11 março 2019

Jornalista Huberto Cabral agraciado com o Doutor Honoris Causa da URCA


O reconhecimento a uma das personalidades históricas do Crato e do Cariri ocorreu na última sexta-feira, 8, com a entrega do Título de Doutor Honoris Causa ao jornalista e cerimonialista, Huberto Cabral, considerado uma ‘enciclopédia viva’ da história regional. Aprovado por unanimidade pelo Conselho Superior da Universidade Regional do Cariri (URCA), a outorga ocorreu em solenidade presidida pelo Reitor da Instituição, José Patrício Pereira Melo.

Durante a cerimônia, Huberto Cabral também recebeu a Comenda Bárbara de Alencar, a maior do Município do Crato, entregue pelo prefeito do Município, José Airton Brasil, além dos diplomas da Câmara Municipal do Crato, Mérito Legislativo e Jornalista João Brígido dos Santos, e a Comenda Irineu Pinheiro, do Instituto Cultural do Cariri – ICC. A solenidade contou com a presença de autoridades como o vice-reitor da URCA, Francisco do Ó Lima Júnior, Bispo Diocesano, dom Gilberto Pastana, além do prefeito de Juazeiro do Norte, Arnon Bezerra, familiares, amigos e intelectuais da região, jornalistas e convidados.

O título foi sugerido pelo artista, cantor e escritor Luiz Carlos Salatiel, com reunião do Consuni presidida pelo vice-reitor da URCA. A apresentação do outorgado foi realizada pelo proponente, professor da URCA e historiador, Carlos Rafael.

A abertura e condução da solenidade foi realizada pelo jornalista Antônio Vicelmo, colega de rádio de Cabral, que destacou um pouco da trajetória do comunicador, além historiador e cronista. “O seu trabalho constituiu o resgate das efemérides históricas, políticas e educacionais do Crato e do Cariri”, afirmou.

Huberto Cabral foi lembrado em suas funções, quando esteve à frente da assessoria de comunicação da URCA, prefeitura do Crato e Diocese, entre outras atividades desenvolvidas em grande parte de forma voluntária, sem remuneração, em prol do fortalecimento e divulgação das instituições e do Cariri.




Saudações ao outorgado - As saudações ao agraciado foram realizadas pelo médico e escritor, José Flávio Vieira, integrante do Instituto Cultural do Cariri. Ele destacou a importância da preservação da história pela universidade, ao citar o relevante trabalho desenvolvido por Huberto Cabral, concedendo o título de doutor a uma das mentes mais privilegiadas nascidas ao sopé da Chapada do Araripe.

Ele pontuou que Cabral foi figura presente nos grandes acontecimentos do Crato, nos últimos 60 anos. “A URCA hoje não reverencia apenas o mais importante repórter de nossa história, o mais importante memorialista, uma testemunha viva da história dos últimos 60 anos, mas oficializou-se um grau de doutor, que já lhe tinha sido outorgado pelos intelectuais e pela população mais humilde deste vale”, disse ele.

O escritor José Flávio utilizou-se do humor refinado em seu discurso, ao destacar, no auge dos 82 anos de vida do homenageado, que o Geopark Araripe acabou de descobrir o fóssil raro de pterossauro, o Humbertossauro Cabralis, destacando a relevância do novo doutor da universidade.

O proponente do título, professor Carlos Rafael, estimulado pela solicitação do artista Luiz Carlos Salatiel, destacou na trajetória profissional, importantes momentos da história do Cariri vivenciados por Huberto Cabral, incluindo a sua relevância para a comunicação do Crato e da região do Cariri, presente na instalação dos meios de comunicação da região, incluindo a primeira rádio dos Diários Associados inaugurada no interior do Estado, a Rádio Araripe do Crato, com a presença do magnata da comunicação brasileira, o paraibano Assis Chateaubriand, dono de um dos maiores conglomerados de veículos de comunicação da história do Brasil.


Ela ainda salientou que o título, ao lado de outras honraras recebidas por Cabral, refletem o brilhantismo de sua história, devotado à causa pública e ao progresso cultural e intelectual de nossa região.

O Reitor Patrício Melo, ao conceder o título de Doutor Honoris Causa em Ciências Humanas a Huberto Cabral, relatou a aprovação por unanimidade em 21 de novembro de 2018, em reconhecimento aos seus importantes serviços prestados à comunidade caririense, ao Estado do Ceará e à URCA, nas áreas da história, comunicação e cidadania.

Surpresa e emoção - Ao destacar a surpresa de saber do título e a emoção de estar na solenidade de entrega da honraria, o outorgado agradeceu a proposição do Departamento de História. “Ao tomar conhecimento da honraria, fiquei pensando a razão e a causa desta honra”, disse ele.



