13 junho 2019

Caririensidade


Cariri perde Mons. Ágio Augusto Moreira

 
     Ele viveu 101 anos, 4 meses e 7 dias. No último dia 12, Mons. Ágio tranquilamente – como sempre viveu – faleceu em Crato, cidade onde viveu desde que foi ordenado sacerdote há 75 anos. Nascido em Assaré, a 05 de fevereiro de 1918, Mons. Ágio era reconhecido como um sacerdote humilde, virtuoso e fiel em tudo que fazia. 

    Ele fez da música seu instrumento de evangelização. Seu corpo foi sepultado na Capela Nossa Senhora das Graças, no bairro Belmonte, uma igreja por ele construída.

     Mons. Ágio foi fundador da Sociedade Lírica do Belmonte–Solibel, da   Escola de Educação Artística Heitor Villas Lobo e da Orquestra Sinfônica Padre Davi Moreira, todas instaladas no Belmonte, em Crato. Escreveu mais de 20 livros.  Aos 100 anos, lançou o livro “Padre Cícero Romão Batista: O maior líder espiritual do Nordeste Brasileiro”, sua última obra. Foi professor de canto gregoriano, italiano, grego e francês no Seminário São José em Crato e ministrou outras disciplinas no Seminário São José, Colégio Estadual Wilson Gonçalves e Faculdade de Filosofia do Crato.

       A Vila da Música, primeiro equipamento estatal de cultura no interior, construído por iniciativa do governador Camilo Santana e inaugurado em março de 2017, representa a concretização e continuidade do trabalho iniciado pelo Mons. Ágio com a Solibel, 45 anos atrás.

Caririenses constroem pequenas chácaras na Chapada do Araripe

 Chácaras na Chapada do Araripe

    Virou modismo, mas pouca gente, residente na Região Metropolitana do Cariri, tem conhecimento do que vou relatar. A rodovia asfaltada que liga a cidade de Crato ao distrito de Santa Fé (a CE 561, com início logo após o Campus do IFCE-Crato – antigo Colégio Agrícola – e que se estende por quase 13 Kms) proporcionou o surgimento de centenas de chácaras, localizadas em plena Chapada do Araripe. Naquele trecho, no lugar dos antigos sítios, surgiram vários loteamentos. E, em meio à luxuriante floresta da chapada com o seu clima ameno, foram erguidas casas no meio dos terrenos. Os mais abastados constroem edificações mais vistosas. Mas, a maior parte delas são casas pequenas, propriedades de pessoas da classe média.  Grande é o número de juazeirenses (a maioria) e de cratenses, que agora desfrutam, nos fins-de-semana, do clima e vegetação da Chapada do Araripe.

     No sentido para Santa Fé, à esquerda da rodovia CE 561, logo após a entrada após o Campus do IFCE, e nas proximidades dos sítios Santo Antônio/Pulo de Gavião, surgiu uma pequena vila. Nela, nos fins de semana, já tem restaurantes e barzinhos funcionando. Também existe uma capelinha católica. Aliás, o mais bem-sucedido plantio de flores ornamentais do Cariri fica naquela região. Trata-se do Condomínio Sítio Santo Antônio, propriedade de uma empresa funerária de Juazeiro do Norte. Lá o cultivo de flores abastece velórios e enterros no Crajubar (conurbação Crato–Juazeiro– Barbalha). 
 Chácaras em plena Chapada do Araripe

Um caririense de valor: Prof. Álvaro Madeira

   Conheci-o já velhinho. Residia na Rua Nelson Alencar, onde era tratado com carinho e respeito pela esposa, filhos e netos. Era chamado de Doutor Álvaro pela população. Graduado em Farmácia no Rio de Janeiro, foi professor por vocação e opção – durante décadas – no Ginásio de Crato (depois denominado Colégio Diocesano), Colégio Santa Teresa de Jesus e Escola Técnica de Comércio. Álvaro Rodrigues Madeira nasceu no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1892 e faleceu em Crato, aos 77 anos de idade, em 21 de novembro de 1969. 

     Seu pai era o médico Marcos Madeira, responsável pelo exame na cavidade bucal da Beata Maria de Araújo, durante a primeira comissão nomeada pelo bispo Dom Joaquim para apurar o chamado “Milagre da Hóstia” ocorrido em Juazeiro do Norte.

