26 dezembro 2019

Chapada do Araripe, patrimônio para a humanidade

Carlos Rafael Dias
(Professor de História da Universidade Regional do Cariri e secretário do Instituto Cultural do Cariri)



 Foto: Heládio Teles Duarte

A ideia é tão simples como sublime: tornar a chapada do Araripe, nos próximos dois anos, um patrimônio da humanidade, com a chancela da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO.
A iniciativa  partiu de Alemberg Quindins, diretor e fundador da Fundação Casa-Grande - Memorial do Homem Kariri, e teve de imediato a adesão do Sistema Fecomércio, através do Serviço Social do Comércio – SESC; do Governo do Estado do Ceará, através da Secretaria de Estado da Cultura - SECULT e da Universidade Regional do Cariri - URCA; e do Instituto Cultural do Cariri – ICC, além de uma grande coletividade de pessoas integrada por artistas, militantes culturais, professores, intelectuais e ambientalistas.

A CHAPADA DO ARARIPE, MONUMENTO NATURAL E HISTÓRICO – A chapada do Araripe é considerada um dos maiores destaques da paisagem do sertão nordestino, cobrindo uma área aproximada de 180 km de comprimento no seu eixo de maior comprimento (leste-oeste) e medindo de 30 a 50 km de largura (eixo norte/sul). No topo, sua área é de 7,5 mil km². Sua altitude fica entre 850 a 1.000 metros.
Ao lado do impacto paisagístico, acarretado pela monumentalidade da visão oferecida, a chapada do Araripe é inicialmente destacada pela sua estratégica função na configuração de duas importantes bacias hidrográficas do sertão central nordestino. Isto ocorre porque a chapada é dotada de um imenso reservatório de água que é distribuído através de centenas de fontes que jorram de suas encostas e irrigam os vales que a circundam. 
O fato do Cariri cearense ser recorrentemente descrito como um ‘oásis do sertão’ é motivado justamente por isso, possibilitando, mesmo em meio às constantes estiagens que assolam a região, uma produção agrícola minimamente suficiente para evitar, em períodos de seca, a tragédia tão comum às áreas do seu entorno. Ademais, a chapada Araripe é um espaço dotado de grande diversidade natural, haja vista sua diversificada flora, rica em espécies de grande potencial extrativista, como ocorre com as plantas que contém óleos essenciais, látex e outras substâncias utilizadas para os mais diversos fins. A Chapada guarda também outro tesouro: minérios, a exemplo da gipsita, matéria-prima para a produção de gesso e um dos minerais mais explorados no país.
Vale destacar também que na porção cearense da Bacia Sedimentar do Araripe encontram-se vestígios de importantes capítulos da história da natureza e da humanidade, através de registros paleontológicos e arqueológicos entre 150 milhões e 9 mil anos atrás, apresentando um excepcional estado de preservação.
De acordo com o historiador cratense Irineu Pinheiro, parafraseando o grego Heródoto, “o Cariri é um presente da chapada do Araripe e caririenses os que lhe bebem as águas da nascente.” A analogia da montanha araripense com o rio Nilo e da região caririense com o Egito pode e deve ser aplicada à toda região da Bacia do Araripe, que engloba a parte mais ao sul do Estado do Ceará, o noroeste do Estado de Pernambuco e o leste do Estado do Piauí.
Alvo de diversos processos humanos de migração e colonização desde tempos imemoriais, a chapada do Araripe serviu de lugar de passagem de coletividades que deixaram como legado uma cultura pujante e plural. Sua importância se reveste de grande e crucial importância para a formação de comunidades estáveis que desenvolvem relações de afetividade para com ela e a tem como um suporte de proposições identitárias. A chapada é tida como dispensadora das condições de sobrevivência real e simbólica das populações que habitam seus vales.
A chapada do Araripe adquire, assim, contornos históricos e culturais pelas suas funcionalidades de ordem material e simbólica, passando a se constituir em um ícone da identidade territorial das regiões do Araripe e do Cariri cearense. Para além de seus aspectos puramente físicos, ela ocupa um relevante espaço no imaginário da população, tida como um elemento imagético de convergência dos olhares, afetos e sensibilidades. Entretanto, para alcançar essa dimensão cultural, a chapada deve ser classificada como um monumento que reúne elementos de ordem natural e histórica, integrada e ao mesmo tempo saliente no complexo paisagístico regional.
Assim, a sua importância extrapola a dimensão física e adentra fortemente os campos simbólico e do imaginário, constituindo-se em forte elemento de referência das projeções identitárias regionais. A abundância de água dispensada pela chapada, por exemplo, não torna férteis somente os espaços destinados à produção material da sociedade, mas também os espaços da sua produção imaterial. Não é à toa a proliferação de mitos, lendas e histórias fabulosas que têm a água como elemento central e que povoam o inconsciente coletivo regional. No sistema de crenças dos povos kariri, que em dado momento migraram para as áreas próximas da chapada do Araripe, a água é um dos principais elementos cosmogônicos, o que ensejou a elaboração de narrativas míticas que ainda hoje exercem forte influência no imaginário da população.
   
