04 janeiro 2020

As histórias do Tatu - Por: Renato Casimiro


Podia ter sido uma leitura avexada, coisa de dois dias de inteiriço. Mas, bastou adentrar pelo Açude Velho para sentir o clima prazeroso, de aragem fresca, saída – não da ambiência do Tatu, exclusivamente, mas de uma narrativa que me prendeu por duas semanas, demoradas na percepção de um estilo memorialístico que me cativou. Dou-lhes notícia retardada do prazer que se reservou para mim neste fim de dezenove para vinte, a leitura agradabilíssima de “Histórias do Tatu”, das Lavras – ou melhor, da lavra deste Emerson Monteiro (saído pelo selo BSG, ainda em 2016, com 154p). Olhe o vexame: ignorei-o por uns três anos, achando que outras leituras de maior urgência se impunham na objetividade de um certo critério excludente, ao qual agora revejo, reformulo, penitenciando-me. Dormiu e amanheceu por dias, muitos, felizmente à sombra bem vigiada de novos livros dispostos em seletiva prateleira, até à hora aprazada da degustação. Pequena-grande obra é a sentença sincera, justificada pelo encantamento que esta narrativa de tantas lembranças culmina por encerrar. Reencontro nas escrituras de Emerson Monteiro, entre jornais, revistas e este trabalho mais recente (pelo menos para mim) virtudes extraordinárias da escrita bem nordestina, afiliada primordialmente ao ciclo do romance regional, onde sobressaem características notáveis de construção, de linguajar e da descrição preciosa de fatos e personagens memoriais. Face a uma certa modesta ilustração iconográfica, e não por isto, o livro prima pela construção literária de riquíssimos personagens, como a gente de família, criaturas marcantes da genealogia heráldica dos tempos de Fideralina Augusto Lima, e o povo circunstante, gente dos serviços, nos sítios e fazendas, tipos populares, agregados de família de riqueza inigualável. Na moldura inestimável desta ambiência – Lavras, o Salgado, o sertão. E nisto, por este último, porque não? Ser tão sertão, como a se esticar entre nós os motivos, as linguagens e os tipos “guimarãesrosados” de uma narrativa primorosa na edificação desta memória de família. Lendo suas páginas, pela precisão e concisão de suas ideias, fotograficamente apresentadas em curtos espaços de páginas, relevo a maestria do cronista/contista, como a realçar a expressão mais simples de um mestre, como aquele, também passado em Lavras – o querido Moreira Campos, a defender: “se a espingarda não é parte da trama, escreva-a, deixando-a de lado”. Nisto a lembrar a competência ancestral de cronistas e poetas lavrenses que produziram sumulas extraordinárias de verdadeiro encanto por sua terra natal, a lembrar Joaryvar, Batista, Linhares, Dimas...  Ao percorrer seus capítulos reconheço que sobram razões aos dizeres decorrentes da leitura privilegiada, por Heitor Feitosa Macedo, ao registrar que “Na obra, é marcante a dicotomia entre o mundo agrário e o urbano, entre a violência e a paz, a vida e a morte, o presente e o passado bucólico. Temas regionais como cangaço, conflito por terras; o cotidiano numa fazenda de gado e o engenho de rapadura; os mistérios de um avô austero e de uma mãe amável são contados com letra de verdadeiro beletrista”. Louvadas sejam todas as graças que nos permitem por estes tempos o encontro saudabilíssimo com obras deste naipe. Nada estranho para se falar de alguém que enterrou seu umbigo em Lavras. O Rio Salgado, o Boqueirão, o Tatu e outras paragens estão tão fortemente relacionadas à infância e à juventude que é praticamente impossível que disso não emerja uma poética, profundamente telúrica, o que encerra uma das mais concorridas manifestações literárias dentre os que se banharam por aquelas águas. Louvado seja este legado de Emerson Monteiro, ao relembrar tantas histórias do Tatu, de seus ancestrais, entre o bem e o mal, que ainda assim firma a dicotomia manifesta com a qual os velhos olhares sertanejos e rurais contemplam na planície, a distância, do tempo e dos afetos com os velhos guardados de clãs sertanejos, plenos de patrimônios, entre o material e o imaterial. Enfim, histórias de gente grande para encantar o menino que fomos. Ou como ele mesmo diz, tão sumário e tão profundo: “Em um sonho recente, me vi menino outra vez”.