31 maio 2020

A primeira grande epidemia que assolou a cidade de Crato – por Armando Lopes Rafael


    O coronavírus, ou o “vírus-chinês” – como está sendo chamado pela população – está se constituindo na segunda grande epidemia infectocontagiosa a castigar a população cratense. No século XIX, mais precisamente em 30 de abril 1862, teve início as mortes pela epidemia de cólera morbo nesta Cidade de Frei Carlos Maria de Ferrara.  Naquele ano, Crato era uma pequena cidade. 

    Sua área urbana começava na Rua da Pedra Lavrada (hoje Rua Dom Pedro II), localizada às margens do Rio Granjeiro. E o casario da cidadezinha subia até aos arredores da Rua Nelson Alencar dos tempos presentes. No sentido horizontal, Crato tinha início na atual Praça da Sé (àquela época chamado Largo da Matriz); e se estendia somente até ao “Fundo da Maca”, assim chamado alguns de terrenos baldios,  localizados no hoje final da Rua Senador Pompeu, após a igreja de São Vicente Ferrer. O surto do cólera de 1862 provocou a morte de cerca de 1.100 cratenses. Um número elevadíssimo para a época.

        A partir de uma monografia de mestrado do professor Jucieldo Ferreira Alexandre (“Impressões Sobre o "Judeu Errante": Representações Sobre o Cólera no Periódico Cratense O Araripe –1862-1864)”, defendida em 2010 – no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) –, ficamos conhecendo mais detalhes da epidemia do cólera, que causou mais danos aos cratenses do que vem causando o atual coronavírus.  Sim, porque em 1862 os infectados cratenses não dispunham de tratamento médico. Hoje, a assistência médica para os infectados pelo coronavirus é fato.  E a maioria das pessoas desempregadas está até recebendo uma ajuda – de R$ 600,00 a 1.200,00 – do Governo Federal.

             Voltemos à epidemia do cólera morbo. Segundo a monografia do prof. Jucieldo, aquele vírus entrou no Brasil pelo Estado do Pará, em 1855, por meio de uma embarcação de colonos portugueses. No entanto a epidemia só atingiu o Nordeste brasileiro a partir de 1862. Na cidade de Crato, a principal forma de transmissão da doença foi através do Rio Granjeiro, o qual, àquela época, cortava a cidade e abastecia o consumo de água da população citadina que ainda utilizava o rio para lavar roupas e tomar banho.
 
O Rio Granjeiro foi perene até a década 1930. A ação predatória da população transformou o bonito rio num canal-esgoto fedorento e feio. Foto da década 30 do século XX

               Desconhecia-se, em Crato, durante a epidemia do cólera morbo, que a doença infectocontagiosa era transmitida pela bactéria Vibrio cholerae, descoberta pelo alemão Robert Koch, o mesmo que descobriu o bacilo de Koch, que provoca a tuberculose. Em 1862, em Crato, o Governo Municipal, atendendo à recomendação do primeiro Bispo do Ceará, Dom Luís Antônio dos Santos, construiu outro cemitério, fora da cidade. Foi o chamado “Cemitério dos Coléricos”, localizado longe do centro citadino, onde hoje é a subestação de energia elétrica da Enel, próxima ao Supermercado São Luiz, no bairro São Miguel.

            Tinha razão o Bispo do Ceará ao sugerir uma nova necrópole, pois o recém inaugurado Cemitério Bom Jesus dos Pecadores (que posteriormente teria seu nome mudado para Nossa Senhora da Piedade) estava localizado a cerca de 500 metros da Matriz de Nossa Senhora da Penha, no centro da cidade. Enterrar as vítimas do cólera morbo lá, seria uma ameaça real aos habitantes de Crato.   Segundo o Prof. Jucieldo, os homens que transportavam, diariamente, dezenas de cadáveres para sepultamento no Cemitério dos Coléricos, vestiam indumentária vermelha e se embriagavam com aguardente, para realizar os enterros coletivos em vala comum.

                 Cenas como esta não se registraram em Crato na presente pandemia do coronavírus....

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