27 fevereiro 2019

A floresta das palavras - Por: Emerson Monteiro


Eram muitas, eram tantas, num emaranhado de sons disformes, que ninguém sabia quantas. Quais seres soltos neste universo de pensamentos, falas e sentimentos, os humanos vagavam pelo mar desses acordes, isto nas próprias vivências, entre objetos e outros seres reluzentes que nem sempre possuíam o dom igual de usar usá-las, todas palavras conhecidas antes presas nos dentes. Espécimes bizarros, deslizando de uma a outra experiência, e por vezes adquiriam verniz de sabedoria, ou talvez até a sabedoria que fosse, pois nessas horas mortas silenciavam de tudo e sumiam assustados de volta às cavernas escuras do antigo isolamento, feitos ausências em novo desaparecimento.

Eles, os tais seres humanos, viviam assim calados aqui do perto da gente e a gente nem de longe desconfiava que existissem, quiçá dentro de nós, fantasmas de sombras imaginárias que flutuavam e passavam apressadas sob o manto de toscos acontecimentos, de nunca fazerem parte de um todo que assim o pensassem. Criavam as cenas e as interpretavam enquanto escorriam embaixo de livros abandonados em lojas empoeiradas; visitavam a si mesmos nas noites mornas e depois faziam de conta que jamais se conhecessem; participavam dos dramas satíricos e eram as fantasias de épocas esquisitas, gritando frases de efeito pelas ruas desertas.

Seres em agonia, pudessem ser, lançados nas garras do tempo devorador que os desfazia em cascas apodrecidas das árvores e adubavam o solo da imaginação dessas criaturas girantes, mecanismos de folhas e galhos, no laboratório da Criação. Parceiros da arquitetura divina, choravam e riam, falavam e sentiam, fiéis dançarinos das estrelas e atores de um circo de variedades, senhores nem do pensamento em busca do mistério tenebroso de que participavam inconscientemente; bonecos da sorte nas mãos do Destino.

Nessa dança circular de notícias fabricadas no vento, eles nutrem ainda de medo as aventuras dos dias e preenchem as horas de ilusão, em pleno acordo com o prazo rápido de viver neste universo. Vez em quando um virá só a memória e larga os fardos pesados de palavras de volta nas fogueiras acesas, a herança das novas gerações, pedaços de paixão e restos de inocência radiante; desejos e ansiedades feitos noutros animais o antigo solo das almas mortas que renascerão na forma de outras luzes, novos corações em festa.

Palavras, palavras, afinal, que dominam desde aqueles primeiros viventes e engolirão, na certa, os derradeiros, todos submissos à trilha dos passos no andamento do silêncio que logo mais consumirá, no final feliz, as longas estradas do firmamento.