18 novembro 2019

Rachel de Queiroz – por José Luís Lira (*)



Neste dia 17, a cearense Rachel de Queiroz, primeira imortal da Academia Brasileira de Letras, faria 109 anos. Inicia-se, portanto, o caminho preparatório dos 110 anos de nascimento dessa notável escritora que tão bem retratou o Nordeste em sua arte literária.
Muito já escrevi e falei sobre Rachel, mas, nada pode servir para mensurar a importância dela para a literatura, para o Brasil.

A quem conheceu Rachel e com ela conviveu é fácil dessa importância e que ela não se reconhecia desse modo. Ela sempre pertenceu à vanguarda. No Ceará, ainda quase menina-moça, frequentava os Cafés onde os literatos se reuniam na Praça do Ferreira para trocar ideias. Ela diz em seu “Tantos Anos”, escrito em parceria com sua irmã Maria Luiza de Queiroz Salek que era respeitada nesses locais e tida como colega daqueles mestres, incluindo-se aquele que ela considerava seu padrinho literário, Antônio Sales.

Rachel de Queiroz, nasceu no centro da capital cearense, Fortaleza, em 17/11/1910. Na viagem para Quixadá, onde foi criada, passou por Pacatuba; ali seus avós tinham propriedades e na igreja de Pacatuba foi batizada. Compôs a primeira turma de normalistas do Colégio da Imaculada Conceição, de Fortaleza, em 1925. Do Colégio guardou grandes memórias. Embora se confessando agnóstica, ela nunca desrespeitou qualquer tipo de religião, sendo de sua autoria um dos mais belos artigos que conheço sobre São Vicente de Paulo, fundador da Congregação das Irmãs responsáveis pelo Colégio ou a “Santa Gaiola”, como ela chama em texto, as Filhas da Caridade de São Vicente.

Toda a Literatura de Rachel é voltada para o Nordeste. Publicou seu primeiro romance aos 19 anos, em 1930. N’O Quinze, conta uma história de amor tendo por pano de fundo os dramas da seca. Rachel tinha menos de 5 anos quando ocorreu a seca de 1915. Este trabalho firmou a Literatura Regional na Literatura Brasileira. Um só de seus romances é ambientado fora do Ceará, mas, ainda assim, com características nossas. Seus grandes clássicos, “O Quinze”, “Dôra Doralina” e “Memorial de Maria Moura”, reproduzem retrato de épocas distintas no Nordeste, especialmente no Ceará.

Sua alma mater, expressão empregada pelos poetas latinos para designar pátria, foi o Ceará. O leitor que não conhecer sua biografia terá a impressão de que ela nunca saiu do Ceará, pois, estando em qualquer lugar, o Nordeste e o Ceará a acompanharam. Em seu último livro, “Falso Mar, Falso Mundo”, ela, estando em Berlim Ocidental, descobre “– quem diria? –” indaga ou indica ela, “a caatinga nordestina em réplica, como gêmeos univitelinos”. A crônica é datada de 25/12/1993. Rachel diz: “... tive até um choque. Me vi de repente no Ceará, tal como deve ele estar agora, a caatinga em plena seca”.

Rachel de Queiroz faleceu em 2003, 13 dias antes dos 93 anos. Partiu dormindo, em rede levada do Ceará, no seu apartamento do Leblon, Rio de Janeiro, edifício Rachel de Queiroz. Essa rede forrou o caixão que levou seu corpo vestido com o fardão de imortal da Academia Brasileira à última morada.
Para quebrar o tom narrativo desta coluna, nesta data querida, envio a Rachel que está “… naquela quintessência de excelências que só o céu pode dar”, meu abraço de parabéns e agradecimento por sua existência!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.