25 março 2020

Dr. Leandro Bezerra Monteiro, um brasileiro ilustre -- por Armando Lopes Rafael


Singela homenagem ao
líder católico,
político de projeção,
monarquista fidelíssimo,
cratense valoroso
e grande homem que foi
Dr. Leandro Bezerra Monteiro
Por ocasião do centenário do seu falecimento

Introdução

   A grande maioria das novas gerações brasileiras desconhece os homens que marcaram a construção do nosso país. Paradoxalmente, isso ocorre numa sociedade bem mais informada do que a existente, há cem anos. Ninguém ignora que, hoje, a mídia divulga – em tempo real – os acontecimentos, não só do Brasil, mas de todo o planeta. A Internet, televisão, rádio e jornais estão à disposição da quase totalidade da população brasileira.

   No entanto, na tarefa de informar, os meios de comunicação dão prioridade aos fatos ordinários e banais, ao grotesco, à violência, à decadência dos costumes e ao sensacionalismo. Por outro lado, a imprensa brasileira colocou no esquecimento fatos relevantes que marcaram a história da nossa pátria, além de não dar destaque às nossas mais sadias tradições cívicas e religiosas.

    O dia 15 de novembro de 2011 assinala o centenário de falecimento do advogado Leandro Bezerra Monteiro. Quem já ouviu falar neste nome? Quando muito, algumas pessoas – residentes no Cariri cearense – talvez tenham escutado rápida menção ao Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, fundador da cidade de Juazeiro do Norte e também responsável pela contrarrevolução que derrotou a Revolução Pernambucana de 1817, na cidade de Crato. O Dr. Leandro Bezerra Monteiro – do qual vamos nos ocupar agora – era neto desse Brigadeiro, de quem herdou o nome.

    Nas próximas páginas, o leitor terá acesso – de forma breve, é verdade – a algumas informações sobre o Dr. Leandro Bezerra Monteiro, que deixou sua marca como líder católico e homem público exemplar.

Biografia

    Leandro Bezerra Monteiro nasceu na cidade de Crato, no dia 11 de junho de 1826, filho primogênito do Coronel José Geraldo Bezerra de Menezes e de Jerônima Bezerra de Menezes, sendo seu avô o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, de quem herdou o nome. Descendia de uma família que se transportou de Portugal para o Brasil, acompanhando o primeiro donatário da capitania de Pernambuco, aí fixando residência. Tempos depois, membros dessa família, já nascidos no Brasil, migraram para o Ceará. Aqui, à custa de trabalho e honradez, atributos que sempre caracterizaram o clã, ganharam destaque na vida sócio-econômico-política da terra cearense.

    Leandro Bezerra Monteiro começou seus estudos em Crato e, na sequência, frequentou escolas nas cidades de Jardim e Icó, sendo posteriormente aluno do Liceu, em Fortaleza, capital do Ceará. O curso de humanidades, concluiu-o no Colégio das Artes, em Olinda. Em 1847, com vinte anos de idade, iniciou o curso de Ciências Sociais e Jurídicas, na Academia de Direito de Pernambuco, onde recebeu o título de Bacharel, em 1851, com vinte e cinco anos de idade.

    O ano 1852 vai encontrá-lo com residência em Sergipe. Aí, em 31 de janeiro, ocorreu o seu casamento com uma parenta, Emerenciana de Siqueira Maciel Bezerra, oriunda de um dos clãs mais importantes da então província de Sergipe del Rey. Durante seis anos, foi magistrado em Sergipe. Atraído pela política, foi eleito vereador e presidente da Câmara de Maruim, sendo eleito, também, deputado provincial (hoje deputado estadual). Em 1860, conseguiu o mandato de deputado geral (hoje deputado federal).

    Em 1863, já com residência na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império, seu mandato de deputado geral terminou com a dissolução da Câmara, como era prática no sistema parlamentarista, que vigorava, àquela época, no Brasil. Sem mandato, o Dr.Leandro mudou-se com a família para a cidade de Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro, onde passou a atuar como advogado, em sociedade com seu primo, Dr. Leandro Ratisbona. Em pouco tempo, Leandro Bezerra conquistou a simpatia da população de Paraíba do Sul, graças a sua postura exemplar, aliada à competência profissional. Consta que nunca aceitou advogar contra os fracos e, sempre que possível, procurava um acordo que não prejudicasse as partes litigantes. Naquela cidade fluminense, foi colaborador dos jornais “O Paraybano” e “O Provinciano”. Lá fundou a Casa de Caridade e o Asilo Nossa Senhora da Piedade, destinados ao tratamento de doentes e à educação gratuita de crianças pobres. Graças a esses serviços, foi vereador por doze anos, oito dos quais como presidente da Câmara Municipal de Paraíba do Sul.

