03 julho 2019

Não há manchas no céu - Por: Emerson Monteiro



Os dois andavam às tontas de saber o quanto de risco habitava naquele cômodo escuro do sótão de uma casa abandonada. E tiveram medo, conquanto apenas viam lá fora a guerra e seus movimentos devassos de marchas, de dor, tanques, explosões, crianças e mães aflitas a correr na rua cinza defronte. Enquanto isso, eram apenas dois perdidos naquela noite da alma e aflições. Liam a natureza através dos vidros esfumaçados, cobertos da poeira do tempo. Era monotonia de cascalhos e feras soltas. 


Aguentar as dores daquele mundo tornou obrigação de sobrevivência; trocavam opiniões entre si sobre viver, amor, alimentos, sede, durante o tempo dos ruídos nefastos lá de fora. Mas resistiram o tanto suficiente de presenciar, nalgumas mudanças que as horas trazem, algo de possibilidade que definiu primeiras sombras de que logo ali ao lado novas chances de libertação mostrariam o jeito de pessoas diferentes da batalha virem em multidão às bandas de cá do leito da rua. Umas mulheres de trajes longos, cabelos escorridos, quais damas misteriosas do destino, olhos ofuscados na claridade com que se deparavam ao presenciar a paz. 

Aquelas aparições vieram chegando silenciosamente; foram abrindo as portas de baixo dos cômodos da casa envelhecida; reanimaram eles dois e indicaram claridade do caminho do que, pouco antes, parecia final dos tempos em definitivo. O que só parecia desespero, impossibilidade, reverteu o rosto e revelou otimismo, alegria. 

Assim, nas transições das nuvens que passam no firmamento, durante vezes, o universo parece fechado para sempre; em seguida, bonança sem par envolve as fibras do coração e os viventes nutrem de paz a consciência, um alento dos deuses que prevalece diante dos panoramas ocultos. Espécie de renascer estonteante, capaz de converter piores incrédulos, bárbaros e facínoras, porquanto há estrelas no céu que iluminam trevas e plenifica de amor os corações.