26 janeiro 2020

Canto de Menestrel – por José Luís Lira (*)



Nesta coluna, comentarei o livro de Neil Silveira, “Canto de Menestrel”, lançado semana passada na Academia Sobralense de Estudos e Letras. O autor exerce belas profissões, a advocacia e o jornalismo, não bastassem essas é professor, participa de entidades de classe e é imortal da Academia Cearense de Letras Virtual: ACLV, inovação dos tempos atuais. Sempre suspeitei de suas aptidões para a literatura. Até pensei que ele se candidataria à cadeira de seu pai, meu saudoso colega na Academia Sobralense, Edinardo Silveira, mas, para tudo há um tempo.

Na epígrafe do livro encontramos trecho de uma das mais belas canções da música popular brasileira, “Tocando em frente”, “Cada um de nós compõe a sua história/ Cada ser em si/ Carrega o dom de ser capaz/ E ser feliz”. É mais ou menos uma síntese do que encontraremos no livro, composto com versos rimados e versos livres, demonstrando a versatilidade do autor na arte poética.

Li com atenção as páginas do “Canto de Menestrel” e comecei a observar seus versos pelo último poema: “O tempo ensina/ que nenhuma dor é em vão/ que todo tropeço é aprendizado”. E me recordei do Vate Fernando Pessoa que nos ensinou que o Poeta é, usando de licença poética, um “finge-dor”, que “Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”.

Canta Neil: “Das letras, fiz canção./ Do silêncio, reflexão./ Desmitifiquei o mito.// Letras também fazem mentir/ O que o coração não revelar”. E existe local mais adequado para se guardar segredos que no coração? Não imagino.

Mas, não é só dor, mesmo que com ensinamento, não é só letras que se tornam canções. A vida também é primavera e o Cantor/Autor comemora: “As cores voltaram a enfeitar/ E a brisa de novo acalenta a face”. E a natureza convivendo consigo mesma é lembrada: “O vento tenta enxugar a água da chuva/ Mas a tempestade deixou rastro tão sinuoso/ Incapaz de ser ofuscado pelo mais belo arco-íris/ Somente um dia arrebatado pelo senhor do tempo”. Em “Outro jardim” seria a raposa absolvendo a rosa por ter enganado o Pequeno Príncipe ou a desculpá-la pelo espinho que naturalmente surge em seu caule? Seria uma metáfora?

E um silêncio tão grande se instaura que quase nos faz chorar. Chorar não em homenagem ao silêncio, mas, à dor gerada pelo silêncio: “Lembrar de outrora/ Me segurando a mão/ Protege mundo afora”. Penso referir-se à proteção paternal que nos acompanha a vida toda em diversas formas, mas, sempre cuidando de nós.

Quem não sente “saudades” de um jogo de cartas despretensioso, sem apostas ou cobranças? O Poeta responde: “Cada carta, com diferentes valores e naipes,/ uma história, um curinga!/ Um dia fizeram glória de uma morada feliz./ Valetes, damas e reis, sem casa, jazem superpostos/ Sem castelo, sem castelo./ Qual a brisa que passou, passou – o castelo”. E natureza não foge à sua poesia: “Amo o canto do sabiá,/ O cheiro da terra,/ O afago da brisa leve”. Por poesia ser vida e quase tudo que n’ela há, o autor canta: “Estimo as melodias das canções,/ O retrato de Van Gogh/ E os versos de Camões”... “O alvorecer inspira o querer/ Para nunca desistir./ É assim que se vive/ Sem deixar passar a vã sutileza”. “Preciso do meu riso”, exclama, e eu completo com Sater, “É preciso paz pra poder sorrir!”

  (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


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