O PROJETO - O propósito de reconhecer institucionalmente a chapada do Araripe como patrimônio da humanidade perpassa a necessidade de compreender o território como motriz de relações sociais, tendo a natureza e a cultura como eixos. Assim, uma paisagem, conceito-chave para a compreensão e análise do território na sua dimensão física, perceptual e cultural, tem o poder de movimentar os gestos e as memórias, assim como o seu reconhecimento vem a acrescenta valores e sentidos à história.
Para isso, é preciso conservar e proteger o patrimônio da chapada do Araripe, levando em consideração as necessidades ambientais, sociais e econômicas para um desenvolvimento sustentável regional. Neste sentido, o esforço de conscientização pela educação é mais eficiente que os também necessários dispositivos legais. Estrategicamente, o projeto se propõe articular as diversas esferas formadoras das sociedades civil e política: o poder público, a iniciativa privada e o terceiro setor.



Comitê Consultivo Intersetorial

AÇÕES E ESTRATÉGIAS - O reconhecimento da Chapada como patrimônio da humanidade vem se encaminhando passo a passo. O primeiro foi a realização do I Seminário Internacional Patrimônio da Humanidade Chapada do Araripe, ocorrido de 6 a 9 de agosto de 2019, na região do Cariri cearense. No evento, foram discutidas coletivamente estratégias iniciais e assinado um termo de compromisso com o projeto.
Mais recentemente, neste mês de dezembro, foi criado e empossado o Comitê Consultivo Intersetorial da campanha, com o objetivo principal de promover, articular, garantir, coordenar e executar programas, projetos e ações em torno da proposta da candidatura da Chapada do Araripe como patrimônio cultural e natural da humanidade pela UNESCO.


Comissão Técnica

Além do Comitê, foi formada uma comissão técnica com o propósito de elaborar e sistematizar informações necessárias para o dossiê de patrimonialização da chapada que será submetido à UNESCO. A Comissão realizou sua primeira reunião no último dia 20 de dezembro, quando procurou avançar na definição das ações e estratégias que venham subsidiar o propósito pretendido. A grande preocupação a partir de agora é promover, visibilizar, preservar e proporcionar um direcionamento voltado ao desenvolvimento sustentável da Chapada do Araripe. O reconhecimento da chapada como patrimônio da humanidade deve ser uma realidade presente no cotidiano local, aceito e defendido pelas populações que dela se usufruem. Portanto, a chapada do Araripe não pode ser enquadrada nos limites conceituais de patrimônio da humanidade, mas nas amplas possibilidades de um patrimônio que gera humanidade.

Brasil: a república que não deu certo -- por Armando Lopes Rafael

“(Você) Já parou para pensar por que o país do futuro permanece no futuro? Parece que o Brasil nunca realmente anda pra frente. Sempre que dá um passo adiante, tem-se a sensação de que mais adiante o país dará dois passos atrás. Temos tudo para dar certo: talentos, conhecimento, apesar da educação ser uma porcaria, criatividade de monte, bens naturais… mas, por que o país não anda?” – Ronaldo Faria Lima

     
    Entra ano e sai ano. Daqui a cinco dias começa 2020. E a população sente na pele esta dura realidade: a atual república presidencialista brasileira, foi- nos enfiada goela abaixo, em 15 de novembro de 1889. No dia seguinte ao golpe militar, o jornalista republicano Aristides Lobo escreveu num jornal: “Os brasileiros não compreenderam e assistiram bestializados à Proclamação da República, pensando que era uma parada militar”.   A atual República foi marcada, na maior parte da sua existência, ou seja, nos últimos 130 anos, por crises políticas, golpes, conspirações, deposições de presidente e por dois longos períodos ditatoriais (1930-1945 e 1964–1984).

