10 novembro 2020

Dona Matilde, a inimiga que protegeu Bárbara de Alencar – por Armando Lopes Rafael

 

 Casa de Dona Bárbara de Alencar, localizada na Praça da Sé, em Crato. Num atentado ao pouco que resta do patrimônio arquitetônico e histórico de Crato, o imóvel foi destruído para dar lugar ao atual prédio da Coletoria de Rendas da Secretaria da Fazenda do Ceará

   O episódio que, de forma resumida, relato abaixo consta – com mais detalhes – nas páginas 70 e 71 do livro “As Quatro Sergipanas”, escrito pelo sacerdote e historiador Mons. Francisco Holanda Montenegro*.

    Dona Bárbara de Alencar tinha com Dona Matilde Telles, mãe do Juiz Ordinário de Crato, Manoel Joaquim Teles, uma intriga e rivalidade antigas por causa de política. Não se entendiam, não se cumprimentavam e nem se falavam. Aliás, uma das primeiras providências do subdiácono José Martiniano de Alencar – filho de Dona Bárbara – quando “proclamou” a Revolução Pernambucana de 1817 em Crato, foi destituir do cargo esse Juiz.

       Rechaçada a Revolução, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, os filhos de Dona Bárbara foram presos e ela se escondeu dos inimigos pensando escapar da prisão.  Na madrugada de 21 de maio de 1817, Dona Bárbara encontrava-se oculta nas imediações do Sítio Pau Seco, propriedade sua, onde passou o dia num canavial. À noite, saiu do esconderijo e tendo perdido a esperança de ver voltar seu fiel escravo – o negro Barnabé – seguiu vagando sem destino pelas matas que existiam, à época, em torno da Vila Real do Crato. Nessa andança veio parar no Sítio Miranda, mais precisamente nos fundos da casa de sua inimiga, Dona Matilde. Dona Bárbara soube que estava ali porque viu uma escrava da casa apanhando água. A escrava reconheceu Dona Bárbara e foi avisar a sua patroa.

           Segundo Mons. Montenegro, Dona Bárbara apresentou-se, então, a Dona Matilde. Esta última, com o coração aberto a tantos sofrimentos porque passava a família Alencar, abraçou a sua inimiga com lágrimas de ternura e num gesto magnânimo de generosidade, respeito e fidalguia levou-a para abrigá-la na sua casa. Fez mais. Dona Matilde mandou chamar seu filho, o Juiz Ordinário do Crato, que tinha sido readmitido no cargo, e disse a ele:

– Mande queimar todos os papéis e atas arquivados pelos contrarrevolucionários que comprometam Dona Bárbara e seus filhos

     Tempos depois, o futuro Senador e Presidente da Província do Ceará, José Martiniano de Alencar, filho de Dona Bárbara, preso nos cárceres do litoral teria reconhecido o gesto magnânimo de Dona Matilde: “Sem provas nós não poderíamos ser licitamente condenados à morte”.

* Monsenhor Francisco Holanda Montenegro, no livro "As Quatro Sergipanas". Edição da Universidade Federal do Ceará, Coleção Alagadiço Novo. Fortaleza (CE), 1996.


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