22 fevereiro 2019

As Naus do Infinito - Por: Emerson Monteiro



Desde quando os primeiros foguetes rumaram a Marte que vazio profundo permaneceria no peito dos que aqui ficaram; de olhos fitos nos céus de depois daquele dia, névoa cinza cobriria as cabeça. Os pioneiros deixariam de lado a suposição de que estávamos sós no Universo; haveria possibilidades de encontrar outras humanidades noutros planetas distantes; e seguiram o sonho. Que direito houvesse na imaginação do povo, reveria as atitudes dos quantos que consumiam as riquezas deste mundo; persistiria, sobremodo entre os jovens, um gosto fantástico de que outros e mais outros foguetes também subissem, e nisso trabalhavam muito, no intenso calor do Sol, e à noite permaneciam até as altas horas de pensamento fixo nas luzes que riscavam o espaço a meio das raras nuvens, pois bem dali que eles voltariam numa doce madrugada, argonautas, desbravadores que partiram cheios da certeza de trazer notícias boas de haver, nalgum lugar, mundos de mil e uma noites em que coubesse de todos continuarem a rica aventura dos humanos.

Horas, luas, meses, longos e frios temporais de novos invernos, sempre de almas levadas nas marcas deixadas naquela partida luminosa, de quando eles sumiram; vidas voltadas a retornar e oferecer saídas, de mãos beijadas e sabor aos corações da Humanidade.

E seguiram inúmeras as novas gerações; passadas se foram as originais, que guardaram a tradição dos homens errantes mandados ao firmamento, a salvação que nutriam os próximos passos da história. Voltados, no entanto, aos afazeres mundanos, muitos esqueceriam os astros lá nos céus, desistiriam do ânimo de que, num fria madrugada, desceriam de olhos vivos e alegres naquela primeira leva a distribuir nacos de esperança e festa; eles, os viajantes que avançaram na intenção de revelar aos que ficassem o mistério das alturas.

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Qual dizíamos há pouco, séculos, milênios se desfizeram no furor do tempo, e apenas raras lembranças restaram, nalgumas comunidades afastadas, de que, a certo momento, alguns deles mergulharam no desconhecido à busca da sorte. Assim, dos poucos resquícios, surgiria uma religião que denominaram As Naus do Infinito, e que reza de olhos focados nas luzes que brilham nas noites, enquanto aguardam, silenciosos, as notícias que venham deles, nascidas na imensidão longínqua.