O novo doutor da universidade destacou que em toda a sua vida, nunca tinha visto uma formatura tão rápida. “Entrei nesse salão de atos com muita pompa, portando apenas o meu diploma de formado na faculdade de ciências ocultas e letras apagadas da universidade da vida, e vou sair como Doutor Honoris Causa, sem vestibular. Figurando, ainda, na galeria de honra das mais importantes personalidades já agraciadas com a honrosa comenda, considerando assim a maior desta universidade”, afirmou.


Fonte: Assessoria de Imprensa da URCA.

SAUDAÇÃO FEITA PELO ESCRITOR JOSÉ FLÁVIO VIEIRA A HUBERTO CABRAL POR OCASIÃO DA ENTREGA DO TÍTULO DE “DOUTOR HONORIS CAUSA” PELA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI- URCA, DIA 08 DE MARÇO DE 2019.

Parece que tudo passa para que recomece
desde o princípio, como se fosse novo, ou se observe
sem levar em conta algo que já existiu
e tampouco aquilo que virá, infindável.
Uma grande destruição, como se tudo se apagasse atrás de nós
a história, as lembranças, os valores existentes
e as imagens que nos governavam.
Alguém nos confidencia: rápido o passado se afasta de nós,
você vê como ele se transmuda, depois põe-se além do horizonte
e talvez nem mais exista, renuncia a tudo que é inútil,
se ainda recordações você preserva.
Mas, se a história passa
(ela própria é narrativa sobre a transitoriedade), algo permanece:
de cada conceito antigo uma ou outra raiz
e os rituais do culto de outrora límpidos em nós,
o diálogo entre nós e os filosofemas anteriores é possível.
No meio da charada contemporânea emerge o algarismo original.
.............................................................................................
Seremos capazes de devolver ao espírito cada centelha,
se agora testemunharmos que “tudo vive”:
o passado dentro do futuro, a sabedoria na loucura,
o conhecimento nas trevas,
e que tudo aquilo que na vida é rubro, vermelho escuro,
branco raiado de paixão, jamais se acinzente.
Miodrag Pávlovitch (1928-2014)
Tradução: Aleksandar Jovanovié


 Eis-nos todos, neste dia festivo, tepidamente abrigados pelos umbrais da Universidade Regional do Cariri, no doce mister de ungir, com o dignificante Título de Doutor, uma das mentes mais privilegiadas nascidas ao sopé da Chapada do Araripe. A honraria parece emergir em mão dupla, quando percebemos, com clareza, que a Academia, desde o seu nascedouro, pôs-se a imantar todo o sul cearense de ciência e sabedoria, mas, principalmente, trouxe consigo a possibilidade única e redentora de ampliar os horizontes humanos, dando instrumentos a pobres e desafortunados, apontando o único Shangrilá possível para o Brasil: A Educação. Um país ainda embebido nas distorções do Colonialismo e que, estranhamente, volta a sonhar com pesadelos que se tinham por superados:  a Escravidão, a perseguição de movimentos libertários e sociais, a chacina de minorias, a censura, a justiça com exoftalmia, o ar rarefeito e plúmbeo. A Universidade, antídoto de tantos desses males, o reverso desta moeda, sofre o garrotilho vil e previsível. Professores são achincalhados, patrulhados, submetidos a salários aviltantes, impelidos a dar ordens unidas ao invés de aulas.  O Conhecimento será sempre revolucionário, a Academia faz-se   o inimigo natural dos déspotas. E aqui estará ela sempre a apontar, alheia aos sátrapas, aos tiranos e aprendizes de verdugos que a Educação é, sim, o verdadeiro Golden Shower de que a Nação necessita.

    Tocou-me o coração, nestes dias, o poema do sérvio Miodrag Pavlovicht, quando a URCA, sem relutância e talvez temerariamente, me pôs nas mãos a difícil missão de saudar o nosso agraciado, nesta solenidade. Pus-me a refletir sobre a postura derradeira de alguns personagens da história. O que teria levado o Soldado de Pompéia a manter seu posto, inflexivelmente, mesmo percebendo a chegada inevitável da lava do Vesúvio?  Que força teria levado tranquilidade ao último índio Cariri, quando enxotado das suas terras para o litoral, e percebeu a chamada de Tupã e o fim inevitável da sua raça? Talvez ambos tenham sentido que era preciso que tudo terminasse para que logo depois tivesse seu recomeço. Ali testemunhavam a vitalidade a cercá-los e a extinção como simples continuação do mesmo ciclo, uma mera mudança vital de estação.  O pêndulo da história transita entre memória e esquecimento. Vezes os pinos de luz incidem em detalhes de um cenário, vezes em outro, ao bel prazer dos iluminadores de plantão, mas a história tem seus próprios ciclos periódicos, seus movimentos de rotação-translação. Há, no entanto, visionários, pessoas que entendem a importância inequívoca destes ciclos e fazem-se testemunhas e repórteres desta gangorra vital. Têm como profissão de fé o manter acesa esta centelha, cientes de que tudo vive, mas que é preciso, cuidadosamente -- como um lírio que se asperge toda manhã -- como disse nosso Miodrag: não deixar que se acinzente tudo que é rubro, vermelho escuro, branco raiado de paixão.