    Em 1872, foi novamente eleito deputado geral pela província de Sergipe. Foi nessa legislatura que o Dr. Leandro Bezerra Monteiro ganhou fama nacional, devido ao episódio que passou à história do Brasil, como a “Questão Religiosa”.

O líder católico

     A "Questão Religiosa", chamada no início de “Questão Maçônica”, foi um conflito ocorrido no Brasil – no último quartel do século 19 – entre a Igreja Católica e a Maçonaria, esta apoiada pelo Governo Imperial. Em maio de 1872, o Bispo de Olinda, Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, após várias e seguidas admoestações, interditou uma confraria religiosa em Recife, da qual faziam parte dois padres e vários leigos. Todos eles se recusaram a abandonar a Maçonaria, apesar da nova proibição de católicos pertencerem a lojas maçônicas, feita pelo Papa Pio IX, através da Encíclica "Omi Pluribus", de 1864. Também o bispo do Pará, Dom Antônio Macedo da Costa, adotou idêntica providência, na sua diocese. Ambos foram processados e presos por ordem do presidente do Conselho de Ministros, Visconde do Rio Branco, que era o grão-mestre da Maçonaria, no Rio de Janeiro. Este defendia a opinião de que, em face da união do Estado com a Igreja Católica – prevista na Constituição de 1824 –, além do fato de o governo bancar as despesas com o sustento do clero, as bulas papais condenando a Maçonaria só teriam validade no Brasil, se o Imperador assim o permitisse.

    Como os dois bispos não recuaram de suas decisões, o Visconde do Rio Branco mandou prendê-los, em 1873. Dom Vital e Dom Macedo Costa foram transferidos para o Rio de Janeiro, onde foram condenados a trabalhos forçados, por quatro anos. Como era previsível, o fato causou grande revolta, junto à sociedade brasileira, àquela época majoritariamente católica. O Parlamento brasileiro passou a ser o foco dos debates entre os que apoiavam os bispos e os que defendiam a decisão do Visconde do Rio Branco.

    Os vários pronunciamentos feitos na Câmara pelo deputado Leandro Bezerra Monteiro, em defesa dos bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa, constituiram-se em peças oratórias de grande coragem. Ninguém o excedeu, neste mister, naqueles momentos difíceis para a Igreja Católica no Brasil. Seus discursos tinham grande repercussão em todo o Brasil e até no exterior. Em Portugal, o Padre Senna Freitas, conhecido literato e polemista, publicou um livro, “Escritos Católicos de Ontem”, no qual, com grande entusiasmo, reproduziu e comentou um discurso proferido por Leandro Bezerra Monteiro, em defesa dos bispos. Naquele período, era comum chegarem ao gabinete do deputado Leandro Bezerra mensagens de congratulações e apoio de todas as províncias brasileiras. Certa vez, recebeu ele, de Minas Gerais, uma moção de apoio com centenas de assinaturas, em forma de abaixo-assinados.

    Em 1875, com a formação de novo Conselho de Ministros – agora sob a presidência do Duque de Caxias – e fruto também de um trabalho persistente da Princesa Isabel, em defesa dos dois prelados, o imperador Dom Pedro II concedeu anistia aos bispos, encerrando a “Questão Religiosa”.

Um bonito ocaso de vida

    Desgostoso com a indiferença do povo de Sergipe em relação à “Questão Religiosa”, Dr. Leandro Bezerra Monteiro apresentou-se, novamente em 1877, como candidato a novo mandato de deputado geral, mas agora pelo seu Estado natal, o Ceará. Eleito, voltou à Câmara de Deputados, mas seu mandato foi interrompido, em 1878, devido à ascensão do Partido Liberal. A partir daí, não mais conseguiu novos mandatos. Afastado da política, o golpe militar, que derrubou a monarquia e instaurou a forma de governo republicana, em 1889, veio encontrá-lo como advogado e empresário rural, em Paraíba do Sul. No entanto, manteve-se fiel ao seu ideal monárquico, ao tempo que via, decepcionado, antigos companheiros aderirem ao novo regime implantado pelo Marechal Deodoro.

    Depois disso, mudou-se com a família para um subúrbio de Niterói – o Fonseca – onde viveu os últimos anos de vida ensinando catecismo às crianças que se preparavam para a primeira comunhão. Nessa localidade, com tempo suficiente, lia, rezava e praticava os preceitos e obrigações da Igreja Católica Apostólica Romana.

