27 novembro 2019

Ainda sobre George Teles -- II -- por Joaquim Pinheiro (*)


- Continuação do texto "Jovem cratense -- Um Herói",   postado em 22.11.2019 -
Uma das "ruas-ladeiras" que dá acesso ao Bairro do Seminário, em Crato, recebeu o nome de Rua José George Teles Sampaio

“A explosão destruiu a popa do velho cruzador, levantou uma enorme coluna d’água, partiu o mastro maior, tirou a vida de uma centena de homens (de imediato), feriu gravemente outros 50 e converteu a vida dos não afetados em um pandemônio”. Dessa forma os escritores argentinos Carlos de Napoli e Juan Salinas iniciam o capítulo do livro “Ultramar Sur – a última operação secreta do 3º Reich” descrevendo o afundamento do Cruzador Bahia, ocorrido no dia 04.07.1945. Convém lembrar que neste navio estava o cratense George Teles Sampaio.

O Sr. Álvaro Sampaio Andrade, pai de George, tomou conhecimento da tragédia antes da divulgação oficial. É que o pessoal subalterno da marinha, inconformado com a omissão dos comandantes e as tentativas de “abafar” a notícia, avisaram aos parentes dos tripulantes. Seu Álvaro na mesma hora pegou um carro e partiu do Crato para Recife em busca de informações. Dirigiu-se diretamente à sede do comando naval. Foi recebido pelo oficial do dia que lhe pediu para aguardar pois ainda não sabiam o que tinha acontecido.  No quartel seu Álvaro encontrou outros parentes de tripulantes, todos extremamente preocupados. Entre eles, a noiva aflita de um oficial, acompanhada dos pais, cujo casamento estava marcado para o próximo mês. Não houve a cerimônia. O noivo morreu na explosão.

No dia seguinte à chegada ao Recife, Seu Álvaro soube da chegada dos primeiros sobreviventes, todos em estado grave. Juntamente com os outros parentes, dirigiu-se ao hospital naval. Conseguiu falar com algumas vítimas e soube que seu filho havia sido resgatado com vida mas fora levado para outro hospital.  Dirigiu-se então para o Hospital Centenário, e lá localizou George Teles, ainda vivo, mas inconsciente.

Dos sobreviventes “Seu” Álvaro colheu os seguintes detalhes:


 1 – George havia saído da sala de máquinas minutos antes da explosão e não foi diretamente atingido pelo torpedo;

2 – ao invés de tentar escapar no primeiro momento, como a maioria dos colegas, e ignorando os apelos de outros marinheiros, retornou a sala de máquinas e socorreu dois colegas, um em estado de choque que teve de ser carregado e o outro, seu superior imediato, ferido, com fratura exposta no braço;

3 – alcançou o bote salva-vidas tão exausto que não teve forças para subir. Foi puxado pelos outros sobreviventes. Passou parte do primeiro dia dormindo, os colegas o viravam de lado para minimizar os efeitos do sol. Acordou no final da tarde, quando o pouco da água doce disponível se esgotou;

4 – a primeira noite ficou de vigia, tentando avistar alguma embarcação para resgatá-los e cuidando para que colegas não caíssem no mar rodeado por tubarões;

5 – no terceiro dia deu sinais de delírios, típicos de desidratação elevada. Começou a ter visões irrealistas, afirmava que a mãe, junto com N. Sra. da Penha, estava vindo salvá-lo. Várias vezes tentou se jogar no mar pensando que a praia estava próxima. Teve que ser contido pelos companheiros;

6 – no quarto dia, quando resgatado, já estava inconsciente, desidratado, queimadura por todo corpo, com organismo debilitado. Não reagiu ao tratamento, falecendo horas depois;

7 – dos 17 marinheiros do seu bote salva-vidas, apenas 3 sobreviveram;

8 – Se o socorro houvesse chegado um dia antes, possivelmente todos teriam escapado.

Seu Álvaro, constatando a omissão das autoridades navais evidenciada pelo retardamento intencional da operação de busca e salvamento, externou sua indignação em entrevista, cobrando apuração do crime e a punição dos culpados. Teve a coragem de citar o nome do Almirante comandante da marinha no Nordeste, como principal responsável por mais de 300 mortes. Ele teria postergado o início da operação de busca e salvamento.

Como consequência, Seu Álvaro foi detido e processado pela lei de segurança nacional. Na época o Brasil ainda vivia sob a ditadura de Getúlio Vargas. Posteriormente, após a queda de Getúlio Vargas, o processo foi arquivado.

(*) Joaquim Pinheiro. Economista, funcionário aposentado do Banco Central do Brasil.