13 maio 2020

Os cartões corporativos "republicanos" – por Armando Lopes Rafael


   Acho risível ver certos figurões políticos brasileiros declarando, em entrevistas, que “precisamos agir republicanamente” (SIC) na “luta contra a corrupção”, ou “defendendo a moralidade pública”. Ora, me poupem! Implantada no Brasil, pelo golpe de 15 de novembro de 1889, esta República nunca foi paradigma de seriedade, competência, parcimônia ou honestidade para gerir a “res pública” (sentido literal de “coisa pública”).

       Uma coisa esquisita são os tais “cartões corporativos” do Governo Federal. Trata-se de um meio de pagamento utilizado de forma similar a um cartão de crédito. Esses cartões corporativos são utilizados na Presidência da República para compras de caráter excepcional e eventual, que não possam subordinar-se ao processo normal de licitação. Ou seja, é uma carta branca dada ao Presidente e seus parentes, para   gastarem na manutenção dos palácios, recepções imprevistas e viagens nacionais e internacionais.   

        Segundo o jornal “O Globo”, edição de ontem, 12 de maio, os gastos com cartões corporativos da Presidência da República, nos 3 primeiros meses de 2020, são os maiores desde 2014, época da farra do (des)governo de Dilma Rousseff. O jornal publicou que só de janeiro a março de 2020, os valores com gastos esses cartões somaram R$ 6 milhões e 200 mil reais (R$ 6.214.967,31). A Presidência da República justificou que foram gastos com voos feitos à China para trazer brasileiros e comprar materiais/medicamentos para combater o corona vírus.

        Verificando informações mais antigas, disponíveis no Portal da Transparência do Governo Federal, até então o maior valor de gastos desses cartões, nos 3 primeiros meses do ano, foi em 2014, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Naquele ano, foram gastos R$ 4 milhões e 700 mil reais (R$ 4.765.802,69), em valores corrigidos pela inflação.  Para finalizar meditem nesta informação: “Desde 2003, nos governos Lula e Dilma, ambos gastaram mais de R$ 670 milhões de reais com cartões corporativos. Tudo na conta do contribuinte. Alegando garantia da “segurança da sociedade e do Estado”, cerca de 95% dos gastos da Presidência de Lula e Dilma são classificados como sigilosos” (Fonte: site Jusbrasil.  link: sigilososhttps://folhapolitica.jusbrasil.com.br/noticias/381810779/gastos-de-r-670-milhoes-de-dilma-e-lula-em-cartoes-corporativos-foram-mantidos-sob-sigilo.

         E ainda vem deputados/senadores e ministros dizendo que precisamos agir “republicanamente”.

Dona Sônia, “mãe-companheira”



Maria Sônia Férrer Bezerra
*  17/01/1936
+ 12/05/2020

Não há como negar que as profusas mortes anunciadas nesses tempos coronavíricos, já não nos sensibilizam tanto. Isso porque se transmutam em meras cifras que escamoteiam as vidas ceifadas. E nossos corações empedernidos, mal acostumados na aparente dureza, até se consideram imunes de sofrimento por conta das dores alheias, distantes e anônimas.

Ledo engano! A vida, sempre mestra, ensina que somos elos de uma mesma corrente. Uma lição que se aprende, principalmente, em momentos de perda e de dor. É preciso reatar (e realçar) cada elo partido. Não se tratam de meros “números”. São seres humanos com rostos, nomes, sonhos e histórias de imensos significados e valor.

Dona Sônia é mais um desses elos que partiu, libertando-se dessa corrente material. Seu legado, no entanto, permanecerá.

Mãe que amou e educou os filhos, naturais, afins e adotivos, sem que essas inoportunas dicotomias fossem necessárias. Companheira que lutou pela justiça, ao lado dos necessitados e oprimidos, sem que esses às vezes inadequados chavões tivessem sido inapropriados. Mulher que desafiou seu tempo, superou limitações, venceu vicissitudes e tornou-se vitoriosa.

Dona Sônia é tudo isso e muito mais. Na sua simplicidade, não alardeou seus feitos, à moda do farisaísmo tão em moda. Sua casa sempre aberta, sua mesa sempre posta. O pouco lhe era muito e o muito lhe era pouco. Não tinha limites para servir ao próximo.

Da mesma forma, palavras não são suficientes para descrever-lhe. Só o sentimento permitido pelo convívio poderá vislumbrar um átimo de sua grandeza.

Deixará saudade, na certa. Mas uma saudade devidamente saldada. Afinal, o paradoxo é revelador de sua coerência: nos primeiros momentos após sua partida já deixou a sensação de uma lacuna completamente preenchida. Isso devido a certeza do dever cumprido.

Carlos Rafael Dias
Crato, 13 de maio de 2020.