07 março 2020

A culpa não é do eleitor – por Marcos Lefreve (*)



      Brasileiro não sabe votar. Essa falácia é desmontada pelo artigo A crise na representação que ainda assola o País, de José Nêumanne (publicado no  Estadão). Conforme aponta o articulista, 93% dos deputados ocupam seus cargos graças aos puxadores de votos do seus partidos. Aponta também que o voto de um eleitor em Roraima vale 13 vezes mais que o de um eleitor paulista. Adicione-se o fato de que nosso sistema político não aceita candidatos independentes, mas só os que são aprovados pelos partidos, que em sua maioria têm donos, que ainda distribuem as verbas eleitorais – por si sós injustificáveis – aos candidatos de sua preferência.

Esses e outros fatos evidenciam que o erro está no sistema político, e não no coitado do eleitor. A questão é: como mudar isso, se os maiores interessados na manutenção desse sistema injusto são exatamente os que têm poder para fazer a mudança?

(*) Marcos Lefevre – e-mail: lefevre.part@hotmail.com

O afeto que se encerra – por Eliton Rosa (*)


“Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!”

(estrofe inicial do Hino à Bandeira Nacional)



Além de título de um livro, a frase acima faz parte do Hino à Bandeira Nacional, de inspiradas belas letra e música de Olavo Bilac e Francisco Braga, que traz a terna lembrança dos tempos de escola, da infância, adolescência e juventude de outras gerações, de amor à Pátria que esse hino encerra. Título apropriado para começar e permear o artigo sobre a situação que vivemos (Fabio Giambiagi, 4/3, A2).
O que fazer para conviver com a perda de sentimento por um lugar, pessoas, país de origem? Vivemos hoje um Brasil maniqueísta. Perdemos a noção de nação. Ainda pode demorar algum tempo para que “o afeto que se encerra em nosso peito juvenil” volte a florescer. Para tal é preciso alimentação, educação e saúde. Enquanto isso não se concretizar, vale lembrar a máxima cruel, dura e real: “terra é onde se vive, se trabalha, se come”, com todas as suas mazelas.

(*) Eliton Rosa – e-mail: elitonrosa@gmail.com

Marcelo Câmara e a Santidade no Direito – por José Luís Lira (*)



   Em 2013, em palestra na Ordem dos Advogados do Brasil, falávamos sobre os advogados santos, destacando o padroeiro dos advogados, Yves Hélory de Kemartin, o Santo Ivo, que viveu entre os séculos XIII e XIV na França, filho de nobres que, após estudar Direito, se tornou franciscano e depois de morto, santificado, por suas brilhantes ações em vida em prol da justiça e dos mais necessitados. Falava, então, dos candidatos brasileiros à santidade que eu havia relacionado no meu livro “A Caminho da Santidade”: Padre Dr. José Antônio de Maria Ibiapina (1806-1883), sobralense, e o Dr. Franz de Castro Holzwarth (1942-1981), nascido no Estado do Rio de Janeiro, mas, cuja causa corre na Diocese de São José dos Campos (SP). Então, uma amiga me falou do advogado, professor e promotor Marcelo Câmara, de Santa Catarina, falecido na quinta-feira santa de 2008, em fama de santidade. Ao final da reunião, tínhamos uma foto dele.

    O tempo passou, até que em novembro de 2019, participando do VII Encontro de Postulação – Autores das Causas dos Santos – sob a responsabilidade do Dr. Paolo Vilotta, sentou-se ao meu lado, Guilherme Ferla. Era da causa de beatificação de “Marcelinho”, estava com dois sacerdotes. Um deles, o Pe. Vitor Feller, postulador. Ao ver o livro “No caminho da santidade: a vida de Marcelo Câmara, um promotor de Justiça”, de Maria Zoê Bellani Lyra Espíndola, abandonei minha habitual timidez e pedi para ver o livro, com o qual fui presenteado.

    Marcelo Henrique Câmara nasceu na véspera de São Pedro de 1979. Eu tinha pouco mais de cinco anos. Foi batizado na memória litúrgica de Santa Clara, 11 de agosto de 1979; no Brasil é o dia do advogado. Teve uma infância e juventude comuns. Entrou para a faculdade de Direito no mesmo semestre que eu entrei, só que em Santa Catarina e eu no Rio de Janeiro. Fui me prendendo à leitura detalhada e complementada. Dedicado aos estudos, num dos relatos, se vê a participação dele numa aula de História do Direito. Noutro ponto, mostra-se sua admiração pelo Vasco, também meu time e uma expressão me lembrou Jorge Luís Borges: “... se pudesse, ele viveria feliz dentro da biblioteca”.

    E Marcelo se enamorou de Deus. Depois de um Encontro no movimento católico de Emaús. Aí sua santidade se revelou e eu me lembrei do colega advogado que há tantos anos fora a Ars, França do século XIX, para ver a pregação de São João Batista Maria Vianney e voltou à sua terra dizendo ter “visto Deus num homem”. É assim o que os relatos colhidos por Zoê Espíndola, sua colega de Faculdade, em síntese, dizem. Lembrei-me do Apóstolo, “... já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20).

    O francês Victor Hugo disse ao ser eleito para a Academia Francesa: “Verdadeiramente imortais são os santos católicos que quase 2000 anos depois de sua morte ainda recebem culto”. Marcelo viveu apenas 28 anos, mas, penso que seu nome ultrapassará nossa Pátria e ele continuará a levar Cristo, no testemunho de sua vida.

     Neste domingo, 8, a Arquidiocese de Florianópolis fará a Abertura de sua Causa de Beatificação e de Canonização, com relatos diversos que apontam uma santidade genuína. E quem sabe teremos um santo que usou paletó e gravata, com riso nos lábios e que foi exemplo de humildade e ternura? Oremos!

  (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.