22 novembro 2019

Jovem cratense -- Um herói ( por Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes (*)

    
    São raros os casos de jovens mortos antes de completarem 21 anos que alcançam a imortalidade. O Crato tem um deles: José George Teles Sampaio. Nascido em 02.08.1924 e falecido no início de julho de 1945.

   O ponto marcante da sua história aconteceu em 04.07.1945. Neste dia, o Cruzador Bahia, da marinha de guerra do Brasil, onde servia, sofreu uma violenta explosão que quase o dividiu ao meio. O acidente pegou a tripulação de surpresa, já que a II guerra mundial havia terminado dois meses antes, em 08 de maio. A prontidão havia sido suspensa, e a preocupação com a segurança deixada em segundo plano.

   O navio, apesar dos seus 125 m de cumprimento e 3.105 t, afundou em apenas 10 minutos, levando para sempre, de imediato, 122 homens. Os 250 sobreviventes da ocasião tiveram apenas este curto intervalo para cortar as cordas dos botes salva vidas, lança-los ao mar e se afastarem do redemoinho formado pelo mergulho do barco. 17 balsas se safaram no primeiro momento.

   O nosso personagem foi o último a abandonar o navio. Antes de sair conseguiu arrastar dois colegas, feridos na explosão, sendo um deles, o seu superior hierárquico. O enorme esforço físico gastou energia que lhe faria falta nas horas seguintes.

   Os 17 botes, inicialmente com 250 homens, ficaram 4 dias em alto mar, dispersos, sem água, sem alimentos e sem nenhum equipamento de proteção contra o sol, cercados por tubarões. A maioria morreu em consequência da falta de socorro. Apenas 33 sobreviveram.

    O descaso de autoridades brasileiras foi responsável pela dimensão da tragédia. Não adotaram providências ante a ausência de sinais de rádio comunicação do Bahia. O protocolo da marinha obrigava os navios de guerra a enviar, a cada 2 horas, uma comunicação de rádio para indicar que estava tudo em ordem. O comando naval simplesmente ignorou a falta de comunicação. Pelas normas então vigentes, no máximo 4 horas após a ausência do sinal, deveria ter sido iniciada operação de busca pelas unidades mais próximas, inclusive acionando aviões. A operação somente foi deflagrada 100 horas após o acidente, quando a maioria já tinha morrido e os primeiros náufragos haviam sido recolhidos por um cargueiro inglês.

   As causas da explosão ainda são polêmicas. O inquérito presidido por um almirante americano concluiu que foi um tiro acidental disparado por uma das metralhadoras a bordo. Conclusão contestada por especialistas e oficiais brasileiros. Os canos das armas do navio repousavam sob uma proteção de aço que impedia que a bala saísse em ângulos inferiores a 45°. Assim, seria impossível a embarcação ser atingida por uma das suas armas.

    Outras hipóteses levantadas na época foram desconsideradas pelo Almirante americano: uma mina à deriva, curto-circuito no sistema de refrigeração do paiol ou torpedo lançado por submarino alemão, hipótese defendida por oficiais brasileiros. Com efeito, poucos dias após o acidente, submarinos alemães se entregaram ao governo argentino. Na fuga, passaram muito próximos do local onde o navio estava estacionado exatamente no momento em que este iniciou um rotineiro treinamento de tiro (às 09:15h). Os alemães imaginaram que eram o alvo e responderam ao fogo com o fatídico torpedo.

    O nosso personagem, George Teles, era Filho de Álvaro Sampaio Andrade e de Teresa Teles Sampaio (sobrinha do Coronel Filemon Teles).  Seu nome encontra-se imortalizado em uma rua do Crato, bem como no monumento aos Pracinhas, na Praia do Flamengo-RJ.
Joaquim Pinheiro – Recife 21.11.2019

Fontes:   
Roteiro bibliográfico das ruas do Crato – J. Lindemberg de Aquino;
Jornal Diário de Pernambuco de 10 a 15.07.1945.
Porto Distante – Paulo Afonso Paiva  Segredo que poucos conhecem – mistério do Cruzador Bahia – Internet

Foto gentilmente cedida por Ana Teresa Arraes de Alencar, do acervo do seu pai: José Almino de Alencar Arraes
 

(*) Joaquim Pinheiro. Economista, funcionário aposentado do Banco Central do Brasil.