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa
Se é para nós que cessa. Aquele arbusto
Fenece, e vai com ele
Parte da minha vida.
Em tudo quanto olhei fiquei em parte.
Com tudo quanto vi, se passa, passo,
Nem distingue a memória
Do que vi do que fui.

Ricardo Reis, in "Odes" 

Hoje, a Academia, em festa, abre portas e janelas para reverenciar uma destas figuras icônicas, um verdadeiro totem da Memória caririense. Huberto Cabral dedicou a maior parte dos seus pródigos oitenta e dois anos a acompanhar, registrar e catalogar as histórias oficial e privada do sul cearense. Poderia, simplesmente, ter aceitado, candidamente, o cair das folhas do outono da existência. Refestelar-se-ia na cadeira de balanço, envergando o pijama de bolinha como farda, ao chegar àquela idade tão bem definida por Mário Quintana:

“Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas”

Tomou para si, no entanto, os anseios de um outro poeta visionário, o irlandês William Buttler Yeats, no “Velejando para Bizâncio”:

“’Um velho é apenas coisa irrelevante.
Trapos sobre um bastão ele é na essência,
A menos que a alma aplauda e alegre e cante
Acima dos farrapos da existência”.

Simplesmente, Cabral buscou o galho mais alto da árvore da vida e pôs-se a entoar seu canto, enquanto o palácio ia ruindo à sua volta.   E fê-lo como uma epifania, sem esperar qualquer reconhecimento ou vantagem quer política, quer financeira. Prestou constante assessoria à maior parte das instituições públicas e privadas da cidade do Crato, nos últimos sessenta anos. Negou-se, peremptoriamente, a receber cargos e comissões. Manteve-se presidente vitalício do seu próprio partido político: PCG - Partido do Crato Grande. Cônscio da história gloriosa da Vila de Frei Carlos, continua lutando diuturnamente para que o nosso passado heroico tenha a força de iluminar e colorir o presente meio dégradé e opaco.

A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinquenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…
– Mas o menino ainda existe.

Manoel Bandeira

Cabral foi figura onipresente em todos grandes acontecimentos do Crato, nos últimos sessenta anos. Fez-se cerimonialista eterno dos nossos maiores eventos: Todas as Exposições Agropecuárias; a inauguração da Amplificadora Cratense; a fundação da Maternidade Dr. Teles e das Rádios Educadora e Araripe; a abertura do Jornal “A Ação”; a instalação do Aeroporto Nossa Senhora de Fátima e do Cine Educadora; a chegada da imagem peregrina de Nossa Senhora da Penha; a alternância dos bispos diocesanos, o advento do Museu Vicente Leite. Fez-se ainda um combatente no front da guerra pela implantação da Universidade Regional do Cariri, junto com as irmãs Sara e Irene. Nos incontáveis episódios de sabotagem política contra o município, esteve eternamente vigilante e pronto a pôr os tanques de guerra em campo pela defesa dos nossos pleitos. Como jornalista, tornou-se o repórter mais importante da história do Cariri e também o mais longevo, acompanhando o desenvolvimento do Futebol cratense, dos nossos carnavais mais tradicionais, das nossas festividades mais populares. Entrevistou os ex-presidentes Castello Branco, Juscelino Kubitschek, Geisel e Sarney; o Papa João Paulo II; a escritora Rachel de Queiroz; inúmeros artistas como Sérvulo Esmeraldo, Bruno Pedrosa, Orlando Silva, Gilberto Alves, Nélson Gonçalves, Gilberto Milfont, Vanderley Cardoso, Luiz Gonzaga; além de incontáveis ministros e praticamente todos os governadores cearenses nas últimas seis décadas.   Deu assessoria e consultoria  por mais de um quartel de século, de forma sempre voluntária, inclusive negando-se, terminantemente, a receber quaisquer tipos  de subsídios,  a nossas mais importantes instituições: Instituto Cultural do Cariri, Sociedade de Cultura Artística do Crato, Diocese do Crato, Câmara Legislativa, Clube de Diretores Lojistas, Crato Tênis Clube, Clubes de Serviços , Associação Comercial de Crato, Tiro de Guerra, Colégios Pequeno Príncipe e Diocesano , CEJA/Crato, CREDE 18, Rádio Educadora, Jornal “A Ação”, Rádio Araripe.