      O Professor Álvaro Madeira era muito respeitado na comunidade cratense mercê sua postura de católico praticante e cidadão de bem, além de sua reconhecida bondade e simplicidade. Viveu sempre modestamente e nesse ambiente criou os seis filhos – frutos do seu casamento com a senhorita Lígia Carvalho Madeira: Maria Lígia, Maria Lúcia, Vicente de Paulo, Madre Elvira (pertencente à Congregação das Filhas de Santa Teresa, in memoriam), Almerinda e Francisco Alberto. Com exceção deste último – que é médico – os demais seguiram o pai no exercício do magistério. O Crato soube ser grato à memória do Professor Álvaro Rodrigues Madeira. No bairro São Miguel, uma rua – que começa na Pracinha do Detran e termina na Avenida Dom Francisco – tem o nome dele. Também existe uma escola de ensino infantil e fundamental denominada de Professor Álvaro Rodrigues Madeira, localizada no loteamento Franca Alencar, bairro Misericórdia, mantida pela Prefeitura Municipal de Crato.

Como foi o fim da antiga rivalidade entre Crato–Juazeiro do Norte?

 Prof. Otonite Cortez, ex-reitora da URCA

    A criação da Região Metropolitana do Cariri, a nova mentalidade dos jovens do Crajubar, os efeitos da globalização, dentre outros, sepultaram um fato existente até à década 80 do século passado: a rivalidade entre os habitantes de Juazeiro do Norte e Crato. Na sua monografia de Mestrado – “A construção da “cidade da cultura”: Crato (1889-1960) –, a ex-Reitora da URCA, Profa. Otonite Cortez abordou – de forma inteligente – a antiga rivalidade existente entre as cidades de Crato e Juazeiro do Norte. 

      Escreveu Otonite: “Chamava-nos igualmente atenção, a rivalidade com a cidade vizinha – Juazeiro do Norte – que transparecia nas falas cotidianas acerca dessa cidade” (...) “Essa rivalidade apresentou-se-nos, com maior nitidez, no processo de criação da Universidade Regional do Cariri–URCA, mormente na questão da definição da sua sede (reitoria). Naquele momento, percebíamos que os elementos, com os quais os representantes das duas cidades lutavam, eram de natureza absolutamente diferentes: os representantes do Crato, liderados pela Professora Sarah Cabral, José Newton Alves de Sousa, e outros, ancoravam a luta na demonstração da tradição de superioridade do Crato no campo educacional. Juazeiro demonstrava a sua força econômica e eleitoral. Apoiados no prestígio de Antônio Martins Filho – “o cratense fundador de universidades” – a URCA foi fundada, estabelecendo-se sua sede no Crato. Vencia a tradição”.

O tempo que as elites tinham força

 Crato na década 40 do século passado

     E continua Otonite: “Todavia, algumas questões permaneciam sem respostas convincentes. Quando tudo isso começou? Em que repousava a rivalidade com o Juazeiro? Por que o Crato, outrora considerada capital do Cariri, apesar de ter perdido a supremacia econômica e política na região, gozava de tanto prestígio quando se referia à cultura letrada e à civilidade? Onde residia a força de luta daquelas pessoas que tentavam manter esse prestígio do Crato? Que mecanismos eram usados, efetivamente, para isto?”

      Otonite foi encontrar a resposta no comportamento e atitudes das autodenominadas “boas famílias de Crato”. Estas se consideravam a “elite” da cidade. E, com etnocentrismo (nota do colunista: “etnocentrismo: visão de mundo própria da pessoa que considera a sua sociedade, sua nação, seu país ou grupo étnico superiores aos demais) olhavam com desdém o Juazeiro, que fora simples distrito de Crato, mas começava a trilhar novos caminhos, apesar da origem humilde e da simplicidade da maioria das novas famílias que para lá se transportaram. Escreveu Otonite: “Começamos a perceber que havia um discurso das elites cratenses no sentido de demonstrar o progresso e o pioneirismo da (sua) cidade. Percebíamos ainda que algumas palavras compareciam com muita frequência nos textos escritos sobre ao Crato e os cratenses: “adiantado”, “civilizado”, “culto”, “pioneiro”, “ordeiro”, “patriótico”, “herói/heroína”, “piedoso”, “liberal”, “espírito cívico”, etc.”.

A mudança inexorável dos novos tempos

 Crato na década 50 do século XX

      E conclui Otonite: “Todavia, algumas questões permaneciam sem respostas convincentes. Quando tudo isso começou? Em que repousava a rivalidade com o Juazeiro? Por que o Crato, outrora considerada capital do Cariri, apesar de ter perdido a supremacia econômica e política na região, gozava de tanto prestígio quando se referia à cultura letrada e à civilidade? Onde residia a força de luta daquelas pessoas que tentavam manter esse prestígio do Crato? Que mecanismos eram usados, efetivamente, para isto? (...) Aos poucos, fomos percebendo que a construção da “cidade da cultura” era o resultado das estratégias daquele grupo, cuja identidade residia nas partilhas sociais e culturais dos seus membros, no fato de frequentarem os mesmos espaços de sociabilidade, e, sobretudo, nos mesmos desideratos em relação à cidade”.