   Pela relação oficial do Governo Federal já tivemos 43 presidentes da República. Na verdade foram mais. Na lista não consta duas juntas militares, presidentes que assumiram no lugar dos que foram depostos, etc. Mas vá lá. Dos 43 Presidentes da República,  apenas 12 eleitos cumpriram seus mandatos; 02 sofreram impeachment (Collor de Melo e Dilma Rousseff); 7 eleitos foram depostos; 1 eleito renunciou; 1 assumiu pela força. Tivemos 2 juntas militares no lugar de um presidente; 4 vice-presidentes que terminaram o mandato de presidentes eleitos (os dois últimos foram Itamar Franco e Michel Temer); 1 eleito e impedido de tomar posse; 5 interinos, 5 presidentes em regime de exceção; 1 eleito se tornou ditador.  Nos últimos 65 anos apenas 3 presidentes civis – eleitos diretamente pelo povo – terminaram seus mandatos (Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva).

       Ao longo da fase republicana no Brasil, tivemos 12 estados de sítio (suspensão das garantias constitucionais), 17 atos institucionais (que permitem ao governante da vez violar a Constituição), seis dissoluções forçadas do Congresso, 9 golpes de estado e 6 Constituições. A atual Constituição foi promulgada, há apenas 30 anos. Também ocorreram censuras à imprensa e aos meios de comunicação, com o fechamento de jornais.

    Dói dizê-lo: O povo não confia mais nas instituições, nos políticos e nos poderes constituídos desta república. Os níveis de corrupção são alarmantes. A Transparência Internacional deu nota 3,8 ao Brasil, no ano 2011. Trata-se de uma escala de 0 a 10, sendo 10 o valor atribuído ao país percebido como menos corrupto. O Brasil é um país de analfabetos funcionais e ocupa o 53º lugar em educação, entre 65 países avaliados no exame internacional, o PISA. Em artigo, o Prof. Cesar S. Santos afirmou: “A República apresenta um saldo extremamente negativo. Devemos discutir outras possibilidades de regime político, pois uma conclusão se impõe: a República faliu e ameaça levar consigo o que resta dos valores e das forças positivas da nação brasileira” .

Turismo no Cariri será valorizado no próximo ano


Fonte: Diário do Nordeste, 26-12-2019

"Soldadinho do Araripe" -- ave símbolo do Cariri

O Cariri, no Sul do Estado, é uma região marcada pela rica herança cultural, herdeira das tradições de povos indígenas que ali habitaram, sobretudo os índios Kariris. “Com a miscigenação de vários povos (indígenas, europeus e africanos) e o isolamento relativo do Cariri em relação a grandes cidades brasileiras, criou-se uma identidade cultural distinta, com danças e canções folclóricas típicas e expressões religiosas e artísticas peculiares. O Cariri se tornou conhecido como um 'caldeirão cultural' que mantém vivas as tradições de seus ancestrais”, descreve a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Além disso, a região conserva um dos maiores depósitos de fósseis do Cretáceo Inferior (entre 90 e 150 milhões de anos atrás) no Brasil e no mundo. Por esse motivo, a Unesco escolheu Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri para abrigar o Geoparque Araripe, evidenciando a importância da região para a história da humanidade. O Cariri ainda abriga o município de Assaré, onde nasceu e viveu o poeta Patativa do Assaré.

Cultura e ecoturismo

E é neste “caldeirão” que você também encontra atrativos diversos com opções de turismo religioso (ligado sobretudo à figura do Padre Cícero), geoturismo, vivências de treaking, trilhas, visitas a balneários, museus, prédios antigos, observação de pássaros – como o Soldadinho do Araripe, espécie endêmica da região –, além de experiências com artistas, artesãos e mestres da cultura local, a exemplo de Espedito Seleiro e dos Irmãos Aniceto. Com toda essa riqueza histórica e cultural, a região também é a segunda com mais oferta de serviços turísticos do Estado, atrás apenas de Fortaleza, pontua Édio Callou, Analista e Gestor do Projeto de Turismo do Cariri no Sebrae Ceará.
E é buscando aproveitar todo este potencial, que o Governo do Estado, por meio da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur), juntamente com o Sebrae-CE e a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult), estão trabalhando na estruturação da Rota Turística do Cariri. A expectativa da Setur é que o novo roteiro seja lançado ainda este ano e que já no próximo ano possa ser apresentado e comercializado em eventos de turismo internacionais.

Novos atrativos

Além dos atrativos já conhecidos, Édio Callou lembra que nos últimos anos o Cariri vem ganhando novos produtos turísticos, como o teleférico do Caldas, ainda em fase de testes, que deve transportar 600 pessoas por hora na subida da Chapada do Araripe. “Ele  deve ser um grande atrativo para a região e tem previsão de inauguração para o início de 2020”, frisa o gestor. Outra novidade nesse aspecto, aponta Édio Callou, é um trabalho do Serviço Social do Comércio (Sesc) em parceria com a Fundação Casa Grande (Nova Olinda) para criar um circuito de museus orgânicos. “São pequenos museus em salas nas próprias casas dos mestres da cultura. Museus distribuídos em torno da Chapada do Araripe, compondo uma rede de museus orgânicos”, explica o profissional do Sebrae.

