04 julho 2019

CARIRIENSIDADE


A depredação e destruição de monumentos públicos na conurbação Crajubar

     Na Região Metropolitana do Cariri muitos monumentos públicos já foram depredados e, alguns,  até destruídos. Ora, a depredação do patrimônio público é delito passível de detenção e multa. Para incorrer nesse crime basta "pichar monumentos públicos", notadamente aqueles com valor histórico, o que eleva a pena por se transformar em “crime ambiental”.

     Nunca devemos esquecer que “Patrimônio Público” é o conjunto de bens e direitos de valor econômico, artístico, estético, histórico ou turístico, e o fato destes bens pertencerem a um ente público – a União, um Estado, um Município, uma autarquia ou uma empresa pública – ou seja serem propriedades do povo.

Nessa destruição nem Barbalha escapou


     A imagem acima é do busto do presidente norte-americano John Kennedy que ornamentava um logradouro público em Barbalha. Kennedy foi assassinado em 1962 e o busto dele foi colocado numa praça de Barbalha cinco anos após sua morte. O monumento – feito de bronze – pela escultora brasileira Maria Rothier Duarte, foi doado pelo Lions Club de Barbalha à Prefeitura daquela cidade.

    O jornal “A Ação”, àquela época publicado semanalmente pela Diocese de Crato, no número de 25 de junho de 1967 noticiou: “A homenagem de Barbalha ao estadista falecido é das mais louváveis! É um reconhecimento aos benefícios recebidos pelo município, do governo norte-americano, através do Projeto Morris Asimow, responsável pela implantação, em Barbalha, das indústrias CECASA e IBACIP que geraram, anos seguidos, impostos, emprego e renda”.

Um registro do tempo em que Barbalha era tida como uma cidade aristocrática

      Em 1969, foi promulgada, pelo Prefeito de Barbalha, a lei abaixo, oriunda da Câmara Municipal daquela cidade:

“Lei n° 577
    Denomina Praça “Presidente John Fitzgerald KENNEDY”, a Praça pública localizada entre as ruas Divino Salvador, Major Sampaio e ao lado da Igreja do Rosário, nesta cidade, como abaixo se declara:

     A Câmara Municipal de Barbalha aprovou e eu Prefeito sanciono a seguinte Lei:

Art. 1° - Fica denominada “Praça Presidente John Fitzgerald KENNEDY”, a praça pública localizada entre as ruas Divino Salvador, Major Sampaio e ao lado da Igreja do Rosário, em final de construção, nesta cidade.

Art. 2° - Revogam-se as disposições em contrário, entrando esta Lei em vigor na data de sua publicidade.
Paço da Prefeitura Municipal de Barbalha (CE), 11 de agosto de 1969.
Antônio Costa Sampaio
Prefeito Municipal”

Nesta imagem, feita em 1956, membros da família Sampaio: Antônio Gondim, no primeiro plano, e Plínio Salgado (político e intelectual que marcou a história do Brasil, na década 30 do século passado). No segundo plano, da esquerda para direita, o Dr. Pio Sampaio e Antônio Costa Sampaio, este último ex-Prefeito de Barbalha

As voltas que o mundo dá: o cenário de Barbalha nos dias atuais

      Em Barbalha, antes de ter sido retirado do seu pedestal, o busto de bronze do Presidente Kennedy já era alvo da depredação dos vândalos que hoje assolam, como uma praga do Egito, a Terra dos Verdes Canaviais...Triste!

      Na última administração do prefeito José Leite (2013–2016, reeleito pelo PT), o busto de bronze do Presidente Kennedy (obra pública, propriedade do povo barbalhense) foi retirado da Praça com a mesma denominação, localizada ao lado da Igreja do Rosário. Esse busto só não desapareceu porque o Prof. Giuseppe Sampaio, diretor do Colégio Santo Antônio, quando o viu num caminhão, sendo levado para um depósito provavelmente da Prefeitura, pediu para abrigar a histórica obra de arte nas dependências do Colégio que dirige. Lá o busto está, na sala da diretoria a lembrar os tempos áureos da Terra de Santo Antônio.

      Já as indústrias CECASA e IBACIP tiveram suas atividades encerradas. Tem mais: no lugar do monumento de John Kennedy, o ex-prefeito José Leite mandou colocar outro busto. Este último, do ex-prefeito de Juazeiro do Norte, Mauro Sampaio, era um monumento de mau gosto moldado em cimento.