Beato Donizetti Tavares de Lima – por José Luís Lira (*)



     Escrevo esta coluna enquanto me preparo para deslocamento da Capital Paulista a Tambaú (262km), Diocese de São João da Boa Vista (SP). O percurso é desconhecido para mim, mas, de leituras já é conhecido, por meio do Padre Donizetti de Tambaú, mas, ultimamente, Tambaú, a Cidade da Fé, é do Padre Donizetti e não o inverso.

    A Sala da Imprensa da Santa Sé publicou, na última segunda-feira da quaresma, 08/04/19, a notícia de que Sua Santidade o Papa Francisco autorizou decreto reconhecendo milagre atribuído ao Venerável Donizetti Tavares de Lima. Foi motivo de grande alegria para todo o Brasil que ainda não sabia de que Irmã Dulce seria canonizada.

    O novo Beato está em dois livros meus. No “A Caminho da Santidade”, Editora A Partilha (2012), registro: Nasceu em Santa Rita de Cássia (MG), a 3 de janeiro de 1882. Foi ordenado sacerdote em 12 de julho de 1908 e sua primeira paróquia foi Santana do Capivary, em Campanha (MG). Após passar por outras paróquias em São Paulo, a 12 de junho de 1926, assumiu a Paróquia de Santo Antônio, em Tambaú, onde exerceu profícuo apostolado até o seu retorno à Casa do Pai. O jornalista Joelmir Beting, assim se expressa a seu respeito: “Ele dormia em estrado de madeira coberto de jornal. Jantava caldo de quiabo e vestia-se com batina surrada. Sua única riqueza era uma biblioteca abastecida por livros doados, classificados um a um... Severo quando preciso, bondoso, sempre...” Seu biógrafo, José Wagner Cabral de Azevedo, diz que ele era “... um homem... que por um chamado de Deus, entregou sua vida ao Evangelho e à procura do bem do seu próximo”.

     Em artigo publicado, o nosso Cardeal do Brasil, Dom Orani Tempesta, Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, nos ensina: “De sua pequena Tambaú, como sempre acontece com os sinais divinos, suas bênçãos atravessaram o estado e o país. Simplesmente um padre que reza e abençoa a povo. Ao mesmo tempo cuida de sua paróquia, realiza obras sociais para os necessitados e é obediente à Igreja. Alegro-me em poder testemunhar esse momento significativo para a vida da minha Diocese de origem e mesmo de toda a Igreja no Brasil, já que de todos os cantos e recantos chegam a Tambaú, peregrinos para pedir a sua intercessão junto de Deus”.

    Conforme o jornalista Francisco Sartori, “Padre Donizetti viveu seu apostolado a serviço de Deus e da Igreja, cuidando de seu rebanho não só na parte religiosa e espiritual, mas também fora da Igreja”. O rebanho do Padre cresceu e o Beato Donizetti parece cuidar de todos nós!

    Momento muito esperado numa Causa de Beatificação e de Canonização se vivenciará neste dia 23, véspera da Festa de Cristo Rei, quando o Cardeal-Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, Dom Angelo Becciu, presidirá, em nome de Sua Santidade, o Papa Francisco, a beatificação do Padre Donizetti, em Tambaú. Parabenizo aos entusiastas da Causa do Beato Donizetti e agradeço ao Dr. Paolo Vilotta, postulador da Causa, por sua brilhante atuação. Próxima semana, junto com o Pe. Nonato Timbó, participarei de encontro, coordenado por Ana Lúcia e Ronaldo Frigini, com o postulador e demais representantes de causas de beatificação e de canonização do Brasil que correm sob a responsabilidade de Paolo Vilotta.

   Salve o Beato Donizetti de Tambaú!


(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.