02 abril 2019

Há luzes na imensidão - Por: Emerson Monteiro


Pouco. Quase nada. Nada que seja. Isso que justifique a escuridão enquanto nós aqui sustentamos no barco a trilha das ondas monumentais. Esses heróis de si mesmos, vadios almocreves de perdidas ilusões, largados nesse mar sem dimensão, infinito cósmico, filhos das desconhecidas órbitas escondidas nas matas. E essa necessidade constante de achar a qualquer custo as pedras mais preciosas entre ostras abandonadas no fim de encher de cor as conchas do deserto da alma. Nós, argonautas do mistério.

Vez em quando, damos de cara nos rochedos, mas cheios de sonhos e tontos de paixão. Aprendizes da perfeição, tocamos praias do escuro continente, firmamos os pés nas areias e saltamos, outra vez, aos braços secos dos desejos, borboletas encandeadas na purpurina das estrelas.

Sabemos, talvez, o quanto dorme dentro do peito a certeza dos dias, sua claridade, seus cânticos maviosos de beleza e furor, a brisa que lava de paz o coração dos infiéis... Conhecemos de manchete a fome da visão, contudo fortes em querer espinhos quais alimento, e dói no sentimento o tanto que balbuciamos de prazer, esquecidos de buscar em nós próprios, de bem perto, só de estirar a mão, e saber que a Luz vive no íntimo das variações e nas horas que somem de tudo e deixam sempre fiapos grudados entre os dentes e o céu da boca. Amor, o amor, a matéria prima da felicidade, irmã maior da esperança e consciência absoluta de todo momento.

Isto, sim, o Criador na forma de suavidade que impera no Tempo, força descomunal, poder sem limites, razão das existências... Enquanto a gente prende os braços na ribanceira e fica assistindo restos de cenas fora do objetivo da missão de viver. Sei que preciso acordar sempre, os animais durmam o sono dos justos. Acalmar o firmamento pelas dobras destes segredos que fazem da gente espécimes de novas realizações, desde que aceitemos sonhar com as luzes de real intensidade.

(Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).