       Dias depois esse último busto foi destruído na calada da noite. Outro vandalismo! Consta que até hoje não foi consertado...  A Praça Presidente Kennedy (a designação oficial permanece, pois não foi revogada) está localizada em frente à Faculdade de Medicina de Barbalha (Campus da Universidade Federal do Cariri), e ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e da Escola de Ensino Fundamental Senador Martiniano de Alencar. Um local diariamente bastante visitado por centenas de pessoas.


História: O “olhar estrangeiro” sobre o Cariri no século 19

    Em 2014, os professores Ivan da Silva Queiroz e Maria Soares da Cunha, do Departamento de Geociências da Universidade Regional do Cariri–URCA, publicaram interessante artigo – na Revista de Geografia da UFPE, volume 31, nº 3 –  com o título “Condicionantes socioambientais e culturais da formação do Crajubar, aglomerado urbano-regional do Cariri cearense”. Desse interessante artigo reproduzimos abaixo algumas informações que vão interessar aos leitores desta coluna. A conferir

     “João da Silva Feijó, George Gardner e Francisco Freire Alemão representam o que nós podemos qualificar como sendo o olhar “estrangeiro” sobre o pedaço de sertão nordestino chamado de Cariri no século XIX. Os três estudiosos passaram pelo Cariri-Araripe e deixaram importantes registros sobre esse território. João da Silva Feijó (1760 -1824) escreveu suas memórias entre 1800 a 1814, publicadas respectivamente em 1889, 1912 e 1914 pela Revista do Instituto Histórico Geográfico e Antropológico do Ceará - RIHGAC ou Revista do Instituto do Ceará – RIC”.

Expedição de Feijó

Livro sobre a expedição de Feijó
 
“João da Silva Feijó chegou ao Brasil em 1799 para cumprir o ofício de naturalista e realizar investigações filosóficas na Capitania do Ceará. Cumprindo a patente de sargento-mór das Milícias, durante sua permanência no Ceará (1799-1816), Feijó descreveu, mapeou, fez coletas de objetos ligados a História Natural, campo que o ligava a outros naturalistas da Europa. No segundo semestre de 1800, Feijó se dirigiu ao sul da capitania do Ceará, com destino as antigas lavras de ouro da Mangabeira. Por causa da seca se deslocou para a então vila do Crato, permanecendo cinco dias em terras da Serra dos Cariris Novos”.

 A epopeia de George Gardner


Livro sobre as viagens de Gardner pelo Brasil Império

     “O segundo intelectual é George Gardner (1812 - 1849), que se instalou em Crato em setembro de 1838. O escocês chegou ao Brasil em 1836 e a partir de 1837 percorreu as províncias do “norte” do extenso território brasileiro. No sul do Ceará, o estudioso chegou jovem, com 26 anos de idade, residindo durante cinco meses na cidade de Crato. Nesse período se voltou para estudos geológicos e botânicos, principalmente. A maior parte de suas anotações e as notícias de suas descobertas foram feitas no ano de 1839. Os escritos originais de Gardner foram encerrados em 1846”. Publicou seu livro, “Viagem ao interior do Brasil”, onde reúne as informações sobre as viagens nas terras do Ceará. Constam neles muitas informações e impressões das numerosas excursões realizadas nas redondezas das vilas de Crato e Barra do Jardim” (Hoje cidade de Jardim).

A Comissão Cientifica de Exploração


    “Já Freire Alemão é um prestigiado cientista do Brasil Imperial, e um dos mais importantes estudiosos da botânica. O “Diário de viagem de Francisco Freire Alemão” (volumes 1 e 2) congrega comentários, narrativas e impressões desse intelectual na ocasião em que se deslocou e permaneceu três meses na cidade do Crato em uma importante expedição científica que escolheu o Ceará como ponto de partida. O documento foi redigido entre março de 1859 e concluído em julho de 1861” (...) 

“Francisco Freire Alemão (1797-1874), se instalou no Crato em 1859 para realização de estudos em seu papel de presidente da Comissão Científica de Exploração. A povoação de Crato, criada como freguesia em 1762, elevada à vila em 21 de junho de 1764 e transformada em cidade em 1853, constitui o ponto no qual Freire Alemão se instalou entre dezembro de 1859 e março de 1860. Nesse período de sua estadia conviveu com inúmeros sujeitos da história intelectual, econômica e política do Ceará e do Cariri”.

