29 novembro 2019

Coisas da "Ré-pública": o que resulta em eleger políticos analfabetos funcionais

Fonte: revista VEJA

Pior que está, fica: Tiririca é investigado pelo Ministério Público. Deputado é alvo de um inquérito que apura suspeitas de uso irregular de passagens aéreas emitidas pela Câmara

NA MIRA DO MPF - Deputado Tiririca está sendo investigado por suspeita de uso irregular de passagens aéreas da Câmara  (Cristiano Mariz/VEJA)

Em seu primeiro discurso na Câmara, em dezembro de 2017, o deputado Tiririca disse estar decepcionado com a política brasileira e com seus colegas. “O que eu vi nos sete anos aqui, eu saio totalmente com vergonha”, afirmou ele. Apesar de ter se despedido do Congresso naquele ano, o humorista se candidatou pelo Partido Liberal em 2018 e foi eleito por São Paulo com quase meio milhão de votos. Em seu terceiro mandato em Brasília, o parlamentar percebeu que, diferentemente do que dizia em sua campanha, pior que está, fica.

No último dia 18 de novembro, o Ministério Público Federal instaurou uma investigação para apurar se o deputado utilizou “verba de gabinete para realizar viagens particulares”. Embora tenha sido eleito por São Paulo, Tiririca comprou com dinheiro público passagens aéreas para o Ceará, seu estado natal. A Câmara estabelece, entre outras regras, que os recursos destinados para viagens do político têm de estar relacionados com o exercício do mandato ou com deslocamentos para a sua base eleitoral. Os bilhetes não podem servir para benefício pessoal.

No caso de Tiririca, o Ministério Público Federal apura num inquérito civil se os gastos do deputado e seus assessores com passagens aéreas ao longo deste ano tiveram como finalidade cumprir agenda parlamentar ou se foram utilizadas com outro propósito. O parlamentar eleito por São Paulo costuma postar fotos em suas redes sociais divulgando shows em sua terra natal. Somente neste ano, o seu gabinete desembolsou mais de 70 000 reais em dinheiro público para se deslocar dezenas de vezes de Brasília para Fortaleza. Procurada, a equipe de Tiririca informou que não recebeu qualquer notificação da investigação e que todas as passagens aéreas são compradas de acordo com o regimento da Câmara.

O salário líquido de Tiririca, assim como o de outros deputados, é de quase 25 000 reais. Além disso, ele ganha um auxílio moradia de 4 253 reais — e boa parte de suas despesas com transporte e refeições em Brasília é bancada pela Câmara. Ao longo deste ano, o deputado propôs 12 projetos de lei, da instituição do dia oficial do artista circense à inclusão de idosos em empresas. Apesar de sua desenvoltura em frente às câmeras, ele ainda não discursou em plenário neste ano. Mas talvez agora, sob investigação, seja um bom momento para dar explicações aos seus eleitores de São Paulo.


Sobre o "Jovem cratense, um herói" ( 3ª e última parte) – por Joaquim Pinheiro (*)

Cruzador Bahia

         “...densos rolos de fumaça, corpos dilacerados, destruição total e os gemidos dos feridos, que mal se arrastavam pelo convés, e a área de ré destruída e em chamas. Apenas três minutos após a explosão, o navio começou a afundar a popa, com uma rapidez impressionante”.

“Na primeira noite, as balsas, que eram mantidas juntas, se dispersaram, ficando apenas seis no grupo chefiado pelo Tenente Torres Dias. Falta de água e alimentos, o frio noturno e o calor diurno insuportáveis, desespero, ataques de tubarões, a insolação, fadiga, delírios, alucinações e a morte foram as companhias desses bravos marujos, até a chegada do Cargueiro Balfe.” 
  (Parágrafos extraído do blog naval.com.br.blog, de 20.05.2018, descrevendo a tragédia do Cruzador Bahia)

   Em que pese o elevado número de brasileiros sacrificados na maior tragédia da sua história naval, o caso foi tratado com displicência pelas autoridades. No primeiro momento, reconheceram que a explosão fora causada por um torpedo. O ministro da marinha declarou aos jornais que o navio fora vítima desta arma. O Almirante Ary dos Santos Rangel publicou artigo na Revista Marítima Brasileira onde escreveu “...eram aquelas águas turvas que haviam sorvido o nosso querido Cruzador Bahia, vítima de torpedeamento...”. O próprio Presidente Getúlio Vargas, em carta de pêsames endereçada aos familiares dos marinheiros mortos, afirma que eles foram “tomados de surpresa e assassinados”.

