derradeiro ato deste plano, isso mexeu nas minhas imaginações. É tanto que ainda agora lembro e conto. Causou espécie ao juízo do menino que, talvez, desconfiasse tivesse vindo aqui e permanecer feito Ahasverus, personagem de Machado de Assis, que não morreria jamais. Desde então pretendo me acostumar com a ideia da morte. Nos conventos, segundo consta das lendas, os religiosos adotavam usar crâneo envelhecido sobre os livros em que meditavam, isso na intenção de preservar em seus pensamento a imagem do que virá adiante, ao baixar o pano do espetáculo.

Muitos fazem de conta que não é consigo o drama dessa página conclusiva, e insistem nas paixões desenfreadas, nos distúrbios e nas festas. Quantas opiniões a respeito, do que poucos reconhecem inevitável. Existe até frase atribuída a um sábio que diz: Viva como se nunca fosse morrer, e morra como se não tivesse aqui vivido. Enquanto eu sigo buscando compreender melhor esse assunto dogmático e certo.

Crato: mesmo sem a presença do povo, Igreja Católica promoveu a Coroação de Nossa Senhora


Fotos: Site da Diocese de Crato

   A solenidade religiosa da Coroação da Virgem Maria, uma das mais belas tradições católicas de Crato – realizada todo dia 31 de maio, desde 1900, há 120 anos – não sofreu solução de continuidade em 2020, apesar da pandemia do coronavírus.

   A coroação da imagem da Santíssima Virgem ocorreu em ambiente fechado, no altar-mor da catedral de Nossa Senhora da Penha, sob a presidência do Bispo Diocesano, Dom Gilberto Pastana de Oliveira. Segundo o site da Diocese de Crato: “O altar, ornado com flores, trazia no centro a singela imagem de Maria sob o título de Nossa Senhora de Fátima, que em sua história impeliu a humanidade a busca da Oração incessante pela Paz no mundo. Excepcionalmente neste tempo de Pandemia, onde a aflição e o medo brotam nos corações dos homens, Maria reforça a súplica ao seu Filho para que não os desampare, mas livre-os do Mal”.

História da Coroação

   A tradição de coroar a imagem da Virgem Maria foi introduzida na Cidade de Frei Carlos, em 1900, pelo então Vigário Padre Quintino Rodrigues, depois primeiro bispo de Crato. Desde então, todos os anos, os párocos/curas da Catedral de Crato sempre se esmeraram em proporcionar aos fiéis um belo espetáculo de beleza e fé.

    É de Olga Gomes de Paiva, ex-Chefe da Divisão Técnica do Iphan-Ceará, esta declaração: "A Coroação de Nossa Senhora, na Catedral de Crato, é uma das mais belas celebrações católicas no Ceará! A participação das crianças, com suas famílias, é a constatação do repasse de importante tradição cultural que, sem nenhuma dúvida, representa o fortalecimento dos laços familiares, nos quais se destaca o respeito pela figura materna e o enaltecimento para nós, mães de família. O patrimônio imaterial do Cariri não poderia ser mais bem representado do que nessa solenidade de coroação da Virgem Maria na cidade de Crato!". 

A imagem coroada em 2020

   Este ano a imagem coroada foi a histórica escultura, do altar de celebração de Nossa Senhora de Fátima, venerada na capela lateral esquerda da catedral de Crato. Trata-se de uma imagem com cerca de um metro de altura, esculpida em Portugal, em 1954, por Guilherme Thedin, o mesmo escultor da imagem-peregrina de Nossa Senhora de Fátima que peregrinou pelo mundo inteiro. Para a confecção dessa imagem – ofertada à catedral pelo Sr. João Bacurau – seguiu de Crato para Portugal um toro de cedro brasileiro. A capela onde ela é exposta, construída por monsenhor Rubens Gondim Lóssio, foi inaugurada, em 8 de dezembro de 1955.

(Texto de Armando Lopes Rafael)