24 julho 2020

Vai, Poeta, vai ser 'gauche' noutra vida


Noite do dia 23 de julho de 2020.

Os boletins sobre a ação nefasta da Covid-19, publicados indefectivelmente todos os dias pelas principais municipalidades do Cariri, informavam: o “anjo do extermínio” continua a rondar entre nós, com sua impiedosa espada, ceifando vidas que a frieza das cifras não dá conta.

Entretanto, uma dessas vidas ceifadas não passou incólume, soterrada na vala comum da mídia dessa nova idade média.

O Poeta (assim, com P maiúsculo) Luciano Carneiro fez a travessia e foi ser gauche noutra vida.

Tombou  o Homem (com H maiúsculo) para uma “gripezinha”, como assim é tratada pela insensibilidade repugnante daqueles seres fratricidas que só vêm números e vez de letras e de poesia.

Mas, contrariando os mandatários de plantão, verdadeiros coveiros de suas próprias histórias, a passagem do Poeta Luciano Carneiro repercutiu intensamente na mídia dessa nova idade média.

Na forma de um grito coletivo, expelido pelos pulmões que não foram comprometidos por essa tal “gripezinha”,  as palavras (e não, números) de tristeza e pesar, mas de reconhecimento e gratidão,  fizeram também justiça aos que se foram sem muito alarde, soterrados pelo silencio ou desdém  dos velhos políticos e seus asseclas que nem a idade média merece.

A travessia do Poeta Luciano Carneiro, muito real e dolorosa, mas também simbólica,  é um dedo sujo tocando a ferida e apontando para o descaso para com os nossos idosos e a grande maioria dos pobres que vive à míngua e morre à toa, sem atenção básica, até no leito de morte quase sempre sem terapia intensiva.

Morre o homem, mas fica a fama, diz o dito popular que até virou samba.

Não a fama que brilha sob os holofotes da mídia dessa nova idade média.

Mas a fama dos que brilham com luz própria.

Vai, Poeta, ser gauche noutra vida.

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