O Crajubar dos dias atuais

    “O aglomerado urbano que se formou no extremo sul do território cearense, hoje conhecido nacionalmente como Crajubar, começou a ganhar expressão regional na década de 1960. Este arranjo urbano-regional, conforme sugere o vocábulo que o identifica, é fruto de um histórico processo de integração territorial das vizinhas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Portanto, é a justaposição das sílabas iniciais das referidas cidades na mesma sequência acima indicada que define o aglomerado em questão” (...)  “Do “oásis” natural descrito pelos três viajantes que atravessaram o Cariri no século XIX, formou-se, atualmente, o que chamamos de “oásis urbano” em meio aos sertões centrais do Nordeste, derivado da concentração e diversificação de atividades e fluxos nos três polos regionais. Este, em grande parte, fruto da centralidade regional do Crajubar, conquistada anteriormente, mas, ampliada e consolidada a partir da emergência do fenômeno Padre Cícero Romão Batista”.

      (As notas acima foram retiradas do artigo “Condicionantes socioambientais e culturais da formação do Crajubar, aglomerado urbano-regional do Cariri cearense”, de autoria dos professores Ivan da Silva Queiroz e Maria Soares da Cunha).

 Crato no final do século XIX e inicio do século XX

Centenário de nascimento do Padre Antônio Batista Vieira



Excertos de texto publicado pela Academia Varzealegrense de Letras


   Antônio Batista Vieira – o Padre Vieira – filho de Vicente Viera da Costa e Senhorinha Batista de Freitas - nasceu no Sítio Lagoa dos Órfãos (atualmente Cristo Rei), ao sopé da Serra dos Cavalos, no município de Várzea Alegre, Ceará, no dia 14 de junho de 1919.

    Recebeu de Dona Senhorinha os seus estudos iniciais (Carta do ABC). Os estudos primários aconteceram em escolas particulares onde reinavam os castigos físicos, os ditados e a valorização da memorização. Realizou os Cursos de Admissão e Ginasial no Seminário do Crato. No Seminário Maior de Fortaleza, cursou Filosofia e Teologia. Ordenou-se sacerdote no município de Crato, em 27 de setembro de 1942. Cursou Administração de Empresas na Universidade da Califórnia, Estados Unidos. Fez o curso de Direto na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Cursou Licenciatura em Filosofia na Faculdade de Filosofia de São João Del Rei, Minas Gerais.

    Padre Vieira foi professor de Português, Latim, Italiano e Grego no Seminário do Crato. Foi Redator-Chefe do jornal “A Ação”, Crato. Colaborou com o jornal “O Povo” onde escrevia crônicas “Bom dia, meu irmão” com o pseudônimo Antônio Teixeira. Foi Diretor do Ginásio Nossa Senhora da Expectação, no município de Icó. Foi professor de Antropologia Crítica e Problemas Filosóficos na Universidade Santa Úrsula e professor de ética na Faculdade Jacobina no Rio de Janeiro. Foi deputado federal e, por denunciar os desmandos de então, foi cassado pelo AI-5.

     Padre Vieira sempre manteve, como centro de suas reflexões e preocupações, o ser humano, suas dores, sofrimentos, dúvidas e angústias que foram transformados nos seguintes livros: 100 Corte Sem Recortes (1963), O Jumento, Nosso Irmão (1964), O Verbo Amar e Suas Complicações (1965), Sertão Brabo (1968), Mensagem de Fé para quem não tem Fé (no Brasil, em 1981, e no Chile, em 1983), Penso, Logo Desisto (1982), Pai Nosso (1983), Bom-Dia, Irmão Leitor (1984), Por que Fui Cassado (1985), Gramática do Absurdo (1985), A Igreja, o Estado e a Questão Social (1986), A Família (Evolução histórica, sociológica e antropológica – 1987), Eu e os Outros (1987), Roteiro Místico e Lírico sobre Juazeiro do Norte”(1988), Eu sou a Mãe do Belo Amor (1988), Senhor Aumentai a Minha Fé” (1989), “Filosofia, Política e Problemas Jurídicos”(1989), Pensamentos do Padre Antônio Vieira (1990), Fatos Interessantes e Pitorescos (2001) e Crônicas Afiadas (2003).

    Em Antônio Batista Vieira coexistiam o padre, o advogado, o jornalista, o escritor, o político e o filósofo. Em todos esses sempre estiveram presentes, além de uma larga compreensão, um profundo apego à ética e à justiça.  Padre Vieira faleceu na madrugada de sábado do dia 19 de abril de 2003 no Hospital das Clínicas em Fortaleza.