   No entanto, o inquérito instaurado para apurar as causas e os responsáveis pela explosão, presidido por um almirante americano, concluiu que os culpados pela tragédia eram as próprias vítimas. Segundo o relatório, disparo acidental de metralhadora teria acertado uma bomba no paiol do navio e feito o estrago. 

   A versão de acidente foi construída graças a enorme contorcionismo mental. Para isto, desconsiderou depoimentos da maioria dos sobreviventes, descartando inclusive revelação de sobreviventes assegurando terem avistado pequena embarcação distante, a princípio julgada como barco pesqueiro, mas o uso de potente binóculo constatou ser um submarino. Ignoraram a chegada, dias depois, de submarinos alemães na Argentina onde oficiais nazistas se exilaram. O diário de bordo de um dos comandantes registrou que o veículo saiu da Noruega carregado com torpedos mas desembarcou em Mar del Prata com três a menos. Nele também consta que no trajeto cruzou com o navio sinistrado.

    O que alguns historiadores e pesquisadores buscam hoje é identificar as razões que levaram as autoridades da época a camuflar a história. Por que os americanos, a quem o navio estava subordinado, se apressarem em apontar tripulação como culpada, quando na verdade foi vítima?
Uma conjunção de fatores pode explica estes questionamentos. O clima reinante na época era de euforia pela vitória dos aliados, cuja propaganda enfatizava a rendição incondicional dos alemães e a destruição total do seu regime.  Alardeavam que principais líderes nazistas estavam mortos ou presos. Neste contexto, o reconhecimento de atentado inimigo iria contrariar o “marketing” dos aliados.

    Do lado brasileiro, caso o governo aceitasse o fato como crime de guerra, teria que exigir da Argentina medidas contra os militares alemães dos submarinos que haviam recebido proteção do seu governo. Preferiu não criar confusão diplomática de grandes proporções.  Além do mais, a posição do almirantado ficaria extremamente desconfortável porque não teria como explicar a negligência e omissão diante de uma tragédia desta proporção. Um detalhe causa estranheza: o resultado do inquérito foi divulgado somente em 30.10.1945, em nota apócrifa, justamente no dia em que Getúlio Vargas deixou o poder. Assim, a notícia passou despercebida.

    Os mandatários americanos, por sua vez, com o novo redesenho da geopolítica mundial, já em disputa aberta com a União Soviética, elegeram novo inimigo, o comunismo. Não mais interessava aos Estados Unidos demonizar o nazismo. Pelo contrário, estava em curso a operação “paperclip”, programa americano para empregar cientistas nazistas e tirar proveito do conhecimento deles. Wernher Von Braun, engenheiro que chefiou o desenvolvimento dos foguetes de Hitler, é um bom exemplo disto. Foi o principal nome do início do início do programa espacial americano.


(*) Joaquim Pinheiro, economista. Funcionário de carreira do Banco Central do Brasil, aposentado.

Lavrador percorre 250 km com 128 rosas e homenageia Princesa Isabel - Postagem do Antônio Morais


Com 72 anos, ele saiu de Desterro de Melo, no interior de Minas Gerais, com 128 botões de rosas na bagagem, um para cada ano de liberdade. João Paulino é descendente de escravos.

O avô veio da África para Minas Gerais e morreu com 110 anos. Para o lavrador, o ato é de gratidão pela libertação dos escravos.

"Ela teve o prazer de lutar por essa raça, por esse povo, de fazer a união de cada pessoa. Sempre que eu tiver a oportunidade de vir e for recebido como tenho sido, pra mim é uma grande honra", disse o lavrador.

Desde 2012, o destino final de João é a Catedral São Pedro de Alcântara, onde fica o túmulo da Princesa Isabel. Nesta sexta, 13 - o peregrino assistiu a missa e pediu para que o padre abençoasse as rosas. Em seguida, os buquês foram colocados sobre o mausoléu.

