02 maio 2020

Para você Refletir ! Por Maria Otilia.



   Posto abaixo, um texto maravilho do do Padre Elias, para que façamos uma reflexão sobre o mistério da vida Façamos uma boa leitura.

                                 Aceitar o Mistério da Vida".

            É inegável que há momentos na vida em que todas as razões que possuímos para viver, vêem-se completamente abaladas e      fadadas ao fracasso.São momentos onde nada    parece     fazer   sentido.Tudo   é     absurdo, injusto e desprovido de qualquer lógica.


Nessas horas, diante de acontecimentos que nos são inteiramente estranhos e sobre os quais não temos nenhum controle, resta-nos uma atitude de lucidez, que é a seguinte: aceitar a vida como um mistério, um grande e maravilhoso mistério! E sabermos que, por sua própria natureza, o mistério não foi feito para ser explicado e entendido, e sim contemplado, vivenciado e celebrado.

 Afinal, se estivermos atentos, logo perceberemos que o universo é sem porquê. A rosa floresce sem porquê, o pássaro canta sem porquê, nossas unhas e cabelos crescem sem porquê, nossos corações pulsam... tudo sem porquê! Trata-se, aqui, de acolhermos o não-sentido, a absurdidadeque é a vida; a mais absoluta falta de lógica, em boa parte das coisas que acontecem.
Talvez, somente quando fizermos isso, de forma consciente, é que teremos condições de viver de verdade, abrindo-nos, definitivamente, a um sentido mais sublime, mais profundo, inacessível à razão e compreensível apenas com coração, com a alma.

É exatamente isso que nos contam as Sagradas Escrituras quando, por exemplo, falam de Maria, a mãe de Jesus, afirmando que "Ela guardava tudo no seu coração."
Maria, como ninguém, soube curvar-se frente ao Mistério!Mas, para isso, precisou acionar o "depósito do Coração," uma vez que o "depósito da razão" já nada conseguia alcançar daquilo que lhe acontecera: abandonar o seu projeto pessoal, dizer sim a um outro projeto, engravidar sem a participação do esposo, tornar-se mãe, enfrentar a sociedade... depois, ver o seu próprio Filho ser condenado, torturado e morto numa cruz.Era muito para a sua cabeça! Nada daquilo cabia-lhe dentro!

A propósito, lembro, aqui, o Pe. Quevedo, de saudosa memória. Ele, muitas vezes, ao expor suas controversas idéias, nos cursos que ministrava, quase sempre ouvia a reação de alguém do público, que dizia: "Mas, padre, isso não cabe na minha cabeça."
Ele, prontamente, respondia: "Então, das duas uma: ou você corta a cabeça ou alarga a cabeça."Maria soube alargar a sua cabeça, conectando-a ao seu coração; a esse reservatório infinitamente maior; o espaço da alma, por excelência.

 E como diz o poeta, Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena."
 Isto é, se a nossa mente não é estreita, tudo cabe dentro dela; nada fica de fora, por mais estranho e absurdo que possa parecer. Aliás, se pegamos uma mão cheia de barro e jogamos em um copo com água, toda a água fica suja, imediatamente. Porém, se jogamos essa mesma mão de barro no oceano, não haverá a mínima alteração na água.Logo, o desafio que a vida nos faz, hoje, é que deixemos de ser copos e passemos a ser oceanos, vastos e abrangentes como o próprio Deus.

Desse modo, poderemos, finalmente, libertar-nos dessa necessidade recorrente, de querer explicar tudo, a todo instante.Mesmo porque, a nossa mente é extremamente limitada diante da grandiosidade da vida.
Ademais, o fato é que estamos cansados de explicações que, por mais que tentem, nunca explicam!Talvez tenha chegado a hora de confiar, de aceitar, de entregar-nos!

 Confiar é permitir que as coisas e as pessoas sejam do jeito que são, e saber que nós não temos domínio sobre elas. Inclusive, se tudo fosse do jeito que queremos, quem nos garante que seria melhor do que é? Por acaso, somos mais inteligentes do que o próprio universo? Do que o próprio Criador?Não é sem razão que a sabedoria popular, na sua intuição certeira, insiste em dizer que "Deus escreve certo por linhas tortas."
E, mais uma vez, recorrendo à memória dos Textos Sagrados, todos conhecemos a fabulosa história de Jó.Ele, após ter perdido tudo o que tinha: suas riquezas, sua saúde, seus filhos... dizia: "Deus me deu, Deus me tirou. Bendito seja Deus!" (Jó, 1, 21).

Ele não dizia: "Deus me deu. O demônio me tirou. Maldito seja o demônio!"
 Nessa perspectiva, todas as vezes que o inadmissível, o absurdo, o demasiado injusto, se apresentarem à nossa frente, convém lembrar-nos de que, talvez, seja Deus mesmo que vem até nós, uma bênção "disfarçada" de infelicidade.

E, muitas vezes, o "disfarce" é tão perfeito, que nós não o reconhecemos e sequer sonhamos com essa possibilidade.Nessa hora, tudo o que se pede é que confiemos.Confiemos para além de toda a desconfiança. Confiar, portanto, significa deixar que o universo faça o seu trabalho, siga o seu curso, realize a sua tarefa.
 Significa, também, deixar-se surpreender pela vida; aceitar a novidade de cada dia, boa ou má; viver continuamente surpreendido e, sobretudo, fazer dessa surpresa uma condição permanente, nossa companheira inseparável.

Se assim o fizermos, certamente, teremos encontrado o melhor e mais eficiente mecanismo de proteção pessoal que algum dia sonharíamos encontrar, não importando a forma concreta e sempre imprevisível que a vida escolher para se apresentar diante de nós, a cada instante.

 Confiemos, então, e tudo dará certo!

(Pe. Raimundo Elias, Vig. Paroquial de N. Sra. de Fátima - Crato)