Comentário de Armando Lopes Rafael:


Achei que as comemorações sobre o centenário deste valoroso homem foram tímidas, diante do legado que ele nos deixou. E esse quase olvido bem atesta a mediocridade do meio em que vivemos nos dias atuais.

Vivêssemos em outro país (ou mesmo no Brasil de décadas atrás) a cidade natal do Padre Vieira (Várzea Alegre) ou mesmo a cidade de Crato (onde ele viveu alguns anos e nos deixou um grande legado material e imaterial) teriam feito solenidades à altura, para lembrar a memória do Padre Antônio Batista Vieira. Este, um homem de larga visão e de grande coração, dotado de coragem para quebrar os paradigmas e manter-se fiel às suas origens.

Como todas as pessoas dotadas de inteligência superior, Padre Antônio Vieira nem sempre foi compreendido. Mas, em todo lugar por onde passou, deixou sua marca indelével:  simplicidade, afabilidade, cultura invulgar e criatividade para enfrentar os desafios que lhe eram apresentados. Em Crato ergue-se altaneira a igrejinha de São Francisco, no bairro Pinto Madeira, por ele construída num oceano de dificuldades.

A celebração de seu centenário de nascimento é profundamente inspiradora para todos nós, que vivemos num país dividido, rachado mesmo, prenhe de problemas como a corrupção dos políticos, a disseminação das drogas, a violência nas cidades e no campo, a lentidão e impunidade da justiça, a destruição da escala de valores morais e tantas outras mazelas que vemos e sofremos no cotidiano do esvair dos nossos dias. 

Em meio a esse cenário caótico, quanta falta nos faz a ação de um Antônio Batista Vieira...

A desinformação sobre o tema monarquia é generalizada – por Armando Lopes Rafael



     No início do ano, o Deputado Federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL–SP) deu uma entrevista ao jornal “Estadão” de onde pincei o texto abaixo:

     “O tema da monarquia não foi bem divulgado (...) As monarquias são alvo de desinformação programada e propagada pelas escolas e pela mídia. As séries que a televisão produziu sobre este tema serviram apenas para a população criar vilões e heróis”.

     Como diz um adágio nordestino: Pura verdade! Nenhuma forma de governo é perfeita, mas a Monarquia Parlamentarista é a melhor que existe no mundo. As nações monárquicas ainda existentes no mundo estão aí para atestar. São países onde não existe a corrupção desenfreada que vemos nas repúblicas; onde os padrões de vida dos seus habitantes são os melhores do mundo; onde há ordem, progresso, segurança e os serviços públicos funcionam.

         A Monarquia Parlamentarista também foi a melhor forma de governo e de sistema que o Brasil já teve, ao longo da sua existência. Nossa história está aí para comprovar.

        Poucos, pouquíssimos brasileiros (aí incluídos os que ensinam ou estudam nas universidades públicas) sabe que existe um tipo de governante preparado desde a infância para administrar uma nação. Ele não fica refém de conchavos políticos para chegar ao poder. Consequentemente não tem medo de fazer as reformas estruturais quando necessário, porque não está compromissado com o clientelismo de deputados, senadores, megaempresários ou interesses da mídia que se arvora de “formar a opinião pública”. Esse homem não precisa se preocupar com a reeleição. Tampouco participa de nenhum partido político...

        Mas, quem é esse homem isento e bem preparado? Trata-se de um rei. No caso do Brasil: um imperador.

         Olhando para o tempo em que nosso país foi administrado por uma monarquia, mais precisamente durante o longo reinado do Imperador Dom Pedro II, constatamos que, de um modo geral, o Brasil avançou progressivamente no campo do desenvolvimento econômico, industrial e científico, embora sob a obscuridade da ainda existente escravatura. Aliás, a abolição da escravatura deve-se à Princesa Isabel durante uma das suas regências quando substituiu seu pai, Dom Pedro II.

         Conforme a Wikipédia: “Além da prosperidade e modernização que Dom Pedro II deixou ao Brasil, também houve um legado de valores políticos e pessoais. Muitas de suas reformas e realizações tornaram-se tão arraigadas na consciência nacional que acabaram sendo acomodadas e adotadas pelos regimes republicanos que se sucederam. Estas formaram a fundação dos ideais democráticos brasileiros. Historiadores amplamente concordam que o reinado de Dom Pedro II foi excepcionalmente construtivo e progressista, não apenas benigno. Ele também tem sido consistentemente considerado por acadêmicos como o maior brasileiro da história.

Monumento de bronze a Dom Pedro II na cidade de Petrópolis (RJ)