Muitos se emocionaram ao presenciar o ato.
"Muito interessante. É uma forma de agradecer a liberdade que os negros tiveram. Uma coisa que as pessoas têm que ter consciência", disse Rita Correa, secretária.

Carina Rocha, conta que acompanha essa trajetória de João com a mala e suas rosas.
"Uns quatro anos que ele vem aqui. Ele vai lá na Catedral e vem aqui tomar um café e conversar. Eu acho muito interessante porque é uma forma de agradecer, né", afirmou a comerciante Carina Rocha.

Lei Áurea

A escravidão foi abolida no Brasil pela Princesa Isabel no dia 13 de maio de 1988. O processo de abolição foi gradual e começou com a Lei Eusébio de Queirós de 1850, seguida pela Lei do Ventre Livre de 1871, a Lei dos Sexagenários de 1885 e finalizada pela Lei Áurea em 1888.

O Brasil foi o último país independente do continente americano a abolir completamente a escravatura.

Sobre o artigo acima, postado por Antônio Morais, sobre a Princesa Isabel – por Armando Lopes Rafael


  
Caro amigo Morais:

    Fiz um comentário sobre sua postagem “Lavrador percorre 250 km com 128 rosas e homenageia Princesa Isabel”. Depois vi que meu comentário ficou longo e seria melhor eu comentar com outro artigo, dado a beleza e justeza do que você publicou.

    Daqui a dois anos (em 2021) completar-se-ão 100 anos da morte da Princesa Isabel. E a memória dela só faz crescer no imaginário do povo brasileiro. A Família Imperial foi deposta, deportada e exilada do Brasil, pela força,  – e no exterior viveu de 1889 a 1922 – no mais longo exílio que algum brasileiro já sofreu até hoje.  A Princesa Isabel morreu sem poder rever seu amado País. Sofreu, durante 33 anos que lhe restaram de vida, por um único motivo: libertou da escravidão a raça negra. Por isso passou a história como “A Redentora”.

  
     Um fato marcante, na vida da Princesa, foi o diálogo abaixo, entre ela e o Barão de Cotegipe, após a Princesa ter assinado a Lei Áurea em 13 de maio de 1888:
 Isabel perguntou: “Então, Senhor Barão, V. Excia. acha que foi acertada a adoção da lei que acabo de assinar?”. Ao que o barão, com muito carinho, respondeu: “Redimistes, sim, Alteza, uma raça, mas perdestes vosso trono...”. 

  Na partida para o exílio, a Princesa Isabel passando junto à mesa onde havia assinado a Lei Áurea, bateu nela o punho fechado e disse:
 “Mil tronos houvera, mil tronos eu sacrificaria para libertar a raça negra”.

    Foi deposta e deportada do Brasil por defender valores, como a libertação dos escravos. Ela morreu sem poder rever seu amado País.

       O jornalista Assis Chateaubriand encontrou-se certa vez com a Princesa Isabel, na França, e vendo a injustiça que fizeram contra ela escreveu, em Juiz de Fora, a 28 de julho de 1934:

“Apagada a sua estrela política, depois de vencida a tormenta da abolição, ela não tinha expressão dura, uma palavra amarga para julgar um fato ou um homem do Brasil. 

      No mais secreto de seu coração, só lhe encontrávamos a indulgência e a bondade. Este espírito de conduta, esse desprendimento das paixões em que se viu envolvida, era a maior prova de fidelidade, no exílio, à pátria distante. 

      Mais de 30 anos de separação forçada não macularam a alvura dessa tradição de tolerância, de anistia aos agravos do passado, que ela herdara do trono paterno. [...] Foi no exílio que ela deu toda a medida da majestade e da magnanimidade do seu coração. [...] Ela viveu no desterro [...] como a afirmação de Pátria, acima dos partidos e dos regimes. Debaixo da sua meiguice, da sua adorável simplicidade, quanta fortaleza de caráter, quanto heroísmo, quantas obras valorosas”. 

      Ainda hoje, 130 anos depois de expulsa da sua pátria, os brasileiros – principalmente os humildes – rendem homenagem a esta santa Princesa, cuja causa de beatificação está em estudos na Arquidiocese do Rio de Janeiro...