Natal de refugiados venezuelanos em Fortaleza: "Aqui tem brisa e as pessoas são muito boas".


Fonte: jornal  “O Povo”, 26-12-2019 – Por Henrique Araújo

Natal dos Venezuelanos.(Foto: Thais Mesquita/O POVO) 

Oscar Rafael e Luís Enrique chegaram de Caracas em Fortaleza há mais de um mês. Na cidade, estranharam duas coisas: o mar não tinha (mau) cheiro, e o quilo do arroz não custava metade de um salário mínimo (como acontece na Venezuela). Na última terça-feira, véspera de Natal, as duas famílias de estrangeiros, que somam 13 pessoas ao todo, haviam preparado um bolo de chocolate. Era o primeiro em quase uma década. Longe de casa, num país estranho e sem dominar o português, estavam felizes.

"Aqui tem brisa e as pessoas são muito boas", sintetiza Enrique, um administrador que trabalhava na maior estatal venezuelana até o mês passado, quando deixou a terra natal para trás depois de perder o emprego na escalada da crise, responsável por expulsar milhares de conterrâneos em meio à escassez de itens básicos, como água e remédios. Ao lado dos três filhos e da esposa, viajou com o grupo de Oscar, um colega de profissão que também resolveu desfazer-se de tudo para tentar a sorte no Brasil.Casa, móveis e roupas foram vendidos às pressas a quem o procurasse. Não trouxe nada consigo.

Aqui, passaram por Pacaraima, Boa Vista, Belém e São Luís, antes de finalmente assentarem pouso na capital cearense. Dois fatores foram decisivos para que resolvessem estender a rede e a permanência. "Os cearenses nos tratam mais como brasileiros do que como uma pessoa estrangeira", conta Oscar. "Sabem que não falamos muito português, mas nos ajudam." Enrique tem um motivo mais urgente, todavia. "Uma das coisas que nos fizeram vir pra cá foi a saúde do meu filho. Ele é epiléptico, e o medicamento que ele toma não havia na Venezuela", justifica. "A cada dois ou três meses, eu precisava viajar até a Colômbia. E aqui tem de tudo. Ele está tomando medicamento que consegui no posto. Já estamos vendo até um neurologista pra ele."

"Esta é como nossa casa agora", interrompe Oscar, pai de Isabella, de 11 anos. O venezuelano emociona-se ao contar que, antes de chegarem a Fortaleza, a menina nunca tinha comido maçã. "Aqui as frutas são baratas", surpreende-se. E repete, os olhos molhados: "As pessoas são muito boas. Sinto muita falta de quem ficou lá, mas estamos contentes". Entre eles, a saudade se mata todo dia um pouco, recorrendo sobretudo ao Whatsapp, por onde enviam e recebem mensagens de vídeo e áudio em que ouvem uns aos outros falarem de mundos diferentes.

Assim, têm notícias dos pais e irmãos. Com a ajuda de amigos da igreja no Brasil, conseguiram um lugar para ficar. Um galpão em Caucaia, na região metropolitana, onde se dividem nas tarefas do dia a dia. Pergunto como tem sido a vida naquele espaço. "Como somos 13 pessoas, temos apenas 13 pratos, 13 colheres, 13 copos. É simples a divisão. É matemática: cada um cuida do seu", relata Oscar.

No dia em que os visitamos, o pequeno Pedro, de 8 anos, enxaguava a louça depois do almoço. Na cozinha, as esposas comiam, caladas. Os dois adolescentes assistiam TV numa área. Um dia antes, haviam reunido o que restara de dinheiro e montado uma árvore de Natal, que esperavam para iluminar durante a noite. Ainda não tinham se acostumado com a energia elétrica. "Eletricidade, água, isso quase nunca há na Venezuela. Só num dia, a energia vai e vem quase cinco vezes", conta Enrique. Alheio na terra nova, Oscar diz que aprendeu à força a conjugar uma esperança rala. "A condição do nosso país mudou muito. Há 15 anos, nosso soldo era de mais ou menos 2 mil dólares. Hoje, são 4 por mês. Não se pode morar com quatro dólares por mês", fala. Mas o venezuelano não se abate: "Se você muda para um país onde você pode vestir e comer três vezes ao dia, você vive bem. E ainda temos a brisa".