    Huberto, dizem os amigos, tem o HD do Crato, meticulosamente registra uma agenda infindável das nossas datas comemorativas. Se o Brasil foi descoberto por Pedro Álvares, o Crato também tem o seu descobridor, coincidentemente também um outro Cabral. Se devemos a Irineu Nogueira Pinheiro o registro de nossas Efemérides até 1954, o ano da sua partida para o voo celestial, a partir daí as Efemérides Cratenses estão escritas na memória prodigiosa do nosso mais importante jornalista que sequer deu-se ao trabalho de firmá-las em livro. 

No galpão guardamos as enxadas enferrujadas.
E lá elas esperam a morte, como os velhos nos asilos.

Esta foice não está mais afiada. Este ancinho
já não sabe limpar o cisco do pomar.

Mas não nos desfazemos de nada — é a nossa lei.
No depósito escuro onde repousam escorpiões
está até a chave que não abre nenhuma porta.

Ledo Ivo

     As outorgas de títulos de Doutor Honoris Causa carregam consigo o risco potencial de polêmicas próprio das Academias, onde as opiniões estão sempre em efervescência e a colisão entre elas, no fundo, consubstancia a própria essência viva da Universidade. Este clima, no entanto, não contagia este momento único, o nosso homenageado, criador de quase todas as medalhas honoríficas do município, faz-se, renitentemente, avesso a quaisquer honrarias que a ele sejam dirigidas. Ante quaisquer iniciativas no sentido de laureá-lo, Cabral fecha-se como Tatu-Bola, fica inacessível como pequi verde. Acredito, no entanto, que o dia de hoje carrega consigo o gosto do fruto de há muito desejado; paira nos cratenses uma sensação de Déjá-Vu, como se todos nós, professores, alunos, amigos, estivéssemos presenciando o momento histórico de uma crônica de há muito anunciada. A revelação de uma profecia que pressentíamos prestes a eclodir, como a pupa saltando do seu casulo. A Memória são os líquidos fios com que se tecem as frágeis paredes da fortaleza da história de um povo. O guardião deste templo, como uma criança na praia, constrói os castelos que em pouco serão lambidos pelas ondas do Tempo.

O palácio está em ruínas.../Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo...
Ninguém ergue o olhar da estrada/ E sente saudades de si ante aquele
              lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase
              mais bela cortada...
[...]
Há tão pouca gente que ame as paisagens
              que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo
    mundo amanhã — como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja
             nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio,
             auréola negra...

Fernando Pessoa (Mensagem)

Este é o afã frustrante e desapontador do memorialista: escrever com o giz no quadro negro, enquanto a mão do tempo usa o apagador à medida que as palavras se vão sucedendo.  Vale a pena o esforço aparentemente inútil e desigual?  Ah! mas sobre a superfície do quadro ficarão rabiscos, como uma Pedra da Roseta, escritas rupestres que serão depois desvendadas pelas futuras gerações. Algumas poucas testemunhas, ainda, terão gravadas nos olhos as palavras esparsas da lousa, antes do trabalho esmaecedor das horas. Jorge Luiz Borges definiu bem esta luta inglória, no seu poema “Fragmentos de um Evangelho Apócrifo”:

“Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fosse pedra a areia...”

A Universidade Regional do Cariri, assim, hoje, não reverencia apenas o maior repórter da sua história, nosso mais importante memorialista, uma testemunha viva do Cariri nos últimos sessenta anos. Oficializa-se um grau de Doutor que já lhe tinha sido, por mérito, outorgado pelos intelectuais e pela população mais humilde deste Vale. Temos a sensação clara que o nosso Geopark Araripe acaba de descobrir um fóssil raro de um pterossauro (o Hubertossaurus cabralis) e, o mais incrível e surpreendente: ele está vivo e lépido, livre das suas pétreas amarras, pronto a alçar voo e contar a novas gerações e a outros povos a saga milenar da sua trajetória.

Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.
Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala.

Ferreira Gullar

 A casa é a mesma, parece até a   tapera da Rua das Flores que te acolheu nos primeiros bulícios, muitos anos atrás. O menino não mudou muito, é o pirralho malino de outrora, o guri de Dona Pia e seu Zé Leite, com algumas cicatrizes e alguns espólios de guerra. Talvez, por isso mesmo, nem carece de gritar “Ô de Casa! ”  As portas e janelas defenestrem-se, sem estranheza, para receber neste momento o filho pródigo, “depois de um longo e tenebroso inverno”.  
“No meio da charada contemporânea emerge o algarismo original! ”

Bem-vindo à sua casa, 
Dr. Francisco Huberto Esmeraldo Cabral!

Crato, 08/03/2019

J. Flávio Vieira