     Faleceu em 15 de novembro de 1911. Conforme escreveu o Barão de Studart, no livro “Dicionário Biobibliográfico Cearense”, Volume II, publicado em 1913: “O enterro do Dr. Leandro Bezerra Monteiro foi uma procissão, abalando uma multidão enorme e para mais de 200 crianças – meninos e meninas – que o amavam de coração”.

O reconhecimento de sua cidade natal

    Crato soube reconhecer o exemplo de vida do seu ilustre filho. Transcrevemos abaixo um trecho escrito por Raimundo de Oliveira Borges, constante no livro “O Crato Intelectual”, onde é destacada uma homenagem que o poder público municipal de Crato prestou à memória do Dr. Leandro Bezerra Monteiro.

    “Reconhecendo-lhe os inúmeros e incontestáveis méritos, pelos inestimáveis serviços prestados (por Leandro Bezerra Monteiro) não apenas à terra natal como ainda ao País inteiro, Crato rendeu-lhe expressiva homenagem, dando o nome à antiga Rua da Glória, através do Decreto nº 7, de 21 de Novembro de 1944, firmado pelo então Prefeito, Dr. Wilson Gonçalves, e que traz também com muita honra para mim, a minha assinatura na qualidade de Secretário que era, àquele tempo do aludido Prefeito Municipal.

    Este diploma legal está na íntegra transcrito na revista Itaytera, nº 16, página 54, ano 1972. Nele, diz o chefe da comuna em um dos seus considerandos:

“Considerando que o ilustre morto, preclaro filho do Crato, é merecedor da admiração dos seus pósteros pelos relevantes serviços prestados à Pátria, através de uma atuação brilhante, fecunda e destemida no Parlamento brasileiro e em outros setores da vida nacional, jurídica e religiosa do País, na qual deixou patente, por mais de uma vez, o seu talento, a sua bondade e a sua inexcedível honestidade, decreta:

Art. 1º – Passa a ter denominação de “Dr. Leandro Bezerra Monteiro”, como homenagem ao ilustre cratense, a atual Rua da Glória.

Art. 2º – O presente decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

                                                    Prefeitura Municipal do Crato em 21 de Novembro de 1944.
                            Wilson Gonçalves – Prefeito Municipal
                            Raimundo de Oliveira Borges – Secretário”

Cronologia

1826 – Nasce na cidade de Crato.
1847 - Inicia o curso de Ciências Sociais e Jurídicas, na Academia de Direito de Pernambuco, com vinte anos de idade.
1851 – Recebe o título de Bacharel, aos vinte e cinco anos de idade.
1852 – Fixa residência em Sergipe, onde se casa, em 31 de janeiro, com uma parenta, Emerenciana de Siqueira Maciel Bezerra.
1860 – Eleito deputado geral (hoje deputado federal), por Sergipe mandato interrompido em 1863 por dissolução da Câmara.
1864 – Fixa residência na cidade de Paraíba do Sul, estado do Rio de Janeiro.
1872 – Eleito, mais uma vez, deputado geral por Sergipe. Nessa legislatura ganha destaque nacional pela defesa que faz dos bispos de Olinda, dom frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira e do Pará, dom Antônio Macedo Costa, processados e presos pelo Governo Imperial.
1877 – Eleito, novamente, deputado geral, agora pelo Ceará, mandato interrompido em 1878 pela ascensão do Partido Liberal.
1880 – Em 31 de julho é iniciada construção da Casa de Caridade de Paraíba do Sul, que foi concluída e inaugurada em 4 de abril de 1883.
1889 – No dia 15 de novembro um golpe militar, comandando pelo Marechal Deodoro, derruba do trono o Imperador Dom Pedro II e instaura a forma de governo republicana no Brasil.
1911 – No dia 15 de novembro morre no bairro Fonseca, em Niterói.


Bibliografia

Livros
BORGES, Raimundo de Oliveira. O Crato Intelectual. Crato (CE): Coleção Itaytera, 1995.
NASCIMENTO, F.S. Clã Bezerra de Menezes. Fortaleza (CE) Editora ABC, 1977.

Artigos
– Jornal “O Fluminense”, Niterói (RJ), edição de 11 de junho de 1907.

Um comentário:

  1. Ates de tudo parabéns caro Armando. Quero deixar aqui registrado a admiração que tenho pelos escritos incansáveis que tem feito. A pena primorosa e a consciência histórica aliadas em um só homem são raras nos tempos de hoje. É sempre bom fazer luz a fatos tão importantes que de um modo geral passam despercebidos tanto a imprensa quanto a pseudo-educação que temos em todos os cantos do país.

    ResponderExcluir

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.